Um Porto Seguro
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Capítulo Quatro
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Alguns semanas depois, estávamos eu, Katie e Sam, sentadas na grama do pátio da escola próximo a nossa árvore, enquanto comíamos nosso lanche. Hoje nós resolvemos que o intervalo seria só com meninas, fazia vários dias que não sentávamos e conversamos juntas, a não ser por mensagem, mas não era a mesma coisa, era maravilhoso ficarmos de mãos dadas enquanto repetíamos palavras de carinho jurando mantermos nossa amizade para a eternidade, e o quanto era bom cantarmos as musicas mais idiotas com nossas vozes desafinadas.
Sempre que estávamos juntas era mágico, e eu sempre guardei cada momento desses. Eu nunca me cansaria de me lembrar de que cada dia em que passamos juntas nos fez mais fortes, o nosso circulo era mais do que selado, era interminável, e foi nesse momento de tranquilidade e sorrisos que Katie soltou a noticia do ano sobre nós:
— O Andrew me chamou pra sair.
— Uau, isso foi... inesperado – eu disse sem saber ao certo o que mais poderia dizer.
— Ah gente, podem falar, tá legal. Eu quero saber o que vocês pensam disso, vocês são minhas amigas. E também conhecem um pouco ele, mas tipo sei lá, ele pareceu muito sincero em todo o tempo em que esteve comigo durante o baile, e depois também, ele nem forçou nada... não fez nenhum tipo de brincadeirinha comigo quando ele foi me deixar em casa.
— Peraí, vocês já se beijaram? – perguntou Sam de sobressalto.
— É exatamente isso que quero dizer, ele só beijou minha bochecha, foi muito respeitoso. Só que... – ela suspirou — ah, eu tenho medo que ele esteja tentando brincar com meus sentimentos e depois dizer que era tudo fingimento – ela disse num tom bastante aflito.
— Ah, eu não sei, a gente bem sabe o quanto ele gosta de fazer pegadinhas, e tem um tempinho que ele implica bastante com você Katie – disse Sam.
— Eu sei Sammy... – ela disse cabisbaixa e se virou para mim — e você Clare, o que acha? – ela me deixou bastante abalada com a notícia, e eu não sabia se o que eu diria poderia magoá-la, mas também não podia deixar de tentar alertá-la, então tentei ser o mais direta possível, fazer rodeios com a verdade não era a minha praia apesar de tudo.
— Certo... – eu comecei a dizer, respirei fundo e continuei — eu não quero desencorajá-la de que talvez ele esteja mesmo só querendo pregar uma peça em você. Acima de tudo cabe a você decidir se vale a pena arriscar. Nós só conhecemos o Andrew daqui da escola, não sabemos como ele é fora daqui, porque não convivemos no mesmo circulo de amigos, e você bem sabe em qual grupinho ele sempre está. Mas ao mesmo tempo temos amigos em comum, como o Collin e o Tom – disse por fim — eu só quero que você saiba que independente da sua decisão, nós estaremos ao seu lado, para o que for... e ele com certeza não vai passar como um trator por cima do seu coração porque nós estaremos prontas pra quebrá-lo antes mesmo dele pensar em fazer isso, ok? – isso arrancou sorrisos de todas nós quebrando a tensão sobre o assunto.
— Isso mesmo, ele que pense que não tem duas leoas prontas pra mostrar as garras e acabar com a raça dele – falou Sam em tom dramático, e ainda rindo Katie nos respondeu:
— Obrigada meninas, vocês são muito importantes para mim – ela disse e segurou em ambas nossas mãos — foi ótimo conversar com vocês, me sinto bem melhor agora. Por isso eu quero que vocês sejam as primeiras, a saber... – ela fez uma pausa e continuou — eu vou aceitar o convite dele, e me arriscar e vê no que vai dar. Eu nunca fui chamada pra sair antes, vocês sabe o quanto eu sou tímida, e isso tá sendo bem legal, acho que quero aproveitar um pouquinho pelo menos.
