Um Novo Mundo
5 Rachel Elizabeth Dare: O Oráculo.
Depois do jantar, quando todos os outros campistas já haviam ido dormir, Quíron pediu para que eu levasse meus irmãos até o Chalé 6 e voltasse ao Pavilhão para conversar com ele. Coloquei os Corujos para dormir, peguei o laptop e voltei apressadamente até Quíron. O frio congelava meus dedos, fazendo com que eles ficassem paralisados. Meus braços agarravam firmemente o metal gelado, colado ao meu corpo, enquanto eu corria na maior velocidade possível até o Pavilhão. Chegando lá, avistei Quíron, Chorão, a garota incrivelmente bonita e ruiva e o Sr. D. Fui recebida pela petulância do Sr. D. Não entendia isso. Pedro era tão legal, enquanto seu pai era um deus arrogante. Mas ainda assim gostava dele.
–O que foi que deu nessa sua cabeça, garota? Pensa que pode pensar que sabe tudo? Não, você não pode! Não existe uma cura para o ataque de um Mangtas, sua criaturinha ignorante! Só porque você é filha da deusa da sabedoria não significa que está sempre cer...
–Sr. D., por favor, primeiro deixe-a falar.-Disse Quíron, calma e educadamente, fazendo com que o Sr. D. ficasse envergonhado. Ele deu de ombros.
–Pois bem, obrigada, Quíron. Mas, antes de começar, gostaria de saber... Bem, quem é você.-Eu disse, indicando a Miss Vermelha com a cabeça.
–Eu sou Rachel. Rachel Elizabeth Dare, o Oráculo.-Ela respondeu, abrindo um sorriso incrivelmente branco para mim.
–Você é o Oráculo?-Perguntei, ainda abraçando o laptop fortemente.
–Sim, por que a pergunta?-Ela retrucou, inclinando a cabeça. Seu olhar era de uma criança travessa que tinha acabado de comer a sobremesa escondida da mãe.
–Bem, por nada, só não imaginei que... Que o Oráculo fosse tão...
–Bonito?-Completou Chorão, falando em um inglês que entendi perfeitamente.
–É... Bonito.-Disse, ainda boquiaberta.
–Obrigada. Agora que já me apresentei, apresente-se também.-Ela disse, passando as mãos pelos longos cabelos vermelhos.
–Me chamo Gui Trotseer. Filha de Atena. Chalé 6.
–Vamos ao que interessa.-Disse o Sr. D., rispidamente, perdendo a paciência.
–Gui, você disse que há uma cura para o ataque de um Mangtas. Qual?-Quíron me perguntou atenciosamente, sem tirar os olhos de mim. Eu abri o laptop na pesquisa. Lá estava o nome de tudo que a gente precisava.
–Que diabos é um Malunhaw bulak?-Perguntou o Sr. D. fazendo a careta mais feia que já vi.
–Malunhaw bulak é o nome científico da Lótus vermelha.
–Lótus vermelha? Gui, você tem certeza?-Perguntou Chorão em português.
–Só não digo que tenho "certeza absoluta" porque isso seria um baita pleonasmo. Mas sim, tenho certeza.-Respondi, também em português.
–E onde a...-Começou Quíron, tentando ler novamente o nome científico da lótus.
–Lótus vermelha?-Completei.
–Isso. Onde a Lótus vermelha é encontrada?
–Não sei. Ninguém sabe. Existe uma lenda que conta que só houve uma pessoa que encontrou essa lótus. Essa mesma pessoa deixou pistas, que leva à localização da lótus. Não são pistas difíceis de encontrar, mas sim de decifrar. Cada uma contém um desafio. São, no total, sete... Rachel, você está bem?
Ela havia .se apoiado na mesa do meu Chalé. Estava pálida e suava frio. De repente, seus olhos saíram de foco e ela parecia eletrizada. Quíron, o Sr. D. e Chorão haviam se afastado, mas eu continuava olhando para ela para ver o que iria acontecer. Uma fumaça verde começou a sair pela sua boca e por suas narinas, e ela disse numa voz que não era dela:
–Nove meio-sangues a cura buscarão
Pela Herdeira da Sabedoria liderados serão.
