O ruído das Doc Martins pisando o amadeirado chão reverberava pelas paredes da sala. O tilintar das prateadas correntes, presas às negras calças, como as intermináveis noites invernais, ondulava através do papel de parede verde. Os sons infiltravam-se nos incomodados ouvidos dos alunos, distraindo-os do estudo, e raivosos olhares penetrantes focaram-se no rude roqueiro que se dirigia, pavoneando-se pela divisão, até um dos seus colegas. No entanto, Demitri, cuja atenção estava colada no rapaz mulato a desenhar, nem se apercebeu da mudança comportamental das pessoas à sua volta. As suas mãos passaram pelos seus cabelos ebúrneos, iluminados, demarcados pelo dourado fulgor do sol, enquanto delineava a possível futura conversa na sua mente. Cada imaginável resposta cintilava frugal diante dos seus olhos. Ele conseguia sentir o sangue ressoar e fluir nos seus ouvidos. O seu coração queria, parecia-lhe, saltar do seu peito tal era a força do impacto contra as suas costelas. Cada passo que o aproximava do moreno deixava a sua cabeça mais incansável, as suas alvas mãos esfregando-se e limpando-se nas negras calças tentando secarem-se.
-Hey, Pascal! -murmurou ao puxar uma cadeira, sentando-se, ainda que não esperasse uma saudação calorosa, procurando, simultaneamente, controlar o tremer que se apoderara do seu corpo, quase que instantaneamente, só de se acercar do moreno. Só de ficar assaz consciente de todo e qualquer rápido movimento de mão do mulato sobre o desenho, deixando suaves linhas. Só de se deixar inebriar pela tropical fragância que pairava do artista para si.
Pascal deteve-se abruptamente, partindo o bico ónix do lápis. O seu coração aparentava ter estagnado, assim como o seu corpo. O branco barulho de fundo, antes presente na sala, afigurava ter sido sugado pelo ensurdecedor silêncio. Cada músculo, que era fina e duramente talhado, se tencionara, tornando-o ciente de Demitri sentado a seu lado. Tornando-o tormentosamente ciente da mão do roqueiro pousada perigosamente da sua. Tornando-o dolorosamente ciente da respiração do alvo a bater-lhe na cara. Tornando-o ameaçadoramente ciente da maneira como os lábios dele se deslocavam ao falar consigo, embora não conseguisse concentrar em nada mais a não ser no seu físico.
Demitri olhou para Pascal, apercebendo-se que este estava concentrado nele. Surgiu um sorriso confiante no rosto do roqueiro, que só aumentou ao ver o que o moreno traçava. A sua cara, em variados tons de preto e branco de acordo com o carvão, fazendo sobressair os seus olhos verdes claros. Estendeu a mão, tocando ao de leve no braço do artista, acordando-o do transe em que se encontrava. Assistiu à mudança súbita que ocorreu na face e no porte de Pascal. E o sorriso, que antes lhe preenchera e quase rasgara a sua cara, foi aos poucos morrendo. Mesmo não querendo admitir, Demitri sabia que ele arruinara a ligação que existira entre os dois. Sabia que não deveria ter-se aproximado de Nita, estando, paralelamente, envolvido com o trigueiro. Foi a arrepender-se outra vez dos seus erros, que o albino o observou a arrumar apressadamente os materiais dentro da sua bolso e a levantar-se atabulado, um dos seus infinitos casacos longos, este rubro que nem o sangue, a alvoraçar-se atrás dele enquanto atravessava, com longas passadas, o chão amadeirado da sala.
O artista, depois da bolha de silêncio ter sido estourada pela bomba sensorial do toque do -seu- roqueiro, não podia acreditar que este se atrevera a dirigir-lhe a palavra. Não depois de o ter traído com a irmã, de todos os indivíduos na universidade! A sua mão violenta sacudiu as suas lágrimas agressivas.
Pascal já poderia adivinhar o rumo do diálogo de Demitri e ele, de maneira alguma, deveria ceder às suas belas e poéticas palavras. Se tal o fizesse cairia numa cova cavada pela sua própria mão. Uma cova de mentiras e traições.
Naquela altura, ao tentar fugir da mágoa das imagens do seu namorado com a sua irmã, a procurar conter os gritos frustrados que ameaçavam escapulirem-se do fundo da sua garganta, nunca tivera-se sentido tão humilhado! As duas pessoas em que confiara na sua vida brincaram e torturam os seus sentimentos. A sua realidade. O rapaz pardo sentira-se como um pequeníssimo ratinho preso da pata apunhaladora de um poderoso casal leónico.
