Notas iniciais
Essa é a primeira vez que escrevo fanfiction em muito tempo. Qualquer erro seja de português ou na mitologia do Novo Mundo das Trevas, favor, me avisem.


VINICIUS

Vinicius abriu os olhos. Estava em seu quarto, suspirou aliviado após perceber. Foi apenas um pesadelo, afinal. Aquela paisagem distópica distorcida que parecia brincar com a sua mente, aquelas criaturas atormentadoras e aquela enorme torre no meio de tudo, que parecia vigiá-lo a todo instante.

Ele tirou o cobertor de cima do corpo e pôs os pés no chão, fazendo um calafrio percorrer a espinha. Era a primeira noite fria de junho, o corpo ainda não estava acostumado com o frio do inverno. Estava acostumado com calor, visto que em Nova Independência, São Paulo, as temperaturas eram quentes boa parte do ano. Olhou para o canto do quarto, onde a luz da lua cheia iluminava. Ringo, seu vira-latas de estimação, dormia em sua caixa de papelão, encolhido para espantar o frio.

Ele olhou pela janela. A plantação de milho de seu pai estava mirrada, após a péssima colheita daquele ano a família passaria dificuldades para viver. Com um suspiro chateado, o garoto saiu do quarto e foi para o banheiro em passos arrastados. Lá, urinou quase errando o alvo algumas vezes, baixou a tampa do vaso e deu descarga para não acordar ninguém. Se olhou no espelho. O garoto branco, de cabelos louros, lisos na altura do pescoço tinha olheiras profundas sob os olhos azuis . Ultimamente a vida estava sendo muito estudo, muito trabalho, muitos problemas e pouco descanço. As vezes parecia demais pra um garoto de 14 anos. Vini lavou as mãos e voltou pro quarto, no escuro. Esse escuro não era apenas do corredor, mas também de sua mente.

Enquanto passava pelo corredor, tinha a estranha impressão de que todo e qualquer som cessou. Não ouvia o vento soprar lá fora, nem os cupins devorando o assoalho. Passou ao lado do quarto de seus pais e não ouvio nem ao ronco alto de seu pai, o que era um tanto estranho. A porta de seu quarto estava bem a frente, quando tocou a maçaneta, ouviu um baque seco do outro lado. "Mas que merda é essa?" pensou enquanto abria devagar a porta. A medida que a fresta aumentava ele podia ver do outro lado. O lugar que antes estava seu quarto dava lugar para um corredor mal iluminado. Assustado, Vinicius olhou pra trás, e lá estava outro corredor idêntico, sem fim, sem portas e apenas com um fundo escuro. O medo tomou conta do garoto que, apesar disso, sentia alguma coisa atraindo-o para o fim daquele corredor. Ele andou.

O caminho era cheio de curvas, subidas, descidas e em certos pontos, o corredor parecia se retorcer ao redor de si mesmo e ainda assim, aos olhos de Vinicius, o corredor parecia perfeitamente reto, visto que tudo o que ele fazia era andar na mesma direção. Ali, ele ia aos poucos perdendo a sua noção de espaço e de tempo até que uma luz surgiu no fim do corredor. A cada passo, a luz se aproximava mais, seu coração batia mais forte, seu medo ia se intensificando, até que ele a alcançou.
Estava tudo se repetindo. Uma paisagem que se retorcia ante seus olhos, um céu vermelho e terras chamuscadas, ao fundo, ruínas, criaturas disformes, grotescas que atormentavam outras criaturas menores com ferro e fogo. E a torre. No centro de tudo estendia-se aquela torre que parecia um amalgamo de bronze, ferro e mármore negro, que era erguida em uma forma errática e que, no mundo real, seria impossível de se sustentar. Parecia a única coisa constante.

A torre estava chamando-o, um infinito de vozes parecia gritar e sussurrar ao mesmo tempo dentro de sua cabeça, súplica por ajuda, por redenção, ordens conflitantes e muitas informações desconexas que a cada segundo pareciam se unir e fazer algum sentido.

Naquele momento, Vinicius só queria acordar.

O caminho até a torre as vezes existia e as vezes não, ainda as vezes existia e não ao mesmo tempo.

— Ela clama teu nome desde muito tempo antes de sequer existir. Vá até a torre.

Vinicius procurava a fonte daquela voz estrondosa, os olhos já cheio de lágrimas.

— Quem é você? -a voz de Vinicius saiu mais baixo que o esperado- Onde você tá? -seu medo era mostrado em sua voz- Pelo amor de Deus, responda o que é esse lugar e por que eu tô aqui! -agora lágrimas estavam caindo pelo seu rosto.

O garoto finalmente distinguiu algo. A "coisa" que falava com ele não tinha uma forma física definida. Na realidade, era um vórtice no próprio espaço, cuja a voz parecia ecoar diretamente dentro de sua cabeça.

— Eu sou Alastor, e o espaço não me limita como limita a ti. Estou em todos os lugares e em lugar algum. Aqui é o lugar conhecido pelo seu povo como o Pandemônio, o reino dos pesadelos, morada dos demônios. Um dos cinco Reinos Supernos. O Reino regido pelos arcanos do espaço e da mente . Você é um herdeiro da torre do Guante de Ferro. A torre o invocou porque sua alma atingiu o limiar e é hora de trilhar a senda da flagelação e despertar, deixar para trás a mentira e abrir os olhos para o mundo que o cerca. Você conseguirá fazer a realidade se dobrar ante sua vontade. Você será um Mago. — a voz de Alastor ecoava por todo o espaço.

