Um Toque Feminino
14 Capítulo - 14 As Outras
Notas iniciais
Capítulo Quatorze
As Outras
Já passava das vinte e duas horas e eu não conseguia me acalmar. O resultado do DNA, sobre a penteadeira, parecia piscar para mim. Aquilo não devia estar desequilibrando minhas emoções, mas estava impossível qualquer tipo de controle. É claro que eu sabia que o resultado seria positivo. Sentia-me imune a qualquer tipo de emoção por um pai que eu procurava há tanto tempo, mas que o fazia mais por dever que por amor, pelo menos era o que eu pensava, até que me entregaram o envelope. Nunca fui muito adepta à maquilagem, mas aquela era uma destas ocasiões em que eu precisava caprichar até no batom. O espelho retratava um grande insucesso. Não havia um traço firme. O lápis não estava me ajudando, o rímel parecia ter sido passado com uma brocha de pintar parede, estava espalhado por toda minha pálpebra, atrapalhando ainda mais a sombra que eu passara, o delineador estava totalmente borrado e tremido e o que ele menos fazia era delinear, o batom estava um deus nos acuda, e o blush parecia estar mais forte do lado direto do que no esquerdo. Minhas mãos tremiam em qualquer direção que eu as movesse. Empurrei tudo para dentro da gaveta, de qualquer jeito, e abandonei a ideia de ir ao aniversário. Sentei na cama, ainda seminua e respirei fundo tentando mais uma vez me controlar. As imagens da minha infância vinham insistentemente à minha cabeça, misturando às feições do meu avô, falecido, com as do meu ausente pai. Ser “filha das ervas” nunca me incomodou tanto como agora. Ele não existir, não ter uma imagem, nunca me fez sofrer. Aquele papel “piscante”, atestava que ele não era um Zero e mudava tudo. Não era mais questão de certeza ou de fé, era fato. Ele existia, tinha uma imagem para mostrar e morava bem ali pertinho de mim. Não me consumiria mais que meia hora para ir a pé até a casa dele. No entanto levei quatro anos pesquisando. Consegui riscar mais uma definição do meu “Aurélio”, mas o resultado era a tremedeira que se apoderara de mim e aquelas lágrimas rolantes que insistiam em descer pelo meu rosto. Nem a emoção de ver minha mãe abandonar o próprio pai para ficar comigo, me fez chorar assim. Ela perdia e eu perdia, mas agora eu estava ganhando e mesmo assim não conseguia me controlar. Quando meu avô morreu choramos lágrimas amargas pela perda de algo que tínhamos, hoje choro a perda de algo que nunca tive, mas meu coração está leve. Preciso de um abraço, alguém que me ajude a descarregar estas emoções. Talvez minha mãe..., não..., não seria justo com ela.
– Alô, Marcela? Socorro! Help! SOS!
– Oi amor! Já está todo mundo por aqui, só falta você.
– Não estou em condições de ir.
– O que houve?
– Aquele envelope está me consumindo.
– Fica calma, estou indo te buscar.
Chegou, dez minutos depois, e encontrou-me ainda na cama com o celular na mão. Olhou minha máscara composta de pintura e lágrimas, e sem fazer perguntas jogou-se para cima de mim como se soubesse exatamente o que me faltava. Apertei-a no abraço que precisava e depois vi que além de amarrotar o vestido eu tinha borrado o rosto dela também.
– Agora você está tão feia quanto eu.
Ergueu o rosto, apoiou a testa sobre a minha, deixando sua cabeleira fazer uma cortina em volta dos nossos rostos e disse.
– Isso tem remédio. Não pensei que você fosse ficar tão arrasada com o resultado do exame, ou aconteceu mais alguma coisa?
– Não aconteceu nada, mas ele está tentando substituir meu avô.
– Com o coração que você tem, eu ficaria surpresa é se houvesse uma rejeição. Alegre-se! Seu avô está de volta!
– Como será que ele vai reagir?
– De onde você acha que veio este seu coração?! Mas vamos deixar isso para lá e lavar o rosto. Você se esqueceu que o convite veio em nome do Carlos?
