Um Outro Lado da Meia-Noite
17 Valentine e Narciso
Estava deitada no chão do minúsculo quarto resignado á mim, a cama possui amarras e não gosto nem um pouco da ideia de ser amarrada, então prefiro o chão. Me dão pílulas três vezes por dia para me acalmarem, mas não funcionam pelo simples motivo que eu sei que não são calmantes, são reguladores emocionais. Verbena usa as mesmas ervas para controlar as pessoas e obriga-las a fazer o que lhe é ordenado. Logo, assim que tomo os chás com pílulas que me dão me afasto e vomito.
Me chamem de paranoica, não me importo.
Contei três dias desde a minha última visita. Perguntei a doutora Lucero – por quem nutro uma antipatia incomum – qual o período de visitas e para meu lamento, as visitas aos pacientes eram limitadas á duas horas por semana á uma quantidade de três pessoas por visita. Haviam pessoas visitavam seus familiares dia sim e dia não por breves minutos. Compreendi o porquê de Verbena não ter aparecido então. Duas horas não seriam o bastante para me atualizar de tudo o que me mantinha curiosa. O dia seguinte seria sábado, o que provavelmente me renderia uma agradável visita.
Assim como eu esperava Verbena veio me visitar juntamente com Leonel na segunda metade do dia, quase ao entardecer. Eu ainda não tinha permissão para sair do quarto e tão pouco queria. Provavelmente colocaria fogo naquele lugar se tivesse que ver os muros altos que, bem sei, cercam toda a casa de recuperação. Algumas batidas na porta me tiraram de meu falso estado de meditação – sou incapaz de ficar concentrada o bastante para esvaziar minha mente dos pensamentos insanos que me mantêm lúcida. Me apressei em sentar, enquanto Leonel entrava em minha cela com aquele modo silencioso e cauteloso que na maioria das vezes me fascina, mas que no meu atual estado de nervos apenas me fez querer quebrar as pernas dele para que fizesse barulho.
– Olá querido – disse do modo mais gentil e dócil que fui capaz, como falaria com uma criança doente no meu tempo de irmã-caridade – Que vento o trás á presença desta alma pecadora?
Leonel piscou confuso e franziu o cenho preocupado. Ficou acocorado na minha frente e pousou os dedos em minha testa, reprimi a vontade de revirar os olhos e o empurrar. Ainda com a mesma expressão preocupado, perguntou:
– Está tudo bem com você, Morty?
– É claro que não – mantive meu tom dócil – Estou trancada, entediada e agora com fome. Fingir estar bem me irrita e tentar ignorar que tem algo ruim acontecendo me deixa extremamente perturbada, então optei por apenas aceitar que sou prisioneira de pessoas malucas que acham que sou louca. Mas e você, como tem passado?
– Estou bem. Tem uma surpresa para você – disse animado
– Vão me libertar desta prisão?
– Hum. Isto não é uma prisão, sabe disso. Se comporte bem que te deixarão poder ver o jardim e caminhar pelo pátio...
Não gosto de me gabar, mas meu autocontrole esta cada vez melhor. Quando fui para o convento quase enlouqueci pelo espaço limitado, passava horas andando em circulo e tentando achar uma brecha para fugir, acabei achando um modo de sair e voltar sem chamar atenção. Mas o fato de estar presa aqui realmente não me incomoda tanto, passei anos aprendendo á sobreviver com o que me era dado. O meu autocontrole formidável, no entanto nunca me privou de me irritar ao ser tratada com cautela, não sou uma criança assustada e muito menos um animal selvagem acuado. Á pouco custo não discuti com Leo, em vez disso sorri:
– Creio que ser bem comportada não mudará o fato de que ainda sou vista como louca. Mas qual é minha surpresa?
Leo permaneceu me olhando com ar preocupado, seria divertido se eu não estivesse tão irritada com tudo, provavelmente estava procurando algum vestígio de que havia algo errado comigo, pois perguntou:
– Tem certeza que está tudo bem?
– Se continuar á perguntar se estou bem ficarei mal. E minha surpresa?
– Verbena veio te ver.
