Um Toque Feminino
2 Capítulo 2 - Quatro, três, dois, um...
Capítulo Dois
Quatro, Três, Dois, Um...
Uma amizade pode ser iniciada de diversas formas, mas a nossa começou por causa dos nossos nomes, eram exatamente iguais, nascidos e registrados em Brasília, aí começavam as diferenças, meus pais eram goianos e os dele piauienses. Na ansiedade do vestibular, amanhecemos na UnB naquela segunda feira de janeiro de 1979. Quando saiu a lista com os aprovados, nosso nome estava lá, duplo, coladinho um ao outro, Carlos Alberto e Carlos Alberto. Não faltou veterano para aprontar para cima da gente. Rasparam o lado direito da minha cabeça e o lado esquerdo da dele, o resto foi folia pura, até os outros calouros se divertiam com a gente. Um era o fulano Careca e o outro era o fulano Cabeludo, rapidamente viramos a dupla Cacá. Uns quinze dias depois, reencontramo-nos na porta do Batalhão de Guarda Presidencial, era dia de apresentação dos alistados para o serviço militar. A primeira coisa que aprendemos no glorioso verde oliva era que “reco” não podia raspar a cabeça. Lá fomos nós unidos para os trotes novamente. Muitos cascudos no lado careca. Nos termos de hoje, levamos muitos “pedala Robinho”. O dia era dedicado a exames médicos e outros testes incluindo uma entrevista e prova escrita. Apresentamos nosso certificado de matrícula na universidade, forte argumento para ser dispensado, e a primeira pergunta foi se aquilo era uma cópia xérox, lá fomos nós para o “pedala Robinho” novamente. Na hora do “bandejão”, queriam que comêssemos na mesma bandeja, aí apareceu um sargento mal humorado, e acabou com a brincadeira. Às dezessete horas, estávamos selecionados e incluídos na lista dos dispensados, reservista de terceira categoria, e como tal, merecíamos as homenagens daqueles que tinham a possibilidade de receber um certificado de primeira categoria, então, “pedala Robinho”. E lá fomos nós para casa, felizes por não ter que repetir o bandejão.
Na UnB, nos adaptamos ao “bandex” rapidinho. Quando adquirimos status de veterano, ganhamos novos nomes, eu era o Goiano e ele era o Piauí, mas nunca nos livramos das gozações. E como caminhávamos sempre juntos, ouvíamos sempre as mesmas coisas, fossem dirigidas a um ou ao outro.
– Você sabe o que há de comum entre um pardal e um goiano?
Respondíamos juntos: não comem cú de otário. Havia pequenas variações usando o gentílico de cada um. Uns continuavam na esportiva e completavam a igualdade: “morrem de fome na cidade, mas não vão para a roça”. Outros “apelavam”.
– Ô goiano, você sabia que a bandeira do Piauí é feita de couro de bode?
– Era! Até o dia que passou por lá um morto de fome muito parecido com você.
Havia outras, mais pesadas, principalmente por causa de andarmos sempre juntos, aí a gente usava como resposta a mãe, a irmã, a madrinha, o pai, enfim qualquer pessoa próxima ao interpelador. Nem todos levavam a resposta na esportiva e volta e meia tinha um de nós com o olho inchado ou coisa pior. Um dia topamos com um desses sem esportiva, bem no meio do corredor. Vinha acompanhado por uma morena linda, muita areia pra caçambinha dele. Paramos bem na frente deles, bloqueando a passagem. A gatinha contando com nosso cavalheirismo, ficou imóvel esperando que desocupássemos o “beco”. O “pastel”, sabendo que não íamos sair resolveu abrir a boca.
– Olha Claudinha, estes são os dois que disseram que iam fazer isto e aquilo com você.
– Ah, foi!?
– Foi.
– Se manda, ô Candinha. Já fez seu mexerico, agora deixa a gente se desculpar com sua irmã.
Passamos o resto do dia explicando, ou melhor, demonstrando para a Claudinha o que havíamos dito ao irmão dela que íamos fazer. Quanto mais a gente demonstrava mais ela queria. Entregamos os pontos. Comecei a vestir a calça. Ela abriu a bolsa, acendeu um “baseado” e “fumaçou” a moita toda, daí passou para nós, com cara de desafio. Passamos mais um ano explicando e nos embebedando com aquela fumaça. Ela se formou, dispensou nossas explicações, foi embora e nós encontramos outras alunas e outros fornecedores. O irmão dela continuou nosso inimigo. Envolvemo-nos com o movimento estudantil, levamos uns “cascudos”, mas nunca esquecemos nossos ideais, revezamento de corpos com as meninas e muita fumaça.