– Estou brigando com as cores há um tempão e o convite é para ele?!
– Você está fora dos eixos mesmo! Eu lhe disse que a Nathália quer te apresentar à Ana Maria. Querem uma cueca por lá.
– Não é uma festa só para mulheres?
– Não. A Ana está com o namorado e têm outros por lá.
– E porque ela quer mais uma cueca?
– Além da Ana Maria, tem um casal de meninas em busca de ajuda. Você tem que começar a pensar com seriedade sobre estes casos. Você vai ter filhos que serão criados longe de você.
– Isso te preocupa?
– Muito. Você não é esta fortaleza toda. Ficou bem “boladão” hoje, imagina quando descobrir um filho seu sofrendo por aí, nas mãos de qualquer um.
– Não vou fazer filho com qualquer uma...
– Tenho fé no seu julgamento, mas as pessoas mudam...
– Vamos crer que mudem para melhor. Ainda não sei exatamente o que vim fazer neste mundo, mas sinto que é importante que eu não tenha medo de fazer o que eu tiver que fazer. Em último caso eu recorrerei aos tribunais. Aquele contrato, elaborado pelos advogados do meu avô, define minhas obrigações, mas também resguarda meus direitos de proteger meus descendentes.
– Já pensou em montar uma creche? A propaganda que a Nathália tem feito por aí, vai crescer muito quando ela engravidar.
– Você está muito pessimista. Não vou errar tantas vezes que seja necessário montar uma creche. E você tem que se lembrar que o coração que quer um filho, está fecundo da semente do amor.
– Não estou me esquecendo disso, porém nós, até hoje, curtimos a dor da discriminação.
– Isso ainda é inevitável, mas o tempo é nosso aliado.
– Será que é mesmo?! Ontem tive que riscar mais um nome da sua lista de espera.
– Não se agaste com isso, faz parte do processo. A espera impõe o tempo necessário à depuração das intenções. As inseguras, quando se firmarem, voltarão. Caso achem solução para seus anseios sem a minha participação, ainda assim ficarei feliz por elas. Não estou aqui só para espalhar minha semente, mas para trazer uma mensagem de bem querer.
– Neste caso vamos andando porque tem gente esperando por sua mensagem.
Poucos minutos depois estávamos na casa da Nathália, que irradiava sua beleza e simpatia. Depois de algumas apresentações, arrastou-nos para a varanda, onde um casal curtia um canto mais sossegado.
– Este é o Pierre e esta é a Sônia. Eu disse a eles que você é de absoluta confiança e posso dizer o mesmo deles a você, mas assim como você, eles também querem conversar.
O Pierre, já de pé, apertou minha mão e continuou examinando meu rosto. Eu já estava acostumado a ser submetido aos exames, mas o normal era que se fixassem em meus seios ou em minha cintura.
– Não procure barba em mim, Pierre, você nunca a verá, mesmo quando formos avôs.
– Seremos ao menos pais?
– Certamente. Vamos esclarecer nossas dúvidas e se o amor superar nossos anseios, teremos nossos filhos.
– Gostaria de fazer umas perguntas, mas a Nathália já nos informou que você tem que conversar com outro casal hoje. Podemos marcar para amanhã?
Voltei-me para a Nathália.
– Outro casal?
– Não se preocupe, o Pierre é meu amigo de muito tempo e entendeu que a situação da Lurdinha precisa ser esclarecida com mais urgência. Venha, amanhã eu te levo até à casa da Sônia e vocês poderão conversar calmamente. A Ana Maria também deixou a conversa para outro dia.
– E onde está a Lurdinha?
– Na piscina. São amigas de uma amiga da Marcela, eu as conheço muito pouco, vá com calma. Aparentemente estão bem intencionadas, mas não posso falar por elas o mesmo que disse sobre o Pierre e a Sônia.
– Duas meninas?
– Sim. Duas meninas. Vamos lá?
– Claro!