— Certo, certo abraço triploooooo – cantarolou Sam e nós nos abraçamos – que tal fazermos uma noite de meninas na minha casa esse fim de semana, meu pai vai viajar a trabalho, e a minha mãe não vai se importar se a gente fizer bagunça na cozinha, eu tô precisando de muito chocolate, dane-se a dieta – disse jogando os braços para cima — O que me dizem?
— Acho uma ótima ideia – eu disse.
— Por mim tudo bem. – falou Katie.
— Ah, espere ai, primeira pauta em questão antes que o sinal toque, que dia é o encontro da senhorita mesmo? – disse encarando Katie com um olhar astuto, mas não esperou ela responder — Nós precisamos fazer uma superprodução, e também... – Sam continuou falando, levantando-se e indo um pouco mais a frente que eu e Katie, enquanto íamos para nossa próxima aula.
— Não escute tudo o que ela diz Katie, vista o que te faça sentir-se a vontade, solte o cabelo se desejar, não vá pelas loucuras da Sam, às vezes ela simplesmente passa dos limites.
— Pode deixar. Obrigada Clare – disse me passando o braço sobre meus ombros.
— Não por isso.
— Eeei — Sam chamou — dá pra vocês andarem mais rápido, eu tô falando praticamente sozinha aqui.
— Estamos indo – dissemos eu e Katie ao mesmo tempo, e corremos para alcançá-la.
Depois de mais de duas horas de aula de biologia, fui para a de história, aula que eu fazia junto com o Nick, já fui preparando meus nervos e ordenando ao meu cérebro que se comportasse direitinho. Antes que eu chegasse à porta da sala, esbarrei em uma garota alta de cabelos castanhos, me desculpei com ela, que só deu um suspiro nem me dando atenção. Ah, essas pessoas desse colégio às vezes são tão sem noção, eu fui educada apesar de ter sido eu a trombar nela, ela podia pelo menos ter dito alguma coisa, como “tudo bem” e tal, mas não... certo chega disso quem sou eu para tentar mudar todo o mundo. Tenho que começar aos poucos e não acho que vai ser me importando com esse tipo de pessoa que vou conseguir. Quando cheguei à porta da sala, ele já estava lá sentado no lugar de sempre, guardando o meu lugar ao lado do seu, em todas as aulas que tivemos juntos ao longo desses anos, ele sempre fez questão de sentar-se na mesma mesa que eu, e é claro que eu ficava muito feliz por isso. Esse ano só temos uma aula juntos, então eu passo a semana toda ansiosa por ela.
— Oi – eu disse enquanto me sentava ao seu lado.
— Ah, oi, e ai, tudo bem? – respondeu-me parecendo que tinha acabado de voltar de outro mundo.
— Tudo, e você? Parece que tava viajando um pouco ai – cometei sorrindo para ele.
— É, esse último ano, tá sendo bastante agitado, eu acabo deixando minha mente viajar um pouco pra aliviar.
— Hum sei como é – resolvi mudar de assunto, porque pela expressão do seu rosto ele não queria falar sobre o que quer que estivesse o incomodando — E o jogo de terça, vocês conseguiram vencer?
— Sim conseguimos, foi bem difícil, mas foi todo o nosso esforço extra durante os treinos que nos recompensaram com a vitória – disse isso com um orgulho em sua voz, eu sabia o quanto o basquete era importante para ele, seu pai já falecido foi um grande jogador do mesmo esporte, então ele fazia de tudo para fazer as coisas que seu pai gostaria que ele fizesse, mas principalmente se empenhasse com todo esforço para fazer a diferença.
— Fico feliz por vocês, prometo está nas finais torcendo por você – quando eu disse isso ele me abriu um sorriso encantador.
— Certo, espero mesmo vê você lá. – e então mudou o olhar para os meus cabelos, que estavam soltos, na verdade estava uma bagunça só, e aquele olhar estava fazendo meu rosto ficar em chamas – eu gosto dos seus cabelos assim... eles ficam tão ... – disse pegando uma mecha do meu cabelo entre os dedos, e então a professora entrou na sala, e tivemos que voltar nossas atenções para ela. Deixando-me sem saber o que ele diria sobre os meus cabelos, só esperava que não fosse algo ruim.
