Um Reino de Monstros Vol. 3
7 Capítulo 2: O armeiro - Parte 1
A alquimista polia o cano da arma com tanto afinco que ela parecia até de estimação. Desmontando toda a pistola, Letícia asseava peça por peça. O cabo de sândalo era o que mais chamava a atenção. Ao lado dela, já havia um mosquete montado. Quando terminou, a flanela e ela própria estava toda suja de óleo.
— E então, já terminou, princesa?— Mesmo uma adaga sem limpeza enferruja, Rosicler.— Ah, eu odeio quando tu fala assim.Encostado à persiana, Saragat olhava a movimentação das ruas. Os mineiros, antes da alvorada, já subiam para as minas.Pobres proletários, eles se fadigam debaixo do sol para enriquecer monstros...— Qual é o seu plano? De preferência um que não nos leve para a morte certa.A ladina bateu o pé no chão e ergueu o dedo como se fosse fazer um importante anuncio. Todos esperaram com grande expectativa.— Vamos atacar rapidamente e com força total. Libertamos os mineiros e deixamos os monstros de boca aberta!Três pessoas e uma criatura alada e orelhuda esbugalharam os olhos.— Quanta ingenuidade pra uma ladra.— É, Index, parece até que os monstros vão deixar a gente chegar lá e trazer todo mundo por que a gente vai pedir.A gatuna foi até o Lisliboux que segurava o cabo do seu sabre, o guardião estava apoiado em seu ombro direito.— Olha aqui, mano, eu sei que já decepcionei cês tudo uma vez, mas agora o trampo é diferente, tô fazendo isso por mim não, e sim pelo pobre dos mineiros.— Nós estamos vendo o seu esforço, minha querida. Mas pense bem, não há planejamento.— Minha cabeça funciona melhor sobre pressão, saca?Index encarou Tell, depois deram de ombros. A garota de cabelos cacheados e lábios róseos estava ficando desacreditada.O servo de Nalab soltou uma gargalhada satírica.— Hahaha, nem começou e já estão questionando a tua liderança.— Como é que eu vou montar um plano de ataque sem saber aonde vou lutar, morcegão?— Tá, não está mais aqui quem falou.O conjurador uniu as mãos e iniciou uma litania.— Tá fazendo o que, Saragat?— Rezando à minha deusa, Tell. Eu estou explicando a ela que o fracasso da companhia não é minha culpa.— Tô pra ver nascer um zoado maior que esse. Sigam-me os maus!E a nova líder da companhia passou a caminhar chamando os outros a ação, só que ela tomou outra direção que não à porta.— Tu vai aonde, tapada?— Vamos sair pra uma revolução pela porta da frente, se toca, né!O encapuzado revirou os olhos e a seguiu até uma janela, e desceram por uma escadaria de incêndio. A ladra ia saltando os lances de escada com toda a sua agilidade, como se fosse uma gata. Dezenas de lances de escadas feitas de ferro enferrujado foram vencidas. A parte de trás da hospedaria conduziu o grupo para uma rua deserta.Saragat foi o último a descer, Index voou a sua volta ridicularizando-o.— Parece que o vovozinho aqui ficou para trás.As veias do mascarado se tornaram salientes, scabomg! A cajadada enterrou a criatura no chão. Arfando muito, o conjurador expeliu o ar e limpou o suor da testa.— Não tenho culpa se ladrão tem arte.— Não é “arte”, idiota, é “técnica”. Eu faço Le Parkour desde pequenininha, veio. Com ela eu posso ultrapassar obstáculos com a minha força, rapidez e habilidade. Como pode ver, é bem útil, diferente de tu, zé-ruela.Letícia ficou admirada com a proposta da técnica, ela gostaria até mesmo de aprender.— Uma técnica para vencer os obstáculos usando de força e habilidade, isso seria muito bom para exercícios militares.— Êta, tudo que milico bota a mão vira arma.— Porque tanto ódio dos militares, Rosicler? O que nós fizemos pra você?A gatuna caminhou até o fim da rua sem responder nada e deu ordens para prosseguirem.O servo de Nalab cochichou nos ouvidos da alquimista:— Relaxa, é só uma ladra frustrada.O grupo se pôs a acompanhar a sua líder. As ruas entulhadas de lixo provocavam alguns desvios ocasionais — Letícia odiava sujeira! — Isso os fizeram chegar alguns instantes antes dos mineiros.A marcha dos trabalhadores se dirigia para uma trilha íngreme e escarpada.Os heróis os seguiram à distância, gnomos e caveiras escoltavam os operários.Gnomos! No meio das montanhas! Com uma boboca nos liderando, morte certa!Os gnomos faziam parte de uma classe de monstros conhecida como elementais, junto com as sílfides, as salamandras e as ondinas. Os gnomos eram os elementais da terra, possuindo todas as conjurações monstruosas baseadas nesse elemento.— Rosicler...— Que é droga?— Você sabe como derrotar gnomos?— Colocando eles pra dormir.Não sabendo se era uma ironia ou ignorância mesmo, Saragat deixou o seu queixo cair.— Letícia...— Sim, senhora!— Pare com isso, sua besta! Além do mais, quem tem dezoito anos aqui é você.A militar ficou completamente rubra, embora possuísse todo o frescor da juventude, ela realmente já era maior de idade.Que informação desnecessária!— Você nos dará cobertura de cima. Use munição daquelas coisas que não mata, mas não aleija.
— Munição não-letal, você quis dizer?— Que seja, veio. Sobe lá pra cima e espere o sinal. Vou usar o reflexo da minha adaga. Quanto a nós, iremos fazer uma abordagem diferente: Saragat irá usar sua sombra nos gnomos, eu e o Tell veio de guerra aqui vamos botar pra quebrar em cima das caveiras.Acatando as suas ordens, a garota subiu o paredão de rochas usando suas habilidades como alpinista. Na Real Academia Alquimista, os exercícios militares englobavam tudo.Tell, Rosicler e Saragat tomaram suas posições ao longo da entrada da gruta. A ladina esperou até o momento certo.Os monstros escoltavam os mineiros com violência.— Eu não sei se o meu sabre vai aguentar mais uma luta, Rosicler.— Relaxa aí, vai, garoto. Nós vamos lutar contra caveiras, e se tu fizer aquele negócio com a tua energia mágica, colocando um monte dela na lâmina, vai vencer mole-mole.— Pode funcionar, mas não por muito tempo. E se for um inimigo mais forte que esses? Aí não adiantam esforços de impregnar o sabre com energia mágica.Escondidos atrás de uma rocha e sob vigilância da alfonsina, eles esperaram os monstros que devoravam a riqueza da classe trabalhadora.
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