A Lurdinha me recebeu com um abraço enquanto a sua acompanhante esmagou meus dedos, num destes apertos de mão feitos mais para humilhar que para cumprimentar. Depois que salvei o que restou da minha mão, perguntei.
– O que você anda fazendo, Elisa? Alpinismo?
– Desculpe. Nunca tive tempo para os esportes, mas nasci com um remo nas mãos.
– Um remo?
– Meu pai era pescador e não podia dispensar as ajudas.
A Nathália afastou-se com a Marcela e a Elisa continuou a falar, sem deixar de me examinar com um olhar crítico e a descrença estampada no rosto.
– Você tem certeza que pode...
– Não me julgue pela aparência, Elisa. O que precisamos saber é se o seu coração tem amor suficiente para criar um filho...
– Um filho? Isto me soa meio machista. Que tal uma filha?
– Não tive esta intenção, apliquei o termo no sentido do uso popular e não como definidor de gênero, mesmo porque não posso definir o sexo da minha descendência.
– Se é que você pode ter...
– Não duvide disso, Elisa. Pelo que sinto posso engravidar tanto você quanto a Lurdinha.
– Você está falando bobagem. Já perdi as contas de quantos homens me levaram pra cama ou para uma moita qualquer e nunca engravidei.
– Uma moita!?
– Você acha que nas beiradas dos rios tem motel? Tenho um monte de sobrinhos feitos nas areias do rio Cuiabá ou sobre os alagados do Pantanal.
– Você é das margens do rio Cuiabá?
– Nasci em uma cabana de “pau a pique” e cresci ajudando a lua a bisbilhotar as transas dos meus pais. Antes que menstruasse já havia um homem entre minhas pernas. Não me olhe assim, não preciso de pena de ninguém! Nunca fui violentada. Nunca ninguém precisou usar a força para separar meus joelhos. Algumas promessas e um cigarro de maconha eram o bastante.
– Como uma menina alcança maconha naquele paraíso?
– Paraíso para turista, para quem tem olhos para a natureza. Eu tinha que lutar para sobreviver. O peixe não sai da água frito e salgado. Mesmo contando com a ajuda da natureza, precisa-se de dinheiro. Roupas, remédios e abrigo têm custo. Mas o mais caro são os sonhos.
– E com o que você sonhava? Com um príncipe...?
– Nunca ouvimos contar história de príncipe encantado, só de jacarés que comiam meninas. Passavam pelas gretas das paredes e as arrastavam para dentro da água. Claro que os jacarés eram sábios, só levavam as meninas más e desobedientes. As que remavam devagar também corriam riscos. Nunca perguntei às minhas irmãs com o que elas sonhavam, mas eu sonhava com luzes...
– Luzes?!
– É. Luzes. Tinha uma turma que acampava no nosso terreiro e sempre levava um gerador de energia. Quando iam embora, carregavam o gerador e eu ficava deprimida com a escuridão. Uns dois anos depois que começaram a acampar por lá e treparem com a família toda, substituíram nosso barraco de “pau a pique” por um de alvenaria. Perdi o medo dos jacarés, mas perdi também a companhia da lua. Detesto tanto a escuridão quanto detesto os jacarés. Quando eles ligavam o gerador eu ficava embaixo da lâmpada como se fosse mais uma daquelas mariposas. Depois começaram a levar lâmpadas amarelas e eu era a única mariposa que admirava a lâmpada, mesmo sendo daquela cor.
– E você veio à cidade atrás das lâmpadas?
– Quando eu tinha quinze anos, essa turma que fez o barraco, estava por lá, já há umas duas semanas e resolveram matar um jacaré. Cerveja, cachaça, maconha, cocaína e Deus me livre, jacaré. Tanto eu quanto minhas irmãs, já estávamos acostumadas e viciadas nas drogas, mas quando misturaram o jacaré, caímos fora. Era demais para nós.
– A bronca toda era só por causa do jacaré!?
– Só?! Você acha pouco? Você prefere comer um urubu frito ou ao molho pardo? Talvez ensopado...
– Não tem nada a haver e dizem que é gostoso, estão servindo nas churrascarias...
