Um Sonho Inesperado
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Não quis apressar as coisas, mas também não quis voltar atrás.
Vou aproveitar a evolução aos poucos.
E por favor, caso não gostem do diálogo me avisem, eu realmente preciso saber se sirvo pra isso ou se meu negócio são só os momentos de tensão.
Enjoy!
Embora eu tenha crescido acreditando que podia controlar quando e como as coisas aconteciam na minha vida, a cada dia aprendia que não é possível prever como tudo vai começar ou terminar.
Eu nunca imaginei como aquela noite que tinha tudo para ser completamente entediante e sem graça acabaria.
Christopher tentava ser gentil, ele até conseguia.
Abriu a porta do carro para mim, me elogiou a maior parte do tempo, e quando isso me irritou foi que eu tive certeza de que realmente nada poderia existir entre nós dois.
Me levou a um belo restaurante de comida italiana, e esse era apenas mais um dos motivos pelos quais eu detestava surpresas. Claro que esse tipo de culinária me agradava, mas não era minha preferida. Ele saberia disso se ao menos se esforçasse para me conhecer melhor.
Eu não fazia ideia do porque havia aceitado aquele convite, primeiro me convenci de que era para esquecer a possibilidade de que Jane sentisse algo por mim, mas depois vi que havia me enganado. Eu queria provocá-la, e isso porque o incomodo que a interação de Christopher comigo causava a ela, era totalmente perceptível.
Mas ali naquele lugar, com ele em frente a mim, dizendo tantas coisas para as quais eu não conseguia dar muita atenção, foi que finalmente entendi que me aventurar em encontros sem sentido não iria ajudar em nada.
Resolvi ser o mais educada possível, interagir gentilmente com os assuntos que ele criava.
Tudo ia dar certo.
Então ele fez um movimento pelo qual eu não esperava, uma aproximação que eu não queria que acontecesse, mas quando notei já estava com o rosto muito perto do meu.
Eu o teria afastado, mas não tive tempo, pois tudo aconteceu muito rápido.
Um beijo apertado, sem reação.
Eu não conseguia corresponder.
Aos nos separarmos me preparei para repreendê-lo por tal atitude, mas ao olhar rapidamente pela vidraça vi uma figura feminina, alta, cabelos escuros e olhando na minha direção: era Jane.
Não pude controlar minha expressão facial, já que não sabia como reagir aquilo.
Ela me olhava de um jeito tão estranho, estávamos tão perto, separadas apenas por aquela vidraça, mas eu conseguia ver perfeitamente seus olhos marejados.
Será que ela viu o beijo?
O que eu poderia fazer?
Então ela virou as costas e saiu andando, até desaparecer da minha visão.
Eu tinha que fazer alguma coisa, Jane não iria até ali apenas por capricho.
Ela queria me dizer algo, mas o que?
Dei um jeito de sair do restaurante e fui atrás dela.
O que aconteceu em seguida foram uma série de frases que levaram ao ponto alto da noite: um beijo na chuva.
Eu não podia deixar que ela fosse embora assim, não depois de como havia me olhado, não depois do que quase me disse.
Mas eu não tinha certeza se ela diria o que eu queria que dissesse, então fiz a única coisa que podia para tirar a prova: eu agi.
Nossos lábios em contato eram tão bons, eu me sentia confortável e feliz.
Ela não me repudiou, não me afastou, não me recriminou por beijá-la. Ao invés disso retribuiu cada gesto, cada toque, cada movimento.
Em outra ocasião eu teria reclamado do que a chuva faria para o meu vestido, mas não me importei naquela noite.
Como todo ser humano, em um determinado momento ansiamos por ar, e nos separamos.
Eu sorri ao ver a confusão nos olhos de Jane, ela não esperava que eu fizesse aquilo, na verdade nem eu esperava, mas arrependimento foi uma coisa que não me ocorreu ao notar como ela tinha me correspondido.
Seu cabelo estava encharcado, assim como seu rosto e roupas. Olhei rapidamente para minha mesma e vi que minha situação era bem parecida.
Após alguns segundos, o silêncio foi rompido, mas não por mim.
– Por quê fez isso? — sem raiva, sem arrependimento, apenas curiosidade.
Mas será que já não tinha ficado óbvio?
– Porque foi o que eu tive e ainda tenho vontade de fazer.
Minha sinceridade surtiu efeito sobre ela, que me olhou com surpresa.
– Então vocês quis me beijar?
– Quis.
– Mas amigas não beijam amigas na boca.
