MARCOS

Isabela sentou no sofá de sua sala. A casa nunca foi tão escura e vazia como estava. Seu coração estava apertado, as lágrimas caiam de seus olhos sem controle, os soluços começavam a escapar de sua boca. Marta havia ligado para ela, falando que viu Marcos no enterro de seu irmão e contou todo o ocorrido. Ela não sabia que chorava mais pela morte de seu irmão -de uma forma tão cruel, tão repentina, que nem tempo de dizer Eu Te Amo teve- ou de seu marido, que fazia tanta falta.

Ela sentia falta do abraço carinhoso de quando acordava na madrugada para desejar bom descaso a ele. Sentia falta dos beijos e o afeto que a relação tinha. Sentia falta de sua mão e voz acalmando o bebê que estava carregando. Seria falta das palavras de estímulo que sempre recebia. Sentia falta dele. Do seu marcos. Do seu amor.

Também sentia falta de Fred. Aquele garoto que ela viu nascer, que quebrou suas bonecas, que sempre brigavam mas no final era o ombro um do outro. Daquele que sempre poderia contar, que o via como um anjo, como um porto seguro. Sentia o remorço de não poder ter falado mais que o amava. Sentia o remoço de não ter abraçado tanto como queria. Sentia o remorço de não ter ficado tanto tempo com ele. Sentia o remorço de saber que nunca mais o veria.

Aquilo consumia Isabela. Pensamentos suicidas estavam invadindo sua mente nesses últimos dias, até o aborto foi colocado em questão. Mas ela não tinha coragem. Ela ainda tinha esperança.

*

Era a oitva noite consecutiva que Marcos despertava preso naquela cela. Junto dele estava Mikhaela, sua progenitora que desde a segunda noite, quando foi jogada na cela junto com a sua progênie, se negou a trocar uma palavra sequer. Ambos sentiam-se vazios, não tinham o sangue necessário pra empregar qualquer uma de suas disciplinas vampíricas. A sede só piorava conforme o tempo passava.

Nada foi decidido formalmente, mas cada um tinha o seu próprio lado da cela e nenhum dos dois ultrapassava a linha imaginária que separava os territórios.

— Acho que é hoje... -Marcos quebrou o silêncio, sem que sua progenitora desse ouvidos.- Vão nos matar. Achei que era impossível matar vampiros... Mas esses caras devem saber um jeito -sua voz baixa e sem emoção ecoava.

Ela nem mesmo teve o trabalho de olhar para Marcos. Tinha ódio do vampiro, queria ela mesma matá-lo. Como podia ser tão abusado? Ela o salvou e o maldito retribui matando-a?

— Olha -ouve uma pausa.- Eu deveria ter te dado ouvidos. Desculpa. -Marcos continuou realmente arrependido quando percebeu que não teria nada além do Silêncio. Ela finalmente olhou-o.

— Desculpa? -a voz de Mikhaela estava arreigada de desprezo.- Você tem a pachorra de me pedir desculpas depois disso, Vampiro? -Marcos percebeu a raiva em sua voz- Agora já é tarde, filho da puta! Vão nos matar! Quase 200 anos jogados fora, tudo por sua culpa!

— ...200 anos? -Marcos estava surpreso.

— 180, pra ser mais exata. Mas isso não vem ao caso, cara. A questão é que não contente em se foder, você quis me foder também! Eu devia acabar com você aqui mesmo, mas não vou poupar você. Não pouparei os filhos da puta desse trabalho. A forma que eles matarão você será cruel e dolorosa.

Marcos estava arrependido. Agora entendia a gravidade do que fizera. Ignorava a raiva da moça, estava de fato surpreso. Era aficionado por história e se o que a vampira dizia era verdade, ela seria uma relíquia viva. Então lembrou de sua própria trajetória, de seus poucos anos comparados aos dela.

— Você pelo menos teve 180 anos de vida...-sua voz agora era triste. Lembrou de Isabela e seu filho, do futuro longo que pensou que teria.- eu não tive nem metade desse tempo.

— Não foi tão fácil como você pensa. Foram 180 anos de luta. Todos jogados fora.