– Claro que não tem nada a haver, um sabe voar e o outro sabe nadar. Um não caça carne humana viva...
– Credo! Para com isso, Elisa. – interveio a Lurdinha.
– Ok! Mas vocês entenderam o nojo que tínhamos daquela coisa? Todas as noites era o motivo dos nossos pesadelos. O cheiro daquela imundície era insuportável para nós, impregnava nossas almas. Eu tinha uma irmã de quatorze anos que estava de barriga do segundo filho...
– Segundo...?
– É. Era a mais linda da casa, e também para ela, as coisas escorreram brancas entre as pernas, antes que as vermelhas chegassem. Meu pai só não duvidava que fosse filha dele porque era gêmea com outra que tinha a mesma cara das demais irmãs. Ela parecia um canário no meio de um bando de melros. Uma loura no meio de quatro morenas. Quando começaram a fritar aquela carniça, ela foi a primeira a se esconder. Na hora da cama foi a primeira de quem se lembraram. Empurraram nela uma linha de pó branco e a puxaram para fora do quarto. O cheiro do jacaré impregnava tudo, e ela, mesmo estando alta, vomitou em cima do pescador. Levou umas porradas, caiu sobre a barriga e morreu em consequência do aborto.
– O que seu pai fez?
– Ficou furioso. Sabia que ia perder os clientes. Não se importava em perder uma filha, tinha outras quatro para atender quem chegasse, não podia era perder os clientes. Pouco importava que eles fossem responsáveis por nossa prostituição e que tivessem feito das filhas dele umas viciadas em drogas. Devia a eles o teto e a maior parte do dinheiro que chegava lá. Mandou minha mãe cuidar dos urros da filha e nos apontou a direção das barracas. Perdeu mais uma filha. As outras preferiram se submeter ao cheiro que empestava tudo. Voltei lá, um ano depois, e ele só se lamentava que eu havia roubado a canoa dele para fugir. Não deu a menor importância que a filha havia morrido barriguda e que eu passei três dias infernais dentro daquele cochinho até ser resgatada por um barco-hotel.
– E como você veio parar em Brasília?
– Segui o leito do rio Cuiabá enquanto pude, perdi-me nos corrixos e alagados e por acaso um barco de turistas me encontrou. Cozinhei e limpei peixe para eles durante o tour e depois me deixaram em Poconé. Fui até Cuiabá no ônibus dos turistas e lá trabalhei em uma casa noturna por três meses. Consegui me vestir e tirar os documentos. Depois uma turma “família” me deu carona até aqui e uma boa ajuda para eu sair da vida. Trabalhei durante o dia e estudei à noite. Fiz uma faculdade noturna e entrei no serviço público. Hoje minha casa tem todas as lâmpadas que povoaram meus sonhos, mas é iluminada mesmo é pela presença da Lurdinha. Estou imbuída em viver o sonho materno dela, mas não acredito que você possa me engravidar.
– Esta descrença se estende a ela também?
– Você me desculpe, mas vejo mais uma menina que um...
– Não é preciso se desculpar. Até os meus doze anos eu tive a chance de elaborar uma imagem masculina dentro dos padrões de todos. Minha mãe teve muito trabalho para mudar isso. Hoje tenho consciência de que estes seios não fazem de mim uma mulher, mas tão pouco me causam constrangimento. Quem te falou a meu respeito deve ter lhe dito que tenho espelhos, batom, saltos e calcinhas em casa, e no...
– Temos uma amiga, íntima da Marcela, e não vejo mais masculinidade em você do que vejo nelas.
– Fisicamente somos idênticos, mas nossos hormônios são opostos. A Marcela sonha em ser mãe e eu nasci para ser pai. Não se deixe enganar pelos seios que você vê em mim.
– Você já fez exames de fertilidade?
– Não se preocupe com isso. De minha parte não haverá fracasso. A pergunta é outra. Você está pronta para uma criança? Vai conseguir afastar o fantasma do seu pai?