Quando iniciou nosso último semestre, ainda curtíamos a dor de corno causada pelo Paolo Rossi nos campos da Espanha, mas estávamos firme em nosso objetivo de terminar a faculdade empregados. Viramos “caretas” ratos de biblioteca. O problema era uma cláusula de exame médico no edital do concurso. Portanto, nada de fumaça. Trocamos as gatinhas fumantes por outras que não nos fizessem cair em tentação. Uma era da turma do Direito, que nos foi de muita serventia no entendimento do linguajar jurídico, a outra fazia administração, como nós, mais aprendeu que ajudou, mas também foi uma grande companheira.
Quando o ano novo chegou, já nos encontrou formados, empregados e separados durante o expediente, mas à noite lá estávamos nós, atrás dos nossos ideais. Agora tínhamos dinheiro mais folgado no bolso, mas o campo de ação estava mais restrito. Muitos botecos e poucas gatas disponíveis.
Na quinta-feira, que antecede o carnaval, ele me ligou lá pelo meio da tarde.
– Conseguiu o carro?
– Uma beleza, cara, você vai gostar.
– Então na hora que você estiver liberado, passa aqui pelo Setor de Autarquias que estou a pé. Meu fusca bateu biela.
Saí da Esplanada dos Ministérios, desviei pelo setor de Autarquias e retornei ao Eixo Monumental, contornei a rodoviária e subi em direção ao Palácio do Buriti. Deixei o carro rodar o mais silencioso possível e fui mostrando o monte de relógios e conta giros, inimaginável em um fusca. Enquanto isso ele fazia planos para os dias de folga. Entre enforcamentos e facultativos, tínhamos dez dias para coçar o saco. Parei na praça da cruz, bem lá no alto do morro, desci do carro e dei uma olhada na paisagem, num giro de trezentos e sessenta graus.
– É bonito, cara, mas a sensação é de abandono.
– Maior sertão!
– Eaê Brother? Vamos queimar chão?
– É! O jeito é virar ave de arribação também. A cidade já está vazia!
– Vamos voar até o Rio ou Salvador?
Olhou pro meu carro com uma cara de crítico e depois disse.
– Nesta lacraia? Com mais dez “mangos” você pegava um opalão!
– Você está por fora, Brother, esta lacraia é um Passat TS/80 só quando está sozinha. Quando me sento atrás do volante ele se transforma num F15. Apresente seu plano de voo e deixe o resto comigo.
Deu uma longa gargalhada e ainda rindo respondeu.
– Está certo kamikase, vou fazer o plano, mas me ajuda aqui, quantos dias você calcula, não precisa ser exato, só assim por alto, que vamos gastar para chegar a Pirenópolis?
Como eu demorei a responder ele acrescentou.
– Num opala a gente ia gastar uns quarenta minutos...
– Ah! Vá se ferrar meu! Está me achando com cara de escorpião para viver no meio de pedras?
– Pois a “velharada” da minha seção está indo toda para lá e pelo que dizem as mulheres também! E é bem ali, se não prestar a gente volta, se isto aí andar, é claro!
– Entra aí e você vai ver como ele voa!
– Então solta o freio de mão que ainda temos que arranjar lugar para dormir e não vai ser fácil!
Foi “cozinhando” meu juízo até a hora em que tive que travar as quatro rodas para não atropelar uma vaca.
– Caramba meu, esta foi por pouco!
Como minha garganta estava entupida com meu coração, não respondi nada. Lá pelas dezenove horas entramos na cidade e o susto já tinha sido esquecido. Meia hora depois já tínhamos desistido de procurar onde dormir. Sentamos em um bar e pedimos uma cerveja. Alguns minutos depois entrou um sujeito grandalhão, moreno de cabelos bem lisos e longos, puxando uma gata em cada mão. Uma clara de cabelos curtos e uma morena, como ele, e uns cabelos que iam até à bunda. Pediu uma cerveja, num português bem correto, mas com forte sotaque castelhano. Sentou em uma mesa colada à nossa e não tirava os olhos da porta, o que eu achei estranho, pois o boteco era uma grande varanda com muretas em volta, vigiar a porta não ia resolver nada. As meninas estavam mudas.
