Uma noite, perdido em pensamentos, sonhos e ilusões, percebi.

Antes, via meu passado com orgulho e divertimento. Agora, vejo-o com horror. Eu era horrível. Não um gênio, mas um idiota filho da mãe. Merecia todos os insultos do mundo

Mas você, irmão, nunca o fez. Tolerou minhas crises, meus acessos ridículos, meus medos. Mesmo assim, te chamava de burro, canalha, imbecil... quando eu era tudo isso e mais. Fiz coisas imperdoáveis, que não merecem seus risos, contos e fábulas de gratidão. E quando você finalmente concordava com minhas idéias, quando você finalmente via, me apoiava e me sorria... eu te tratava com desprezo, ódio e repulsa.

Eu era um robô. Tal como você mesmo disse, irmão. Repetia e reproduzia o que via, lia e ouvia, e pensava ser superior a toda a humanidade. Tão estúpido!

Sim; eu sei que você deve estar suspirando de tédio, talvez achando o que escrevo inútil, infantil e coisa de quem não esquece o passado. Mas quando lembro de tudo que fiz com você, de todas as minhas ações, gritos e vaias... vejo que te fiz chorar. Não estive ao seu lado quando mais precisou. E muitas das vezes que tentei corrigir isso, você se afastou, e com razão: afinal, o que eu sou? Um babaca. Um tolo. Um idiota que enxerga apenas o próprio nariz.

Meus problemas eram maiores, minhas dúvidas mais urgentes e minha vida mais oportuna. Odiava os outros porque odiava a mim mesmo. E você era um objeto, uma coisa que estava lá, um lixo que podia muito bem ser reciclado.

Não quero que me perdoe. Não quero que me entenda. Não quero que distribua abraços, sorrisos e palavras de consolo. Afinal, não mereço; e mesmo se merecesse, acharia isso nojento. Só quero que saiba, bro...

... que sinto muito.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!