Um Novo Mundo
3 Converso com Alexandre, o Chorão.
Depois de ficarem calmas, Annie e Ada me levaram até o pavilhão, onde uma multidão laranja estava. Localizei Quíron(como é possível não reconhecer um centauro no meio de um bando de adolescentes com blusa laranja-cheguei?) e reparei no seu olhar preocupado, pedindo para que os campistas se afastassem. Eu congelei. Do meio dos campistas surgiu Chorão, que parecia ao mesmo tempo maravilhado e assustado pela multidão que o cercava. Senti um arrepio descer as minhas costas quando o vi me fitando com o olhar. Eu não perdi tempo. Disparei em sua direção e consegui, por pouco, parar antes de acertá-lo.
–Rélou... Quen iú anderstende me?
–Eu... Ahn... Eu falo a sua... língua... O-olá...
Torci para não estar com uma cara abobalhada. Porque era assim que eu ficava sempre que ficava com vergonha ou muito feliz.
–Graças aos deuses! Oi, eu sou...
–Eu sei quem você é.-Ele parecia amedrontado e traumatizado pela minha expressão pasma.-Me chamo Gui, Gui Trotseer-disse, estendendo a mão. Ada, Annie, Bryan(Bruce havia saído em uma busca), os outros campistas e até o próprio Quíron me encaravam boquiabertos
–Ahn, oi, Gui. Me chamo, na verdade, Alexandre, mas pode me chamar de Alex ou mesmo de Chorão, se preferir.
–Claro, claro! Então, Chorão, quero que você saiba que eu sou, tipo, sua super fã, super, mesmo. Será que depois, assim, você... Poderia...
Neste momento, Quíron chegou trotando.
–Gui, eu detesto interromper o seu "momento-felicidade"(ele disse isso fazendo as aspas com as mãos), mas... Eu preciso conversar com Alex. Imagino que ele não tenha vindo até aqui à toa, como da última vez. Acho que não lembro direito do português, já faz uns trinta anos que não converso com ele, mas acho que po...
–Você já o havia conhecido antes?!-Perguntou Ada, com uma expressão que, em outra situação, eu haveria tido um acesso de riso.
–É...-respondeu Quíron, relutante.-Mas não foi um encontro muito... Agradável.
Fiquei olhando para ambos, tentando entender o que estava acontecendo.
–Gente...?-Perguntei, fazendo esforço para quebrar o silêncio constrangedor que pairava no ar, enquanto os outros campistas ainda olhavam incrédulos para mim.
–Alex, poderia vir comigo até a Casa Grande?–Quíron disse uma língua diferente, mas acho que todos entendemos, pois ninguém tinha uma expressão interrogativa.
–Claro–respondeu Chorão.
Apenas alguns instantes depois consegui entender. Eles haviam conversado em grego antigo, a língua que todos os semideuses do AMS conseguiam entender. Fiquei me perguntando de quem Chorão seria filho. A primeira alternativa que veio à minha mente foi Apolo, afinal, um cantor e compositor tão lindo, quero dizer... Talentoso(Não, eu não sinto atração por ele, está bem?) como ele só poderia ser filho do mais quente, digo, talentoso deus. Mas nem sempre as características que você tem indica de qual deus você é filho. Quíron nos contou uma história, certa vez, na fogueira, de um heroi chamado Frank, ou Fai, Zhang. Ele disse que Frank era do Acampamento Júpiter, um acampamento para semideuses(assim como o AMS) romanos. Ele era filho de Marte/Ares e de Emily Zhang, uma soldada do exército canadense. Nos contou que Frank era ótimo com arco e flecha e, até antes de ser reclamado, pensava ser filho de Apolo. Mas não era. Quíron acrescentou que isso tudo havia acontecido há muito tempo, quando nós nem sonhávamos em nascer. Depois ele disse algo sobre Profecia dos Sete, mas eu não entendi direito.
Quíron e Alex caminharam(digo, Alex caminhou e Quíron galopou) até a Casa Grande e adentraram nela. Os campistas me olhavam de canto quando o Sr. D. apareceu e mandou todos voltarem às suas atividades; mas, quando foram obedecer à sua ordem, Bruce chegou ao bolo de campistas. Eu achava Bruce bonitinho, por ser um sátiro: tinha os cabelos negros aparados, e seu cavanhaque o deixava charmoso.