– Dos Andes, companheiro?
– Sim – respondeu sem tirar os olhos da porta.
– Do Peru?
– Sim – desta vez me olhou.
– Seu português é muito bom, dá pra pedir uma cerveja e responder sim, ou é porque está com a garganta seca?
Fui falando e enfiando o copo cheio na mão dele. Abriu um sorriso e secou o copo. Passei o do Piauí para as meninas e completei.
– Está muito cheio e o garçom é uma lesma.
– Desculpe, é que tive um desentendimento...
Não terminou a frase, a porta que ele vigiava estava ocupada por um sujeito com a cara toda ensanguentada e por mais dois que vinham logo atrás. Voltei a olhar para o peruano e vi o terror estampado na cara da menina de cabelos curtos que olhava para mim. Por puro instinto, me joguei para trás e ouvi o porrete assoviar passando a um dedo do meu nariz e bater sobre a mesa. Dois outros haviam chegado pela mureta, às minhas costas e já “caíram” matando. Engalfinhei-me com o do porrete e o Piauí enfiou a garrafa de cerveja na cabeça do outro que caiu fora do boteco mesmo e agora o que sobrara da garrafa estava colado na garganta do sujeito que tentara me acertar. Estava tão imóvel que até para soltar o porrete foi difícil. Em menos de dez segundos, o Piauí tinha acabado com a briga. Os três da porta pararam a meio caminho, com os olhos vidrados no caco de garrafa.
– Acho melhor vocês darem o fora daqui – sugeri com calma – já de porrete na mão.
Ninguém se moveu, comecei a acreditar que não nasci para dar ordens, a polícia chegou e arranjamos onde passar a noite.
– Aê Doutor, “quebra esta!” o cara passou a mão na bunda da namorada dele, e estes dois caíram de pau em cima de nós, o que podíamos fazer?
Trancaram nós três em uma cela, os outros três em outra, os dois sangrando foram pro posto médico e as meninas ficaram na antessala. O delegado sumiu, cansou de ficarmos “cozinhando” o juízo dele. A noite passou e não conseguimos arrancar nenhuma palavra do peruano. Às cinco da manhã o delegado voltou.
– Tem um ônibus para Goiânia às seis e um para Brasília às seis e trinta, qualquer um que eu encontrar por aqui depois deste horário, só vai sair daqui na quinta feira.
Nem olhamos para a cara dele. Saímos da delegacia e o peruano continuava mudo, e eu de saco cheio segui o exemplo. A do cabelo curto foi quem quebrou o silêncio.
– Para onde vocês vão?
– Brasília – respondeu o Piauí.
– Então vamos no mesmo “buzu...”
– Estamos de carro.
– “Descola” uma carona?
– Se você não tiver medo e nem pressa. O meia-roda do meu motorista aí, só anda a dez por hora e de vez em quando pega um racha com uma vaca e perde.
– Nem medo e nem pressa. Agradeço, por tudo, Piauí.
– E os dois aí?
– Acho que só vão conversar longe de nós. Vou dar um tempinho para eles, depois entro para pegar minha mochila. Vocês podem me esperar uns minutos?
– Só até as seis e trinta. – disse o Piaui.
Riram e eu fiquei mais “puto” ainda. Como é que podiam rir depois de uma noite daquelas e o filho de uma égua do peruano nem olhava para nós. Pararam em frente a uma pensão e eu continuei subindo o morro para buscar o carro. Voltei uns dez minutos depois e eles continuavam rindo e nada da tal mochila. Reclinei o banco e tirei um cochilo. Acordei com os três se aproximando e a morena chorando. Olhei pro relógio, seis e dez. Dormi quase uma hora. O Piauí enfiou as mochilas no porta-malas e as duas no banco de trás, sentou-se ao meu lado e eu esperei por mais uma gracinha.
– Você está bem, Brother?
– Estou.
– Não está parecendo. Quer ir ao posto médico ou dormir um sono, tem a cama delas ali...
– Estou pronto para voar.
Arranquei e ele começou a rir. A morena continuava soluçando.
– Cadê o peruano? É por ele, que ela chora? – perguntei.