– Porque eu haveria de fazer isso? Ele vai estar sempre presente. É uma lembrança viva de como não se deve ser pai. Ou a sua preocupação é de ordem preconceituosa? Duas mães e nenhum pai. Se for isso, eu posso te dizer que preferia ter sido criada órfã a ter o pai que eu tive.
– Não posso me dar a preconceitos. Já sofri demais com eles. O que me preocupa é esta sombra de mágoas que por vezes perpassam seus olhos.
– São apenas cicatrizes da minha alma. Não vão saltar daí. A Lurdinha pode testemunhar que são dores de um passado distante. Mas porque você se preocupa com isso? Só queremos que você nos ceda seus...
– Não se irrite, mas as dúvidas têm que ser esclarecidas, você tem o direito de fazer as perguntas que quiser, e eu também.
– Você se sente no direito de ter uma participação além da fecundação?
– Não. Mas tenho o dever de socorrer um filho necessitado. Eu tinha um avô emprestado, que fez o papel de meu pai. Morreu nos meus braços e eu senti a vida dele escorrendo por meu corpo. Minha mãe emprestada, a filha dele, estava em outro quarto, não precisei chamá-la, pressentiu que ele estava de partida e chegou a tempo de dizer adeus. O que nos unia era algo mais que amor e carinho e esta ligação vai se repetir entre meus filhos e eu. Estes seios que tenho, não são frutos de hormônios externos, são próprios da minha genética e esta mesma genética faz com que chegue a mim, as dores que afligem as pessoas a quem eu amo. Se um dia, qualquer um dos meus descendentes emitir um “SOS”, eu me farei presente. Se vocês optarem por uma gravidez comigo, aceitarei qualquer proposta, menos a do desamor. Neste cartão, que passo às suas mãos, está, em poucas palavras, o compromisso que exijo de vocês. Amor, mais nada. Não tem nome nem assinatura. Em qualquer esgoto que caia, não tem valor algum. Quando vocês estiverem decididas, ponham seu DNA, uma gota de sangue, de cada uma, nos círculos superiores, os dois de baixo estão reservados a mim. Feito isso, terão valor em qualquer tribunal. Não se assustem, só vou recorrer a isso se houver o testemunho de um agente público atestando maus tratos, no mais, o filho é todo de vocês. Se precisarem de ajuda material podem contar comigo, o cartão é sua segurança, o compromisso é com meu coração.
– Não temos recursos para bancar uma fecundação em laboratório, mas para criar um filho não nos faltará. E como nosso casamento não está protegido pela lei, fizemos um contrato particular e nele incluiremos nosso filho como herdeiro de ambas, assim como somos herdeiras uma da outra.
– Se lhes for constrangedor uma fecundação natural, posso bancar as despesas de laboratório. Mas asseguro que não vamos precisar de mais que uma noite juntos.
– Como você pode afirmar estas coisas com tanta segurança?
– Porque eu sinto o que vocês querem de mim e meu corpo conversa com o seu. Eles fazem a hora, saberão quando estiverem prontos.
– Nosso filho terá esta capacidade?
– Sendo homem será como eu, inclusive fisicamente, sendo mulher, terá um coração cheio de amor, será puramente feminina e creio que com outros dons sobre os quais não tenho como falar.
– Como assim, outros dons?
– Não sei. Eu estou impedido, pela minha genética, de praticar violência sexual, minhas filhas deverão herdar algo que também as impeçam de se tornarem vítimas. Mas é um pressuposto.
– E porque os seios?
– Não tenho certeza ainda, mas creio que não faltará leite aos meus filhos.
– Você acredita que eles vão acusar a gravidez da Lurdinha?
– É bem provável, mas não pretendo me aproximar de vocês para tirar a dúvida. A distância que vocês querem será respeitada. Seu espaço pai/mãe/filho deve ser delimitado por vocês.
– E se nós ficarmos com saudades de você?
– Apareçam sempre que quiserem. Este cartão é um passaporte para meu mundo. Quando o validarmos, a combinação dos DNAs, abrirá os portões da minha casa a vocês.
– Se forem parar em mãos estranhas...?
– Temos outros tipos de sensores por lá.