Olhei para a porta, mordi o interior da bochecha para não insulta-lo e com minha calma simulada disse:
– O dom da invisibilidade é algo que minha família não herdou geneticamente, mas fico feliz por Verbena poder me ver enquanto não a vejo.
– Ah! Não – deu uma risada nervosa se levantando – Ela está com a doutora Lucero, assim que terminarem de conversar virá te ver. Não vai demorar muito.
Leo ficou balançando na ponta do pé, como se quisesse perguntar alo e não soubesse como. Eu voltei a fechar os olhos o ouvindo. Não queria discutir com Leo, nunca gostei de discutir com ele. Quando tínhamos quinze anos ele me chamou para ir com ele á um baile no clube, era a comemoração do centenário de nossa cidade, eu escolhi ir com Verbena até Ravenna para a cerimônia das Ondinas – um belíssimo rito de passagem das sereias e tritões para a forma humana permanente. Naquele ano apenas dois dos nove participantes optaram por ser humanos e perder toda a conexão que possuíam com o mar, um dia perguntarei a um deles se não se arrependem da escolha que fizeram, trocar o mundo mágico submarino pelo mundo mortal –, Leo ficou dias chateado comigo, só depois de muitos dias que eu descobri que ele havia passado dias aprendendo á dançar para que pudéssemos dançar no baile. Sorte ele não ter dançado comigo, eu teria quebrado os dedos do pé dele, provavelmente.
Tivemos outros momentos em que minhas decisões o deixaram magoado. Quando aceitei meu casamento arranjado, mesmo detestando o que estava fazendo, ele me deu gelo por semanas. Até que eu finalmente resolvi que me casar não era uma ideia das quais eu concordava em colocar em prática e fui procurá-lo para impedirmos que eu me casasse, acho que ele ficou mais feliz com minha decisão do que eu mesma. Semanas depois quando anunciei que ia entrar para o convento, brigamos. Lembro-me que ele me chamou de egoísta por estar pensando apenas no que era melhor para mim, foi nossa única briga realmente séria, gritamos ofensas um para o outro e cada um foi para seu lado, não me lembro de ter chorado, apenas guardei a raiva e a magoa por semanas, até que recebi uma carta de desculpas. E voltamos a sermos amigos.
Então agora realmente prefiro que ele me considere louca á começar uma discussão na qual ele vai se magoar. Por um tempo permanecemos em silêncio, até duas batidas rápidas na porta anunciar a chegada de Verbena.
– Mort meditando? É o sinal do apocalipse – ouvi Verbena dizer com uma risada
– Ela está estranha, hoje. Talvez tenha sido medicada – Leo sussurrou em resposta, impressionante o quanto você aprende ouvir quando para pra escutar.
– Hum, entendo. Posso ficar a sós com ela?
– Claro. Até semana próxima, Morty.
– Até breve meu amigo – respondi mantendo os olhos fechados.
Ouvi a porta fechar, alguns segundos depois foi aberta e fechada novamente.
– Ele já foi, pode parar o fingimento – disse Verbena com voz ríspida.
Abri os olhos, ela vestia um longo vestido escuro e simples de cetim. De algum modo parecia cansada e doente. Me levantei rapidamente deixando de lado minha brincadeira mórbida de fingir calma e serenidade.
– O que te aconteceu? – perguntei
– Coisas, muitas coisas. Por onde você quer começar a ouvir?
– Quero saber tudo, por que está com essa aparência horrível de doente? Por que não me deu noticias? Como estão todos?
Ela deu um suspiro e agarrou meu braço.
– Vamos conversar lá fora, este lugar vai me causar pânico.
– Não posso sair...
– Quero ver quem vai me impedir de dar uma volta com minha irmã enquanto converso com ela. A doutora Lucero disse que você tem sido hostil com ela e seus enfermeiros.
– Se conversou com ela sabe o porquê não gosto dela.
Verbena sorriu.
– Se gostasse dela eu teria certeza que enlouqueceu, falando em loucura, por que estava fingindo para Leo? Aconteceu algum problema?
– Não, eu apenas não queria conversar com ele. E para magoa-lo prefiro que acredite que não ando bem comigo mesma. Mas deixemos minha sanidade para outro momento. Me diga logo o que aconteceu.