– Não. É por causa dele. Deu o golpe nela, foi pra Goiânia e ela vai ter que voltar para São Tomé das Letras lá nas Minas Gerais.
– Cruzes! Isto existe?
– “Manja” a terra do Pelé? Bem do ladinho!
– Mas por quê?
– Intercâmbio. Tem que voltar pro Peru com imagens dos pontos de interesse turístico ou místico do Brasil, e São Tomé das Letras é um dos principais, só que o cara embolsou os filmes e se mandou.
– Caramba! Isso é uma sacanagem das boas.
– Sacanagem é eu estar doido por um café e você não sair desta primeirona aí, vai ferver tudo. Quando eu chegar a Brasília, a semana santa já era. Olha a bicicleta te ultrapassando!
Tanto fez, que a morena esqueceu os soluços e começou a rir. No primeiro boteco que encontramos, paramos e pedimos um café com tudo que fosse possível. Na hora de pagar a conta, a morena tirou um monte de cédulas de dólares da bolsa e pôs sobre a mesa.
– Ih Maria! Isto aqui no Goiás não vale nada! Pode guardar que o nosso motorista paga a conta.
– Me leva a São Tomé? – disse olhando dentro dos meus olhos.
– Levo. Porém, o preço não é este e a moeda é outra.
Devolvi as cédulas à bolsa dela e ela continuou olhando nos meus olhos.
– E qual é? – perguntou na maior calma.
– Os homens pagam as contas e as mulheres trabalham.
– E se minha amiga não quiser trabalhar?
– Você trabalha em dobro, só fazemos acordo com quem ama o trabalho.
– Ela pode ir e escolher?
– Ei mano! – interferiu o Piaui. – Vamos deixar isso para lá, não é legal. Não é decente. A menina está no sufoco. O que o peruano fez já foi uma boa dose. Você conseguiu inventar algo bem mais amargo! Esta não é a nossa praia! É o reverso da hora! – meu brother parecia transtornado.
– Desculpe Maria. Ele está com a razão.
Levantei e dei uns tapinhas, de leve, nas costas do Piauí.
– Desculpe “mano”, acho que a “erva” do delegado estava “batizada”.
Fui pagar a conta e só quem se mexeu foi a do cabelo curto. Segurou no meu braço e me acompanhou até o caixa. Quando recebi o troco, os dois tinham ido para o carro e a do cabelo curto me puxou de volta à mesa. Tinha os olhos castanhos e a pele de um moreno claro, bem branco, se ficasse sem tomar sol, ia parecer mais um manjar que um pudim. As feições eram delicadas, mas sem exuberância, um corpo esbelto com curvas sem exageros. O conjunto era agradável.
– Como é seu nome?
– Karine.
– Olha, Karine, esqueça isso. Foi uma enorme “mancada”.
– Vocês costumam dormir na mesma cama?
Macia, suave e contundente. Lembrei-me das respostas que dávamos na faculdade, “quando sua mãe está lá, ficamos acordados”, procurei ser educado. Já tinha pisado na bola.
– Dividimos um quarto durante quatro anos de faculdade, e quando uma garota queria companhia a gente botava os colchões no chão. Teve uma vez que dormimos em cinco.
– E agora?
– Aluguei uma kit na 103 sul, ele voltou para a casa dos pais em Taguatinga e comprou um fusca para ir ao serviço.
– Eu queria saber...
– Resposta errada, não é? Ele é meu amigo, meu irmão e tudo que você possa imaginar, mas não somos amantes. Só dormimos juntos quando tem uma “gata” entre nós. Se for preciso, partilhamos a escova de dentes.
– O acordo está de pé?
– Não tem acordo, nunca e nem por mulher alguma, eu vou contrariar meu irmão. Eu conduzi aquilo muito mal e ele disse não. Sua amiga devia ter negociado com ele.
– Pois eu estou aceitando o acordo e vou querer que vocês façam a parte de vocês.
– Esqueça o acordo, este está morto. Se você estiver a fim de passear, sugiro que vá ao carro e faça uma proposta ao Piauí, eu aceito os termos que ele fechar com vocês.
Voltou alguns minutos depois, e sorrindo disse.
– Estamos indo para São Tomé, quer uma carona?
– Preciso de um mapa e umas cuecas.
– Não vamos achar isto por aqui.