O artista passara meses encafuado no seu quarto, numa jaula da sua própria criação, cujo chão estava coberto por uma alcatifa de papel amassado e cuja cama era coberta de mantas encharcadas pelas cascatas de água salgada que saiam dos seus olhos. O seu apetite ficara perdido, algures no caminho da maratona daquela alcova até à sua temporária prisão. Quando, finalmente, saiu desta cela, todos os seus amigos notaram na cortante saliência dos seus ossos, e embora não o tivessem referido, Pascal sentira cada olhar pregado no seu corpo, tentando escrutinar uma solução para um boneco estragado.
O moreno saltou levemente, sobressaltado por um aperto no seu braço.
— O que é que queres?- ladrou entredentes e, furiosamente, soltou o seu braço.
— Desculpa,- sussurrou o albino, largando-o como se o moreno pegasse fogo, queimando-o até ao mais fundo da sua alma,- eu só queria falar contigo. Sobre o que aconteceu naquela noite.- Desabafou, passando uma trémula mão pelos seus cabelos.
Pascal ignorou o roqueiro e desceu, quase que a voar, a escadaria da universidade enquanto desfazia o seu coque. Demitri seguiu-o, apressando-se pelos degraus em que Pascal pousava os seus pés, chamando pelo seu nome.
Quando chegou ao parque defronte da escola, o artista estacou e virou-se para enfrentar o alvo. Cruzou os braços esperando por uma explicação, uma madeixa, do seu cabelo castanho, foi soprada para a frente dos seus olhos e, em frustração, bafejou-a para o seu lugar e Demitri podia jurar que nenhum outro gesto lhe tivesse alguma vez parecido tão sensual.
-Elucida-me. E faze-lo o mais depressa possível, porque tenha uma pequena impressão de que a minha capacidade de me dirigir a traidores foi completamente aniquilada.- A voz áspera de Pascal chegou-lhe aos ouvidos, atiçando as aguçadas facas que insistiam a permanecer e a perfurar o seu pobre e escuro coração.
— Ouve, eu… Eu amo-te. Não faças essa cara. Não duvides de mim! É a mais cristalina verdade, mesmo que não a consigas perceber. Quando estou contigo cada minúscula célula pertencente ao meu corpo traidor respira o teu, consome o teu, anseia pelo teu. E não é só o teu físico. É, também, a tua personalidade. És tudo aquilo que tu és, foste e vais ser. Tu és o meu alimento. O meu oxigénio. És, figurativamente, literalmente a minha fonte de vida. E, acredita, não são daquelas que tens em casa com Buda, ou pedras. É uma enorme que verias num castelo com milénios.- Demitri suspirou, sentando-se nas costas de um banco cansado. As correntes tilintaram ao chocarem com a madeira verde.
»Tu sabes que sou bissexual, mas, até tu apareceres e teres revirado toda a verdade que conhecia da minha vida, eu nunca tivera algum tipo de relação com homens. Nenhum. Eu estava envergonhado dessa minha parte. Sim, mesmo não tendo tido alguma relação eu era, também, inegavelmente atraído para o físico dos rapazes da minha secundária, o que resultou em alguns incidentes nos balneários. O desprezo do meu pai, sobre a homossexualidade e alguns amigos meus que se revelaram gays, com que eu cresci fez odiar-me a mim próprio. Quase que me obrigou a olhar para o espelho todos os dias, com uma cruz enrolada no meu punho, e a perguntar ao grande homem lá em cima porque é sentia uma necessidade absurda de provar os lábios de um ruivo que se sentava mesmo à minha frente no primeiro tempo de inglês. Quero dizer, já não bastava o seu filho não nascer com os típicos traços italianos e destoar do resto da família, eu era como uma ovelha branca, mas também tinha que gostar de rapazes. Eu seria, de certeza, desterrado e odiado pelo homem que mais admirava. Pelo homem que tinha que se orgulhar de mim. Que tinha de me amar. Tudo aquilo que o meu pai dizia era o correto. Era algo em que acreditava. O meu modelo a seguir. A minha única opção seria matar e enterrar num lugar recôndito esse meu lado. Daí as milhares namoradas naqueles anos do secundário.
»Então vim para aqui e tu apareceste. Quando entraste naquela sala, totalmente perdido, a pensar que aquela disciplina era geometria descritiva, embora tivéssemos todos a realizar um debate filosófico sobre os diferentes conflitos mundiais, achei-te a pessoa mais fofa que alguma vez pousara os meus verdejantes olhos. Tudo em ti ressoava em mim, no meu espírito, no meu corpo. Desde a tua face adoravelmente corada, aos teus tímidos olhos até ao teu típico extenso casaco, daquela vez, um floral. Tive a sensação de que já te conhecera antes. Foi como se tudo no meu mundo vibrasse e o puzzle, que passara anos a construir, finalmente encaixasse. E quando o teu olhar de chocolate derretido pairou sobre mim…- Demitri exalou o fatigado ar que se acumulara nos pulmões.- Algo em mim partiu-se revelando um mundo colorido onde, prontamente, me perdi e, simultaneamente, me encontrei. A teia de aranha que antes toldava-me e parecia não ter sentido agora tinha ligações tão claras como a piscina comunitária.
