Um Perfeito Escândalo
3 Capítulo II
Notas iniciais
Belfast, Irlanda, 13 de agosto de 1815, mais ou menos às duas horas da tarde
Quando nossa heroína e nosso herói se encontram
Beatrice estava a caminho do mercado quando a coisa mais inesperada aconteceu.
Sua bisavó tinha pedido que fosse comprar alguns ovos, embora soubesse que uma mocinha solteira andar até o mercado era, no mínimo, escandaloso. Mas Sarah precisava de ovos. E sua bisneta era seu objeto de tortura preferido.
Então, Beatrice foi ao mercado. Ou, pelo menos, tentou ir.
Estava caminhando solenemente pelas ruas de Belfast quando viu um cachorro vira-lata. Não tinha uma pata, o coitado, e por isso andava devagar pela avenida. O problema era que, naquela hora do dia, o tráfico de carruagens era enorme — coisa que foi, aliás, um dos argumentos usados por Beatrice para tentar convencer Sarah de que ela não deveria ir comprar os malditos ovos — e a jovem temeu pelo cachorrinho.
Principalmente quando viu que uma carruagem, conduzida por um cocheiro distraído, foi em direção ao animal. E não parecia ter a intenção de parar.
Beatrice ficou parada por um momento, pensando no que deveria fazer. Deixar o pobre bichinho morrer pisoteado pelos cavalos, ou dar uma de louca e se jogar na frente dele? Refletiu um pouco. Se ela se jogasse no meio da rua, muito provavelmente aquele cocheiro — que não poderia ser tão estúpido assim — iria perceber sua presença e parar rapidamente a carruagem, certo? E mais, incomodaria profundamente sua bisavó, o que faria a velha se arrepender de ter mandado Beatrice ao mercado.
Com esses pensamentos em mente, a jovem foi para o meio da rua.
E o maldito cocheiro não parou.
~~
Depois de uma viagem de quase três dias, Tobias finalmente chegou em Belfast. Se acomodou na estalagem Rose & Crown — considerada a melhor da região, conforme o próprio estaleiro orgulhosamente informou ao rapaz — e saiu à procura de algum pub, deixando o trabalho difícil de desarrumar sua mala para o lacaio, Al. Não tardou a encontrar um. O lugar era escuro, com umas mesas sujas de madeira espalhadas pelo salão. Tobias foi até o bar com balcões também de madeira e pediu um whisky.
– EATON!
Mal havia tomado um gole da bebida quando alguém que, Tobias tinha certeza, estava fazendo o maior esforço para fazer sua voz soar um pouco temível, o chamou. Virou-se e deu de cara com Peter Hayes, visconde de Candor. Um dos maiores tagarelas que Tobias já teve o desprazer de conhecer. Blasfemou em pensamento.
– Candor. — saudou secamente. Quem sabe acontecia algum milagre divino e o jovem percebia que Tobias não estava nem um pouco a fim de conversar.
Claro que não percebeu.
– Mas que coisa, Eaton, encontrá-lo justamente nesse lugar. — começou — Que diabos faz aqui, afinal? Negócios? Ah, já sei. Uma amante, não é mesmo? Ora, Eaton, não me diga que…
– Negócios. — interrompeu Tobias. Bom, não era exatamente uma mentira.
– Ora, mas que milagre! Pensei que fosse um irresponsável, que só quisesse saber de bebida, jogos e sexo. — parou um pouco — Mas lutou na guerra, claro. Todos nós somos muito gratos por seu serviço prestado à Coroa. Bom, de qualquer modo, vejo que me equivoquei. Embora claramente o senhor esteja caindo de bêbado, devo observar.
Tobias grunhiu. Peter Hayes, além de tagarela, também era conhecido por sua, bem, franqueza. E por seus tão detestáveis equívocos. O futuro duque de Dauntless juntou toda a sua paciência, e conseguiu fingir uma gargalhada quase convincente.
– É aí que se engana, Candor. Mal toquei em minha bebida. Você, por outro lado…
Peter riu com vontade, colocando a mão na barriga proeminente, enquanto a outra segurava um copo de cerveja quase vazio. Parecia mais jovem do que realmente era, com o cabelo preto brilhante, os olhos verdes, e com toda a sua gordura. Tinha acabado de sair de Cambridge, e só se interessava por apostas e prostitutas.
