Notas iniciais
Em breve teremos o fim...

Senti-o se movendo atrás de mim e passando a mão por minha cintura me puxando para mais perto de si, abri os olhos não conseguindo ignorar a onda de eletricidade que se apossou de meu ser ao lembrar-me da noite anterior. Como fui tão fraca e estúpida? Logo eu. E a culpa repentina desapareceu ao lembrar as sensações que mesmo agora me causava um devasso estremecimento. Não julgaria á mim mesma por essa falha, é parte da natureza humana e sou tão humana quanto qualquer outra pessoa que conheço.

— Por favor, não me odeie – sussurrei enquanto escorregava o braço dele para longe de meu corpo tentando não acordá-lo.

Perda de tempo.

— Por que te odiaria? – ele me perguntou segurando meu braço – Pretendia me deixar?

— Quer a verdade? – questionei decidida á contar logo toda a verdade, já que íamos nos magoar que fosse de uma vez só – Ia. Eu ia sair daqui e seguir meu caminho sem olhar para trás.

Ele me olhou pasmado. Continuei, enquanto vestia a calça.

— A noite passada teria sido mais fácil de ignorar se tivesse te enfeitiçado, você dormiria até que alguém viesse despertá-lo e tudo ficaria bem. Mas não... você tinha que me beijar e eu tinha que ser uma idiota fraca incapaz de dizer não á um simples desejo carnal.

— O que está acontecendo com você? – ele me obrigou á parar quando comecei a andar em circulo fechando o corpete – Te fiz algum mal? Te machuquei?

Ele segura meus braços. Está inteiramente desnudo e meus olhos atrevidos teimam em olhar cada pedaço de carne como se o memorizasse. Precisava me concentrar, por favor, era apenas um homem nu. Me obriguei a encará-lo, ergui o queixo e deixei que o meu medo assumisse o controle, pois o medo sempre me controlou melhor que a raiva. O que ele havia me perguntado? Se havia me machucado. Teria que se esforçar para me causar um estrago físico ao nível do estrago emocional que eu mesma causei. Ainda assim, lhe respondi:

— Sim. Me machucou quando voltou para minha vida. Devia ter continuado onde estava, sendo apenas um pesadelo esquecido para mim. Devia ter me ignorado quando me reencontrou e nunca devia ter estendido suas mãos para me ajudar.

— Está me deixando preocupado. O que aconteceu?

Os olhos alaranjados brilhantes me fitavam cheios de medo. Por que ele estava com medo de mim? Sua mão tocou meu rosto com delicadeza e entendi que não estava com medo de mim, estava com medo por mim. E a vontade de chorar é tão grande que sou forçada a empurrá-lo para poder voltar a andar em círculos. Queria abraça-lo, deixa-lo me proporcionar mais um pouco daquele prazer recém-descoberto. Mas George e Verbena eram prioridades e se Dylan me levasse até eles descobriria do pior modo quem sou. Sentei-me na cama esticando a mão como uma barreira entre nós. Pode soar egoísta por que fui egoísta, mas concentrei-me apenas na dor que sentiria ignorando por completo as emoções dele, e em nome da minha possível dor, ergui minha máscara de cristal. Impenetrável. Frio. Cruel.

— Você errou – falei usando um tom indiferente que Leonel sempre chamou de “a voz do diabo” por ser baixo demais – Uma vez disse que eu não tinha pendor á magia negra, e errou.

Inclinei minha cabeça para o lado, olhando-as. Pelo canto dos olhos vi que ele fez o mesmo e por sua expressão não precisava mais continuar minha explicação. Ele já tinha compreendido que eu era uma bruxa das trevas, difícil discordar quando na sombra do quarto há uma intensa escuridão se movendo, suspirando. Mas não era apenas isso, por isso prossegui enquanto ele olhava despreocupado para as sombras.

— Não me importo, não é problema meu. Foram minhas últimas palavras á senhora Devlin quando ela tentou me convencer a assumir sua responsabilidade como rainha e guardiã das sombras.

Aguardei a reação dele, enquanto preparava o fim das informações de um modo que não deixaria duvidas em sua mente sobre meu verdadeiro eu.

— Senhora Devlin. Fala da Imperatriz Sombria Devlin Bellovà – ele riu, sem diversão nenhuma – Você não deveria brincar com assuntos desse tipo, ser uma bruxa das trevas é... surpreendente. Acho que posso me acostumar com isso. Mas não brinque com palavras tão sérias. Sair por ai, em um reino das trevas dizendo que é a Imperatriz pode te colocar em perigos inimagináveis.

— Eu sei, estou ciente dos perigos que implicam ser a rainha guardiã das sombras. Embora não seja esse o motivo por qual negava a coroa ou cetro ou trono. Nem sei o que é.