»Percebi que estava irrefutavelmente atraído por e para ti. A nossa ligação era demasiado palpável e, ainda que tu parecesses confortável com tal facto, eu não me conseguia aceitar. Não conseguia admitir que eu tinha algo contigo que nunca tivera com ninguém, embora também não tivesse a coragem para contestar. Então fiz o que melhor sei fazer: fugi. Fugi de ti. Fugi dos meus sentimentos. Fugi de mim. Tranquei as minhas emoções num caixão chumbado e joguei a chave no mesmo buraco onde o sepultei. Mas tu também te interessavas por mim, e a ti não conseguia controlar. Fazias questão de falar comigo. De me procurar e de me fazer companhia, mesmo sendo tardes inteiras onde eu estava enfiado nos meus fones e tu desenhavas. Sem falarmos muito. “Adoraria se me reconhecesses! Olha para mim, cretino! Estou mesmo à tua frente!”. Frases tatuadas em cada movimento que executavas quando te sentavas naquelas cadeiras musgosas. Durante todas as escassas conversas que tínhamos tu rebatias e desafiavas até os poucos sons que eu fazia. Tu deixavas-me arrebatado e fascinado com as palavras que se derramavam da tua boca e em alguns segundos pensei mesmo que poderíamos ter um futuro juntos. Uns segundos críticos antes de me levantar bruscamente deixando-te a falar sozinho. Esperei ter a audácia suficiente para ser a Pocahontas e cantar com quantas cores o vento tem a paixão que tinha por ti, porque naquela altura isso era o máximo que conseguia acolher. Acreditei que eu podia ir contra o meu pai. Mas o meu pai não te iria aceitar e perder-te iria magoar-me mais do que consigo dizer.- A rouca voz estremeceu ao imaginar os cenários possíveis onde o artista era arrancado do seu abraço. Olhou para baixo, procurando evitar a queda de lágrimas, não observando o pequeno sorrisinho de Pascal ao ouvir a referência de um dos seus filmes favoritos. Nem vendo a corrente de água salgada que escorria pelas bochechas deste.
»Quando me apresentaste a tua irmã, vi ali a oportunidade perfeita de te afastar e ferir antes de te dar uma hipótese de o fazeres comigo. Aparentemente os meus modos grossos e rudes não completaram a missão. Sabes, eu sempre fui um grandessíssimo cobarde. Como te disse, nunca tive uma relação séria e aquilo que representavas assustava-me. Tu… Nós… O futuro… Todas opções que preferia ignorar.
»Juro-te que assim que beijei a Nita arrependi-me. Foram só aqueles vermelhos lábios tocarem os meus, as nossas línguas se enrolarem numa dança sincronizada e o meu pensamento flutuou arduamente para ti. Reparei no enorme erro que estava a cometer, mas não me consegui afastar. Quero dizer, eu tentei. A sério que tentei, o problema é que a tua irmã não me deixou. E eu não estou de forma alguma a culpá-la. Como podia, se fora eu que começara. Como podia, se ela não fazia a mais pálida ideia de que estávamos juntos. Peço-te desculpa, mas a tua irmã é um bocadinho alheia no que toca a relações e a amor.- O roqueiro soltou uma gargalhada sarcástica, fungando logo de seguida.
»A porta abriu-se e eu tive o imediato conhecimento de que eras tu. A pessoa por quem me tinha apaixonado tão livremente quanto possível dentro da minha própria prisão mente, mas com tanta intensidade como se tivesse saltado de um prédio que a própria gravidade deve ter ficado ciumenta, a ver a sua irmã envolvida com o seu interesse amoroso. Deus, se não era eu um sacana? Não tinha eu acabado de desperdiçar uma ocasião única de ser feliz? De ter alguém com quem me preocupar e que se importasse comigo? Sem julgamentos. Sem mentiras. Tu és um ótimo rapaz, e não acho que exista alguém como tu. Não. Eu tenho a certeza de que não existe ninguém como tu.
»Libertei-me do abraço sexual da Nita e ao olhar para ti… Tão partido… Tão triste… Tão traído… A tua mão sobre a boca… A nossa imagem gravada nos teus olhos amadeirados… Pode parecer cliché, mas um pedaço de mim morreu. Sumiu. Pifou. Levaste contigo e nunca mais devolveste.
