Um Novo Dia

4 Capítulo 4 - A Hora Certa


Nunca pensei que iria passar por um momento desses, não saberia como reagir ao menos. Saímos do velório do meu avô e fomos direto pra casa do sítio, me sentei ali nas escadas da varanda e fiquei relembrando tudo que tínhamos passado.

Senti alguém se aproximando, mas não quis me desligar daquelas lembranças

_Já esta na hora Angelis, o advogado está chamando

Quando percebi Bill , já havia sentado ao meu lado e passado o braço por cima dos meus ombros.

_ Vou dar uma volta na cidade, enquanto vocês fazem a leitura do testamento _ Disse Bill

Aquilo caiu como um peso em cima de mim, não queria mais esta situação. A família toda estava na casa do sitio, vovô queria que o testamento fosse aberto ali.

_ Não Bill! Por favor, fique! _ Pedi a Bill, naquela hora precisava de um apoio

Levantamos e fomos para a sala. Ali estavam meus tios e primos e minha mãe.

Bill me disse que iria esperar na cozinha, me sentei na poltrona que meu avô sempre ficava. Pra todos aquilo parecia mais uma festa, o que me deixava com uma irritação enorme.

Começamos a leitura do testamento, e todos estavam contentes com suas respectivas heranças:

_ ...O sitio de Mistic Ville passa a ser de propriedade de Angelis Ospita. Juntamente com a caminhonete Ford, e tudo que aqui consta, como moveis, animais . Assim que acabar passo a lista com tudo que aqui esta.

Sabia o motivo que ele havia me deixado tudo, me senti honrado. Ouvi um sussurro entre dois dos meus primos “ Ainda bem, quem iria querer este lugar horrendo!” . Senti pena deles nesta hora, eu sabia o que tudo ali significava para meu avô e iria fazer jus a isso. O advogado continuou

_... E para encerrar, o armazém que até o momento está aos cuidados do Sr. Robert Muller...

“Como assim?”_ pensei_ “ O armazém do velho Muller era do vovô?”

_... Passa a partir de agora para posse do senhor Willian Mcgray...

Nesta hora todos se olharam surpresos, se perguntando quem era a pessoa citada. Na hora eu não entendi, fiquei surpreso também. Ouvi um barulho na cozinha. Claro! Pensei na hora Willian ninguém mais, ninguém menos poderia ser: BILL!

Bill apareceu meio sem jeito na porta da cozinha. Chamei-o para juntar-se a nos

_ Pessoal, este é o Sr. Willian Mcgray citado pelo vovô!_ expliquei, apresentando Bill pra quem ainda não o conhecia.

O advogado do meu avô continuou:

_ Este testamento esta assinado, registrado e é irrevogável o que nele esta decidido. Assim que terminar de organizar tudo encaminho as escrituras pra cada um. Não se preocupem que o Sr. Petter deixou todas as despesas pagas.

Todos estavam surpresos com aquilo, mas ninguém queria nada que estivesse em Mistic Ville. O advogado se despediu e saiu.

Após um tempo, aos poucos cada um dos meus primos e tios foram indo embora, até porque eram cinco horas de viagem de volta a capital.

Minha mãe se aproximou de mim.

_ Vamos querido, temos uma longa estrada até a cidade!

_ Desculpe mamãe, mas vou ficar!_ Disse eu com convicção.

_ Mas querido, o que você ficará fazendo aqui? Sozinho? _ Minha mãe tentando me convencer.

_Não se preocupe, o Bill ficara comigo. Vamos ficar o tempo que havíamos combinado!

Bill me olhou surpreso e assentiu com a cabeça para minha mãe.

_ Achava melhor você ir comigo, mas se pra você é tão importante assim... _Interrompi.

_ Sim mamãe! Vou ficar bem, ligo para você caso precisemos de alguma coisa_ conclui.

Ela me abraçou apertado, sabendo o quanto eu estava sofrendo ali naquele momento.

Bill me ajudou a carregar as malas dela até o carro, já estava anoitecendo. Mamãe abraçou Bill e disse:

_Cuide dele pra mim!

Bill retribuiu o abraço e sorriu assentindo a frase dela.

Ela veio em direção a minha, me beijou e me abraçou forte novamente.

_ Quando eu chegar ligo pra saber como vocês estão!_ Disse ela pra mim.

Subiu no carro, ligou e foi embora. Quando chegou na porteira do sítio , tirou a mão pra fora da janela e acenou pra nós!

Ali estávamos nos três: Bill, Bob e eu. Estava em ótima companhia, mas agora a melhor de todas não estaria mais ali.

Entramos em silêncio, os três. Fomos pra cozinha, puxei uma cadeira, me sentei e fiquei mexendo na barra da toalha de crochê em cima da mesa. Bob sentou ao meu lado e depositou a cabeça no meu colo, pedindo carinho. Bill ficou encostado na pia.

