MARCOS
Marcos abriu os olhos. Via o firmamento e as estrelas com seu brilho quase apagado. Ouviu o sino da igreja. Eram 6:00 da manhã. Ele se levantou. Estava inteiro. Não sentia os ossos quebrados, nem as dores dos golpes de Albert. Mas se sentia diferente. Vazio. Olhou para as mãos. Estavam frias. Pálidas. Ele caminhou. O corpo estava pesado. Ou seria ele quem estava sem forças? Ele avistou a sua pistola jogada perto do alambrado. Caminhou com certa dificuldade e a pegou. Guardou na cintura. Quando reencontrasse Albert, enfiaria meia dúzia de balas na cabeça do filho da puta. E a ruiva? Graças a ela estava de pé, seja lá o que fez por ele, tinha dado certo.
Ele caminhou sem rumo alguns segundos... Para onde agora? Pra casa, claro... Isabela estava preocupada, já era pra ele estar em casa...Ela não podia ficar nervosa, faria mal para o bebê. Isso, para a casa. O sino da igreja tocou de novo. Estava na rua Comendador Pimenta. O ônibus pra sua casa passaria ali a qualquer momento... Isso... Casa...
Mais uma vez, o sino tocou. A aurora se iniciou. O primeiro raio solar do dia se projetou sobre as colinas. Seria uma vista linda...
Se aquele raio de sol não incinerasse a pele de Marcos espontaneamente.
Ele urrou de dor, uma dor tão insuportável que por extinto correu para a sombra do prédio, mas a cada segundo o sol vencia as sombras. Outra badalada do sino... A igreja... Ele correu como se não houvesse amanhã.
Saltou por cima do alambrado sem dificuldades e no mesmo momento o sol voltou a lhe castigar. Como nunca na vida, Marcos corria. Aí seu redor, a paisagem se transformava num borrão único, tamanha era a sua velocidade. A praça da igreja logo aparecia as vistas. Aa última badalada, o sol escalava o domo celeste cada vez mais. Marcos ganhou a praça e saltou sobre o telhado da igreja, caindo e espatifando algumas das antigas telhas de barro na calçada abaixo. Mais um salto e ele estava dependurado a janela da torre do sino. Como um roedor fugindo de um gato, Marcos se enfiou entre as tranqueiras empilhadas naquele lugar escuro.
Sua mente estava em transtorno, ele não sabia como administrar tantas informações. "Vadia! O que ela fez comigo? Merda, isso dói! " Marcus não conseguia parar de pensar nos dois que encontrou na madrugada. Seria vampiros?. Cada qual era culpado por seu estado maldito. Eles pagariam. Pode ter certeza que pagariam. Aqueles pensamentos se tornavam distantes. Marcos estava cansado, seu corpo estava pulsando uma certa adrenalina, chagas causadas pela exposição ao sol lhe cobriam o corpo, sentia a pele borbulhar. Mas era impossível lutar contra o sono do dia. Quando o sol subiu, as pálpebras de Marcos desceram, como se seus olhos fossem chumbos. Um rangido. A porta se abriu, inundando o aposento esquecido com luz. Marcos se retraiu. Não queria ser visto naquela condição.
— Não precisa se esconder, sei que está aí, Vampiro. -Marcos o reconheceu. Era seu amigo de longa data. O padre Saulo. -Descanse aqui hoje. A noite só cai em 12 horas. É o bastante para se recuperar...
— Saulo?
O padre adentrou o aposento, agachou-se diante de Marcos espantado por vê-lo.
— Não acredito. Você é o vampiro, amigo? O que te aconteceu?
— É uma longa história. E como VOCÊ sabe o que eu sou? -Rebateu Marcos.
— É outra longa história. -Saulo disse dando de ombros.- Eu estou vendo que está cheio de ódio amigo. A única coisa que quero te dizer é pra ter calma. Não deixa esse ódio te cegar.
Marcos estava lutando para sobreviver a este sono infernal.
— Não me venha com as suas lições de moral. Você não é melhor do que ninguém, só por que é padre!
— Que seja. Apenas pense no que te disse, ou esse ódio vai ser o seu derradeiro fim. Não sei o que te aconteceu, e respeito que não queira me contar. Mas sou seu amigo, não quero que nada de ruim te aconteça.
Ao dizer isso, Saulo levantou e foi embora, fechando a porta atrás de si.