»Ao ver-te partir, os teus olhos como uma tempestade de areia revoltosa, eu parei de respirar. Eu parei de respirar. E pensava eu antes que não respirava debaixo do braço opressor do meu pai, do meu cérebro. Oh, não! Eu respirava, um ar rafeiro, áspero, nada comparado com o vácuo que se apoderou de mim e se infiltrou nos meus pulmões. Era semelhante à joelhada que levei de um Raphael, ou Rudolph, ou algo parecido, no ensino médio. Tiro, ou melhor dizer joelhada, em cheio no externo. O vazio, provocado pela minha própria mão, sugava o meu oxigénio. Não era só parar, era, também, ter o sopro extirpado de mim. Foi ao ver o teu longamente comprido casaco desaparecer pela porta fora que eu me apercebi o quanto necessitava de ti, Pace. Para respirar. Para viver e sobreviver.- Uma lágrima teimosa escapou ao controlo de Demitri, descendo lentamente pela pele de porcelana ebúrnea do roqueiro, a qual ele violentamente sacudiu.
Pascal aproximou-se do banco, a auto abraçar-se, como se só assim conseguisse pensar. Como só assim conseguisse encontrar um cobertor de segurança. Um sistema de alarme contra a sua própria ânsia, a sua própria necessidade de respirar. De sorver o ar que o albino era. De devorar a ambrósia que por si clamava. O artista olhou para o rapaz à sua frente. Verdadeiramente, não os relances que tinha de vez em quando. Os ombros caídos, os sons quebrados dos soluços.
Demitri roubara-lhe as palavras. Tal como rapinara a sua vontade de viver. Tal como furtara a sua alma e o seu amor, por mais piroso que possa soar. Ele pedira-lhe desculpa. Desculpa. Uma palavra que, na sua opinião, deveria ser evitada e não usada. Mas ele parecera-lhe tão sincero e ele compreendia perfeitamente o medo das ações de outros contra as diferentes sexualidades. Afinal ele tinha algumas cicatrizes que contavam uma longa história sobre ele e amigos de mente retrógrada. No entanto, o roqueiro expressara algo por palavras que Pascal não conseguia expressar a não ser nos seus quadros. Ele também carecia desesperadamente de ter o seu ar de volta. Necessitava de sentir o seu coração voltar a bater, a reverberar no seu peito. Precisava de ver o mundo policromático e vivo outra vez, não cinzento e aborrecido.
Os dedos do trigueiro passaram conflituosos pelo cabelo. Uma parte de si queria impacientemente voltar para o albino. Queria poder agarrar o seu braço sem antagonizar sobre olhares indiscretos e deixar passar o facto de que ele o tentava ignorar e sentar-se outra vez naquelas cadeiras hediondas musgosas enquanto o desenhava, imerso na sua música. Porém, outra parte de si era demasiado orgulhosa para pôr a situação simplesmente para trás. Deixar passar e seguir em frente. Que seguir em frente seria, também, se não confiasse nele? Porque esse era o cerne da questão. A sua confiança fora estilhaçada, estava fragmentada, e não sabia se conseguiria a reconstituir e perdoa-lo repentinamente.
Pascal afundou-se ao lado de Demitri, a madeira chiando sob o seu peso e uma pequeníssima brisa fez os seus cabelos ondularem. Levou as mãos à cara do albino, gentilmente limpando a cascata que jorrava dos olhos do último, os seus claros olhos verdes tão vermelhos como o sangue que lhes serpenteava o coração. Os olhos achocolatados focaram-se nos marítimos, e o moreno suavemente beijou o alvo. Uma corrente elétrica, como um relâmpago, e palavras silenciosas a percorrerem a ligação entre os dois. Quem os via sentados, (um moreno a manter firme a cara de um roqueiro albino, ambos a chorarem, ambos a produzirem uma conversa sem som), conseguia sentir as vibrações elétricas, os arrepios corporais que eram causados devido à sua conexão. Uma ligação que parecia inquebrável, à prova de fogo, e aço contra balas. E não houve ninguém que se atreve-se a estourar a bolha cuidadosamente criada entre os dois homens.
E, ali, nas costas de um banco de madeira gasto, um artista e um roqueiro envolveram numa das conversas mais intensas da sua vida. Refizeram um fio que os ligava e que tinha-se partido durante um bocado. Só uns meses, e, para eles, foram os dias mais tortuosos e sem vivacidade da sua vida. Ali, à sombra de umas árvores, silenciosamente concordaram em avançar devagar. A reconstruir o frágil castelo de confiança de um e a edificar um pálido castelo de coragem de outro. Ali, sentados rodeados por flores, com todas as cores que o vento tem, voltaram a experienciar um mundo, um puzzle, policromático, pitoresco, brilhante. Sabiam, agora, o significado um do outro e, enquanto Demi planeava reconquistar Pace e Pascal dava mais uma hipótese a Demitri, sentiram os seus pulmões encherem, com uma violenta chicotada, para depois esvaziarem. Mais um golpe de ar que era tudo o que mais desejavam. Já podiam respirar mais uma vez.
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