– E amigas não sentem o ciúme que você sentiu também.
– Eu não senti ciúmes!
– Assim como eu não posso mentir por causa da urticária, você não pode porque eu te conheço.
– Ah... — semicerrou os olhos e se deu por vencida – Ok.
– Precisamos conversar.
– É, eu sei. Mas não aqui no meio da rua e nessa chuva.
– Verdade, eu não me sentira bem com isso.
– Nem eu. — olhou para minha roupa – Vamos?
– Claro.
Andamos apressadamente até o carro de Jane, que estava poucos metros a frente.
Me preparei para abrir a porta, mas lembrei de algo:
– Não podemos Jane, estamos molhadas.
Ela sorriu.
– Depois eu seco, entre.
E foi o que fiz.
Paramos em um sinal vermelho.
– Puxa, seu vestido está ensopado. — ela disse.
– Eu não me importo.
– Não?
– Eu não tive tempo para me preocupar com detalhes, só precisava falar com você.
– E o Buckmann? Gostou de saber que você saiu correndo por minha causa?
O sinal abriu.
– Eu disse que ia ao banheiro.
– Você mentiu?
– Não, porque o banheiro ficava um pouco antes da entrada do restaurante, eu passei por lá e fui em direção à saída.
– Bem pensado. Mas espera, tudo isso pra evitar urticária?
– Não seria nenhum pouco atrativo se eu passasse mal na sua frente, concorda?
– É, acho que sim. — suspirou – Mas só de saber que aquele idiota vai ficar plantado esperando por você, já garante o meu bom humor por um bom tempo.
Nós rimos e o silêncio se estabeleceu pelo resto do caminho.
Mas era um tipo bom de silêncio, não daqueles constrangedores, e sim dos agradáveis.
Alguns minutos e já estávamos na rua de Jane, ela estacionou o carro e descemos.
Ao abrir a porta do apartamento Jo Friday começou a pular e latir, e logo recebeu sua dose de atenção e carinho pela qual tanto esperava.
Coloquei minha pequena bolsa na mesinha ao lado do sofá e me sentei nele.
– Quer beber alguma coisa?
– O que você tem?
– Cerveja.
– Oh não, obrigada.
– Está bem, só uma pra mim então.
– Cuidado Jane, pretendo falar com você, mas isso só se estiver sóbria.
– Eu vou estar Maura. Não é só porque perdi o controle uma vez que vai acontecer em todas.
– Desculpe mas tenho que discordar.
Ela parou na minha frente com a cerveja na mão.
– Baseado em que?
– Na última vez, na minha casa.
– Ah é, mas aquilo foi meio de propósito. — sentou ao meu lado.
– Como assim de propósito?
– Ok, antes de mais nada preciso saber o tipo de conversa que vamos ter aqui. Quer dizer, do tipo sincera e aberta?
– Sim.
– E quem começa?
– Você já começou.
– Certo... — tomou um gole – Aquela noite na sua casa acho que eu posso dizer que estava bebendo por motivos específicos.
– Como o que?
– Como tentar...
– Tentar...?
– Ficar perto de você.
– Eu não entendi. Você bebeu pra conseguir ficar perto de mim? — ela assentiu – E o que há de errado com a minha companhia?
– Nada! Nada ruim eu quero dizer. O problema era comigo, eu que não conseguia estar perto de você, ou melhor, eu não sabia o que eu seria capaz de fazer então achei que bebendo poderia melhorar as coisas.
– Quando você diz que não sabia o que era capaz de fazer, o que exatamente está sugerindo?
– Sinceramente? — confirmei para ela – Eu tive medo de perder o controle e acabar... — gesticulou na minha direção e depois na dela repetidamente – Você sabe...
– Me beijando? — ela assentiu e eu ri.
– O que é tão engraçado?
– Quer dizer que durante todo esse tempo que você tem agido estranhamente é por minha causa?
– Basicamente sim.
– Não me venha com basicamente, quero uma resposta digna.
– Ok, sim! Sim! Eu fiquei estranha por sua causa! Feliz agora?
– Sim, mas vou ficar mais se você continuar falando.
– Não tem muito mais o que falar. Você já sabe praticamente tudo, só não sabia que girava em torno de você.
– Eu suspeitei.
Ela me olhou com surpresa.
– E por quê não disse nada?
– Porque tive medo de estar enganada, e além do mais não costumo ceder a palpites.
– Claro.
