Um Outro Lado da Meia-Noite
28 Confiável
Alguns dias são mais difíceis que outros, disso nunca duvidei, mas os últimos dias á quais tenho sobrevivido são castigos. Oito dias se passaram desde de que voltei do mundo mágico irlandês, tenho evitado Valentine o máximo possível, não consigo olhar para ela e lembrar que tenho uma parcela de responsabilidade em sua cegueira – culpa é o pior sentimento que existe –, felizmente Dylan não fala comigo á menos que seja necessário, nos últimos oito dias para ser mais exata ele só me dirigiu palavra para perguntar se estava tudo bem comigo depois de ter “conhecido” a família dele, e duas manhãs atrás para informar que ainda não tinha nenhuma novidade á respeito da busca por George. Sou grata por não precisar falar com ele por mais de alguns minutos, em parte agradeço á maldição do gato que me permite esgueirar por onde quero sem chamar atenção desnecessária e evitar o caminho de quem eu bem entender. Vi Narciso três vezes, quando ele viera trazer flores para Valentine. Senti em todas às vezes vontade de correr para ele e dizer que estou perto, que preciso dele e de minhas irmãs, ter que vê-lo sem poder sequer me aproximar me corta o coração, mas antes de tudo preciso protegê-los de mim.
Não tenho informações sobre os outros e isso me aflige um pouco, por vezes sou tomada pelo impulso de perguntar a Dylan sobre minha família, qualquer pequena informação por mais inútil que pareça apenas para saber que continuam de algum modo vivendo suas vidas, entretanto quando me aproximo dele finjo que ele não está por perto e sigo em frente como se fossemos dois estranhos em uma rua movimentada cada um com sua vida sem tempo para a vida alheia – sinto-me uma covarde quando faço isso. Não é timidez ou temor o que me afasta dele, é apenas uma vaga lembrança de uma garotinha apavorada encarando um monstro com garras e presas em um quarto cujas paredes estão manchadas de sangue, seguida da lembrança de uma criatura disforme com olhos alaranjado-brilhantes me carregando em seus braços dizendo com uma voz ora áspera ora gentil “está tudo bem, minha flor”. Por que de repente fico confusa diante dele? Ele é perigoso, deveria sentir medo dele ou raiva ou desprezo, mas... não é mais como antes que eu simplesmente tinha o por que de odia-lo, agora sei o que aconteceu naquela noite terrível em que meu pai foi morto por um monstro. Foi um acidente, causado por uma brincadeira estúpida que causou apenas dor para nós dois, mas ainda assim um acidente, ele não entrou em meu quarto para me matar e tão pouco matou meu pai por ódio, sei como é perder o controle da magia e deixar a magia controlar o corpo e a mente, também já feri pessoas quando podia ter simplesmente evitado – e agora estou justificando o fato dele ser um imbecil cruel – Não, ele não é como eu. Ele foi criado nas trevas para ser como sua família tenebrosa, não importa se ele renegou suas origens e está tentado se redimir de seus erros, Dylan Walker é perigoso e eu uma cabeça de vento por vir pedir ajuda-la á ele. Não que vá voltar atrás e fugir daqui como fiz com Leonel, aqui sei que estou segura, as sombras que o serve me servirão também, ainda que eu não aceite ser sua rainha.
Rainha! Por que tem que ser eu? Com tantas bruxas dos dois lados do mundo por que logo eu? Não podia ser Verbena? Ela seria uma excelente rainha ou Imogen, ela pode ser um pouco aluada, mas tem algo bom que poderia servir ás sombras. Devlin Bellovà, esse é o nome da atual rainha, as Sombras me falaram dela á muitos anos quando eu ainda os tinha como amigos. Diziam que um dia a rainha iria passar o cetro real para sua sucessora, apenas as bruxas podiam reger as sombras-eternas, nenhuma uma criatura humanoide tão pouco um homem podia assumir o poder sombrio das trevas, me diziam que muitos anos podiam se passar de uma coroação para outra por que as Sombras impediam o envelhecimento e morte da rainha até que outra rainha nascesse e fosse preparada para assumir o lugar de sua antecessora. Elas já haviam me escolhido e estavam me preparando para assumir o lugar de Devlin, mas então eu as reneguei. O que irá acontecer agora? As sombras irão escolher outra rainha ou a Senhora Devlin permanecerá no trono por mais muitos e muitos anos? Perguntas sem respostas me deixam impaciente, eu quero saber de tudo para já. Desci do telhado de vidro da estufa de onde observava o campo de rosas na vã esperança de ver meu irmão, mas é distante demais e as pessoas á certas distância parecem todas muito umas com as outras, com pequenas exceções como cabelos ou vestes que podem ser usadas para distinguir uns e outros. Quando entrei na casa dos Walker fui enxotada por Dolores que detesta gatos – se ela soubesse que sou eu provavelmente enlouqueceria – fui ouvir Julieta lendo mais algum livro para Valentine, torcia para que fosse alguma aventura ou qualquer coisa que não fossem poemas, não dei sorte, por intermináveis minutos ouvi Metamorfoses, de Ovídio. Felizmente adormeci rapidamente, ainda que ouvisse a voz distante dela soando tão lamentosa quando os poemas que lia.
