Notas iniciais
Na continuação direta do capítulo anterior, Ramona agora tem que lidar com as consequências de sua herança mortífera. Espero que a leitura esteja sendo boa até aqui...

RAMONA

Os uivos de angústia viraram um lamentar choroso. A forma bestial se reverteu gradativamente, até voltar a ser a Ramona de sempre. Estava nua, visto que a transformação acabou com suas roupas. Senhor Manoel, logo após acionar a polícia correu na direção da garota, tirou o casaco cumprido e jogou sobre os ombros de Ramona.

— Por Deus, Ramona! Aquele bicho foi embora? Entra logo, antes que ele volte! A polícia já está vindo! Creio em Deus pai.. Olha o que esse bicho fez com o Fred.

Enquanto falava, ele puxava-lhe o braço. A moça resistia. Será que esse idiota não via que ela era o monstro que fez aquilo com Fred? Rodrigo surgiu da escuridão da estrada e abraçou irmã.

— Ramona, você está bem? Merda. Eu não consegui fazer nada pra te proteger.

Entre um soluço e outro, Ramona respondeu:

— Me proteger? Me proteger de quem! Eu fiz isso, foi tudo culpa minha!

Manoel a olhava sem entender . Era de fato uma situação estranha. Quando foi que aquele animal enorme sumiu e Ramona apareceu para acudir o namorado. E por que estava nua como veio ao mundo? Não importava. Já era um milagre ela estar viva.

— Você não viu, seu velho idiota?? Foi eu! EU matei o Fred! -em crise ela gritava com Manoel, mas Rodrigo interveio, cochichando ao seu ouvido.

— Fica calma Mona... Ele não vai se lembrar do que viu. Humanos normais não podem compreender isso, a cabeça da um jeito de explicar o que viram. -Ele mudou seu tom e falou agora com o frentista. — Me perdoe, seu Manoel, ela... Ela só está nervosa com tudo isso....

Ramona olhou para o irmão desconfiada. "Humanos"? E como ele sabia tudo isso?

— Eu sei, eu não tô bravo com ela, Digo, fica tranquilo.

Foi então que todos voltaram as atenções a um quinto elemento até então esquecido. O senhor de bigodes, empregado da transportadora Martins estava na porta do banheiro. Parecia Perplexo tendo presenciado tamanha barbárie. Ele olhou diretamente nos olhos de Ramona. Sentia um misto de medo, ódio e desejo de vingança. Pelo garoto inocente morto, pela sua van destruída, mas principalmente por que uma coisa daquelas simplesmente não deveria existir.

Rodrigo o encarou de volta.

— O que foi, cara? Por um acaso viu pra onde o bicho foi? -Rodrigo perguntou temendo a resposta.

— Eu vi,vi sim! -Ele ergue a mão e apontou Ramona, começou berrar.-Essa vadia cínica é o seu bicho! Foi ela quem matou o garoto e quase derrubou o posto inteiro em cima de nós! Segurem ela antes que ela faça de novo! Eu vi ela se transformando! -as palavras do senhor de bigodes eram tão agressivas, que Ramona precisou se concentrar para não sentir raiva.

Rodrigo levantou e foi na direção do homem de punhos cerrados.

— Não fala da minha irmã, filho da puta!

O homem nem viu de onde veio aquela mão. Rodrigo o acertou no Lado esquerdo do rosto, o derrubando. O homem se levantou com a mão no rosto.

Ramona se ergueu, ajustando o casaco ao redor do corpo e foi pra frente do irmão, impedi-lo. Se era verdade o que Rodrigo dizia por que o homem parecia tão lúcido em relação aos acontecimentos?
— Você é corajoso, moleque!

— Se quiser te dou mais um do outro lado pra ficar inchado igual.

— Espera! -Ramona interrompeu, segurando o irmão.- Para com isso...

Manoel interveio pra evitar um confronto grave. Já não basta o que aconteceu com Fred, mas uma briga não poderia acontecer. Manoel não estava entendendo nada, já que estava em choque pelo ocorrido.

— Vamos ter calma, gente. Digo, se afasta, não precisa bater mais no homem. E o senhor, para de falar da Ramona, a menina quase foi atacada pelo bicho com o namorado.

— Quer saber? Fodam-se vocês!- o rosto assustado do homem agora se transformou em uma face repleta de vingança- Eu não sou louco, sei muito bem o que vi aqui... -O homem foi andando para a estrada, na direção de Nova Independência.- Isso ainda não acabou. Eu juro que isso não fica assim!
Manoel foi atrás.

— Espera! A polícia tá vindo, você é testemunha, tem que ficar! -O homem não deu ouvidos, o frentista insistiu.- E o carro da empresa, cara?

