Um Rei para Hawktall
17 Capítulo XVI
Marey
Sete dias haviam se passado desde a última vez em que os competidores haviam se enfrentado, a economia de Hawktall estava produzindo tanto ouro para o Tesouro da Coroa, que Rei Aloys decidiu que as provas seriam semanais, de modo a manter o reino sob a torrente de visitantes responsável por tamanho feito.
Marey não podia se sentir mais grata ao pai, afinal, isso mantinha sua esperança de que o cavaleiro atingido pela lança poderia estar bem, e de volta às disputas. Não conseguia parar de pensar nele, dizendo sempre a si mesma que era porque a cena a perturbara, mas precisava admitir que na maioria dos pensamentos não havia o sangue, mas sim o lindo sorriso que ele exibia conversando com o escudeiro, minutos antes do acidente ocorrer.
Novamente todo o reino se reunira a fim de assistir ao próximo certame, que dessa vez seria arco e flecha. Uma grande arena havia sido montada nas imediações da Fortaleza Negra, alvos espalhados por todos os cantos, e no centro um grande viveiro com pombos muito brancos.
— Para que servem os pombos, pai? — indagou com curiosidade.
Rei Aloys havia ido conferir se estava tudo bem na torre. Checar se ela estava acomodada e com uma vista boa de tudo. E claro, dar-lhe um caloroso abraço. Desde a última discussão deles, o pai estava se esforçando para ser o mais gentil possível com ela.
— Eles serão soltos e os primeiros colocados terão de abate-los no ar — respondeu Aloys tranquilamente. Porém, quando viu o susto nos olhos dela, tratou de apressar-se em acrescentar: — Não morrem todos, é claro. Na verdade, o objetivo é que apenas um seja abatido, elegendo assim o campeão.
— Oh, sim. Entendo... — disse, enquanto o pai a envolvia em seus braços.
— Caso não queira assistir essa parte, não se obrigue — deu-lhe um beijo na testa. — Volto mais tarde, se precisar de algo, chame os criados. Deixei cinco na torre para servir-lhes — Virando-se para Cecil, dando-lhe um breve aceno com a cabeça. — Um bom dia, Cecil.
O Rei fechou a porta ao sair.
Cecil continuou observando a pomposa tira oval de madeira cedro-rosa que selava o quarto, mesmo instantes depois de fechada, absorta em seus pensamentos.
— Cecil? — a princesa notou a distração.
— Sim? — a dama de companhia parecia acordar de um transe.
— Está tudo bem? — Marey fitou a amiga atentamente.
— C-claro — Cecil parecia constrangida. — Por que não estaria?
— Você parece distante... — foram interrompidas por uma batida na porta.
— Um regalo para a Princesa Marey! — gritou o mensageiro do lado de fora.
Cecil abriu a porta e recebeu a oferta do mensageiro com um sorriso em agradecimento, a moça era sempre gentil com serviçais e por isso, todos tinham grande apreço por ela. Quando voltou a fechar a porta, a dama de companhia segurava uma bandeja prata com uma rosa muito vermelha e um pequeno bilhete enrolado e atado à ela por um laço da mesma cor. Marey o abriu e o rosto se iluminou com um radiante sorriso.
— O que diz aí? Me diga! — Cecil batia palminhas. — Vamos! Leia para mim!
Marey pigarreou e respirou fundo, imitando o Alto Juramentado do Rei, Vynnel Snotra, ao se preparar para suas leituras ao Rei. Cecil soltou risinhos.
— “Sinto tê-la presenteado com o vermelho amargo na última vez que estive aqui. Trago o vermelho doce dessa vez, e espero presenteá-la com uma vitória. De todo coração, Giuseppe” — a alegria podia ser vista em seus profundos olhos castanhos — é o cavaleiro que foi atingido pela lança, não é?
— Sim! Que romântico, Princesa!
Marey cheirou a rosa.
— Giu...se...ppe — disse, saboreando o nome com os olhos fechados, como se pudesse beijá-lo a cada sílaba. — Então isso quer dizer que ele participará! Já está bem!
Cecil correu até a janela: — Sim! Ali está Kazimir conferindo as flechas, devem ser as dele.
— Aqui, tome isto — Marey estendia a mão aonde segurava um delicado broche de prata em forma de lobo. — Leve até o escudeiro, diga que desejo sorte a Giuseppe.
— Você não precisa suspirar cada vez que diz o nome dele. Sabe disso, não sabe? — Cecil ria dela.
— Ande logo, Cecil! — empurrou graciosamente a dama pelos ombros, que se retirou aos risos do quarto.
Marey foi então até a janela, na esperança de vê-lo junto ao escudeiro, mas ele ainda não estava lá. Foi quando sentiu como se estivesse sendo observada e virou o olhar para além de Kazimir. Lá estava ele, o cavaleiro de armadura negra, dessa vez vestindo apenas cota de malha, com os olhos fixos na torre. Podia jurar que conseguia vê-la... Hudde... és tão belo! Um dia foi capaz de aquecer meu coração, mas agora congela-me todo o corpo, suspirou, desejando com toda sua força que ele não machucasse ninguém hoje.