...
Enquanto meus dias têm sido longos e complicados, minhas noites podiam simplesmente deixarem de existir, tenho tido pesadelos terríveis de toda sorte imaginável, os piores são pesadelos envolvendo meus irmãos. Ter pesadelos para mim não é nenhuma novidade, os tenho desde os nove anos, aprendi á conviver com eles aos longos dos anos e para isso contei muito com a ajuda de feitiços, exaustão e algumas vezes meditação – não que deva chamar de meditação o ato de ficar repetindo a mesma palavra durante horas enquanto permaneço de olhos fechados –, de modos gerais os pesadelos não me afetam tanto, são apenas sonhos que não podem me influenciar, e ainda assim me assusto com eles quando me veem com tanta realidade. E esta noite o pesadelo que me ocorreu foi desse tipo, real. Sentei-me na cama olhando para as paredes vazias do quarto na qual Dylan me instalou, fui até a janela e fitei a lua cheia, estava novamente em minha forma humana, depois de passar doze horas inteiras como um felino acordar na madrugada com a aparência humana é estranho, quase desconfortável. Considerando que estou amaldiçoada há quase seis meses já deveria ter me acostumado com isso... seis meses, parece que foi há tanto tempo que tudo começou. A carta que chegou ao convento de Magnólia pedindo minha presença no seu jantar de noivado é claro que ela me chamou por desejar que interferisse na decisão de Narciso e Margarida em casa-la, quando ela me transformou em gato confesso que planejei uma longa punição para ela, e agora conheci segredos de Edwin que me deixaram revoltada com ele, mas repensando em tudo o médico poderia fazer minha irmã feliz.
Entrei na cozinha tão envolvida nos meus pensamentos sobre os segredos de Edwin e no seu noivado com Magnólia que sequer notei nada além do pote na qual peguei água, então ouvi um chiado estranho e um cheiro forte de pimenta que fizeram meus olhos arder. Virei-me para a mesa no centro da cozinha, Dylan estava segurando algumas ervas em uma mão enquanto com a oura folheava um livro grande de páginas grossas. A mesa estava cheia de folhas e objetos variados incluindo um vidro com um liquido semitransparente dentro da qual havia olhos pequeninos. Senti meu estomago revirando, que porcaria ele estava fazendo? Olhei para o outro lado, havia lenha queimando no fogão sobre qual havia um caldeirão. Não resisti á tentação e me aproximei do fogão para ver o que ele cozinhava, era dali que vinha o cheiro peculiar de pimenta.
– Não seja curiosa, isso pode te dar dor de cabeça – disse Dylan me fazendo afastar do fogão.
Olhei para ele que ainda lia seu livro, tentando não olhar aqueles olhinhos dentro do vidro revistei a mesa para ver o que tinha sobre ela. Como já esperava não fui capaz de identificar nem a metade das ervas que ele tinha ali, abri uma pequena caixa de madeira onde achei alguns ossos pequeninos, em outra caixa encontrei mais ossos e quando achei ossos em uma terceira caixa entendi que nas caixas de madeira havia apenas ossos então fui mexer em outra coisa. Um objeto estranho parecido com uma urna que Dylan tirou de minha mão antes que eu abrisse.
– Não mexa nisso, é veneno – informou pegando um feixe de ervas seca e indo para o caldeirão.
Ergui os pés para ver o que ele fazia, mas não vi mais que alguns movimentos de braço. Peguei o livro para ver o que era aquilo, e para minha insatisfação o livro estava em outro idioma, irlandês provavelmente.
– O que está fazendo? – perguntei
– Pó de bicho-papão.
Afogaria ele no caldeirão se não estivesse curiosa para saber o que ele estava fazendo, repliquei:
– Hilário, mas não precisa inventar se não quer dizer a verdade.