Passamos por Brasília o tempo suficiente para encher uma mochila e ao anoitecer entramos em Franca-SP. Revezamos ao volante e quando os buracos da estrada deixavam, eu dormia no colo da Karine e ele no da Maria, mas em momento algum perguntei pelo acordo ou ele deixou a Maria perto de mim. Ouvi as histórias da vida e os sonhos da Karine, mas não sabia nada sobre a morena. Resolvemos dormir em Franca. Um hotel, dois quartos e um silêncio anormal. Eu e ele à direita e elas à esquerda, as portas bem em frente uma à outra. Saí do chuveiro e quebrei o silêncio.
– Estou faminto, será que tem comida nesta cidade ou vamos ter que comer sapatos?
– O recepcionista disse que tem um restaurante de primeira, na próxima esquina à direita.
Pegou a toalha e entrou no chuveiro.
– Te espero lá embaixo – fui saindo.
As meninas desceram e nada dele aparecer. Estiquei a conversa por vários assuntos e nada.
– Maria, acho bom você ir buscar meu irmão.
Levantou-se de imediato e afastou-se.
– Ela é um mulherão, não é?
– Com certeza, mas você tem mais charme, mais classe e simpatia. O que houve com o peruano?
– Apaixonou-se e estava forçando a barra. Ela paquerou aquele “cara” e ele partiu para cima.
– Ah! Então está explicado! Eu meti os pés pelas mãos de novo.
– É, foi uma furada você falar na bunda dela com o delegado. O cara ficou “puto”. Ciúmes é uma merda.
– Pô, mas eu falei por falar, nem aconteceu, era só para o delegado...
– Você poderia ter falado a respeito da minha bunda ou dos meus seios, mas não falou...
– Mas, qual é...
– Fica implícito que o destaque, o que você estava olhando, era a bunda dela.
– Cacilda! E porque ele tinha que roubá-la?
– Era um trabalho em parceria; como ela não quis juntar os corpos...
– Ah! Sem esta, vocês estavam dormindo no mesmo quarto, não estavam?
– Significa que temos que nos casar?
– Eu não disse isso...
– Era o que ele queria. Usou a viagem para tentar convencê-la. Ela se aborreceu e ele não desistiu. Ela transou comigo na noite anterior e ele não desistiu. Jogou-se para cima do primeiro que apareceu e ele “porrou” o cara. Você falou na bunda dela, virou inimigo. Se você não tivesse ido dormir, o pau ia quebrar outra vez. Ela disse um “monte” para ele, enquanto você dormia, ele juntou tudo que ela não pudesse identificar como sendo dela e se mandou. Aquelas cédulas que ela pôs sobre a mesa foi o que ela conseguiu reaver correndo atrás dele até a rodoviária. Se seu irmão não tivesse ajudado ele teria tomado de volta.
– O que o Piauí fez?
– Nada. Ela enfiou o dinheiro no bolso dele. Ele deu um imenso sorriso e disse: “Obrigado, eu estava precisando de uns trocados”, apropriou-se da grana e o peruano foi embora rangindo os dentes. Acho que ele se lembrou da velocidade daquela garrafa, ou talvez que vocês tenham salvado a vida dele.
– Ah, por falar nisso! Você salvou a minha. Muito obrigado.
– Tudo que me lembro é que fiquei apavorada. Aí vêm eles, vamos?
Foi e voltou do restaurante dependurada no meu braço. Entrou no quarto atrás de mim e quando o Piauí entrou, ela estava me beijando. Escovou os dentes e ela estava sem a blusa. Guardou a escova e eu estava sem a camisa. Pegou o rumo da porta e ela correu para ele. Atirou-se no pescoço dele e murmurou um, “por favor, não saia”. Ele abriu um sorriso, beijou-a na boca e disse.
– Vou caminhar um pouco, aquela comida não desceu bem.
Ela ficou olhando a porta que se fechara atrás dele e depois voltou para mim.
– Ae neném, se pintou um clima, vista sua blusa e corra atrás dele.
– Não era um beijo de convite, era um do tipo “fui”. Ele está estranho!
– Na certa aquela garrafa está queimando a mão dele ainda.
– Será que é isso?
– Claro! Você se lembra quando ele disse no café, que aquela não era nossa praia? Pois é. Já nos metemos em um milhão de confusão, mas nunca à mão armada. Aquele sujeito se salvou por nada e isto deve estar mexendo com ele.