Atrás dele um garoto alto e magro de cabelos escuros e encaracolados apareceu, fitando Annie, que estava ao meu lado e ficou vermelha. Eu comecei a rir, mas ela me deu um cutucão com o cotovelo.
–Ah, que ótimo! Mais um campista para me atormentar. Quem é você, garoto?-disse o Sr. D. muito rude.
–Meu nome é... Louis...
Ele ainda olhava para Annie, que continuava a ficar vermelha. Acho que Louis não estava ligando para as filhas de Afrodite, que o olhavam e davam risadinhas entre si. Ele tinha a língua presa. A voz de Louis era bonita. Sim, eu reparo na voz das pessoas.
–Sr. D., eu acabei de buscá-lo. É impressionante como ele conseguiu sobreviver por todo esse tempo. Dá pra acreditar, que ele tem dezessete anos?
Os campistas soltaram um murmúrio de espanto. Era muito raro um semideus viver até essa idade fora do AMS, sem a proteção de nenhum sátiro.
–Pois bem. Que pena que você não está morto. Então, já que está aqui, vou pedir a Ada que te mostre o Acampamento. Ada! Cadê você?
Ada saiu do lado de Annie e foi correndo para o lado de Louis, que olhou para Ada.
–Você é bonito-reparou Ada, que agora estava sendo fuzilada pelo olhar de Annie.
–-O-obrigado, eu acho.
–Venha. Eu vou te mostrar o Acampamento, depois você baba mais na Annie.
Foi a vez dele ficar vermelho. Eles se foram, e Annie havia paralisado.
–Annie?... Annie!
–Ah, oi. Oi?
–Você se amarrou no cara, né?-eu disse, abrindo um sorriso de orelha a orelha.
–É, ele... Ele é bonitinho.-Ela corou e olhou para o chão, em seguida levantou o olhar para mim.–Com essa coisa toda, a gente ainda não treinou. Vamos?
–Ah, com certeza.
O Sol já ia se abaixando no horizonte e o cheiro dos morangos invadia o ar, quando Ada se aproximou com Louis. Quando Annie o avistou, parecia que estava entorpecida. Eu a atingi no braço direito e na face, mas então eu decidi parar, ou então ela acabaria morrendo de hemorragia. E isso não seria bom para mim. Percebi que Louis também olhava para ela, e imaginei que não seria legal que eles dormissem no mesmo Chalé-o que iria acontecer, já que ele ainda não havia sido reclamado. Todos os semideuses que ainda não haviam sido reclamados iam para o Chalé 11. Talvez fosse esse o motivo de ele ser tão bagunçado.
–Ainda não tive a chance de... De me apresentar devidamente. Meu nome é Louis-Ele tinha um certo brilho malicioso nos olhos.-Louis Meslow.
–Oi... Eu sou Annie. Annie Caroline, e...
–E eu sou Gui Trotseer. Muito prazer, cunha... Quero dizer, Louis.
Ada balançou negativamente a cabeça e revirou os olhos para Annie, que nem parecia ligar para os ferimentos. Ela olhava para Louis como se ele fosse um cupcake gigante de chocolate, apreciando e aproveitando cada pedaço da sua "cobertura".
–Então, Louis, de onde você é?-perguntei.
–Sou de Seattle-respondeu ele, sem nenhuma emoção.
–Sério?-Ada perguntou.-Gui também é de lá.
Louis, pela primeira vez, conseguiu desviar o olhar de Annie e se voltar para mim.
–Onde você estuda?
–Na Smart Sheet. Louis, você pode me responder uma coisa?
–Sim, eu acho.
–Todos os semideuses que chegaram ao Acampamento não paravam de perguntar sobre tudo, o que estava acontecendo e tal. Quero dizer, você não está... Intrigado com tudo isso? Você poderia ter morrido, e nem parece ligar.
–Ele arrumou outra coisa melhor para fazer, Gui, você não percebeu?-Disse Ada abrindo um sorrisinho.
–Acho melhor eu ir andando. Depois a gente se fala mais, meninas.-Ele deu uma piscadela para Annie e se virou. Quando ele disse "meninas", tive a leve impressão de que ele quis dizer "Annie", ou "gata". Assim que ele desapareceu de vista, Annie desabou no chão, literalmente.
–Ai. Meu. Zeus! O que eu faço?!
–Faz com o quê? Com um garoto que você mal conhece, não sabe de que deus é filho e que pode, inclusive, ser seu irmão?-Disse Ada, arqueando as sobrancelhas.
