Os últimos dois dias da minha vida foi um verdadeiro inferno. Primeiro, descubro que minha namorada está me traindo. Quando eu já estava sofrendo por causa disso, um senhor barbudo e gorducho bate na porta da minha casa e avisa que meu pai sofreu um acidente de carro e está gravemente ferido.

Como se isso já não fosse o suficiente, em uma das rotineiras consultas ao médico minha mãe descobre que está com um tumor nas mamas e foi fazer um raio-x. Minha cabeça estava tão entorpecida por tanta tristeza, que nem dor eu sentia mais. Era algo acima disso.

Me sentei em um banco que ficava na varanda de casa, e olhei os poucos carros que eventualmente passavam pela rua. Um jogo que eu fazia quando estava triste era contar qual cor de carros mais passava em um determinado tempo.

Mas nesse dia eu não estava prestando atenção nisso. Apoiei minha cabeça sobre os meus joelhos e fiquei choramingando por um bom tempo. Tristeza e sentimento de injustiça. Tristeza por eu possivelmente perder minha família. Injustiça porque isso aconteceu logo comigo, uma pessoa que nunca fez nada de errado.

Sinto uma mão tocando meus ombros e levanto minha cabeça para ver quem era. Era uma menina que eu nunca sequer tinha visto na vida. Ela tinha longos cabelos loiros que lhe caia até um pouco acima da cintura, com olhos verdes penetrantes e cheios de vida. Usava uma simples regata branca e um short jeans, acompanhados por um all-star vermelho.
- Oque foi com você? — ela perguntou. Sua voz era calma e acolhedora.

Mesmo no estado deplorável que eu me encontrava, não pude deixar de notar que ela era muito atraente. Enxugo as minhas lágrimas com as costas da mão e me levanto do banco em que estava sentado.

Continuei a fitando por alguns segundos. O seu rosto mostrava uma carranca de preocupação, mas logo se transformou em um sorriso. Ele era tão contagioso que eu não pude deixar de sorrir de volta.
- Aconteceu muita coisa ruim em minha vida. — disse de repente.
- Tipo oque? — ela perguntou ansiosa. Ela se sentou no banco de madeira em que eu me encontrava momentos antes e eu a acompanhei.
- Primeiro eu descubro que minha namorada está me traindo, e depois que meu pai sofreu um acidente de carro. Como se isso já não fosse o suficiente, no dia seguinte destes acontecimentos minha mãe descobre que está com um tumor nos seios. — disse tudo como se fosse uma enxorrada de informações. Eu não estava gostando da ideia de me abrir para uma estranha, mas eu me senti inexplicavelmente confortável.

Ela não disse nada, apenas continuou fitando meus olhos castanhos e agarrou minha mão em um forte aperto. Por um momento, achei que ela fosse falar alguma coisa. Mas então ela se aproximou de mim e me beijou.

Foi algo rápido, coisa de dois segundos. Seus lábios eram macios como a neve. Seu hálito cheirava a um agradavel aroma de limão. Quando ela se distanciou de mim, tinha um largo sorriso estampado na boca.

Mas desta vez, eu não sorri. Estava muito confuso com tudo aquilo. Minha cabeça trabalhava a todo vapor para entender oque acabou de acontecer. Toquei as pontas do meu dedo nos meus lábios, como se não acreditasse que aquilo tinha acontecido.

Percebendo que ela ainda continuava me olhando, abaixei os olhos envergonhado. Senti minhas bochechas ficando coradas, e ela soltou uma gargalhada. Ela colocou as mãos no meu queixo e me forçou a olhar para ela. Seu rosto estava perigosamente perto.
- Eu não faço ideia do que estou fazendo. — ela sussurou, seu hálito de limão mais forte desta vez. E então me beijou mais uma vez.

Dessa vez não fora um simples selinho. Nossas linguas dançavam dentro de nossas bocas. Ela envolveu seus braços no meu pescoço e eu agarrei sua cintura. Começou como um simples e inocente beijo, mas então foi se transformando em um beijo cheio de luxúria e desejo.

Ela então parou e se afastou de mim. Ambos estavam ofegantes. Esse foi o melhor beijo da minha vida, e foi com uma estranha. Tentei conversar, mas não consegui. Meu estômago parecia que estava tentando diregir uma pedra, meu coração dava pulos dentro do meu tórax.
- Está na hora de eu ir embora. Já fiz a minha parte. — ela então se levantou bruscamente e foi andando.
- Espere! — me adiantei e a forcei virar-se para mim tocando em seus ombros. — Eu nem ao menos sei seu nome.

Ela então se aproximou de mim. Ela era ligeiramente mais alta que eu. Por um momento, achei que ela ia me beijar de novo. Mas dessa vez, ela se dirigiu para meus ouvidos e sussurou:
- Não estrague tudo.

E foi embora sem ao menos olhar para trás.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!