– Pode ser, mas será que ele só se tocou depois que fez o discurso?
– E por que não? Vamos esquecer isto, que tal você me mostrar o resto da sua beleza?
Cochilamos com os corpos suados. Ela se desgrudou de mim e eu acordei. Levantou a cabeça olhou para a cama ao lado. Deu um pulo e foi direto para o chuveiro. A cama estava vazia. Entrei embaixo do chuveiro e comecei a ensaboar as costas dela.
– Outra hora, querido, outra hora! Agora não.
– O que é agora? Porque a pressa? Seu pai...
– Seu irmão, porra! Você não viu que a cama dele está vazia!
– Ele é maior de idade, deve estar na cama com a Maria.
– Que irmão, hein! Você não sente que a Maria está sozinha?
– Só se eu fosse adivinho.
– Deixa para lá, eu cuido disso.
Tirei o suor do corpo, o mais rápido possível, mas quando peguei a toalha ela já estava saindo do quarto. Voltou em um segundo, abanando a cabeça. Saí pelo corredor atrás dela, ainda vestindo a camisa. Encontramo-lo “escornado” no sofá da recepção, dormindo sentado. Fiz uma cara de, “viu, não te disse?”, e ela fez uma cara de mais preocupada ainda. Espremeu-se no sofá com ele e puxou-o para o ombro dela. Fez uns afagos no rosto dele e depois de uns cochichos levou-o para nosso quarto. Enquanto eu imaginava o que estava acontecendo, a Maria invadiu o corredor, fechou a porta do nosso quarto e me puxou para o dela.
– Que merda é que está acontecendo aqui, Maria?
– Como vou saber? Estou confusa até com minha própria vida. Tem três dias que estou dormindo com dois em cima de mim, passo uma noite acordada num sofá e agora acordo sozinha. Seu irmão está em boas mãos. Venha, amanhã eles explicam.
– Você acha que eles estão apaixonados?
– É o que parece, mas não vamos nos meter, vamos?
– Puta merda! Cacilda! Caralho! O que eu fiz? Mais uma merda, desta vez eu bati o record. Mas eu ia adivinhar? Ia? Ele não disse nada! Que porra! Mas eu tinha que saber, eles riam o tempo todo. Enquanto você brigava com o peruano e eu dormia, eles se apaixonavam. Ah! Meu Deus! Eu tinha que tirar a blusa dela? Tinha!? Que porra!
– Quer parar com isso!? Você acha que eu estou entendendo alguma coisa?
– Ele está amando, eu não devia ter tirado a roupa dela...
– Não é o que vocês fazem sempre? Partilhar? Ou só serve para os biscates?
– Pode parar! Sem essa de biscate. As mulheres são fantásticas. Mas ele nunca reagiu assim. Você entende? A paixão deixa as pessoas egoístas. Preciso falar com ele.
– Pode ser que sim, mas ele não está precisando falar com você. Precisa é dela, portanto, cama já, é o melhor remédio para você.
Empurrou-me para a cama e foi apagar a luz. Voltou na penumbra, ajudou-me tirar a roupa e não voltou à cama dela. Desta vez eu acordei primeiro, sentia uma sensação estranha, parecia boa, doce, mas depois foi me deixando angustiado. Eu não gostava daquilo, eu era um “cara” lógico, dos números, do pau é pau e pedra é pedra, aquela coisa do, “você não sente que a Maria está sozinha?”, não fazia meu estilo. Agora eu estava vendo que a Maria não estava sozinha, dormia ali, ao meu lado e parecia feliz. Mas eu não sentia nada vindo do outro quarto, não fazia a menor ideia do que estava rolando por lá. Mas sentia aquela coisa desagradável me ocupando por dentro, me sufocando. Beijei os olhos dela e eles se abriram.
– Bom dia, madame! Quer contratar um esfregador de costas?
– Só se for profissional, estou cansada de amadores!
– O melhor do mundo, venha vou fazer uma demonstração, grátis!
Riu e levantou-se, mostrando a magnitude de suas formas. Brincamos por uns quinze minutos embaixo do chuveiro e depois outros tantos para secar aquela cortina negra, era uma trabalheira. Enfim conseguimos descer para o café. Só então tive noção do quanto minha ansiedade me fizera levantar cedo. As mesas ainda estavam sendo arrumadas. “Descolamos” um cafezinho e eu comecei a me sentir curioso a respeito dela. Pai, mãe, idade, data de aniversário, onde nasceu...