— Morticia! – advertência, já tinha ouvido aquele tom antes, ergui os olhos que fitavam meus pés para ele, me distrai comigo mesma e nem notei quando ele se vestira.

— Me deixe terminar. Depois disso pode dizer o que quiser que não o interromperei – aguardei ansiosa pelo consentimento, ele se encostou na porta cruzando os braços sobre o peito, ouvindo – Não escolhi isso, foram as sombras quem o fizeram. Sou a Rainha das Sombras, legatária de Devlin Bellovà.

Demonstrei á ele meu poder. A escuridão que estava na parede nos observando se estenderam se unindo á minha sombra. Então, como quando eu era criança na mata e achava aquilo um truque muito divertido, minha sombra se ergueu e assumiu minha aparência se dividindo em duas que ficaram á um braço de distancia atrás de mim. Sei que podiam se multiplicar, mas para mim sempre foram duas. Vi a expressão de Dylan mudar de curioso para preocupado, não era a reação esperada considerando que ele fazia coisa pior com animais que possuía. Me virei para ver o que havia de errado e entendi. Elas haviam assumido outra forma minha, meus aspectos felinos estavam refletidos nelas, pois como minha sombra era um reflexo pessoal. Os olhos cor de âmbar olhavam sombrios com suas pupilas dilatadas, as unhas formavam garras fortes, os cabelos curtos aumentava a impressão de selvageria que meu rosto possuía. Aquela era eu, mesmo com a proteção do feitiço de Dylan e sem mudar a aparência no mundo mágico, aquela era eu. Meio gato e meio mulher. Elas eram sombras, conscientes e inteligentes, não escravas da magia servindo á um bruxo das trevas, não. Havia vida nelas tanto quanto em qualquer outro ser vivo, e era isso que estava me deixando nervosa, possivelmente já tinham entendido que eu estava me assumindo como legitima soberana das trevas. Gostasse-me ou não era o que eu era, e precisava ajudar quem no momento precisava de mim. Dylan também havia compreendido algo bem parecido com aquilo, pois ele de um modo inesperado se curvou. Uma formal e dolorosa reverência. Aquele gesto simples me machucou, principalmente por ele ter evitado me olhar nos minutos silenciosos que aquilo durou. Sai seguida de minhas sombras.

As pessoas me lançaram olhares curiosos enquanto eu caminhava escoltada por elas. Não me importava. Faltavam apenas alguns quilômetros de caminhada até o Palácio das Cinzas, senti meus pés doerem depois de algumas horas e então percebi que estava descalça. É claro, em minha estupidez sai do quarto que dividi com Dylan sem os sapatos e sem a camisa que me dava a aparência masculina. Por isso as pessoas estavam me olhando, uma mulher de cabelos muitos curtos usando calça e corpete andando pelas ruas descalça escoltada por duas criaturas gêmeas e selvagens, me peguei curiosa para saber o que se passava pela mente deles, talvez coisas muito diferentes do que os humanos pensavam. Talvez nem se importassem com as estranhezas de desconhecidas. Tentei pensar nesses tipos de coisas tolas enquanto caminhava de encontro com minha irmã e George, mas meus pensamentos insistiam em voltar-se para Dylan.

— Devia tê-lo matado – falei – Tive tantas chances e única coisa que fiz foi me deixar ser levada por aqueles belos olhos alaranjados... Hã? Por Saturno, Morty. Agora vai sentir pena de si mesma? Pense que ele mereceu, a morte seria fácil demais. Ele precisava ser castigado pelo seu sofrimento. Será que ele sente algo? Por mim?... Pediria consolo á Deus e seus anjos, mas com todo perdão Senhor. Eu quero mais é que o diabo o faça.

Perguntei ás sombras se os outros tinham conhecimento sobre minha Aceitação, me causaram calafrios quando informaram que todos os nascidos nas trevas sabiam, agora que eu mesma me anunciara como Rainha das Sombras, pois agora a escuridão que penetrava a mente dos homens e infectavam seus corações retornavam as sombras onde permaneceriam ocultas, servindo quem nelas buscasse força e poder. Agora não tinha mais volta. Eu admiti quem era e nada podia fazer, eis a maldição da palavra de uma bruxa, afirmei em voz alta um segredo e ele deixou de ser secreto.

...

O Palácio das Cinzas era diferente de todos os que já tinham visto – confesso que nunca vi nenhum, mas tenho certeza que nenhum dos que existe no mundo humano me causaria mau pressentimento. Era uma casa torta, inclinada para a esquerda mais alta do lado direito, coberta por hera verde-escura podia ser confundido com um morro verdejante se não fosse pela fumaça saindo se seu estranho teto, e havia um caminho de pedras que vinha do palácio até os portões de ferro imponentes que eram guardadas por gárgulas sobre os muros, pensei em um cemitério saído de algum lunar assombrado ao vê-las, grandiosas e cinzentas com seus olhos abertos e asas fechadas. Sei que eram vivas, vi uma delas se mexendo á distancia, mas eram tantas que podiam ser pássaros empoleirados. Agora fazia sentido Leonel se referir ao palácio das trevas de Risveglio como a Toca dos Lobos, se eu conhecesse uma toca de um lobo talvez pensasse igual.