A perda de amigos irá vir
E sangue inocente irá cair.
Depois da viagem dolorosa
Algo ruim irá acontecer
Depois de tanto terem sofrido
Seu maior objetivo irá padecer.
Ela desmaiou e, antes que pudesse bater com a cabeça em algum lugar, Chorão segurou-a.
–O que foi isso?-Eu perguntei, olhando para ela, assustada.
–Uma profecia.-Disse Quíron. Seu tom era calmo, mas sua expressão era de puro pavor.-Uma profecia, Gui. Você vai ter de ir em uma missão. Mas resolveremos isso amanhã de manhã, você precisa descansar.
–Você quer que eu vá dormir sabendo que "A perda de amigos irá vir" e que "Sangue inocente irá cair"?
–Sei que é difícil. Mas às vezes é necessário fazer esforços para que uma coisa saia bem sucedida. Será que você me entende?-Quíron estava quase implorando.
–E Rachel?-Perguntei, suspirando.
–Ela vai ficar bem. Chorão vai levá-la à Casa Grande até ela se recuperar. Agora vá. Precisa estar bem amanhã.
–Tá. Tá bem, tá bem. Eu vou. Boa-noite.-Me despedi e virei as costas.
Fiquei tentada a, ao invés de ir até meu chalé, ir espairecer um pouco. Mas não o fiz. Não trairia a confiança de Quíron. Caminhei vagarosamente até meu chalé, sentindo a brisa bater contra meu rosto e, ao chegar, abri cuidadosamente a porta, temendo acordar meus irmãos. Entrei. Lá dentro estava quente, em comparação ao lado de fora. Deixei o laptop em cima da escrivaninha e sentei-me em minha cama. Tirei meus tênis All Star cano médio, gastos e pretos e os coloquei juntos, debaixo da cadeira. Coloquei minha cabeça em cima do travesseiro e me cobri com o edredom azul e macio. Suspirei, olhando para o teto. Era muita informação de uma só vez. A perda de amigos irá vir. Sangue Inocente irá cair. Aquelas palavras ficavam batucando na minha cabeça sempre que eu tentava me concentrar em dormir. Fechei os olhos. Tinha que conseguir dormir. Se passasse a noite em claro, Quíron saberia no outro dia. Virei de bruços e coloquei meus braços sob o travesseiro. Depois de nove tentativas e posições diferentes, desisti. Me descobri e me sentei na cama. Escondi meu rosto nas mãos. Sabia que não deveria fazer o que iria fazer em seguida. Era perigoso. Tinha de ser cautelosa e silenciosa. Me levantei e atravessei o chalé. Abri com muito cuidado a porta, sem me importar em estar descalça. Passei para o lado de fora, fazendo o mínimo de barulho possível e, em seguida, fechei a porta. Suspirei ao mesmo tempo que me sentava, encostada no mármore branco, polido e gelado. Abracei minhas próprias pernas. Sentia medo. Abaixei minha cabeça e deixei as lágrimas rolarem. Estava sendo muito difícil para mim. Tinha de escolher oito amigos, e muitos acabariam morrendo. Seria culpada por isso. Lembrei de uma vez em que li uma frase em um dos livros de Sparks, na biblioteca em que meu pai trabalhava. O arrependimento suga a vida de qualquer pessoa. Estava absorta em meus pensamentos, quando escutei alguém caminhando na grama, vindo em minha direção. Não fiz quaisquer esforços para me levantar e sair correndo para dentro do chalé. Não me importava com quem era.
–Tá tudo bem?-Uma voz rouca me surpreendeu, me fazendo levantar a cabeça e limpar as lágrimas com minhas mãos. Chorão estava ali, bem na minha frente, agachado à minha altura.-Queria ver se você tem um tempo. Mas, se você quiser, eu posso voltar depois...
–Não.-Interrompi.-Não, por favor, fique. Estava mesmo precisando de falar com alguém.
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