Às vezes penso que ele é só um sonho que a qualquer momento vai sumir como à névoa da manhã, e isso me preocupa, ainda não entendo como foi que comecei a vê-lo com sendo não só como um amigo, e sim como um homem que poderia me fazer feliz como mulher. Ele transborda uma calmaria que me faz esquecer todos os problemas que me rodeiam, sempre penso que talvez isso seja parecido com o que meu pai me disse uma vez de como ele se sentia com a minha mãe, ele dizia que seu sentimento por ela era como as ondas do mar rebentando as encostas e ao mesmo tempo a tranquilidade e o silencio de uma floresta, só com os pequenos sons de seus pássaros cantando aqui e ali, em seu refúgio inerte.
A aula era de história uma das minhas disciplinas favoritas, estudamos um pouco sobre a Revolução Russa, e foi incrível o modo como a Sra. Stones discutiu sobre o tema. Nunca pensei que pudesse compreender com tal perspectiva, quase que vivenciando os fatos como realmente foram, além de ter uma percepção de fora de toda a situação. Mesmo prestando atenção a aula, eu notei o quanto hoje Nick ficou me observando com uma intimidade que me deixou constrangida, eu gostava quando ele me olhava, mas às vezes parecia que ele podia vê minha alma, como se eu fosse transparente. E ainda assim eu não consegui encara-lo, meu coração dizia que seria melhor assim.
No momento em que ia me levantar para ir para a próxima aula, ele segurou meu braço me impedido de sair. Fazendo com que o lugar onde nossas peles se encontravam deixasse uma descarga elétrica que percorreu todo o meu corpo, deixando meus pelos da nuca arrepiados. Parece que não fui só eu que senti, porque a expressão dele mudou na mesma hora quase como se não acreditasse no que tinha acabado de acontecer.
— Ah... eu queria saber se você não quer sair pra dá uma volta comigo na sexta depois da aula? – achei tão estranho o jeito dele. Durante toda a aula, eu notei o quanto ele estava tenso, mas se fosse para me chamar só para sair acho que era em vão todo o nervosismo. Nós éramos bem próximos, mesmo com meu jeito lesado quando estava perto dele, sempre que eu precisava de alguém era a ele que eu recorria, e ele nunca me dizia não. Mas deixando de lado isso, me senti imensamente feliz, ele nunca havia me chamado para sair só eu e ele. Acho que agora as coisas iam fluir entre a gente.
— Tudo, eu não tinha nada marcado pra sexta, você me pega em casa?
— Claro, as cinco pode ser?
— Sim, vou te esperar – eu disse e depois sair, enquanto ele ficou para trás. Mesmo já longe no corredor eu pude sentir seu olhar em minhas costas, fiquei pensando que assim como a Katie eu não tinha nada a perder, era o meu momento, eu precisava me jogar e deixar o coração agir em vez da minha cabeça.
Quase corri até o estacionamento para encontrar as meninas e contar a novidade, e quando cheguei lá não pude me conter, despejei em cima delas esperando que não tivessem a mesma reação que eu e Sam tivemos hoje mais cedo com Katie.
— Vocês não vão acreditar no que eu tenho pra dizer.
— Desembucha logo Clare, odeio suspense – disse Sam parecendo meio irritada.
— Ok... – eu disse um pouco com receio — O Nick me chamou pra sair – e não pude conter minha felicidade dando pulinhos de alegria, Katie fez um O imenso com a boca e me abraçou, enquanto Sam não parecia nada satisfeita.
— Como assim vocês duas tem encontros, e eu não? Isso não é justo – disse indignada. Mas eu dei a solução para ela na mesma hora.
— Convida o Tom pra sair.
— O quê?! Não, eu tô por aqui com o Tom, e é ele que tem que me convidar e não ao contrario.
— Sammy convidá-lo não vai diminuir seu orgulho, vocês podem sair como amigos, sem segundas intenções, ai depois você espera ele convidar pra entrar com todas elas — disse erguendo as sobrancelhas.