Uma pergunta que naquele instante não fazia muito sentido, mas eu tinha que fazer:
– Enquanto a mulher de quem você tem falado...
– Sério? Você suspeitou de tudo, menos disso?
– Então...?
– É você Maura. — levantou em foi em direção a cozinha.
Fui atrás dela.
– Eu suspeitei disso também.
– Então por quê perguntou?
– Porque queria te ouvir dizer.
Eu sorri e ela fez o mesmo, mas depois parou e assumiu uma expressão séria e preocupada.
– Isso não é normal.
– O que?
– Nós.
– Por quê?
– Porque somos amigas e amigas não...
– Você fala isso porque somos mulheres, se eu fosse um homem aceitaria perfeitamente a ideia de se apaixonar por mim depois de tantos anos de amizade.
– Eu não tenho preconceito Maura.
– Eu sei, mas é diferente quando se trata de você e não dos outros.
– Talvez seja isso. — se apoiou no balcão – Eu só não quero fazer nada do que eu vá me arrepender depois.
– Você disse que eu não fazia ideia de pelo que estava passando, certo? — ela assentiu – Então me conte.
– Contar?
– É, diga como tem sido pra você.
– Não.
– Sou eu Jane, ainda sou sua melhor amiga.
– É mas eu te beijei hoje, e isso muda um pouco as coisas.
– Tem razão, desculpe.
– Não se desculpe, você não fez nada de errado, eu só... — abaixou a cabeça.
Então eu tive uma ideia, não sabia se daria certo, mas não custava nada tentar.
– Ok, vamos fazer assim: você gostou de ver o Christopher me beijando?
Olhou para mim e seus músculos faciais se enrijeceram, claramente reagindo a lembrança do que havia visto mais cedo.
– Ah claro, tanto quanto gosto quando algum suspeito me acerta na cabeça. — desviou a atenção para algum ponto atrás de mim.
– Isso é um não?
– É, definitivamente é um não.
– Ótimo, e você gostou de me beijar? — um sorriso sexy, sim, eu fiz aquilo com toda a naturalidade.
– Precisa mesmo de uma resposta?
– Sim, eu preciso.
Alguns segundos e ela sorriu.
– Gostei.
– Quanto?
– Maura...
– Só responda.
– Muito, eu gostei muito.
– Certo, e você prefere ficar com a lembrança da cena em que sou beijada por outra pessoa, ou criar suas próprias lembranças comigo?
– A segunda opção me parece muito melhor.
– Só parece?
– Não, ela é mesmo melhor. — deu a volta e parou ao meu lado.
– Isso é tudo do que precisamos, ao menos por agora.
– Como assim?
– Podemos tratar dos assuntos mais sérios depois, hoje vamos apenas aproveitar.
– Aproveitar?
– Sim, começando por um filme. — voltei para o sofá – Ah, você pode escolher.
– Obrigada por me conceder esse direito. — disse sorrindo e se aproximando da estante para procurar por um DVD.
Escolheu um filme de ação que na verdade não fez muito sentido para mim, já que boa parte das cenas eram claramente produzidas por efeitos especiais de péssima qualidade.
Mas eu não reclamei, já que a companhia era ótima.
O fim do filme foi chegando e assim que terminou, o silêncio reinou no apartamento.
Jane havia pegado um pequeno cobertor um pouco antes mas quando olhei ela já tinha retirado a peça de cima de sua pernas, indicando que o frio havia passado.
Fitou a janela com muita insistência, e eu aproveitei para observá-la.
Sua respiração estava mais pesada, mordia o lábio inferior várias vezes, fechava os olhos por alguns segundos para então abri-los.
Não era necessário ser muito inteligente para decifrar o que aqueles gestos significavam.
Eu sabia que ela ainda estava confusa, mas também sabia que os sentimentos de atração e até mesmo paixão eram mútuos. Pois caso contrário, ela não teria me beijado de volta como havia feito.
Um beijo, um único beijo e eu não conseguia parar de pensar nisso.
Me olhou disfarçadamente para então fingir distração de novo.
Sim, eu logo entendi o que aquilo queria dizer:
– Você quer me beijar não quer?
Virou lentamente para mim.
– O que te fazer pensar isso?
– O seu corpo e os vários sinais que estão enviando, como o nervosismo, ansiedade e dificuldade para manter contato visual comigo. Isso devido ao que...
– Sim, eu quero. — interrompeu – Pronto? Pode parar de falar desenfreadamente agora?
– Posso. Mas eu não precisaria falar se você simplesmente admitisse que quer repetir o que fizemos hoje.