♢
— E então? — indagou quando Cecil atravessou a porta, adentrando o quarto.
— O pobre rapaz ficou totalmente desconcertado quando pedi que entregasse o broche ao cavaleiro — Cecil parecia intrigada.
— Pobrezinho. Deve temer que isso lhe traga problemas.
— Eu não sei, Marey... — Cecil passou usou o dedo indicador para ajeitar um cacho solto em sua nuca. Sempre fazia isso quando pensava seriamente em algo. — Ele parecia achar errado... Mas não entendo qual a razão disso, deveria ter ficado feliz pelo cavaleiro.
— Mas ele entregará, não é? — Marey arqueou as sobrancelhas, preocupada.
— Sim, ele concordou em entregar — a tranquilizou Cecil. — Só gostaria de saber o que o incomodou tanto.
O som agudo de uma trombeta invadiu a torre, era o sinal que a prova iria começar. Elas se dirigiram até os assentos na janela.
De dois em dois, os cavaleiros se posicionavam lado a lado, miravam em seus alvos e, ao sinal do Rei, disparavam. O que mais se aproximava do centro do alvo se encaminhava para o outro lado da arena, o outro se retirava para ar arquibancadas.
Giuseppe então surgira aos olhos dela, vestido com uma camisa de linho branco solta sobre a calça marrom, um colete também marrom sobre a camisa e sem cota de malha. Ele se apoiava em uma bengala escura, parecendo ter certa dificuldade em caminhar. Kazimir carregava seu arco e suas flechas, dando-lhe apoio do lado oposto a bengala. Ao se dirigirem até o local indicado, lançou um olhar para a torre e sorriu. Pregado ao seu colete estava o broche, brilhando com o reflexo do dia ensolarado.
— Ele está usando, Cecil! — ela dançou sobre a cadeira.
— Mas é claro que estaria, foi um lindo presente — a amiga acarinhou seu rosto.
— Quem é aquele contra ele? — se referia ao senhor alto, com óculos meia-lua, ao lado de Giuseppe.
— Aquele é o Senhor Lafur, dono da perfumaria mais rica do reino.
— Ele é velho! — protestou Marey.
Cecil soltou uma gargalhada: — Ora, seu pai não impôs limites de idade, princesa.
— Deveria ter imposto — disse zangada. — Tomara que já não enxergue bem o alvo.
Suas palavras soaram feito mágica. Enquanto Giuseppe acertou em cheio o centro da pintura, a flecha do Senhor Lafur continuou voando até o outro lado, fazendo com que os cavaleiros que haviam vencido a primeira rodada tivessem que se abaixar para que ninguém fosse atingido. O riso tomou conta das arquibancadas e podia jurar que o pai se engasgara com o vinho.
— Deuses! — Cecil estava vermelha de tanto rir. — Por favor, nunca jogue uma praga em mim!!!
As duas gargalhavam agora.
— Veja! — Marey apontou Giuseppe quando o mesmo tocara os lábios com os dedos e depois soprara-os na direção delas. — Como ele pode ser tão encantador?
— Oh, céus... Posso suspirar contigo?
Elas riram de novo.
Mais alguns cavaleiros se enfrentaram, alguns jovens, outros velhos, alguns garbosos e outros quase que em farrapos. Foi então que Hudde e Dyrk se posicionaram.
— E se ele atirar a flecha na direção de Giuseppe ao invés de mirar o alvo? — Marey agarrou o braço de Cecil.
— Se acalme, princesa — Cecil a abraçou. — Ele não faria isso. A culpa nem foi dele da última vez, foi engano do escudeiro...
— Você é que pensa... esse sujeito não dá ponto sem nó — Marey a interrompeu.
— Falando assim... — a voz de Cecil quase morreu em sua garganta. — Parece até conhece-lo.
Marey não respondeu, continuava observando atentamente lá embaixo. Hudde mirou o alvo, e acertara quase com perfeição. Quase... O tiro perfeito foi o de Dyrk. Enquanto Hudde saía da arena a passos largos e aborrecidos, na arquibancada o jovem escudeiro de Giuseppe batia muitas palmas, alegremente.
— Ele não deveria torcer por Dyrk se é escudeiro de Giuseppe. Deveria, Cecil?
— Não se Dyrk tivesse competido com Giuseppe, mas como não foi o caso... Eles devem ser amigos.
A prova durou mais cerca de uma hora, e então os campeões da primeira etapa se posicionaram em frente ao grande viveiro. Rei Aloys pessoalmente soltou as aves, que voaram alto à toda velocidade. Duas delas caíram ao mesmo tempo. Dyrk e Giuseppe empataram e elas temiam que Kazimir fosse quebrar alguma das mãos com tantos aplausos.
— E agora? — Marey estava apreensiva.
— Eles devem competir entre si, como na primeira etapa — Cecil respondeu sem tirar os olhos da arena.
Dyrk e Giuseppe se encaminharam novamente aos alvos imóveis. Lado a lado, miraram, Rei Aloys deu o sinal... dessa vez Dyrk chegou bem perto, mas foi Giuseppe quem acertou o centro em cheio.
— Ele conseguiu — Marey ofegava. — Ele me deu uma vitória.
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