Um Perfeito Escândalo
5 Capítulo IV
Notas iniciais
Beatrice engasgou-se com a própria saliva. Começou a tossir desesperadamente, sentindo o rosto ficar vermelho por causa do esforço. O sr. Eaton, que estava branco como talco — coisa que a jovem achou fascinante, já que ele era bem bronzeado -, imediatamente começou a dar tapinhas em suas costas. Sarah voltou a se abanar com o leque, a expressão em um misto de impaciência e um pouco de frustração. Ao voltar a si, Beatrice — com o rosto ainda vermelho, porém, dessa vez, de vergonha — só conseguiu formular uma única palavra:
– Quê?
– Ora, é muito simples. O caríssimo sr. Eaton aqui — ela deu um tapinha no joelho do dito cujo, que ainda tentava se recuperar do choque — simplesmente destruiu sua reputação ao se jogar em cima de você no meio, oh, Deus, de uma rua movimentada.
– Quê? — foi a vez do sr. Eaton, com as grossas sobrancelhas franzidas, indagar — Mas eu só fiz aquilo para salvar a vida de sua bisneta! Não é possível que deseje que nós dois nos casemos por causa disso.
– Não só é possível, meu ilustríssimo sr. Eaton, como é exatamente isso que está acontecendo. Aposto que fez seu dever de casa direitinho para saber que não pode simplesmente pular em cima de uma moça de família no meio da rua.
A "moça de família" tapou o rosto com as mãos. Sarah já a tinha feito passar vergonha antes, mas aquilo era o cúmulo. Abriu a boca para falar, mas o sr. Eaton, que já havia perdido a paciência, foi mais rápido:
– E eu aposto que você, sra. Prior, também fez seu dever de casa direitinho para saber que não pode me forçar a casar com alguém desse jeito.
Beatrice, além de estar sendo totalmente ignorada, acabou ficando meio ofendida com toda a situação. Por que o sr. Eaton resistia tanto assim em se casar com ela? Sabia que não era a mulher mais maravilhosa do mundo, mas também não era um sapo! Resolveu, então pagar na mesma moeda. Levantou-se, colocou as mãos na cintura e disse:
– Bom, também não estou muito satisfeita em ser forçada a me casar, meu ilustríssimo sr. Eaton.
Os outros dois olharam para ela, paralisados, como se só naquele momento tivessem percebido que ela ainda se encontrava ali. Tobias, se recompondo, percebeu duas coisas: a primeira era que a srta. Prior ficava encantadora quando brava. Xingou-se logo após ter esse pensamento; não existia nada mais clichê do que aquilo, tinha certeza.
A segunda coisa era que queria se casar com ela. Não estava apaixonado, claro, mas nunca tinha visto nenhuma moça levantar a voz para ele, muito menos o rejeitar, daquele jeito. Se fosse sempre assim, tê-la como esposa seria, no mínimo, divertido. Além disso, ninguém merecia morar por mais um segundo com aquela detestável sra. Prior. Completamente decidido, virou-se para a velha e disse:
– Tudo bem, eu aceito. E, srta. Prior, é Tobias para você.
~~
Beatrice realmente desejava não ter aceitado se casar com o sr. Eaton, mas a razão falou mais alto. Não era nenhuma tola: sabia que, se um duque estivesse disposto a se casar com ela — mesmo que estivesse sendo obrigado a isso -, ela concordava e ponto final. Além disso, ele era bem bonito (muito mais do que ela) e bem rico, também. Provavelmente a trairia, sim, mas não dizem que todos os homens traem suas mulheres? Pois bem, então preferia ser traída vivendo luxuosamente.
Era por isso que, naquele momento, encontrava-se passeando de braços dados com ele no pequeno, mas bem cuidado, jardim da casa Prior.
– Então, acho que também deveria começar a chamá-la por seu nome, certo, Beatrice? — começou Tobias, mexendo, distraído, numa bela rosa branca com a mão desocupada.
Ela bufou, as sobrancelhas claras franzidas numa expressão de frustração. Tobias observou-a de novo, admirando pela vigésima vez naquele dia os cabelos loiros presos, o nariz comprido e arrebitado, os lábios finos beijáveis e aqueles olhos grandes e azuis, que naquele momento lhe pareciam tão hipnotizantes… Agora ele gostaria de bufar. Já a havia analisado tanto que provavelmente veria seu rosto quando fechasse os olhos. O que, refletiu, não seria algo tão ruim. Embora não fosse formosa, havia algo inegavelmente atraente nas feições da moça que o fazia não querer parar de olhá-la e de desejá-la. Bom, de qualquer maneira iria casar-se com ela. Tinha que tirar algum proveito disso.