– Pelo começo – disse ela com um suspiro cansado – Alguns dias atrás, Andreas me procurou. Ele disse que havia pessoas estranhas o seguindo e que estava tendo pesadelos com essas pessoas. Ele me descreveu dois homens brancos como leite, altos, cabelos claríssimos caiam como véu no rosto cadavérico.
– Oods?
– Exatamente. Usei proteção para manter Andreas longe do alcance deles, e então eles vieram até mim, foi perturbador, quebraram a barreira que protegia minha casa, drenaram a vida de William e da senhora Cielo.
– Mataram eles?
Nunca gostei do barão, mas ter a vida sugada por aquelas criaturas era um fim que eu certamente não desejava á ele. E achava a senhora Cielo, a criada do barão desde que ele era jovem, uma megera irritante que eu provavelmente teria tido prazer em torturar. Não que eu fique feliz pelo que aconteceu a eles, mas a morte deles não me afeta o bastante para que eu me importe. Verbena sempre foi boa em não se expressar, de modo que é difícil saber o que ela está sentindo por trás do sorriso.
– Mataram, teriam matado a Francesca também se ela não soubesse se defender. Sim, minha não muito gentil criada é uma bruxa. Felizmente ela é uma bruxa preparada o bastante para usar feitiços climáticos e causar frio, mas não forte o suficiente para que eles fossem parados. Eu nos transportei para casa de nossa família, na manhã seguinte todos falavam sobre a invasão á minha casa e sobre a morte do barão e sua mais antiga criada. Estão procurando pelos Oods. Ao que parece eles são irmãos e causam problemas á mais de quatrocentos anos para as bruxas.
– Quatrocentos anos? Achei que fadas tivessem o tempo de vida limitado.
– A maioria tem, mas Oods são parasitas. Enquanto tiverem de onde retirar poder eles vivem. Fadas da lua são as que têm ciclo de vida menor, cinco ou seis anos antes de morrem.
– Eles machucaram você? Está com uma cara horrível.
– Não, apenas fiquei exausta pelo uso demasiado de magia.
– Exausta? Verbena, o que foi que você fez?
– Precisei manter a proteção na casa de Margarida para proteger Andreas. Canalizei o seu cristal para que o feitiço fosse mantido esta manhã, quando eu apaguei.
– Não acredito! Você estava usando sua própria energia para proteger nosso sobrinho? Está ficando louca, Verbena? Podia ter morrido.
– Meu rubi e o amuleto de Andreas deveriam ser o bastante, mas acho que alguém estava usando algum tido de quebra-magia para invalidar, precisei usar a coisa mais forte que eu tinha e fiz conexão por sangue. Assim todos estariam protegidos através de mim.
Não sei se grito de admiração pela força e coragem de minha irmã ou se me zango pela falta de prudência, fazer conexão de sangue para canalizar qualquer feitiço é a mais pura idiotice que se pode fazer. Mas considerando que ela não morreu...
– A ideia mais estúpida e fascinante que você tem e eu nem estava lá para ver em ação – disse – Fora isso, algo mais que eu deva saber além do fato de você ter perdido o resto de juízo que lhe resta?
– Vejamos, estou viúva. Oods estão perseguindo Andreas. Eu quase morri de novo. Margarida ainda acha que você está ocupada em assuntos mágicos complicados demais no outro lado do país. Magnólia acha que você é uma pessoa má por ter ido sem ajuda-la com os preparativos do seu casamento á qual ela ainda tem esperança que não aconteça. Narciso está feliz embora constrangido por estar feliz quando três de suas irmãs não estão felizes.
– E por que Narciso está constrangido em estar feliz? Por que ele está feliz?
– Isso é a única coisa que eu sei que vai te deixar com um sorriso nesse rostinho malvado. Vou ter que começar lá do inicio para não te confundir.