–Ada, você tem razão!-Exclamou Annie, arregalando os olhos.-
–Eu tenho razão-Ada disse, cheia de si.
–E se... E se... E se ele for meu irmão?!
–Eu, sinceramente, duvido que ele seja filho de Hermes. Aposto cinco dracmas que ele é filho de Afrodite.-Disse Bryan, chegando ao lado de Bruce. Annie se virou para eles.
–Vocês acham?
–Eu tenho certeza-assegurou Bryan.-Para ser tão saf...-Bruce cobriu sua boca, antes que ele terminasse a frase. Tirou a mão da boca de Bryan, lhe dando um cutucão nas costas.
–Tem crianças aqui.-Ele disse, olhando para Ada.
–Eu não sou criança–Disse Ada, na defensiva.- Só sou nova e... pequena.
–O.k., pequena é uma coisa que você, definitivamente, não é. Se bobear, é maior que a Gui.-Eu, que estava olhando para a Casa Grande e pensando na conversa de Quíron e Alex, despertei ao ouvir meu nome.
–O quê?-Perguntei, confusa.
–Disse que Ada está praticamente maior que você.-E, ao dizer isso, passou as mãos pelos cabelos compridos.
–Ah, é verdade...-Falei, passando o braço ao redor do pescoço de Ada.-A Senhora das Forjas está crescendo. Ada pareceu feliz com isso, embora dissesse o contrário.
–Oras, não estou crescendo. Galera, acho melhor a gente guardar as armaduras e ir para o Pavilhão jantar.
Todos concordamos. Estava indo até meu chalé, quando um garoto enorme(não me leve a mal, ele não era gordo. De verdade. Ele só era grande.) surgiu à minha frente, ao lado de uma garotinha pequena, de olhos verdes e cabelos claros. Do outro lado dele, havia um menino moreno de cabelos mal-cortados, castanhos e bagunçados. Usava um aparelho e tinha um jeito paradão. Mas todos os três me olhavam.
–Eu posso... Ajudar?-Disse, andando dois passos para trás, com medo de o grandão me asfixiar.
–A gente só queria saber de onde você conhece aquele homem.-Ele usava a blusa do Acampamento e uma bermuda cor-de-pele, os tênis pretos estavam gastos. Tinha um olhar penetrante.
–É-completou o garoto ao seu lado.-A gente só queria saber. De onde você o conhece?-Percebi que ele tinha um sotaque diferente. Talvez fosse seu aparelho fixo, talvez não.
–Na verdade-eu disse, tentando manter minha voz firme-, não o conheço.
–Então como estava falando com ele?-indagou a garotinha. Ela era excepcionalmente fofa.
–Marry, por favor, deixe seu irmão falar-Disse o menino.
–Você parece nossa mãe falando-Disseram o Brutamonte e a Coisinha Apertável em uníssono. O Sorriso Metálico levantou as mãos em rendição, enquanto o Grandão se voltava para mim. Eu tremia. Sério, ele me assustava.
–Então, o.k.-Ele ficou olhando intensamente para mim, enquanto eu ia ficando mais pálida de medo. Acho que se outra garota estivesse na minha situação(um garoto que, pra falar a verdade, era bonitinho, ficar olhando profundamente, até sua alma), teria ficado vermelha, e não branca–o que é difícil, já que eu sou morena. Ele, finalmente, pareceu perceber o meu medo.
–Oh, sim, me desculpe. Eu sou Carlos MCFly, essa é minha irmã Marry MCFly e esse é meu amigo/braço direito, Pedro Anthony. Nós somos do Chalé três-Disse ele, indicando com a cabeça a irmã.-, e Pedro é do Chalé doze.
Fiquei feliz por saber que ele não queria me asfixiar, ou algo do tipo. Avistei, então, atrás de Carlos, Quíron saindo em companhia de Alex, e saí correndo desesperadamente até eles. Carlos, Marry e Pedro provavelmente pesaram que eu era doida. O que eu realmente era. Quando me aproximei, ofegante, Quíron me contou ma coisa que realmente me abalou.
–O que houve, Quíron?-Perguntei, a testa franzida.
–Alex foi atacado.-Ele disse, com o olhar perdido no tempo. Parecia estar escolhendo as palavras, até que finalmente disse algo.-Chorão foi atacado por um Mangtas.
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