Um Passo para o Amor
12 Fica Comigo
Não consigo mais parar de sorrir. Já havíamos nos despedido há quase duas horas e a lembrança daquele beijo ainda não saíra da minha mente. Lucy me olhava de modo esquisito, como se eu tivesse ficado louca, pois eu ainda não havia contado para ela sobre a proximidade que criei com Ethan. Eu estava encantada e, provavelmente, iludida, mas não me importava com isso, pois eu estava feliz. Naquela noite, demoro até conseguir finalmente pegar no sono, já que o meu corpo tinha espasmos felizes a todo instante. No fim, ao dormir, estou tão cansada que tenho um sono sem sonhos.
Meu final de semana se resume à troca de mensagens com Ethan. Esqueço completamente de John, Esther ou qualquer outra pessoa, mas na noite de domingo, quando meu êxtase já está se esvaindo e estou voltando ao normal, relembro de todas essas coisas que me deixaram mal. Começo a me sentir culpada por ter perdoado Ethan tão rápido. Será mesmo que ele merecia? Será que eu não estava sendo demasiada precipitada em fazer isso? Em esquecer tudo e simplesmente gostar dele? Acho que talvez ele não seja exatamente quem eu imagino. Talvez ele esteja apenas fingindo e tentando me enganar, me iludir. Não devia confiar nele. Mas só vou saber se posso confiar nele confiando. Dando minha confiança e esperando que ele não a destrua, então resolvo parar de me preocupar com isso.
Na segunda-feira ao chegar na escola nem dou atenção ao John e sua nova namorada. Não ligo se ele quiser beijar ela ou qualquer outra. Ele que faça o que quiser, não me importo mais, porque tenho outras coisas para me preocupar, como Ethan vindo em minha direção no fim do corredor. Automaticamente sinto um calafrio, pensando em como devo agir depois de ontem. Cumprimento-o? Finjo que nada aconteceu?
—Bom dia. — Diz-me ele sem som, apenas mexendo a boca e sorrindo de leve. Retribuo o gesto mas meu nervosismo não permite que eu formule qualquer resposta. Acompanho-o com o olhar ao longo do corredor, que é onde encontro John olhando-nos de modo estranho. Encaro sem desviar o olhar em nenhum momento, desafiando-o a demonstrar o mínimo sinal de aborrecimento. Como me agradaria ver isso depois de tudo o que ele me fez. Infelizmente, minhas preces não são atendidas, então continuo meu caminho para a sala, para mais um dia extenuante de matéria para me preparar para meu futuro emprego.
Depois de sentada, Jordan vem ao meu encontro, lembrando-me do dia em que John terminou comigo. Ele tinha tentado falar comigo momentos antes do acontecido. Logo começo a me desculpar:
—Oi, Jordan. Desculpe te ignorar assim, esqueci que você queria falar comigo esses dias. Espero que não seja urgente.
—Sem problemas. Não é muito urgente, eu só queria falar sobre aquele nosso trabalho em dupla, ver quando e como faremos.
—Podemos começar hoje de noite, depois que eu sair da biblioteca, se você não tiver outro compromisso.
—Não tenho, pode ser. Você vem até a minha casa ou prefere que eu vá até a sua?
—Eu vou. Não tem muito espaço lá na república, ainda mais com todas aquelas meninas por perto. — Sorrio, imaginando o desastre que seria caso fizéssemos isso na minha casa.
—Tudo bem, nos vemos à noite. — Diz antes de ir para o seu lugar, exatamente no mesmo momento em que o professor entra na sala e dá início à aula.
***
À noite, vou para a casa de Jordan fazer o trabalho. A casa é como todas as outras da região: não muito luxuosa, mas espaçosa e confortável, com cores neutras e pouca decoração. Nossa missão era fazer uma pesquisa de mais ou menos dez páginas sobre o funcionamento do cérebro humano e as emoções por nós sentidas. Passamos horas em frente ao computador de mesa moderno do garoto buscando informações. Infelizmente não podemos usar a Wikipedia como referência, uma fonte muito mais rápida e de fácil acesso do que os milhares de artigos longos e chatos, já que é colaborativa, então demoramos duas horas apenas para reunir cinco boas páginas sobre o assunto.
Nossa turma é razoavelmente unida, temos um grupo em algumas redes sociais e como todos nós precisamos fazer o trabalho acabo deixando uma mensagem de socorro aos colegas para que nos indiquem links úteis ou artigos bons. Logo recebemos algumas respostas e o trabalho começa a render com maior facilidade. Responsabilizo-me por formatá-lo quando estiver em casa e enviar para a professora, então conferimos uma última vez para dá-lo por encerrado. Despeço-me de Jordan e sigo para casa. No meio do caminho, recebo uma mensagem de Ethan:
Ethan: Quero falar com você, está em casa?
Aurora: Estou indo, é importante?
Ethan: Mais ou menos. Pode me encontrar no parque de ontem?
Aurora: Claro. Em no máximo quinze minutos estou aí, beijos.
Ethan: Até logo.
Instantaneamente abro um sorriso imaginando o que ele poderia querer comigo, mas conforme passo as possibilidades na mente começo a cogitar hipóteses ruins como declarações de ódio ou dizer que o que aconteceu na noite passada foi um erro, que seria melhor nos afastarmos. O sorriso se desmancha, mas continuo caminhando e mantenho o pensamento de que o único jeito de descobrir é indo até lá.
Está escuro, já são quase dez horas da noite e mesmo que o lugar tenha postes de iluminação, tudo o que posso ver é a sombra de Ethan imersa em trevas. Quase parece que ele se parou no canto mais escuro propositalmente, e essa ideia me arrepia um pouco. Afinal, lembro-me, ele não é totalmente confiável.
Porém, logo que me aproximo o suficiente para enxergá-lo suficientemente bem, descubro que minhas preocupações são inválidas: em suas mãos há uma rosa branca belíssima e ele está mais bonito do que nunca.
—Estava te esperando. — Me diz, entregando a rosa. Tomo cuidado para não espetar o dedo em um espinho, mas logo descubro que ele teve a gentileza de tirar todos.
—Linda rosa. — Sorrio, agradecendo. — Precisa falar comigo?
—Na verdade, sim. — Responde, corando levemente e desviando o olhar. Meu estômago já revira de ansiedade, mesclando a sensação entre o bom e o nauseante. — Tenho algo importante para lhe pedir, mas não sei nem como dizer.
—Só diga, garanto que vou tentar não sair correndo ou gritando. — Incentivo com uma pitada de ironia.
—Certo. — Respira profundamente, limpando as mãos na lateral da calça e voltando a me olhar nos olhos. Aquele olhar atinge o mais profundo da minha alma, gela-me os ossos e faz com que todos os pensamentos sejam abandonados. É um olhar feroz, mas delicado, carinhoso. — Você quer namorar comigo?
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