E por irritar Tobias, aparentemente.
– É verdade, é verdade…
O jovem já ia começar a falar alguma outra coisa, mas Tobias o interrompeu dando um tapa em suas costas.
– Pois bem, Candor, acho que já vou indo. Prazer em vê-lo. — pigarreou — Foi, no mínimo inesperado.
Colocou uma moeda de ouro na mesa e saiu do recinto, sem esperar para ouvir a resposta do visconde.
Assim que, com alívio, sentiu o ar puro do começo da tarde, notou uma mulher pequena e de cabelos loiros do outro lado da calçada. Por alguma razão, a jovem chamou a atenção de Tobias. Talvez pelo fato de estar na frente de um mercado — lugar nada comum para jovens que não eram criadas, e a moça em questão com certeza não era uma -. Concluiu que era uma viúva, já que estava usando um vestido negro. Ela olhava atentamente para a rua, os olhos focados em alguma coisa que Tobias, a princípio, não conseguiu identificar. Apertou-os um pouco e viu que se tratava de um cachorro com apenas três patas. Perplexo, focou de novo na mulher, que continuava encarando o cão. Tobias não conseguia entender por que ela prestava tanta atenção no bicho. Ficou curioso. Cruzou os braços e esperou, só para ver que fim daria aquilo. A mulher pareceu ficar mais agitada, e Tobias percebeu que os cavalos de uma das carruagens estavam prestes a pisotear o cachorro. Ele assistiu surpreso enquanto ela, sem cerimônias, correu e se jogou na frente dos cavalos. Maldita seja, agora teria que salvá-la. Não pensou duas vezes e correu para a rua.
~~
Beatrice pensou que fosse morrer. Vira sua vida inteira passar diante de seus olhos, e, enquanto via os cavalos se agitarem e o cocheiro berrar, "o que está fazendo, garota?", preparou-se para o pior.
E, então, sentiu um corpo pesado a empurrando. Pensou que, talvez, fosse a morte. Lera uma vez em um livro que quando se está prestes a morrer é comum sentir um peso sobre o corpo. Estava escrito também que o correto era lutar contra esse peso, mas Beatrice estava cansada. Não queria lutar. Aliás, estava até gostando daquele peso, que era meio quente. Ela gemeu. Talvez a morte não fosse tão ruim assim. Mas o peso foi embora tão rápido quanto veio. Ela reclamou.
– Está bem? — disse uma voz muito, muito grossa.
Beatrice tentou abrir os olhos e falar que sim, estava bem, muito obrigada. Mas seu corpo parecia não querer lhe obedecer. Tentou mexer a cabeça. Nada. Tentou movimentar os dedos dos pés. Nada, também. Entrou em pânico. Finalmente, conseguiu abrir os olhos. Viu um homem de cabelos escuros, quase pretos, e bem curtos. Os olhos profundos eram de uma cor surpreendente, azul-escuro, e com cílios anormalmente grandes, que quase encostavam em suas sobrancelhas grossas.
– Está bem? — perguntou de novo, os dedos longos agora tocando de leve seu rosto.
Ela tentou se movimentar, levantar a cabeça, que agora doía muito. Tentou dizer algo, mas som nenhum saía de sua estúpida boca. Ele se levantou, estendendo os fortes braços para ajudá-la a ficar de pé. Ela até tentou colaborar, e achou que estava conseguindo juntar forças para esticar seus braços, quando ouviu a voz de sua bisavó.
– Beatrice, minha filha! Que aconteceu com você? E você, rapaz! Saia já de cima de minha bisneta! — começou, ameaçando-o com sua sombrinha. Sua dama de companhia vinha logo atrás, tentando acompanhar os passos rápidos da senhora.
O homem, então, tentou se explicar, relatar o que ocorreu, mas Sarah, obviamente, não ouvia, sua voz ficando cada vez mais alta, só servindo para aumentar a dor de cabeça de Beatrice. Ela começou a enxergar pequenos pontos escuros.
E então desmaiou.
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