Quanto mais me aproximava do portão mais ficava nervosa. As sombras nada diziam, melhor, sussurravam. Estavam quietas. Assustadoramente quietas. Uma gárgula abriu as grandes asas cor de feno quando parei na frente dos portões trancados, ele olhou na minha direção, tinha olhos miúdos e azuis sem íris ou pupila, tinha nariz de morcego e um par de chifres no alto da cabeça raspada, seu rosto apesar de assombroso me transmitiu tanta tranquilidade que sorri – um gesto automático. Um movimento dele e já estava na minha frente, as asas o protegiam como se fosse uma capa e era tão alto que tive que dar alguns passos para trás e dobrar a cabeça para trás para vê-lo melhor. Senti os dentes baterem quando fechei a boca rapidamente. A gárgula se curvou como Dylan fizera horas antes – eu já tinha me esquecido daquele ruivo de olhos de fogo

— Minha Senhora – disse ele com uma voz grossa de fazer trovões soarem sinos.

— Sabe quem sou? – é claro que ele sabia, por que mais se curvaria diante de mim?

— Guardiã das Sombras. Rainha do Escuro. Imperatriz das Trevas. Membro do Trio Imperial. Senhora de todos os reinos das trevas. Protetora dos Perdidos. Dama de Avalon e dos Continentes Esquecidos. Alquimista dos Treze Reinos. Membro das Sociedades Ocultas. Aliada da Irmandade de Aldebarã. Filha da Noite e Apanhadora de Sonhos. Todos os nascidos na obscuridade servem á ti, Minha Senhora.

Olhei para minhas sombras que podiam ser um pouco mais comunicativas na mina opinião. Ambas apenas assentiram, como se eu tivesse alguma noção do que fazer. Eu tinha dispensado os anos de aprendizado, não sei como ser rainha, não sei nem o que uma rainha faz.

— Como se chama? – perguntei esfregando as mãos, devia ter limpado as unhas.

— Yvel, majestade.

— Yvel. Eu posso passar?

Os portões atrás dele se abriram, ele não se moveu de onde estava, por isso o agradeci e contornei seu corpo atravessando o último obstáculo entre mim e meus problemas. Perguntei as sombras o que ele quisera dizer com aqueles títulos. Responderam-me que eram legados, títulos conquistados pelos reis guardiões e transmitidos aos seus sucessores, logo eu tinha herdado além da escuridão do mundo, várias outras ocupações que eu nem sabia o que significavam e tinha colocado mais um título á lista, Apanhadora de Sonhos, tenho certeza que o menos sinistro da lista já que contavam histórias terríveis sobre sociedades secretas ou coisa do gênero. Por que fui abrir a boca? Dylan não sabia quem eu era e não saberia se eu tivesse ficado quieta, fiz besteira e agora não tinha como reverter.

— O que ele quis dizer com Protetora dos Perdidos? – perguntei parando a um passo da porta dupla em formado oval, a única entrada visível daquela “toca de lobos”.

Em uma perfeita imitação de mim, as sombras deram de ombros e sorriram. Nelas meu sorriso eram assustadores, ou eu sorria daquele modo malvado? Balancei as perguntas da minha cabeça. Teria tempo para descobrir depois, se eu sobrevivesse ao agora. Não havia maçaneta na porta, nem nada que pudesse usar para abri-la. Minhas nada úteis companhias haviam sumido quando me virei para perguntar o que fazer com a porta.

— Posso entrar? – arrisquei.

É claro que podia. As portas se abriram sozinhas assim como minha boca ao ver o Palácio das Cinzas por dentro pela primeira vez. Era tão... imenso. Ao entrar encontrei uma escadaria que levava para baixo, desci. Todas as paredes que eu vi, eram pretas e reluziam de modo fosco as chamas vivas das lanternas decoradas com cores diferentes. Havia três corredores cada um seguindo uma direção, escolhi a primeira sem pensar e acabei entrando em uma confusão de corredores espelhados com assoalho em preto e branco, não resisti ao impulso de pisar apenas nos quadrados brancos até que achei a saída acidentalmente e percebi que estava novamente no salão de entrada com as mesmas três opções de corredor. Ok. Se aquilo fosse se repetir eu preferia não perder meu tempo.

— Tem alguém em casa? – gritei – Oi!

Quem apareceu para me guiar me fez sentir o coração parando de bater. Não era nenhuma das pessoas que eu esperava, mas podia ser alguém desconhecido. Me sentira melhor e menos... Traída.