Um Reino de Monstros Vol. 3

8 Capítulo 2: O armeiro - Parte 2


Os esfarrapados proletários com capacete de lanterna eram empurrados com malvadeza.

— Eia, vamos, seus animais, vocês merecem apenas isso, chicote e trabalho duro!

Z coxeava e recebia os empurrões pelo caminho com uma resignação que assustava a ele mesmo. Seu coração se dividia entre a esperança e o vazio.

Os gnomos, embora menos belicosos que os anões, tinham um humor sombrio. Torturavam as suas vítimas sem piedade, até elas morrerem.

De repente, Z sentiu um calafrio na sua espinha, um sinal de mau agouro em sua terra natal. Atados por uma corrente, o cortejo de operários seguia para a escravidão.

— Porque as caras feias, humanos, não gostam de trabalhar?

O monstrinho barbudo soltou uma risada cacarejada, sendo acompanhado pelos colegas.

No mesmo instante, um facho de luz vindo de uma pedra ofuscou a sua visão. Ele virou os olhos e percebeu que o reflexo era controlado por uma mão.

Tunc, não demorou muitos segundos para o irônico ser tombar no chão junto com mais outros. A munição continha sonífero.

— O que é isso?

— Estamos sendo atacados!

Gnomos e caveiras entraram em posição de guarda em volta dos trabalhadores.

Subindo numa pedra, Rosicler fez um acalorado discurso para os proletários:

— Povo das montanhas, eu Rosicler, líder da Companhia dos Libertadores...

— Companhia do quê?

Saragat teve que indagar o porquê do nome, ele não tinha batizado o grupo ainda.

— Ah, cala a boca, vai! Nós estamos aqui para libertar vocês, unam-se a nós.

Enquanto a ladina falava, a alquimista derrubava mais e mais monstros no solo.

— Vejam, eles tombam diante da força de nossas palavras.

— Tá falando certinho sem nenhum erro gramatical!

— Eu já disse pra você calar a boca, seu capa-preta de uma figa! Venham rumar à liberdade junto conosco, Tell, agora é tua vez.

O mago-espadachim saltou de trás da rocha e encheu os pulmões com ar, depois ele gritou bem alto:

— Eu vos...

Sbrumg, como se houvesse uma avalanche de pedras, um bloco maciço de pedra branca desceu a montanha atingindo a atiradora em cheio.

— Droga, Saragat, ajuda a Letícia!

O conjurador apareceu agitando o seu cajado e lançou um rogo aos céus:

— Deusa da escuridão, escuta-me e concede uma graça a esse servo... Tentáculos das Sombras.

Se utilizando das sombras dos paredões de rochas, o mascarado formou tentáculos que pegou a alfonsina em pleno ar, por sorte, ela não se feriu gravemente. O conjurador a trouxe para junto de si, já no solo, a militar se pôs novamente em posição de ataque.

— Droga, eu nem vi essa coisa.

— Letícia, você tá ferida?

— Não, Tell, eu estou bem.

A pedra de formato geométrico foi se remodelando até ganhar o tamanho de quatro metros de altura. À primeira vista ele parecia como os guerreiros do Extremo Oriente de Lashra, os samurais, uma classe de guerreiros muito valorosa e nobre. A criatura trajava uma armadura de pedra, mais especificamente de um denso mármore branco.

— E então, crianças, vieram brincar e não convidaram o Titã Cubo aqui? Que feio.

Ele desembainhou a sua espada da cintura. A bainha era de bronze e a lâmina tinha uma aparência vítrea, era feita inteiramente de obsidiana. A guarda tinha um formato de cruz gamada. O cabo era feito em pinheiro folheado a prata. Ele ergueu a lâmina em direção a Tell, e disse-lhe:

— Eu ouvi dizer que havia um tal Tell de Lisliboux que era uma fera na esgrima. Quero pagar pra vê... Masashi, Seishi, venham aqui!

No mesmo instante, os dois subordinados apareceram saltando no solo. Cada um deles formou uma cratera num raio de três metros.

Os mineiros recuaram mantendo distância da luta.

A ladra saltou à frente do seu grupo e bradou:

— Vocês não vão lutar, não, rebanho de covardes?

Os proletários recuaram ainda mais, exceto Z que manteve a postura firme, mas acorrentado pelos pés, ele nada podia fazer, a não ser torcer pelos seus futuros salvadores.

— Truotruotruo, você achou que só ia chegar aqui, fazer um belo discurso e provocaria uma revolução? Quando a esperança morre não existe revolução, ATAQUEM!

Sem esperar nenhuma resposta por parte da garota de bermuda e bandana, o trio de oponentes atacou. A gatuna também revidou e sem nenhum planejamento estratégico.

O samurai pétreo correu até o filho de Taran e aplicou um golpe visando decepar a sua cabeça, o jovem evadiu dobrando o corpo até as costas tocarem no chão.

Outro golpe foi desferido pela katana de obsidiana, e mais uma vez ela errou o alvo.

— Isso tá parecendo brincadeira de criança, ah é, mas meu oponente é uma criança...

Tell arfava, embora o seu oponente fosse enorme, ele tinha uma grande velocidade.

— Como é que um cara com uma armadura tão pesada corre tanto, hein, Index?

— Não é uma armadura, garoto, é um exoesqueleto.