Ele deixou a concha mexendo o caldeirão sozinho enquanto voltava a mesa e procurava algo em uma caixa de metal que era dividida em pequenos compartimentos. Tirou de dentro algumas sementes e voltou para o caldeirão, assim que as sementes entraram em contato com o resto dos ingredientes, a mistura começou a borbulhar transbordando do caldeirão e infectando o ar com cheiro forte e mais desagradável que pimenta fresca. Dylan começou a repetir “não” enquanto usava um pedaço de madeira para erguer a alça do caldeirão e descê-lo do fogão.
– Acho que seu pó está molhado – comentei rindo da expressão zangada dele.
– Você não deveria estar dormindo não? – perguntou em um tom grosseiro
– Deveria, mas de repente perdi o sono – informei me sentando á mesa e o observando carregar o caldeirão para fora.
Ele voltou alguns minutos depois. Recolocou o caldeirão sobre o fogão, um pouco de água e recomeçou a mistura. Primeiro uma medida de uma gosma-enlameada com cor de musgo, algumas raízes e gotas de um frasco. Havia vários frascos sobre a mesa e nenhuma marcação sobre o que era o que, então voltou ao livro seguindo em ordem o que estava escrito. E minha curiosidade aumentou quando ao adicionar novamente aquelas ervas secas á mistura borbulhou vazando fora do caldeirão, mas desta vez piorou por que um pouco caiu sobre o fogo fazendo com que uma fumaça escura e verde subisse cobrindo parte da cozinha. Mais uma vez ele jogou a mistura e retornou para começar tudo de novo.
– Quer ajuda? – perguntei impaciente, queria saber o que ele estava tentando fazer e pelo modo com que ele fazia nunca saberia o que ele estava fazendo.
Dylan não me respondeu de imediato, por breves minutos me olhou desconfiado, então pegou um par de luvas de couro e me entregou, as calcei animada. Finalmente ia ter algo útil para fazer, estava cansada de ficar fazendo nada apenas esperando por novidades á respeito de George.
– O que posso fazer? – perguntei olhando para a bagunça na mesa
O céu começava a clarear e ainda não havíamos encontrado o modo correto de fazer aquela coisa dar certo, e era realmente o preparo de um pó, segundo Dylan levava semanas para ficar pronta e o livro não estava em irlandês, a escrita era gaélica á qual o ruivo conhecia apenas algumas palavras em gaélico. Disse-me que o livro era antigo, havia pertencido á uma ancestral chamada Rowena que fora a mais poderosa bruxa de sua família, uma viajante que se casara com um viking e jamais tivera filhos, apenas uma vida cheia de aventuras e magia pelas terras nórdicas. O pó de bicho-papão, como ele o chamava, servia para mudar de forma, especulei se ele não era capaz de distorcer a realidade ao seu redor para passar despercebido por outras pessoas, então me explicou que o pó era capaz de enganar criaturas mágicas e animais com senso olfativo ou auditivo mais apurado, diferente de feitiços de distorção de realidade que não se pode ocultar sons ou cheiros específicos.
– Vai desistir? – perguntei com um bocejo quando ele começou a guardar os frascos em um baú
– Por hoje sim. Os funcionários pensam que trabalham para um estranho com hábitos incomuns, prefiro eles achando que sou maluco que eles me caçando por bruxaria e também estou cansado. Preciso dormir um pouco antes de começar meu dia.
Me levantei o ajudando a guardar as coisas. Estranho pensar que durante os últimos dias evitei a presença dele e agora estava o ajudando de boa vontade, é realmente confuso. Perguntei á ele quando fechei o livro cuja capa de couro tinha uma pena de pavão bordado.
– Não pode pedir para alguém da sua família te dizer como faz esse pó?
– Hã – ele parou com a urna de veneno no braço – Tecnicamente esse livro foi destruído á muitos anos, prefiro que todos continuem pensando assim. E tão pouco posso pedir que traduzam isso.
– Por que não?
– Rowena Bellovà foi a maior bruxa do seu tempo, prefiro não chamar atenção desnecessária.
Não perguntei mais nada, ainda que tivesse mil perguntas para lhe fazer. As caixas e baús desapareceram com uma ordem dele, estava tudo limpo ainda que o cheiro forte de misturas exóticas ainda pairasse no ar, Dylan abriu as janelas para ventilar e voltamos para os quartos. Ele parou junto comigo diante da porta do meu quarto três quartos antes do dele.
– Agradeço a ajuda e a companhia – disse-me
– Não por isso, se precisar de ajuda novamente me fale.
Ele sorriu e depois me deu um beijo no rosto. Senti meu rosto queimando enquanto entrava no quarto e trancava-me.
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