– Tipo íris?
– Não. Tipo kyrlian. Combinando seu DNA com as ondas de calor emitidas pelo seu corpo.
– Sensor termo ótico?
– Com aspectos químicos envolvidos.
– Podemos voltar à questão? – interveio a Lurdinha.
– Claro Lurdinha. Qual é a dúvida?
– Estes seios devem ter pesado bastante para você. Devemos criar nosso filho como se fosse uma menina?
– Só se ele se disser menina. Eu me escondi atrás de um sutiã, talvez ele não tenha que fazer isso. Deixem que ele decida, quando chegar a hora. Só não deixem que ele seja pego de surpresa. Se precisarem de mim, a qualquer tempo, estarei disponível.
– Mas no momento você está apenas fazendo uma lista, não é isto?
– Mais ou menos. Mas em breve estarei pronto.
– E o que falta?
– Alguns detalhes de ordem pessoal. Tipo, comunicar ao meu pai biológico que eu existo.
– Você foi criado sem pai?
– Nunca chorei por isso, exceto hoje. Recebi as contraprovas e me abalei um pouco, mas já passou.
– E o que você espera dele?
– Se ele puder colaborar..., tudo bem. Atrapalhar, eu não vou permitir. Meus pés aprenderam o caminho da autonomia. Meus rumos estão definidos.
– Espero que assim seja. Você é uma esperança que estamos alimentando desde que tivemos notícias suas.
– Você também tem uma história triste como a da Elisa?
– Não. Não tenho. Sou daqui mesmo. Meus pais moram em Taguatinga. Conheci a Elisa no serviço. Ela entrou para comprar uma blusa – tenho uma lojinha no shopping – e de repente me vi apaixonada por ela. Deixei o namorado e seis meses depois tomei posse da casa dela. Tenho tudo que sempre quis na vida, amor, carinho e atenção. Gostaria de partilhar minha felicidade com uma criança.
– Vocês pensaram em adoção?
– Claro! Apesar de todas as dificuldades, que a burocracia social impõe, é uma possibilidade que não descartamos, mas a preferência é por um filho do nosso sangue. Você acha que pode engravidar qualquer uma de nós?
– Certamente! Apesar da descrença da Elisa, ela não é infértil, mas é importante que se queira engravidar.
– Você não se importa que seja feito de forma natural?
– O importante é que não haja desavença entre vocês duas. Pensem bem e contem comigo. O sexo é sempre prazeroso, mas a harmonia é componente fundamental do amor.
– E quando você vai estar pronto?
– Quando vocês estiverem.
– E se já estivermos prontas?
– Eu sinto que ainda não estão.
– Mas a Elisa...
– Você está preocupada em dar um filho à Elisa, mas antes deve ouvir seu coração e colocá-lo no mesmo ritmo em que pulsa o dela.
– Você está insinuando o quê?
– Estou sugerindo que voltem a conversar. Eu trouxe novas informações a vocês. Quando ela disser que vai amar um filho parecido comigo, assim como ama você, aí estarão prontas.
– Você está dizendo que ela...
– Não estou dizendo nada além do que você ouviu. Vamos esperar que ela se acostume com a ideia. Meu avô me amava muito, mas quando percebeu que meus seios cresciam me rejeitou. Dê um tempo, a ela, e a você mesma. Eu estarei aqui por muitos anos e meu cartão não tem prazo de vencimento.
– Temos que por nosso nome naquela lista?
– Claro que não! A lista é uma brincadeira da Marcela. Ela se preocupa com as desistências, mas na verdade isso não tem importância. Ou talvez tenha, é melhor uma desistência que um filho não desejado. Quando for o momento estarei pronto para vocês, independentemente da lista. Mais alguma pergunta?
– Você vai listar seus filhos?
– Não será preciso. Saberei encontrar os que precisarem de mim. Se nunca precisarem de mim é sinal que têm uma boa família.
– E aí ficam soltos no mundo?
– Livres, como as aves no céu, mas com a certeza que terão onde pousar se necessário.