Verbena se sentou em um banco abaixo de uma macieira de folhas murchas, me obrigando a me sentar ao lado dela. Embora eu tivesse evitado olhar o caminho do quarto onde estava até aqui, não pude evitar de reparar no fato de que não havia grama e nem terra, o espaço do pátio e do jardim eram completamente pavimentados com paralelepípedos, haviam árvores frutíferas plantados em lugares convencionais e abaixo dessas haviam bancos de madeira colocados de modo que as pessoas não tivessem outra opção se não sentar-se abaixo de sua sombra ficando de frente para o pátio cujo centro havia um chafariz com um casal sorridente abraçado segurando cada um seu cajado. Detesto estátuas de casais sorridentes. Ignorei tudo em volta e me concentrei em Verbena que tinha coisas interessantes á me contar.
– Ano passado quando você ainda estava no convento, Dylan Walker voltou para Ferrara. Todos sabiam que ele não havia voltado sozinho, mas ninguém imaginava que ele havia trazido a irmã, apenas alguns dos criados sabiam disso. Uma manhã casualmente Narciso teve um daqueles ataques dele e foi trabalhar muito mais cedo que os outros funcionários, nenhuma novidade até ai. Mas enquanto ele cuidava das mudinhas de rosas na estufa ele encontrou alguém que também não deveria estar ali. Uma moça jovem de tez pálida e longos cabelos cor de fogo.
– Valentine?
– Não me interrompa Mort, vai estragar o clima da história. Por alguns minutos ele apenas observou a jovem que tocava em tudo de modo delicado e descuidado, até que ela derrubou um vasinho com sementes de alguma planta e ele resolveu oferecer sua ajuda. Ela disse á Narciso que ele não deveria estar ali aquela hora da manhã e ele disse o mesmo sobre a presença dela, então concordaram em não dizer nada sobre a presença um do outro. Na manha seguinte os dois estavam ali novamente, ela pelas flores e ele por ela. Narciso se afeiçoou por ela, primeiro achou que fosse pelo fato dela ser esperta e curiosa, sempre perguntando as cores de tudo. Mas depois de muitas manhãs caminhando pela estufa e pelas plantações de flores ele se pegou apaixonado pela Valentine. Um dia ela não apareceu, e outro também não e por uns dias ele passou a praticamente pernoitar na plantação até ter coragem de ir perguntar quem era a ruiva na casa principal.
“Dolores disse a ele que a moça cega era a filha do senhor Walker, e que voltara para Ferrara com o irmão para que ela mudasse o comportamento instável que adquirira desde que perdera a mãe alguns meses antes e que naquela semana ela estava indisposta e se recusava a sair do quarto. Também se recusava a comer, a se levantar, a se lavar e não deixava nem que entrassem em seu quarto sem que ela tivesse um ataque histérico, tudo por que o pai havia resolvido manda-la para uma tia na Toscana, já que ela estava se comportando de modo estranho, como dormir muito cedo e acordar muito tarde. Narciso resolveu pedir desculpas á ela por ter praticamente feito com que ela passasse a levantar-se horas antes do normal para que conversassem até que o sol nascesse e ela fosse dormir. Ele passou então a mandar rosas para ela todas as manhãs e uma vez durante o dia ela escapava apara ir vê-lo em algum lugar onde não fossem encontrados. Por um tempo isso funcionou bem, até que a criada particular dela a seguiu para saber o que ela fazia. Ela fez com que parecesse ser um escândalo pior do que era, ao ver Narciso deitado lendo um livro de poemas para Valentine que se aconchegava em seu peito”
Comecei a rir, Narciso lendo poemas? Daria a alma de um inocente para ver isso. Verbena me criticou por eu interrompe-la. Tive que guardar meus risos para quando estivesse sozinha.
– Como eu dizia: a criada da senhorita Walker não foi muito amistosa com os fatos e exagerou um pouco no modo com que insinuou que nosso irmão estava seduzindo uma inofensiva e cega moça de família. Dylan e Narciso foram separados dos socos pelos trabalhadores da plantação, me lembro que Narciso havia ficado em um estado lamentável e passou alguns dias em casa se recuperando, mas se recusava a dizer o que havia causando aqueles hematomas, não que eu não imaginasse que fosse briga. Por sua vez Valentine deveria ter sido enviada para sua tia em Toscana, mas ela conseguiu desaparecer no meio do caminho e quando a encontraram refugiada na casa de uma amiga da família na Bologna optaram por deixa-la aqui em Ferrara. Ao menos não corria-se o risco dela desaparecer ou fazer uma idiotice semelhante. A condição dela permanecer em Ferrara era que ela e Narciso nunca mais se vissem.