– Não é tão fácil pra mim.
– E não vai ser, a menos que enfrente e se acostume com a ideia de sentir desejo por mim.
– Maura!
– O que?
– Você é sincera demais às vezes.
– Não vejo como esse pode ser um ponto negativo.
– E não é, só...
– Me beije.
– Como é?
– Você me ouviu, me beije.
– Mas e...
– E o que? — sem resposta e eu decidi arriscar algo – Ok, está óbvio que me enganei, você não deve ser mesmo do tipo que toma a iniciativa.
Levantei, mas não pretendia ir embora, eu só queria ver até onde aquilo iria chegar.
Jane não gostava de ser desafiada, e aquilo fez com que se sentisse assim.
Segurou minha mão e me puxou de volta, eu caí ao seu lado no sofá.
– Ah mas eu sou! — afirmou ainda me segurando.
– Então me mostre.
– É pra já!
Nem se tentasse eu conseguiria imaginar que o próximo movimento de Jane seria tão intenso.
Se aproximou rapidamente, puxou meu corpo contra o dela e me beijou.
Eu sorri contra seus lábios e ela gemeu, coloquei uma mão no cabelo dela e a outra no pescoço e logo seus braços estavam em volta da minha cintura, em um aperto deliciosamente estimulante.
Abri mais os lábios para permitir total acesso e não me arrependi, já que a sensação da língua dela entrando em contato com a minha foi ainda melhor do que na primeira vez, debaixo daquela chuva.
Ela me empurrou suavemente contra a ponta do sofá e se colocou sobre mim, eu a deixei guiar a situação sem o menor problema, tudo parecia tão natural e forte, me opor aqueles gestos não era uma opção.
Liberava meus lábios por menos de um segundo para então retomar os beijos com ainda mais pressa.
Voltou a atenção sobre o meu pescoço, depositando vários beijos em pontos que eu nem sabia que podiam mexer tanto comigo.
Desci minha mão pelas costas dela, massageando suavemente a pele por cima da camiseta.
– Ainda bem... — colocou um beijo molhado na minha clavícula – Que viemos pra cá... — mais um do outro lado – Ao invés da sua casa... — subiu até perto do meu queixo – Porque eu certamente não poderia fazer isso... — beijou um ponto sensível perto da minha orelha – Com a minha mãe por perto.
Angela!
Como pude esquecer?
Coloquei as mãos nos ombros de Jane e enrijeci meu corpo.
Ela percebeu a mudança repentina e levantou a cabeça para olhar nos meus olhos.
– O que foi? Não gostou?
– Não é isso, você falou da sua mãe e eu...
– Estraguei tudo não é?
– Eu só fico insegura pela reação dela Jane.
– Ah, é isso. — sorriu – Pode relaxar.
Ainda estávamos na mesma posição e eu me surpreendi com como parecia confortável.
– Como assim?
– Eu falei com ela.
– E...?
– E que nós não estaríamos aqui se não fosse por ela.
– Ainda não entendi.
– Ela praticamente me expulsou da sua casa e mandou que eu arrumasse um jeito de falar com você antes que fosse tarde demais.
– Está brincando?
– Nunca falei tão sério.
Mais uma surpresa no meio do percurso.
Por quê será que eu ainda não conseguia me acostumar?
– Isso é bom.
– Não é o que a sua expressão está dizendo.
– Eu só não esperava que fosse ser assim tão fácil, pelo menos não essa parte.
– E eu não esperava terminar esse dia deitada em cima de você no meu sofá, então...
– Ok, ah, onde a gente parou mesmo?
– Deixa eu ver... — abaixou e afastou meu cabelo do pescoço – Acho que eu estava fazendo isso — beijou o lóbulo da minha orelha – Mas posso voltar pra cá se você preferir.
Dito isso nossos lábios se tocaram outra vez, nessa com ainda mais urgência e necessidade.
Não houve tempo para tomar fôlego, era como se fossemos feitas exatamente para aquilo.
Sempre entendendo o movimento seguinte da outra e se adaptando a ele.
Amigas são assim, conhecem uma a outra e isso ajuda em momentos como esse.
Eu sabia que precisava retribuir as carícias de Jane de alguma forma, então passei minha mão pelas costas dela até chegar ao fim da blusa, por onde passei minha mão até entrar em contato com a pele dela.
Subi delicadamente passando as unhas com suavidade até chegar no fecho do sutiã.