– Perto de Matchu Pitchu...
– Em Matchu Pitchu?
– Não, nas proximidades do sítio arqueológico, uns cinquenta quilômetros de lá. A economia da região sobrevive em função do turismo, então batalhei uma bolsa para estudar turismo, estou terminando o curso, aí apareceu esta história de que haveria uma ligação mística entre São Tomé e Matchu Pitchu, resolvi visitar e ver o que havia de real.
– A sua tese é sobre a realidade do místico?
– Mais ou menos, se eu conseguir identificar indícios do mito, já é uma boa coisa.
– Como boa? Pelo que sei, mito é conversa fiada sobre qualquer coisa. Os exageros que o povo conta para dar interesse a qualquer insignificância.
– É por aí, mas tem umas coisas que a gente não consegue explicar...
– Por exemplo?
– Certas cargas enérgicas que tem no ar, em ambientes diversos, nos ajuntamentos de pessoas, aparentemente formado de maneira casual, nas...
– Isto é balela.
– Talvez sim, talvez não.
– Eu nunca vi nada disso.
– É mesmo? Pois eu diria que um dos fenômenos mais marcantes desta minha viagem está relacionado a você.
– Hum! Foi tão bom assim?
– Foi fantástico, evitou que sua cabeça fosse partida. Se aquilo tivesse acontecido em São Tomé eu teria minha deixa...
– Foi um banho legal, podemos repetir quando chegarmos a São Tomé.
– Pode brincar, mas como você explicaria aquilo?
– Bem, quando eu acordei e vi aquele lençol negro te cobrindo eu senti, bem aqui dentro do meu coração, que eu precisava fazer algo por você, tipo, lavar, secar, escovar...
– Ficar vivo e me manter viva! Eu sei, mas de onde veio a partícula que deu início à sua reação? O que foi que te despertou? Qual foi a antena, em você, que captou a mensagem?
Achei que era hora de parar de brincar e encarei-a com seriedade. Aquele sentimento doce que me acordara, ainda estava amargando dentro de mim. Talvez fosse a partícula que ela buscava, mas nunca fui de alimentar as “nóias” de ninguém.
– Olha aqui, neném! Isto não existe, o que temos são reflexos condicionados que em determinadas situações, afloram. No caso, eu vi reações de medo nas feições de alguém e agi instintivamente. Entendeu? Instinto de sobrevivência.
– Entendi. E nas feições que você viu, estava escrito para que lado teria que ser feito o movimento?
– O lado certo foi mera coincidência, acaso feliz.
– Certo, acho que entendi. Aí vem nossos amigos e o café já está pronto, vamos lá?
Levantamos e fomos encontrá-los próximo à porta.
– Ora, ora, Deus ajuda quem cedo madruga, não é que tomaram o café todo e nem se lembraram de nós!
– Calma aí, irmãozinho! Só cumprimos nosso dever de verificar se não estava envenenado. Agora puxe a fila, pois estamos famintos. E deixe de ser “analfa”, o ditado não é bem esse.
– Ah! Você sempre madruga e Deus sempre te ajuda, não custa resumir, você é mesmo o homem de mais valia neste mundo. E você, Rapunzel dos Andes? Fugindo de mim? Passou graxa de sapato nos cabelos só para ofuscar meus olhos, ou para que minhas mãos escorregassem e eu nunca chegasse a você?
– Não, meu querido! Não tenho motivos para fugir de você, só dei o passo certo, afastei a sujeira, para que nada empanasse o brilho do teu olhar. Agora que está tão perto, me dê um abraço e nunca se esqueça que te amo.
– É Karine! Acho bom você puxar a fila...
– Que ditado é esse, que nunca ouvi falar?
– Faz parte dos “causos” que meu pai contava.
Começamos a nos servir e enquanto eles alongavam o abraço, fui contando a história.