O homem parecia implacável, logo sumiu na escuridão da estrada sem deixar rastro. Manoel coçou a cabeça.

— Pois é, vocês viram que eu tentei, não viram? -quando se virou, notou que não havia mais ninguém , os irmãos se aproveitaram da distração para saírem.- Merda, e agora o que falo pra polícia?

*

Rodrigo deixou a irmã entrar primeiro, depois trancou a porta. Ele vinha só de cueca e regatas, havia cedido o resto das roupas a irmã.

— Vai, toma um banho e troca de roupas... Eu vou te contar tudo.

Ramona apenas meneou a cabeça e foi para o quarto. As lágrimas já tinham secado. No banheiro, ela jogou aquele casaco emprestado no lixo, as roupas do irmão ficaram no chão. Abriu o chuveiro na maior temperatura e lá ficou por alguns minutos, na esperança de que a água levasse a culpa. Ela amava Fred, mas agora a única coisa que resta é a lembrança deles. E a culpa de ter matado o amor de sua vida.

Ao sair do banho, ela olhou o seu reflexo pelo espelho embaçado. Ainda era ela... Mas por quanto tempo?

*

Rodrigo foi até o quarto dos pais, lugar que dificilmente os irmãos entravam na casa. Olhou de baixo da cama. Estava lá. Ele pegou a caixa empoeirada e foi para a sala. Ramona estava de pijamas, sentada no sofá abraçando uma almofada e olhando para o chão.

Rodrigo colocou a caixa sobre a mesa de centro e sentou-se ao lado da irmã.

— Você sabe o que você é? -Ela não respondeu, ele prosseguiu.-Lobisomem. Essa é uma história verdadeira. Assim como foi o nosso pai. Por causa dele, temos Sangue de Lobo. O seu aparentemente é mais forte. Os lobisomens são seres parte carne e parte espírito. As lendas antigas dizem que os lobisomens são guardiões que protegem o nosso mundo dos espíritos. Pelo que estudei, os lobisomens são pessoas normais até certo ponto. Quando ocorre a primeira transformação. A sua transformação foi sob a lua cheia, a lua da fúria. Por isso o seu surto. Você é uma Rahu. Guerreira, na língua dos lobisomens. Seu augúrio é lua cheia. Lembra da morte da nossa mãe?

Os olhos de Ramona se acenderam, ela olhou para o irmão.

— Não me diz que...

— Isso mesmo. Não foi um acidente... Foi quando o pai passou pela primeira transformação. Assim como você, foi numa noite de lua cheia. Algum tempo depois ele não conseguiu viver com a culpa e se matou.

— Eu também vi.. Mas podia te jurar que era algum bicho...Não! Não faz sentido! E de pensar que se não fosse essa maldição os dois ainda estariam vivos..

— Você não lembra de nada disso, não é? Eu lembro de tudo como se fosse hoje. Naquela época o teu sangue de lobo devia ser fraco. Aconteceu com você igual com o seu Manoel. Aquilo que aconteceu no posto se chama Aluamento. A maioria dos humanos está sujeita aos efeitos do Aluamento, a própria mente tenta explicar racionalmente o que acabou de ver. E uma forma de evitar a loucura...
— E aquele outro homem?

— Ele é o meu maior medo... Pela forma como reagiu com certeza não era um lobisomem. Mas duvido muito que se trata de um ser humano normal. Ele não sofreu os efeitos do Aluamento.

— Você acha que ele pode tentar algo?

— Não sei. Mas é bom ficarmos em alerta.

— Me diz... Como você sabe tudo isso, Digo?

Rodrigo olhou para a velha caixa empoeirada.

— Depois que o nosso pai se transformou, uns homens vieram atrás dele. Eram outros lobisomens, diziam ser de uma tribo. Eles disseram que podiam ajudá-lo, mas ele estava angustiado demais. Ele deu as costas pra essas pessoas. Mas eu não. Eles reconheceram a minha linhagem e se propuseram a me ensinar algumas coisas sobre lobisomens. Eu queria poder ter ajudado ele... Mas ele nunca quis ajuda. É provável que esses caras apareçam de novo. O rastro que deixou no posto não é difícil de seguir. Ah, tem mais.. A polícia de certo vai vir aqui pra falar conosco. Vamos evitar ,ao menos por enquanto.

Ramona estava atordoada. Tudo o que seu irmão estava contando fazia sentido. Ela estava dividida: uma parte estava aliviada, sentindo-se menos culpada pela morte de Fred, mas ainda sabia que a culpa era sua; e sua outra parte, sentia-se traída. Ela passou a vida inteira acreditando em uma mentira.

Ela passou uma vida inteira vivendo uma mentira. O pior de tudo, seu irmão sabia disso.