– E se nós nunca dissermos a ele?
– Também eu não direi, mas eles saberão.
– Você tem certeza disso?
– Tenho. Não nasci para me esconder deles e nem para negá-los.
– Isso pode gerar insegurança em nós.
– Não há motivos para insegurança, a menos que seu coração consiga odiar uma criatura cheia de amor. Eu nunca consegui me afastar de quem me ama. Eles seguirão o mesmo padrão. Só virão me procurar se não encontrarem amor nos pais.
– É o motivo da sua preocupação com o estado do meu coração?
– Não Elisa. Já percebi que seu coração tem amor a suficiente para isso, só precisamos de um pouco mais de convicção. O fato de eu ser imberbe, não deve sustentar sua crença de que eu não possa realizar o que estou propondo.
– Inclusive me fecundar?
– Creia. Eu o farei. No dia em que você me abraçar convicta do que quer.
– Ok. Vamos pensar nisso.
– A festa está com saudades de nós.
– Melhor irmos embora.
– Não façam isso. A Nathália é uma pessoa maravilhosa, fiquem mais um pouco. Eu as acompanho.
– Você ainda tem que ouvir outras pessoas.
– Marcamos para amanhã.
– Invadimos a festa dela e mudamos sua rotina.
– Muito pouco para quem acaba de ganhar duas amigas. A aniversariante merece a mesma chance que eu tive.
Voltamos à festa e quando saí com a Marcela, elas ainda ficaram por lá.
– E aí, posso incluir o nome delas na lista?
– Elas não gostam muito da sua lista. Melhor não escrever.
– Desistiram?
– Não. Mas precisam acertar os ponteiros. A Lurdinha está a fim de dar um presente à Elisa, mas o corpo que está pronto é o da Elisa, que por sua vez acredita que seja estéril.
– Você disse isso a elas?
– Só insisti com a Elisa que ela pode gerar o próprio filho. Abri uma nova possibilidade. Cabe a elas decidirem.
– Você semeou a dúvida entre elas?
– A ideia não era bem esta, mas se decidirem por uma gravidez da Elisa, ficaremos todos mais felizes.
– Não captei o padrão. A Lurdinha me pareceu mais meiga...
– Este é o padrão. Vai amar o filho da outra com muito mais facilidade.
– Você está sendo cruel.
– De forma alguma. Estou te contando o que seria mais viável. E seria desonesto da minha parte se eu não informasse a ambas que podem ser mãe. Não podem partir da premissa errônea de que só a Lurdinha esteja apta. Reiniciarão as conversas e tomarão a decisão que melhor lhes aprouver.
– Mas o lar estaria melhor equilibrado com a Elisa grávida.
– Exatamente.
– E porque não dizer a elas com todas as palavras?
– Estaria induzindo a decisão delas. Não posso interferir no livre-arbítrio dos outros. Quando você diz que não pode ir para minha cama, eu te beijo com o carinho de sempre. Isto não representa indiferença ou desamor por você não estar comigo. Representa o respeito que tenho por você e suas decisões.
– Mas estamos falando de um possível filho seu!
– Quando eu acreditar que haja riscos vou optar pelo não. No caso delas estamos falando da melhor possibilidade e não da “menos ruim”.
– Mesmo ele sendo criado por duas mães e nenhum pai?
– Este país está cheio de crianças amparadas só por uma mãe, ele terá o privilégio de curtir o colo de duas.
– E o Pierre?
– Cada dia com seu problema. Ele será o problema de amanhã.
– Nossa! Isto soou muito sinistro.
– A Nathália os recomendou, mas tem algo no ar que eu não consegui captar direito. Ela se prontificou a me acompanhar até à casa deles e em seguida me abandonou com as meninas.
– Ela estava com a casa cheia e...
– Eu sei, não a estou recriminando, mas é como se ela estivesse advogando. Isto nunca foi necessário.
– Não vá perder o sono com isto, amanhã você desvenda o mistério.