“Um certo fazendeiro distribuía as tarefas e exigia que as enxadas madrugassem. Porém, havia um trabalhador que não se submetia à regra. Como Deus havia lhe dado braços fortes, argumentava com o patrão que mais valia quem tinha a ajuda de Deus que quem chegasse cedo ao pé do eito. A força dos braços fazia com que ele terminasse a tarefa junto com os demais, o que garantia seu argumento e o emprego. Era um “causo” passado de boca em boca e cada narrador criava sua variante, mas tinha uma que meu pai sempre repetia. Era a de que um daqueles madrugadores havia encontrado uma moeda de ouro e o patrão usou o argumento dizendo ao rebelde. “Você poderia ser o felizardo!” Ao que o rebelde respondeu. “Se eu tivesse levantado mais cedo que ele, eu é que teria perdido a moeda.” Continuou reafirmando que mais vale a quem Deus ajuda que quem cedo madruga.
– Então você é um madrugador ajudado por Deus?
– Levanto na hora que acordo e não tenho motivos para reclamar da vida. Venho alimentando este carrapato aí, há muito tempo, mas gosto dele. Se Deus me ajudar vou carregá-lo por mais cem anos.
Enquanto os três riam, o amargo sumiu de dentro de mim. Meu irmão, aparentemente, estava de volta. Era muito bom vê-lo sorrindo outra vez.
Eu já parara de comer quando a Karine juntou os talheres sinalizando que para ela era o bastante, e a Maria perguntou como se não tivesse a menor importância.
– Alguém já te agradeceu por ter salvado uma alma da escuridão, Karine?
Os olhos dela correram na direção dos meus e depois voltou aos da Maria, que estavam fixos em mim.
– Já.
– E qual é a sensação?
– Não sei, nem sei por que ele agradeceu.
– E você, Piauí? Nós testemunhamos que você salvou mais de uma vida. Como se sentiu?
– Como a Karine, não sei. Foi tudo muito rápido, puro instinto, mas quando o tempo parou de correr tive muito medo de ter que cortar aquela garganta. Acredito que a vida que salvei foi só a minha.
– Pode ter certeza que mais gente ia morrer. – sentenciou Maria.
– Talvez não passasse de uma escaramuça...
– Foi o que foi porque você impediu que isto fosse usado.
Tirou a bagunça de notas de dentro da bolsa, que ficou de boca escancarada, mostrando no fundo, o brilho de uma arma.
– Isto estava com o Juan, e assim como você cortaria aquela garganta, ele usaria esta coisa. Eu vi muito pouco ou quase nada do que vocês fizeram, pois estava fixada naquele rosto cheio de sangue e paralisada pelo medo que emanava do Juan. No entanto, junto com o medo chegavam também ondas da resoluta convicção de usar isto.
– Você sabia que ele andava armado?
Não respondeu a pergunta do Piauí, mas transferiu para Karine.
– Você sabia, Karine?
– Claro que não!
– Nem eu, mas na hora que aqueles três entraram, eu sabia que tinha algo estranho, o medo que ecoava em mim, não era o medo da insegurança, era o medo de alguém que sabia que ia fazer e conseguir o resultado. Você entende Piauí?
– Claro que entendo. Eu também estava com medo, ia matá-lo, mas parecia que ia morrer junto, sem que ninguém me tocasse. Mas como foi que ele escondeu isto aí do delegado?
– O que vocês chamam de instinto, mandou que eu escondesse isto. Enfiei no cós da calça, os cabelos esconderiam qualquer volume, e como vocês viram uma delegacia de homens não se preocupa muito em revistar mulheres.
– Mas se você não tinha conhecimento da existência da arma...
– Quando o perigo passou a ser a polícia, a arma veio parar na minha mão direita e sem saber o porquê, fiz o que tinha que ser feito. Parte da ira dele foi porque eu não quis devolver isso.
– Vamos sair, isto aqui está ficando populoso – sugeri.
Voltamos aos quartos e enquanto as mochilas iam se recompondo, toquei no assunto que me preocupava.
– Por que você não falou nada?
– Sobre o que?
– Esta sua paixão repentina, você nunca foi disso?
– Você surtou, é? Tá com sezão?
– Se eu soubesse não teria tocado nela...
– Cacete, Brother! Vamos mudar de assunto? Porque você não fala de fadas e gnomos? São mais reais.
– Sei... Te espero no carro.
– Pode ir aquecendo aquela lacraia que eu apresso as mulheres.
Botamos o pé na estrada novamente, e, devido à maior incidência de buracos, nos revezávamos mais amiúde. As mulheres às vezes nem desciam do carro e assim ora a gente ficava ao lado de uma ou da outra.
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