Um Toque De Humanidade
1 Neve
Notas iniciais
Pov Edward
Abri os olhos lentamente ao sentir a primeira luz da manhã me tocar. Apalpei meu colchão acabando por ficar com uma lâmina presa nas linhas soltas, sentei-me e habilmente a retirei, abrindo mais um buraco em minha colcha mal cuidada. De todos os móveis que uma vez tive, uma das poucas coisas que sobraram depois de os habitantes da pequena cidade limparem minha casa foi a cama.
Um dia após minha suposta morte as pessoas que eu julguei que eram meus amigos levaram tudo que havia no andar térreo de minha mansão, mas ao chegarem ao pé da escada hesitaram, sem coragem de subir aos cômodos superiores, com medo de encontrarem meu corpo. Levaram também o corpo do jovem Jim, que jazia nos arbustos logo abaixo da janela de meu sótão.
Apesar de não dormir e nem conseguir manter os olhos fechados por muito tempo, fiquei feliz em ter algo conhecido perto de mim. Eu podia sentir a dor se infiltrar por minha pele e ossos a cada minuto. Eram nos momentos de dor quase insuportável que era bom ter algo real a que me agarrar.
Voltei meus olhos para a parede, ainda sem levantar da cama. Observei as marcas brutas que minhas lâminas deixaram na pedra fria, eu poderia dizer de cor em que momento de completo abandono e desespero fiz cada uma delas. Após alguns momentos de nostalgia me aproximei um pouco mais para encontrar um pequeno e riscado caco do que fora um espelho, firmemente encaixado em uma fissura notavelmente grande na parede. Fiquei ali, imóvel fitando meus próprios olhos com um brilho quase demente. Lentamente, quase que com medo movi minhas orbes até poder ter uma ampla visão de meu rosto. Não me surpreendi. Cicatrizes múltiplas, pele pálida, olhos mortos e expressão vazia. O mesmo rosto dos últimos setenta anos. Era apenas eu, era apenas mais um dia, era apenas mais um dia sendo eu. Mas tinha algo mais, eu sentia isso e algo em meu interior sabia o que era. Mas apenas por lembrar já doía ainda mais, se é que isso era possível.
Era saudade.
Mais uma vez a saudade torturava cada célula de meu corpo, transformando o ato de respirar quase insuportável. Ela vinha as vezes em flashes, em noites frias, em dias quentes. Não tinha hora para chegar e muito menos para partir. Tudo me fazia lembrar Kim nesses dias, tudo, sem exceções. Mas o que mais me torturava eram as flores nos arbustos de meu jardim, Kim cheirava a flores. Descobri isso naquele nosso mais íntimo momento, quando ela me deu o mundo e me arrancou ele. Ela falara que me amava. Foi um choque, um choque feliz. Um choque que eu necessitava. Mas logo depois ela teve que me deixar. E assim que a vi partir, senti que algo mais me deixou naquela noite.
Eu saíra e vira o mundo, eu convivera com pessoas, eu fiz amigos e inimigos, e eu amei. Amei alguém como jamais pensara que seria possível. Foi um sentimento forte e arrebatador que me levou a ter os melhores momentos e as melhores lembranças que eu poderia querer. E esse também foi o motivo de meu total desespero. Lembrar de todas as pequenas coisas que vivi quase me levou a loucura, tentei me distrair com os mais diferenciados passa-tempos, livros e objetos. Mas foi inútil, a dor lacinante me acompanhava em cada ato, em cada movimento, a lembrança de suas palavras jamais saíram de minha mente, até mesmo depois que recebi a notícia de sua morte. Foi impossível de duvidar quando vi seu marido e sua filha puxando a caminhada fúnebre pela principal rua da cidade. Aquele foi um dos dias de piores crises que tive. Doía, e como doía. Saber que a pessoa que era o motivo de eu ainda querer viver se foi... Era uma dor insuportável. Incomparável.
Depois de vários anos de tristeza doentia voltei a esculpir em meus arbustos. Eu poderia tentar fazer algo diferente, podia traçar um desenho em minha mente, mas sempre acabava por sair seu rosto, seu corpo. Era algo meio mecânico, meio automático esculpi-la. Ela fora feita para ser arte, seus traços mostravam isso. E mesmo depois de muito tempo em que eu deixara o jardim, nas noites, Kim estava presente. Mesmo que só seu perfume viesse a minha mente, ou seu toque delicado, ou seu olhar, não importava. Kim sempre estava presente. Estava sempre comigo.
Ao sentir uma brisa extremamente fria vinda da janela, meus pensamentos foram desligados por um momento. Com cuidado e sem ânimo algum levantei. Já podia sentir aquela velha dor latejante em meu peito, mas exclusivamente hoje ela parecia mais forte.
Com passos pequenos e pausados andei até o que restara da janela de meu sótão. A brisa fria insistia em levar meus cabelos para trás, beijando meu rosto com lábios gelados. Ao olhar o mundo lá fora meu peito se apertou, era uma visão torturante, mas bela. Dei um passo para trás, estupefato.
Nevava.
Isso nunca acontecera antes. Era o sonho de minha amada. Ver a neve, sentir os pequenos flocos lhe beijarem a pele.
Aquilo era demais para mim.
Corri em desespero escada abaixo, esbarrando em paredes e portas, sentindo meus olhos úmidos e pés perdidos. Hesitei apenas por um momento antes de empurrar a grande porta e abri-la com uma ferocidade que eu não esperava ainda ter.
Era inegável, nevava. Um belo tapete branco se estendia por toda a propriedade. Era uma paisagem linda, era um cenário perfeito. Eu quase podia ver Kim dançando em meio aos pequenos flocos brancos, podia sentir seus passos na pequena camada de neve fofa. Era um momento único, eu a sentia ali, brincando em meio aos arbustos. Era um cenário que me transmitia solidão e pontadas de tristeza, paz e uma pitada de alegria. Não fazia sentido, mas não precisava fazer.
Antes que eu pudesse me dar conta, estava ajoelhado no monte de neve, sentindo as lágrimas quentes evaporarem no ar frio. Não sentia meus membros, não era importante. A única parte de meu corpo que eu podia sentir era um ponto específico em meu peito, onde uma dor torturante latejava. Levei lentamente uma de minhas tesouras ao peito, como se pudesse fazer aquilo parar. E parou. Foi diferente, como se algo se quebrasse dentro de mim, pareceu que durou horas, mas foram segundos apenas. Quando a paz finalmente me atingiu eu já estava deitado na superfície branca, e o rosto de Kim flutuava em minha mente. Aquela cena, que eu jamais esquecera. Aquela frase.
"Eu te amo."
E em meus últimos segundos de vida eu só pude pensar em uma única resposta totalmente verdadeira e que permaneceria verdadeira para sempre.
"Eu também te amo."
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