– Por isso ela não sai de casa? Eu realmente detesto aquele Dylan.
– Quer me deixar contar? Mais uma interrupção e não conto mais nada.
– Tá, eu deixo as perguntas para o fim da narração.
– Estava tudo indo conforme as regras, até que semanas atrás quando Valentine foi... você sabe. Bom, ela tinha pesadelos constantes e isso estava fazendo mal á ela. Acho que a palavra é depressão, ela se recusava a falar sobre o que acontecia e estava ficando doente. Dylan resolveu apelar para a única pessoa que talvez pudesse fazê-la se sentir melhor e foi atrás de nosso irmão. Narciso conseguiu deixa-la mais a vontade mesmo que ela não fale sobre o que aconteceu, de qualquer modo um está fazendo bem ao outro e isso tem feito Narciso voltar a cantar e sorrir. Ele está feliz por estar novamente com Valentine, mas não sei quanto tempo isso vai durar, fui visita-la, ela é realmente linda e estranhamente agradável, sem ser gentil ou arrogante. Entendo o porquê você e nosso irmão gostam dela, mas quanto á Dylan. Ele disse que é muito grato pelo que Narciso tem feito á sua irmã, e que vai recompensa-lo por isso.
– Recompensar? – explodi – Aquele cabeça de abobora está achando que nosso irmão é o que? Um receptáculo onde Valentine joga suas dores e que pode ser dispensado? Vou arrancar os olhos daquele mimado arrogante.
– Já terminou? Posso voltar a contar sobre Valentine e Narciso?
Dei de ombros mordendo o interior da minha bochecha para não recomeçar a falar sem querer.
– Eu sugeri á Dylan que isso talvez não fosse uma atitude saudável. Que os sentimentos de Valentine e Narciso eram realmente sinceros e que podia ofender nosso irmão se oferece dinheiro á ele como se estivesse o pagando por um trabalho, apenas. Dylan disse que sabia sobre a veracidade dos sentimentos que nossos irmãos nutriam um pelo outro e que era por esse sentimento que ele preferia afasta-los, mandando Valentine para junto do pai em Londres.
– Ele não pode fazer isso.
– Pode, ele é irmão de Valentine, é responsável por ela. Se ele acha que separa-la de Narciso é o melhor para ela, não podemos fazer nada para impedir que ele os separe.
– Verbena de Belaya Quarini como ousa pensar que é o melhor para eles que sejam separados por que aquela criaturinha sem coração acha que é o certo? Se ele separar meu irmão da Valentine eu irei pessoalmente até Londres e a sequestro para Narciso. Quem Dylan Walker pensa que é para decidir o que é melhor para as pessoas?
– Ele está protegendo a irmã, nada muito diferente do que eu ou você ou quais quer um de nossos irmãos já não tenha feito.
– Isso não é proteção, só vai causar dor nos dois em separa-los. Eu gosto de meu irmão e gosto de Valentine e se eles se gostam, não devem ficar separados.
Verbena riu, a olhei indignada até que ela parasse de rir.
– Nunca imaginei que veria Morticia defendendo o amor. Sempre te vi mais como aquela que espalha os sentimentos mais obscuros entre os que te cercam.
Sorri.
– Não se preocupe Verby, ainda continuo sendo a mesma bruxa má que você sempre tentou impedir de causar pesadelos nas pessoas. Narciso e Valentine felizes significa Dylan infeliz e isso é um bônus pelo meu trabalho.
Verbena inclinou a cabeça me analisando, deu um sorriso:
– Você não deveria se meter nisso...
– E Dylan pode? Ele pode escolher interferir na felicidade das pessoas e eu devo apenas me contentar em observar? Ele não faz ideia de quem eu sou.
– Na verdade faz sim, para ele você é a irmã de Narciso que não tem nome de flor. Dylan me perguntou sobre você quando fui visitar Valentine. Como anda a senhorita Morticia? Disse á ele que você voltou ao convento, ele me pareceu insatisfeito com a resposta.
– Ele teria ficado satisfeito se você contasse que fui eu quem salvou a irmã dele e que estou em um hospício por ter feito isso.