Titã Cubo agitou a katana no ar com ambas as mãos, antes que pudesse desferi-la no corpo do mago-espadachim, ele recebeu um ataque pelas costas.

Cabrum, uma cortina de chamas o envolveu, possibilitando ao jovem escapar.

— Granadas de mão, são ótimas pra...

A alquimista foi arremessada a distância com um tapa de Seishi, e o mais incrível é que ele não tinha tocado nela, foi apenas um deslocamento de ar.

— O Fujin-shô também, minha querida.

Tell levantou-se rapidamente e atacou o oni azulado. Ele pegou-o pelo sabre e o lançou na direção de Saragat, que se digladiava com Masashi. O Lisliboux atingiu o conjurador em cheio. Ambos caíram no chão. Os dois onis fizeram um estilizado e demorado cumprimento, como fazem os irmãos.

— Esse é o meu maninho!

— Que nada, a honra é toda sua.

Rosicler ficou tão furiosa que sacou todo o seu estoque de lâminas, saltou de uma pedra alta, e girando no ar, lançou todas sobre os adversários. Eram tantas facas que projetaram uma sombra.

— Se liga, Seishi, tá chovendo canivete, Raijin-shô.

Com as mãos espalmadas, Masashi revidou todas as adagas da ladina. Seu movimento era tão rápido que suas mãos formavam rajadas elétricas.

A ladra pousou no chão sem mais nenhuma arma para contra-atacar os seus inimigos.

— Se não sabe brincar, é só não...

No mesmo instante, os onis ficaram paralisados, ambos estavam sob o domínio da goma-dourada. Os onis se entreolharam sorrindo.

— Veja só, ele tá tentando nos prender com uma geleca.

— Nem pensar que eu vou perder para uma garota, Seishi.

E usando da contração muscular, eles destruíram o casulo de resina amarelada e evadiram.

— Eu nunca vi alguém que pudesse sair dessa goma!

Letícia estava boquiaberta com a força dos inimigos.

Os irmãos soltaram uma nova gargalhada. Os dois brutamontes recuaram, as caveiras e gnomos já se levantavam.

— Droga, o negócio tá barreado aqui.

— É tudo culpa sua, quer liderar sem ter liderança.

Enquanto o encapuzado e a gatuna rangiam os dentes um para o outro, Tell se colocou na dianteira do grupo, e disse a Index para ficar com Letícia.

— Mas porque, eu posso ajudar!

— Não, estamos perdendo porque lutamos contra os mais fracos. Numa luta assim, nós devemos sempre derrotar o mais forte primeiro.

E de modo desafiante, ele apontou seu sabre para o segundo-sargento do Batalhão Colossal.

— O quê, quer lutar comigo, fedelho?

— Sim, somos espadachins, não somos? Se eu vencer nós teremos o direito de libertar essas pessoas...

— E se ganharmos a gente leva vocês para o general Labatut.

Glup, esse foi o único som a sair da garganta do neto de Taala. Ele concentrou a sua energia mágica no sabre e empreendeu uma longa corrida.

O samurai de pedra apenas esperou o franzino garoto atacá-lo. A katana de obsidiana, empunhada com as duas mãos, foi sendo posta no sentido transversal, à espera do adversário. As pernas do troll se espaçaram, dando maior firmeza a sola dos seus pés.

— Argh, liberte as pessoas!

O sabre flandino se chocou com a katana negra de brilho cristalino. Aquele se partiu em dezenas de pedaços com um simples contra-ataque de Titã Cubo. Só o cabo restou na mão do jovem que caiu de joelhos no chão.

— Truotruotruo, não fique triste, o nosso duelo não acabou ainda...

Titã Cubo guardou a sua katan na bainha, a gatuna ficou perplexa com a sua atitude.

— Qual é o truque, hein?

— Não tem truque nenhum, sua fedelha. Eu vou lhe dar uma semana para você arrumar uma nova espada, Tell de Lisliboux. Até lá, espero que consiga uma lâmina decente, truotruotruo.

Dando as costas aos heróis, ele seguiu subindo a trilha rumo à outra próxima estação, Seishi e Masashi os acompanharam.

A alquimista percebeu que a parte de trás da armadura do troll estava intacta.

Mas eu usei uma carga que podia demolir um prédio!

Rosicler caminhou até os monstros que iam embora e disse-lhes, exaltada:

— E como é que a gente vai achar uma lâmina se o cara não tem dinheiro e as armas daqui tá tudo com vocês.

— Ai, ai, eu tento ser generoso, mas acabo sendo ruim... levem o Z e deem tempo para que ele faça uma espada que não quebre, está satisfeita?

A ladina não demonstrou nenhuma reação e o trio de monstros se pôs a andar novamente. Os gnomos libertaram Z e ele se uniu aos libertadores.

— Uma semana, ouviram?

E assim como tinham chegado, o segundo-sargento e os onis desapareceram nas encostas montanhesas. O armeiro foi até Tell e falou amigavelmente:

— Teremos muito trabalho, hein guri?

O Guardião do Monstronomicom voltou ao garoto e ele fixou os seus olhos no artesão de armas. Ele não parecia um armeiro, parecia mais um mendigo.

— Tem certeza que o senhor pode recriar o sabre para Tell?

— Eu não reforço armas, eu só forjo armas atendendo as necessidades do usuário.

— Puxa! Ainda bem, senhor Z, obrigado. E onde fica a sua oficina?

— Na 3º Estação, guri.