De repente o peso do corpo dela em cima de mim desapareceu e eu procurei entender o que havia acontecido, vendo Jane se ajeitar na outra extremidade do sofá.
– Eu não posso, sinto muito. — disse passando a mão pelo cabelo.
Me ergui e voltei a ficar sentada.
– Não pode o que?
– Ir tão longe... Não ainda.
– Tudo bem.
– Mesmo?
– Claro Jane, eu não vim até aqui esperando por sexo.
– Mas a gente quase...
– Disse bem, quase. Não aconteceu, e quando acontecer eu quero que você tenha plena certeza do que está fazendo.
– Então, você não está chateada?
– Não. Eu posso perfeitamente esperar. E além do mais, já que não chegaremos às vias de fato durante um tempo, podemos explorar melhor outras áreas.
– Quais por exemplo?
– Os beijos.
– Explique melhor.
– Já que não teremos sexo, beijar é a melhor forma de aliviar a tensão sexual.
– Eu acho que isso só aumentaria a tensão na verdade.
– Eu discordo.
– Ok, vamos ficar nisso até quando?
– Eu estava esperando você me silenciar com um beijo, mas tudo bem.
Nós rimos.
– Eu posso fazer isso.
– Pode?
– Ahaam.
Se aproximou e provou que realmente podia.
O tempo foi passando, a noite avançando, olhei no relógio que ficava na parede e vi que já era quase meia-noite.
Jane e eu estávamos sentadas no sofá vendo um documentário, ela com a mão levemente posicionada sobre a minha coxa e eu não me lembrava de ter me sentido tão confortável antes.
Embora boa parte de mim quisesse ficar ali, a outra sabia que já era tarde.
– É melhor eu ir pra casa.
– O que? Não! Se for por causa da minha mãe não se preocupe, ela deve saber que a gente tinha muito o que conversar.
– Não é isso. Eu ainda tenho que trocar essa roupa, porque embora esteja quase seca, ainda me sinto um pouco incomodada.
–É, eu tinha esquecido disso. A minha ainda está molhada também.
Eu levantei.
– Será que molhamos o sofá? Eu nem tinha pensado nisso.
– Não, tudo bem. Eu arrumo depois.
– Tem certeza?
– Tenho.
– Ok. — peguei minha bolsa.
– Deixa eu só achar a chave do meu carro e eu te deixo em casa. — levantou.
– Não precisa.
– Está tarde.
– Eu chamo um táxi.
– Não sei...
– Eu vou ficar bem.
Assentiu.
Fomos até a porta, Jane a abriu para mim.
Eu estava na linha que dividia o corredor com o apartamento.
– Esse é aquele momento em que eu te dou um beijo de boa noite como se fosse a coisa mais normal do mundo?
– É, mas isso só se for o que você quer fazer.
– Ah... Bom, então nesse caso...
Passou um braço em volta da minha cintura e me puxou para perto.
– É o que quer? — perguntei.
– Com certeza.
Um beijo trocado ali, onde podíamos ser vistas por qualquer um a qualquer momento.
Jane e suas atitudes inesperadas e impulsivas, sempre me pegando de surpresa.
Ao nos separarmos eu me despedi.
– Até amanhã. — virei e comecei a andar.
Essas duas simples palavras fizeram com que eu sentisse a mão dela sobre o meu braço, me impedindo de continuar.
– Agora que você falou... — estava de frente para mim – O que nós vamos fazer?
– Como é?
– Amanhã. Sabe, depois do que fizemos e dissemos aqui, as coisas podem ficar um pouco diferentes.
Sim, ela tinha razão.
– Eu sei, mas vamos fazer o que sempre fizemos.
– Explique.
– Apesar de tudo, ainda somos amigas, certo?
– Sim.
– Então pronto. Vamos agir como amigas agem, não será difícil. — sorri e retomei meu caminho.
Mas o que ouvi me fez estremecer por dentro.
– Isso se eu conseguir manter minhas mãos longe de você.
Ela certamente não pretendia dizer aquilo em voz alta, mas pensando bem foi melhor assim.
Pois eu sabia que aquelas palavras me garantiriam um sorriso no rosto durante todo o trajeto para casa.
Ela realmente considerava ser difícil não querer me tocar.
Quando foi que algo tão simples me deixou tão feliz antes?
Nós trabalharíamos juntas e tentaríamos seguir com nossas rotinas normalmente, mas seria muito divertido ver Jane tentando se controlar.
O que mudaria?
Eu mal podia esperar o dia amanhecer para descobrir.
Continua...
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