– Não seja cruel Mort. Não está aqui por ter salvado á Valentine, está aqui por ter perdido o controle e ferido as pessoas. Aliás, o que aconteceu exatamente para que se descontrolasse?
Diminui o tom da voz e respondi:
– Tive pesadelos, aquela coisa de olhos alaranjados estava tentando me matar. Devo ter gritado e quando os enfermeiros tentaram me ajudar pensei que fosse ele me atacando e me defendi.
– Você estava em transe, disseram, uma bruxa sonâmbula que pensa estar sendo atacada não podia ser mantida no Centro de Cura, e te mandaram para cá. Isso manteve as pessoas cientes de que você era um perigo.
– Não sou perigosa, eu apenas não sabia o que estava fazendo.
– Não é a primeira vez Mort. Você mostra descontrole em seus dons desde os nove anos. Sempre que está com medo ou raiva ou triste você deixa a magia te controlar e isso causa transtornos em todos os lugares.
– Não sou livre de minhas emoções, Verbena, ninguém é capaz de controlar cem por cento de seus sentimentos para que não interfira em suas ações. Mesmo sendo um bruxo.
– Eu sei Mort, mas você passou anos sobcontrole de si mesma, por que agora não consegue fazer o mesmo?
– Acho que a hora da visita já terminou, irmã – falei voltando para meu quarto sabendo que Verbena estava me observando, não virei para dar-lhe adeus.
Leonel estava em meu quarto quando retornei, ele disse algo sobre estar contente em saber que eu havia saído do quarto. Mas não prestei mais atenção ao que ele dizia quando me sentei no canto sentindo a parede fria em meu rosto, tão calmante. Leo tentou conversar comigo, mas não lhe respondi. Então Verbena o chamou e os ouvi sussurrando á respeito de me deixarem descasar um pouco. Leo voltou para me dizer “Até breve”, não o respondi.
Não entenda-me mal, eu estava com medo. Medo demais de muitas coisas, me desligar das coisas que me acontecem é o modo que achei para driblar o medo. Sempre procurei me manter ocupada para esquecer os pesadelos que me tiravam o sono. Aprender Alquimia. Aprender a ler e escrever. Caçar. Acampar. Ajudar as pessoas que precisam de ajuda. Distrair as pessoas de seus próprios problemas e criar problemas para me distrair. Sempre foi assim, me esqueci o medo que tinha ao fechar os olhos. Me esqueci o medo que tinha das noites. Me esqueci o medo que me acolhia quando estava sozinha. Aprendi á esquecer o medo. Mas saber que aquela coisa de minha infância ainda estava vivo e que ainda se dispunha a me atormentar...
Não sei como me esquecer disso. Não consigo me esquecer. Qualquer pessoa que vejo pode ser ele, fico a espera de ver um par de olhos alaranjado-brilhantes piscando no rosto de qualquer pessoa e garras me ferindo, e sangue... detesto sangue. Tentar me esquecer do que me causa medo não é fácil, muito menos quando as pessoas insistem em me fazer relembrar. A doutora Lucero me pergunta o que me atormenta, eu poderia perguntar o mesmo á ela e nem de longe a resposta dela seria tão silenciosa quanto á minha.
Verbena perdeu o marido e está enfrentando problemas em Ferrara devido á segurança de nosso sobrinho e eu estou presa aqui sabendo que estão todos em perigo, isso me causa medo. Tem alguém em algum lugar querendo mal á minha família e nem todos eles podem se defender com a mesma precisão que eu e Verbena desses inimigos, isso me causa medo. Matei três homens e nem cheguei perto de me arrepender do que fiz, isso me causa medo. Serei julgada e condenada pelo meu crime e sei que minhas chances de ser considerada inocente são nulas, isso me causa medo. Talvez eu seja considerada um perigo ás pessoas e tenha que ficar neste lugar para sempre, isso me causa medo.
Eu tenho medo, é por isso que não sou capaz de assumir o controle sobre mim mesma, é por isso que deixo minhas emoções interferir em minhas ações, é por isso que não quero que meus irmãos saibam o que me assusta, tenho medo de saber o que eles farão por mim ou o que não farão.
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