– Acho que prefiro que continue me chamando de srta. Prior — murmurou ela, tirando Tobias de seus devaneios.
– Por que seria isso? Se me permite perguntar, claro. — falou, com um sorriso já brincando em seus lábios.
– Porque, bem, não gosto do meu nome. — ao perceber a expressão de interrogação do rapaz, ela continuou explicando — Beatrice é italiano, sabe? Significa "a que traz felicidade". Bem, nunca trouxe nada além de tristeza e vergonha para minha família. Beatrice só me torna ainda mais deslocada do que já sou.
Assim que acabou de falar, Beatrice repreendeu-se. O que diabos estava pensando, se abrindo desse jeito para um estranho, ou quase isso? Tudo bem que este aparentemente era seu futuro marido, mas isso não o fazia mais próximo dela, nem ela dele. Provavelmente seriam um daqueles casais que mal se viam, exceto quando… Amaldiçoou-se ao sentir as bochechas ficando quentes.
Amaldiçoou-se mais um pouco quando o viu sorrindo abertamente.
– Tris. — disse.
– Perdão?
– Tris. É um apelido. Eu gostei. Combina com você.
– Um apelido? — indagou, franzindo o cenho.
– Exatamente. Um apelido é uma designação informal para uma pessoa. Pode indicar uma característica, podendo esta ser até mesmo pejorativa, ou uma espécie de abreviação, como é o seu caso. — discursou ele. Beatrice pensou que talvez ele engolisse um dicionário todas as noites antes de ir dormir.
– Eu sei o que é um apelido, — respondeu. Queria dizê-lo em tom de desprezo, porém falhou e os lábios se abriram em um relutante sorriso — mas ninguém nunca tinha se dado ao trabalho de pensar em um para mim antes.
Ele soltou o braço do dela e se aproximou, ficando a apenas poucos centímetros de Beatrice. Por um momento, ela se esqueceu de como respirar.
– Bom, então talvez não seja tão desagradável casar-se comigo, não é mesmo? — murmurou ele, seus lábios agora tão próximos que, se Tobias se inclinasse apenas um pouco, poderia beijá-la.
Beatrice corou. Não estava gostando nem um pouco daquilo. Ela nunca corava, e agora esse… esse homem chega como se houvesse brotado no chão — tecnicamente, pulado, mas quem se importava com esses pequenos detalhes? — e ela sentia seu rosto pegar fogo a cada cinco minutos. A pouca distância entre seus lábios também a incomodava. Ora, não se considerava nenhuma inocente. Sabia muito bem o que significava aquele olhar confiante que Tobias estava dando a ela naquele exato momento. Aliás, tudo nele, desde os cabelos curtos e escuros até as botas claramente velhas e ainda sim elegantes, exalava confiança. Um sentimento de inveja cresceu dentro de si. Desejou que fosse como ele. Desejou que não se importasse com o que pensavam dela, de sua origem.
Infelizmente, se importava. E se amaldiçoava por isso todos os dias.
~ ~
Uma hora depois
Quando ela resolve aparecer
Quando finalmente saiu da casa Prior e se acomodou na carruagem, Tobias respirou fundo. Sentia como se tivesse tirado um sapato desconfortável depois de um dia longo. Não havia percebido o quão tenso estava. Não era por causa de Tris, claro, e sim por causa de sua bisavó. A velha com certeza poderia fazer com que o homem mais paciente do mundo quisesse matá-la.
Quanto à senhorita Beatrice Prior, sentia curiosidade. Geralmente, tinha extrema facilidade em seduzir qualquer mulher, mas aquela era diferente. Quando tentou beijá-la, a moça rapidamente se afastou com uma risada nervosa e disse que deveriam voltar para dentro, porque já estava tarde. Ele parecia, por alguma razão, assustá-la. Talvez fosse apenas anormalmente insegura, mas Tobias sentia que não era isso. Curioso como sempre fora, prometeu a si mesmo que descobriria o que a fazia tão… imune ao charme dele. E ainda havia aquela história de "oh, eu só trouxe vergonha para minha família", o que também estava o intrigando bastante.
Mal percebeu quando a carruagem se aproximou da estalagem e, distraído, andou até a entrada.
Foi quando uma moça bonita, com cabelos dourados levemente cacheados e redondos olhos azuis com cílios compridos e escuros parou na frente dele. Tobias levantou uma sobrancelha, indagando-a silenciosamente. Então ela disse, claramente agitada:
– Boa noite, senhor Eaton. Acredito que estava procurando por mim.
Fale com o autor