Ao amanhecer do dia seguinte telefonei à Nathália e mudei nosso encontro com o Pierre para um restaurante no Pontão do Lago Sul às treze horas. Chegou logo depois de nós, sentou-se ao meu lado, pediu uma dose de uísque e enquanto a Nathália e a Sônia trocavam amenidades sobre a festa ele permaneceu calado até ser atendido. Engoliu a bebida de uma só vez e levantou-se.
– Preciso atender a uma emergência, o que você e a Sônia decidirem estará bom para mim.
Não esperou pela resposta e foi saindo sem ao menos olhar para nossas acompanhantes. Segui-o e o alcancei antes que entrasse no carro.
– Espere Pierre, sem a sua participação não teremos como tomar uma decisão que...
– Não quero participar desta decisão. Não acredito que você consiga e não vou colaborar com a frustração que a Sônia terá.
– Está fugindo por ela ou por você?
Entrou no carro e bateu a porta.
– Se você não a levar para a cama, ela irá com outro, nós queremos o filho e isso é tudo.
Ligou o carro e me deixou sozinho no estacionamento. Voltei ao restaurante.
– Conseguiu falar com ele?
– Deixou a decisão por nossa conta.
– Desculpe-nos por isso...
– Não é esta a questão, Sônia. Você acredita que ele será um bom pai?
– Tem sido um grande companheiro e quer um filho.
– E a adoção?
– Quero ser mãe, quero viver cada momento para o qual a natureza me dotou. Só vou apelar para o artificial se não tiver outro recurso.
– Uma adoção não é artificial.
– Para mim é um artifício, socialmente correto, mas não deixa de ser. Posso até vir a adotar, não tenho nada contra, mas tenho em útero querendo trabalhar e mostrar que tem utilidade.
– E a inseminação?
– Só se você exigir. Eu sou fiel a ele, mas não me vejo forçada a ser exclusiva. Se você me proporcionar um momento de prazer, quem me quer feliz, deve se alegrar com isso também, mesmo porque não estou fazendo nada à revelia dele.
– Não se importa se isso quebrar o encanto entre vocês?
– Não vai quebrar, ele tem os filhos dele e sabe que quero o meu. Conversamos sobre isso mesmo antes de começarmos a namorar. Você não precisa se preocupar com nada, ele apenas ficou impressionado com seus seios, mas não fugirá dos compromissos que tem comigo.
– Eu teria sentido o interesse dele em mim se...
– Não é isso. Desculpe, mas, estou falando de uma impressão negativa.
– Você também acha que sou uma fraude?
– Não, mas minha opinião está influenciada pelo testemunho da Nathália. Nunca me senti atraída pelo corpo feminino, mas como me disseram que você tem algo mais...
– E ele não sabe disso?
– Não posso dar a ele as riquezas de detalhes que a Nathália me passou. Tudo que ele tem é a promessa de uma gravidez imediata e isto choca com sua aparência. Não o condene, é mais aceitável para ele, me imaginar na cama com outro homem que com uma mulher e deve estar rondando pela cabeça dele a possibilidade de que eu precise de um mês para me convencer que você não será capaz.
– Você tem certeza que a reação dele foi só por causa disso?
– Tenho. Pode fazer sua parte em paz. Seu filho estará em boas mãos. Estará com a mãe que o fez com carinho e o quer com muito amor. Amanhã devolverei o cartão com nossas impressões.
– Nenhuma dúvida?
– Estou pronta há muitos meses, só falta você.
A convicção dela e o sorriso da Nathália dissiparam as minhas preocupações quanto à reação do Pierre. Sentia no ar, o amor que emanava dela quando pensava no filho e acreditei que mesmo que o Pierre tivesse outras intenções, além de agradar à amada, eu podia confiar neles. Deixei para trás minhas suspeitas de que um filho registrado em nome dele iria facilitar sua vida de turista que já trabalhava por aqui e que não queria voltar para sua terra natal. Talvez um dia voltasse para a família que deixara em outro continente, mas o filho, por certo, ficaria com a mãe. Passei a ela os cartões e repeti a promessa de implantar uma nova vida com muito carinho. O amor leva a vida a ajudar a vida.
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