VINICIUS

Finalmente uma nova semana. Para Vinicius era difícil de acreditar que aquilo tudo era passado. Tomou seu banho quente aproveitando que a mãe e a irmã saíram mais cedo. Escolheu sua roupa preferida para o frio. Vestiu um jeans Grosso e calçou um tênis tipo botinha. Colocou o uniforme branco da E. M. Antônio Carlos Amorim, escola nomeada em homenagem ao homem que no passado fora um dos abolicionistas mais importantes da região de Nova Independência.

Por cima do conjunto, um moletom preto de zíper. Jogou a mochila nas costas, e saiu do quarto. O pai estava na sala assistindo o noticiário matinal.
Roberto era um homem alto, a pele que um dia foi branca hoje tendia ao pardo por anos de trabalho ao sol. Tinha cabelos escuros como os da filha, porém curtos e despenteados. Os traços lembravam os de Vinicius. Parecia absorto em alguma coisa e decerto não era no noticiário. Era evidente a mudança no homem desde que a situação se inclinou ao pior.

— Pai? Eu... Tô indo para a escola... Te vejo mais tarde?

Roberto meneou a cabeça.

— Claro que sim, vai com Deus, meu filho.

Sem dizer mais nada, o garoto saiu. Botou os fones de ouvido e caminhou alguns minutos ao ponto de ônibus ao som de David Guetta, CPM 22 e pagodes antigos, uma mistura nada ortodoxa. No ponto reconheceu a distância seu melhor amigo.

Um garoto rechonchudo, de cabelos crespos cortados baixos. Era moreno e assim como Vinicius usava o uniforme coberto por camadas de roupas grossas.

— E aí?

— E aí!

— Beleza?

— Beleza, e você?

— Beleza...

— Cê viu o jogo ontem, cara? Luizinho meteu três gols no desportivo. Massacrou.

— Ih, cara, não tô nem afim de falar de jogo. O final de semana foi uma merda. Você tá morando em que mundo? Não ficou sabendo de toda a merda que aconteceu na cidade sábado e domingo?

— A coisa do bicho e o redevu no velório? Fiquei sabendo sim, mas e daí? Ouvi dizer que já mataram o bicho lá perto de Cristalina. Um puta cachorro do mato enorme. Da até pra entender como derrubou um posto.

— Ah, vai dormir moleque.. -Vinicius ergueu o braço sinalizando ao ônibus.

Eles subiram no ônibus e foram direto para o fundo após pagar a passagem com seus passes escolares. Aquela hora da manhã o ônibus estava começando a lotar, o pessoal que morava no campo ia trabalhar e estudar, logo no meio do trajeto o coletivo estaria cheio.

*

No portão da escola, encontraram os amigos do grupelho. Para Vinicius, parecia que fazia um século desde que os viram. Eram em seis no total. Felipe, o centro do grupo, que apesar de ser do "grupo dos nerds" ainda assim conquistava a amizade de qualquer um. Philippe, vulgo "PH" era o que conseguia reunir todos os estereótipos de um nerd desde aparência até a inaptidão para com o sexo oposto. Carol era a única garota no grupo, talvez a única na escola com aqueles interesses, os garotos a adoravam. O último elemento, após contar Vinicius e Eric, era Fábio, que de uns tempos para cá ficava cada vez mais avulso do grupo.

Felipe chegou abraçando e fazendo um cafuné em Vinicius.

— E aí, seu puto! Que cara é essa? É segunda feira ainda!

— Sai fora! Acha que tô com essa cara porque?

Felipe o soltou, rindo do mal humor do garoto.

— Tô vendo. Não esquece da prova hoje, eu e você hein!

Dito isso ele desceu as escadas para a sala de aula. Era o primeiro ano B. Vinicius se afastou do grupo pra ir tomar água antes de descer pra sala de aula. Ouviu aquela voz doce e melodiosa:

— Oi Vinicius! Posso te chamar de Vinnie?