— Affs, eu não acredito que vou fazer isso – ela disse como se cogitasse verdadeiramente a possibilidade.
— Tá, então você fica em casa – eu disse forçando-a a fazer o que eu sabia que ela queria muito — e depois eu e Katie contamos como foi tudo pra você na nossa festinha do pijama.
— De jeito nenhum, eu também vou sair, nem que pra isso tenha que arrastar aquele mongol – com isso eu não aguentei tive que sorrir dela, estava sendo a coisa mais absurdamente impossível dela fazer, que era abaixar sua guarda.
— Ok, vamos pra casa agora gente eu tô morta depois de hoje – disse Katie, e nenhuma de nós discordamos dela, o dia tinha sido mesmo cansativo.
Ao chegar a minha casa meu pai ainda não havia chegado da loja, então resolvi dá uma limpada na casa, e preparar algo para o nosso jantar. Depois de quase duas horas espanando móveis, limpando o chão e lavando louça, resolvi tomar um banho antes de começar a fazer o jantar. Quando sai do banho e me trocava, ouvi meu pai chegar e não demorou muito para ele me procurar, eu já estava saindo no corredor.
— Olá querida – disse me dando um abraço – como foi na aula hoje?
— Foi tudo bem. Eu conseguir vencer mais um dia terrível – falei fazendo-o sorrir.
— Que bom, pois somos dois.
— Eu vou começar a fazer o jantar agora, tudo bem?
— Tem certeza? – eu balancei a cabeça confirmando – Certo vou tomar um banho e desço pra ajudar.
— Vai lá então – eu disse e ele foi.
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Dividir o espaço com o meu pai seja em qual for à tarefa é sempre uma alegria, ele coloca suas musicas de rock dos anos 60 e 80 e enquanto trabalhamos na cozinha ele sempre dava um jeito de me rodopiar em alguns passos ensaiados e cantávamos as letras em perfeita harmonia. Conseguimos preparar um assado com batatas e eu fiz uma salada simples só com folhas verdes e um suco de laranja.
Depois de jantarmos sentamos no sofá eu com a cabeça apoiada em suas pernas e passando os meus dedos sob os pelos de Jake que estava deitado próximo ao sofá, enquanto ele me contava como tinha sido seu dia de trabalho e eu de como tinha sido meu dia de escola. Ficamos horas e horas até eu perceber que ele já estava com bastante sono, então resolvi deixa-lo descansar, porque eu também precisava um pouco. Sexta chegaria logo e eu não queria parecer um zumbi porque não dormi direito de tanta ansiedade. Eu não havia contado essa parte ao meu pai, mas acho que ele não se oporia, ele sempre que me ver feliz. E com toda certeza do mundo Nick poderia fazer isso por mim, assim espero.
Eu consegui descansar tranquilamente, mas durante toda a quinta-feira eu me senti ansiosa e ao mesmo tempo aflita. Foram poucas as vezes que vi Nick antes do nosso encontro e toda vez que acontecia de nos encontrarmos parecia que ele estava com muita pressa para fazer alguma coisa. Com isso percebi que agora parecia que era ele que fugia de mim e não ao contrario como sempre acontecia. Comentei com Sam, mas ela me disse que todos eles estavam tensos e treinando muito para o próximo jogo que seria bastante importante para o time. Eu me acalmei mais com essa explicação, mas ainda assim algo estava fora do lugar.
Em casa eu não deixei meu pai notar minha ansiedade, tentei agir normalmente como em qualquer outro dia. Durante o filme que assistimos juntos ele me perguntou se havia algo de novo acontecendo, eu me senti tensa, mas resolvi que deixa-lo sem saber disso pelo menos no começo não seria de todo mal. Por isso disse que não havia nada acontecendo, estava tudo indo como sempre devia ser no ensino médio.
No fim da noite quando deitei em minha cama, sabia que de uma maneira ou de outra minha vida começaria a mudar depois de sair com Nick na sexta. Assim, era sempre uma questão de tempo, e eu estava bem por não ter me apressado e me jogado sobre ele e acabando sendo rejeitada. O tempo era o melhor amigo em muitas ocasiões.
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