Como o Saulo conhece os vampiros? Eram muitas perguntas. Nenhuma resposta. A única coisa que sabia é que o corpo clamava por seu sono diurno... E ele finalmente adormeceu.

*
Já eram 8 da manhã quando Isabela sentiu falta de seu marido. Era pra ele ter chegado antes das 6.
A mulher estava de 4 meses, a barriga já marcava bem nas roupas. Isabela era uma moça baixa, a pele era branca, mas queimada de sol. Os cabelos eram castanhos claro, quase louros e bem curtos. O coração estava apertado, sentia algo de errado. Já foram-se 40 ligações, e nada de Marcos atender. O pessoal da empresa não tinha nem noticias dele. Estava decidido. Iria ligar pra polícia.
Ela foi até o telefone da cozinha. Quando pôs a mão sobre ele, ele tocou. Esperançosa por noticias do marido, ela trouxe o telefone ao ouvido rapidamente.
— Marcos, querido?
Para a sua surpresa não era Marcos. Entre soluços e gemidos, ela reconheceu a voz de Marta, sua mãe.
— Filha... Filha... Eu... Eu... O seu irmão...
Ouvir a voz da mãe daquela forma lhe apertava cada vez mais o coração. As mãos e os lábios tremiam. Ela esperava agora somente o pior
— Mãe, fala logo! O que aconteceu com o Fred? –ela gritava.
— Filha.. O Fred morreu! -Ao dizer, Marta quebrou-se em prantos, chorando. Seu bem mais valioso fora tirado dela. Seu filho caçula.
Isabela largou o telefone, caiu sentada sobre a cadeira desolada com a notícia. Ela queria saber como, por que, mas ela não conseguia engolir aquilo... Seu irmãozinho? Morto?
Não...
A dor era intensa, ela sentia seu coração sendo contraído, apertando-se. Sua respiração estava fraca, sua cabeça começou a girar, e seus olhos a perderem foco.
— Isabela? Você tá me ouvindo!? Isabela?!- Marta quase gritava ao telefone, mas não havia resposta...

*
"Acorda, Marcos! "
O vampiro despertou de uma vez, erguendo-se em prontidão. Era noite. Ainda estava na velha torre do sino.
Isabela. Podia jurar que ouviu a voz de sua amada.
Já não sentia mais as borbulhas sobre o corpo, embora o vazio dentro de si só parecesse piorar.
Sua visão desfocada captou uma silhueta naquela escuridão. Um cheiro familiar. Era ela. Ela voltou. Vestia-se como na noite passada. Nada o faria esquecer daqueles olhos.
— Achei que nunca fosse acordar, Vampiro. Não que eu estivesse com pressa. Agora temos toda a eternidade pela frente.
— Você me fez um de vocês... Me amaldiçoou!
— Era a morte em vida ou morrer de verdade. Não tínhamos escolha. _ Replicava a ruiva com uma frieza assustadora.
— Eu não queria isso! Como vou explicar uma merda dessas pra minha esposa? Ela tá grávida, deve estar morrendo de preocupações! Isso se o Saulo não tiver avisado a ela.
— Não deve! Eu estou aqui justamente para te falar sobre isso. Nós vampiros somos uma família. Uma família com tradições. Primeira tradição: a máscara. Jamais devemos revelar nossa existência maldita aos mortais. Somos poderosos na noite, mas eles são numerosos demais e tem o sol a seu favor.
— Mas de que merda você...
Fechando o semblante, ela prosseguiu num tom mais inflamado.
— SEGUNDA Tradição: a progênie. Eu sou a tua progenitora. Você é minha progênie. Eu sou responsável por você até que conquiste a sua independência. Portanto, não saia por aí feito um louco.
— Olha, quer saber? Fodam-se suas tradições. Eu não pedi para fazer parte dessa merda. -Ele foi andando, abriu a portinhola da janela e subiu no parapeito. A ruiva estava atônita com aquela progênie abusada.- Eu já te disse. Minha esposa está grávida. Não vou deixá-la sofrendo pensando que estou morto.
— Idiota! Se você quer se matar, se mate sozinho, não me arraste para o inferno com você. Se derrubar a máscara, a família toda virá atrás de você e de mim por consequência.
Marcos antes de saltar, mostrou a ela o dedo do meio.
Eles não ligava para essas leis idiotas de vampiros. Ele estava pronto para enfrentar o que fosse para o bem de sua amada. Ele estava pronto até mesmo para matar.