Ele se virou para ver a garota. Era Luana, do terceiro ano. A garota era baixinha, morena de pele clara, os cabelos com mechas loiras e era voluptuosa em suas curvas. Tinha um sorriso enorme aberto para o garoto. Borboletas translúcidas contornavam seu corpo em trajetórias erráticas. Era uma maga. Um milhão de perguntas se passaram pela cabeça dele, sentiu a palma da mão suar, as pupilas dilataram e ele engoliu em seco sonoramente antes de finalmente conseguiu perguntar:

— Co...Como sabe meu nome?

Ela aumentou o sorriso, seu tom sempre meigo.

— Você quem vai me dizer.

*

Vinicius passou algumas horas de dúvida durante a aula. Luana marcou de encontrar-se com ela atrás da caixa d’agua, famoso ponto de encontro para namoricos após a aula. Era isso que ela queria? O sinal do intervalo soou e ele foi direto para lá. Não dava pra negar. As pernas tremiam, estava Suando frio. Um embrulho no estômago. Nunca tinha beijado na boca antes. E o pior é que nem sabia se era isso mesmo que ela queria. Era uma maga. Viu seu nimbus se manifestando.

— Oi!

A voz da garota o tirou do transe em que estava. Sorrindo da melhor forma que podia, Vinicius respondeu.

— Oi... Luana, né?

— Descobriu isso lendo a minha mente ou o que, senhor Bruxo?

— Não, eu não fiz nada disso... Eu já te vi antes, só isso. -sua voz soava insegurança.

— E gostou? -Ela perguntou sentando-se sobre a mureta que ladeava a caixa d’agua.

— Gostei de que?

— Do que viu... De mim.

Corado ele apenas meneou a cabeça positivamente. O nervosismo de seu corpo começou a suavizar-se.

— Você é... Bonita... -disse tímido.

— Ownt... Fica tão fofinho quando está com vergonha, Vinnie.

— Achei que tivesse me chamado para falar de... Você sabe... Magia.

— Ah, pode ser... Mas pra que desperdiçar a oportunidade?
— O que você é? Quer dizer... Qual a tua senda?
—Sou uma Acanthus, Vinnie. Eu despertei para a torre do Espinho Lunargênteo. Eu controlo o tempo e a sorte. Sou uma encantadora. Você? Um Mastigos, não é?
—Isso. E o que encontrou lá?
—Eu fui pra Arcádia. É a morada das fadas. É um lugar lindo! As montanhas se erguem e somem diante dos olhos. Tempestades do tamanho de continentes se formam num piscar de olhos. E as fadas... Elas são lindas. _Ela falava com paixão, como se sentisse falta de sua visita ao mundo Superno.
—Hum, parece mesmo um lugar incrível. Eu estive no Pandemônio e... Bem... Era o inferno. E... Você conhece mais gente como nós?
—Magos? Claro. Meu pai é um Mago... E tem o pessoal do concilio de Nova Independência. Tem bastante gente... Umas 100 pessoas eu acho. Até mais.
—Ah então no seu caso é de família. Eu nem sei como vim parar nisso.
—De família? Eu não digo isso. É só um jogo de sorte. _ Ela sorri, era evidente que adorava essa palavra: sorte.
—Mesmo assim... Além de você só conheço mais uma pessoa e... Nem sei se dá pra confiar nela.
—Pode confiar em mim, se quiser... -com um sorriso lascivo a colegial ddu uma piscadela. Eram óbvias suas intenções.
O coração de Vinicius começou a bater mais forte, sua mão estava suada e o frio foi substituído por um calor estranho. Ele sentia suas bochechas queimarem de vergonha. Luana desceu da mureta e encurralou Vinicius contra a parede. Era divertido para ela ver as reações do garoto. Juntou o corpo ao dele. O beijou ternamente. Vinicius demorou um pouco para pegar o jeito, mas com facilidade entendeu como funcionava. Tudo estava intenso. Era o primeiro beijo. Um beijo que jamais esqueceria. A garota disse que era uma encantadora. Pôs foi o que fez com ele... O encantou.