Um Sorriso, Uma Tela e Um Lírio.
1 Vai ficar tudo bem.
Um sorriso, uma tela e um lírio.
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Era quase seis horas, um belo final de tarde, completamente escurecido. Um vento fraco bateu no meu rosto enquanto eu caminhava de volta para casa. Encolhi-me dentro do meu casaco cor-de-rosa e escondi minhas mãos em seus bolsos. O tempo estava virando depois de dias consecutivos de um inferno de calor.
“Finalmente” Pensei sorrindo. Mais uma brisa passou e carregou com ela meus cabelos claros e repicados. O barulho das ondas quebrando me fez parar e encarar a praia. A figura solitária de um homem sentado na areia segurando um lírio fez um quadro na minha mente. “Uma tela e um pouco de tinta agora... Realmente uma pena” Um sorriso travesso surgiu e dei de ombros seguindo meu caminho.
As nuvens pesadas encobriam o caminho formando uma névoa densa. Alguns postes ainda não estavam acessos e aqueles poucos que estavam mal conseguiam uma iluminação decente. Só suspirei e continuei.
O vento estava estagnado. Não conseguia enxergar muito a minha frente, mas tinha noção de onde estava. Em questão de minutos eu chegaria à ponte que atravessava o canal que divida o bairro em que eu estava do meu.
O som da onda batendo nas pedras da ponte estava cada vez mais próximo. Não aumentei e nem diminui o passo, mesmo com a estranha sensação que estava me tomando. Respirei fundo repetindo como um mantra em minha cabeça que estava tudo bem. Levei minha mão ao peito e esperei me acalmar. Meu coração desacelerou e eu expirei em profundo alívio.
Segui meu rumo. A ponte estava mais perto. Eu já podia enxergar o início dela, graças à iluminação de um poste. Ao lado, uma sombra mais alta que eu, certamente de um homem.
A inquietação voltou, mas eu a ignorei. Avancei tranquilamente. A cada passo mais próximo meu peito parecia apertar e se contorcer. “Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem...” eu repetia mentalmente. Passei pela figura do homem e olhei de soslaio para seu rosto. Era lindo: olhos puxados, boca carnuda e arredondada e seus cabelos escuros e repicados caindo em franja sobre sua testa. Eu perdi o ar quando ele sorriu para mim e me puxou pelo braço recostando-me na mureta de preta que tava o início da construção daquela ponte secular.
“Não se preocupe, vai ficar tudo bem” A respiração dele, quente na minha orelha me fez perder levemente os sentidos e me fez confiar na certeza de suas palavras. Os dedos dele passeando suavemente pelas minhas costas fez um arrepio de prazer tomar o meu corpo. Seu rosto se aproximou do meu a ponto de nossas respirações se misturarem. Semicerrei os olhos, completamente entregue, fora do meu estado habitual. Ele sorriu e se aproximou. Nossos lábios se tocaram timidamente e depois disso, minha visão escureceu. Minha última lembrança era de seu olhar de desespero enquanto caía em seus braços.
Quando acordei a primeira visão que tive foi do negrume do céu pontilhado de estrelas. A neblina havia sumido e eu não fazia idéia de quanto tempo estava ali. De repente, a lembrança daqueles olhos voltou a minha cabeça e tateei cegamente em todo meu corpo. Eu estava inteira, e bem. Minha cabeça doía, mas só. Nada estava fora do lugar.
Me levantei do chão de pedra e arrumei minhas roupas, agora sujas de terra. Me virei para limpar a parte de trás da calça quando vi algo que me chamou atenção.
Um lírio.
Tomei e a flor em mãos e sorri.
“Sim, realmente vai ficar tudo bem.”
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