— Do que você está falando? E-eu não entendo nada disso que está falando. -lágrimas enchiam os olhos de Vinicius e seu desespero acelerava seu coração- Eu só quero ir pra casa!

— É você quem decide -respondeu Alastor- Se desistir do seu potencial é só me dar as costas e ir embora. Sua alma adormece outra vez e você nem mesmo lembrará que um dia pisou no Mundo Superno.

— Eu vou.

O garoto deu as costas para a manifestação de Alastor e fez menção de ir embora, mas olhou novamente para a torre do Guante de Ferro, hesitante.

— O que houve? Ainda não se decidiu?

— Eu -houve uma pausa- Não sei. A torre continua me chamando.

A voz de Alastor foi afastando-se.

— Se for sua vontade, responda ao chamado. Faça como os que vieram antes e como os que virão depois.

A manifestação incorporeal sumiu, deixando o garoto com o próprio pensamento. Vinicius pensou em todas suas possibilidades, em consequências e, até mesmo, se tudo aquilo era parte de seu sonho. Então, ele tomou coragem e seguiu adiante pelos Ermos paradoxais do Pandemônio.
A cada passo que trilhava naquela senda, Vinicius sentia o flagelo de cada criatura maldita dali. A pele queimava, faltava-lhe ar, os ossos pareciam querer ceder, mas o chamado soava cada vez mais alto, mais forte no coração dele. O que dava forças para ele era pensar que tudo aquilo era sonho e ele estava no controle da situação. O ermo pelo qual percorria logo se transformava num desfiladeiro imenso que levava a uma escadaria ao pé da torre. O garoto olhou pra cima e viu a torre que sumia aos céus. Ele então tomou fôlego e subiu aquelas escadas.

O caminho era interminável. Conforme avançava, tudo ao seu redor escurecia e das sombras surgiam os tormentadores demoníacos, que tentavam agarrá-lo. O mínimo toque dessas criaturas causava dor insuportável. Vinicius apertou o passo e logo começou a correr, se esquivando, como instinto, enquanto subia as escadas. Alguma das criaturas agarrou seu pulso. A dor era tão insuportável que percebeu que aquilo realmente estava acontecendo. Ele parou e gritou de dor, sentia como se o contato de sua pele com a do demônio fizesse queimar. Ele viu o demônio o segurando o seu pulso, uma criatura alta, de pele vermelha, enrugada e sem pelo algum. Vinicius gritou novamente, a dor estava se intensificando, a cada segundo que se passava ele ficava sem ar e mais fraco. Sua mente estava tão atordoada que a única coisa que ele queria agora era acordar e ver seus pais. Imaginou a cena longe dessa criatura, sua dor havia se transformado em esperança, e foi o que ocorreu. Foi como se o garoto tivesse criado uma barreira intransponível entre eles e o demônio a partir de sua própria vontade. No pulso, onde o demônio o segurou, uma marca foi gravada em sua pele com fogo Ele não parou para admirar sua proeza nem pra examinar a marca. Ele voltou a correr escadas a cima e a voz de Alastor, outra vez, se projetou na cabeça de Vinicius.

— Sua alma está quase despertando garoto. Isso que acabou de fazer é ínfimo se comparado com o verdadeiro despertar. Falta pouco.

— Eu... -agora não era mais medo que invadia sua voz- Vou conseguir -disse, com esperança.
O garoto corria, estava cansado e com dores, mas não iria desistir. Não podia desistir.

As infindáveis escadas finalmente terminaram no planalto sobre o qual fora construída a torre. Lá estava a estrutura que se estendia aos céus. Não havia sequer sinais de portas ou entradas.

—Você conseguiu. Tua alma é digna do poder dos despertos.

Suando em bicas e ofegante, Vinicius olhou para as paredes de mármore negro e viu centenas e mais centenas de entalhes indecifráveis.

—E... Agora? Por onde entro?

— Não deve entrar. Não ainda. Escreva nesses muros o seu nome, assim como os outros fizeram. Você será um Mastigos, como chamavam os atlantes, um bruxo herdeiro da torre do Guante de Ferro, capaz de controlar o espaço, como fez há pouco, e a mente. Distâncias para você serão meros detalhes e a mente e todas as suas nuances serão aos seus olhos um livro aberto pronto para ser lido e modificado a seu bel prazer.

Enquanto Alastor falava, o garoto andava instintivame nte na direção da torre. Entre os muitos entalhes, havia um espaço em vazio. Ele tocou na pedra com a ponta do dedo, e a superfície se desfazia ao seu toque. Ele escreveu então seu nome. No mesmo momento, uma torrente de informações invadia a sua mente. A paisagem do Pandemônio aos poucos se desfazia diante dos seus olhos.
Ouviu pela última vez a voz de Alastor.

—Vá, Mastigos. Dobre o Mundo Decaído sob sua vontade...

E de repente, tudo acabou.