— Luta? Você é uma vampira! O máximo que tem que fazer é se esconder!

— Eu pelo menos consegui me esconder, diferente de você. -houve uma pausa.- A vida de um vampiro não é tão fácil. Ainda mais de uma mulher do século passado. Quando eu tinha 16 anos, eu era apaixonado por Roberto, um menino de minha antiga vila. Naquela época, as mulheres eram treinadas para serem donas de casa, serviçais. Roberto me via como mais do que isso. Nós nos amávamos. Mas a vida não foi tão boa conosco.

"Um dos jovens mais ricos da pequena cidade estava interessado em mim. Eu, claro, não queria, mas na época a vontade de uma mulher nunca foi levado em consideração. Meu pai, nada bobo, me vendeu para ele. Desde então, fui sua escrava, tanto nos deveres domésticos quando nas relações. Eu tinha nojo dele, mas não podia fazer nada. Infeliz, sempre que ele viajava para negócios, Roberto ia até a casa me visitar, era o único momento que eu realmente era feliz. Não demorou muito até que ele descobrisse. Quando descobriu, Roberto foi encontrado morto no quintal da casa. Eu fiquei em choque, transtornada e com raiva. Ele era o único que eu amava e o único que me amava de verdade... Eu fui ao enterro de Roberto escondida, queria vê-lo, tocar sua mão mais uma vez... Lá, conheci um homem. Dom Miguel fora um escravo no passado nas terras de Portugal, mas emancipou-se e até conseguiu um título de nobreza apesar da cor de sua pele. Lutava pela liberdade de seus irmãos africanos. Era um homem bondoso e justo e apesar de tudo, sua simples presença me causava uma repulsa indescritível. Ele me consolou com um abraço, me prometeu que se eu chamasse ele viria a meu socorro. Foi a primeira vez que cruzei o caminho de Dom Miguel. Eu realmente precisei de socorro naquela mesma noite. Fernando me encontrou e quis me matar afim de manter sua honra. Me deixou agonizante a beira do lago, um furo de bala atravessou meu corpo perto do seio Esquerdo. Dom Miguel surgiu das sombras. Me ofereceu a sua maldição para me vingar daquele traste. E eu o viz. Ele me abaaaraçou novamente... Mas não foi um abraço qualquer. Ele tomou até a última gota do meu sangue, e me deu um pouco de seu sangue maldito... Mesmo morta, nunca me senti mais viva. No dia seguinte, Fernando foi encontrado sem sangue no corpo, com todas as juntas quebradas... Eu finalmente me senti vingada...”
—... Isso é incrível! Eu sinto mesmo por tudo o que passou.
— Pois é, e acaba aqui. Talvez se tivesse ouvido o que falei estaria te ensinando a caçar nesse momento.
— Eu fiz tudo isso por quem eu amava. Isabela estava preocupada... Ainda deve estar, sumi faz mais de uma semana. Meu maior medo era alguma coisa acontecer com minha mulher ou meu filho... Nem mesmo vou poder vê-lo nascer ou crescer..
— Você ama sua família, não é? — Marcos assentiu. – Também amei muito... Minha mãe, minhas irmãs... Até mesmo meu pai, que fez o que fez comigo. Amei com todo o meu coração Roberto e o filho que não tivemos. No final das contas se acostuma com a perda e a solidão... No teu caso, quem precisa se acostumar são eles.
—Se pudesse escapar eu daria um jeito.
—Mas você não pode... Estamos no Elysium. Nenhum prisioneiro sai daqui com o coração batendo.
—Ainda não é tempo de desistir, Vampira.
—É Mikhaela.
Com um sorriso bobo, Marcos se levantou.
—Prazer, Marcos.
Mikhaela também se levantou.
—Acho que já sei um jeito. Mas precisaremos ser ligeiros. Você quer viver para ir ver tua família, Marcos?
—Eu quero e vou.
Nesse momento, dois vampiros adentraram a cela, cada um pegou um dos prisioneiros e os guiou dali para fora. Mikhaela sorriu ima última para sua progênie. Era o plano perfeito.