_ Humm... Estou com um fome!! _ Bill falou com empolgação_ Que tal uma comidinha?

_ Sabe que não é uma má idéia! Somos três com fome então!_ falei sacudindo a cabeça do Bob.

_ Vou fazer algo para comermos então!_ Bill disse e se dirigiu para a dispensa ver o que tinha pra fazer

_ Que medo! _ falei retrucando sobre o que Bill iria cozinhar.

A voz do Bill lá da dispensa soou:

_ Eu ouvi isso! Não esqueça que as piadinhas quem faz sou eu!

Naquele momento sorri, percebi que havia alguns dias que não sorria.

Bill foi começou a fazer o jantar, enquanto eu estava sentado à mesa com o Bob.

_ A policia já deu retorno Angelis?

Aquela pergunta do Bill me fez sair do transe momentâneo que eu estava.

_ Sabe Bill, eu ainda não consegui entender, eles disseram que foi um choque elétrico, mas não temos certeza se foi.

_ Mas você contou pra eles que havia uma ampulheta no porão e agora não há mais?

_ Claro que não, Bill!

Bill colocou um monte de coisas sobre a bancada da cozinha e ficou olhando para tudo com uma cara de dúvida.

_Vejamos, por onde vamos começar?_ Bill pega uma lata de ervilhas e fica olhando.

_Por acaso, vocês teriam um livro de receitas nesta casa?_ Bill vira-se e fica me olhando esperando uma resposta.

Por um instante eu olhei para o seu rosto, e vi a marcas do óculos que ainda estava em torno dos seus olhos e ri.

_ Sabe meu amigo guaxinim, você é a única pessoa capaz de me fazer rir em uma situação dessas.

_ Você pode fazer o favor de parar de me chamar assim?_ Bill fala, tentando parecer rude.

Levantei e fui até ele e o abracei. Era aquilo que eu estava precisando naquele momento. Alguns segundos depois Bill interrompe me empurrando.

_Ok, chega de melodrama! Você me faz sentir como se estivéssemos em uma novela mexicana.

Acho que até Bob riria aquele momento se pudesse.

_Preciso fazer esse maldito jantar_ Bill segue abrindo um monte de latas e jogando tudo na panela. _ Pronto! Agora é só deixar tudo ferver um pouco e matamos a fome.

Bill se dirige á mesa, senta na cadeira em frente a minha e fica me observando.

_ Não consigo parar de pensar Bill, têm muitas coisas que não se encaixam nesta história. Começando pelo sumiço do Sr. Muller e sua esposa, jamais eles deixariam de ir ao velório do meu avô em todos esses anos eu nunca vi o armazém fechado tantos dias...

_ Mas você tentou ligar pra eles? E os parentes? _ Questionou Bill.

_Sim, muitas vezes, estive lá no armazém também e deixei um bilhete embaixo da porta! Eles não têm parentes aqui, nem filhos, por isso a nossa escolha por você ser o backup.

_ Mas como uma pessoa, ou melhor duas, irão sumir assim, do nada?

_ Não sei dizer meu amigo, mas vamos ter que comunicar à policia sobre isso também.

Em minha cabeça eu estava tentando encaixar todas aquelas peças, mas eram todas muito diferentes, nada combinava com nada. O Sr. Muller havia sumido, junto com ele a outra cópia da chave, a ampulheta havia sumido também. Já se passaram três dias após a morte do meu avô, são três dias que a ampulheta não é girada, como será que as coisas estão em Heras?

_ Angelis..._ Bill interrompe meus pensamentos._ Acho que agora é um bom momento para você me explicar tudo isso mais detalhadamente.

Não queria conversar sobre isso nesse agora, na verdade não queria conversar nunca mais, mas precisava colocar Bill a par da situação toda, explicar a gravidade de tudo e talvez ele pudesse me ajudar a pensar melhor.

_Eu estava pensando que a ampulheta não estava sendo girada há três dias, ou seja, há três dias na Terra de Heras é noite.

_ Mas Angelis, como você pode ter certeza disso? De que existe Heras mesmo? Você já esteve lá?

_ Não Bill, nunca estive, mas sei que há, sinto que há. Meu avô jamais inventaria algo assim pra mim, e não teria sentido ele ficar girando aquela ampulheta anos a fio se não houvesse um por quê. E tem mais, porque alguém mataria alguém pra roubar uma ampulheta velha e enorme, se não houvesse uma razão forte para isso?

_ Talvez um colecionador? Ou dono de um antiquário? Ou um doido varrido?... _ Bill ironizou.

_Não! Não há sentido nisso.

_ Será que o Sr.Muller não está com ela?

_ Sim, é uma boa opção, talvez ele soubesse de algo, e levou a ampulheta para um local seguro. E se caso isso tivesse realmente acontecido, ele teria que ter me comunicado no máximo um dia após o que aconteceu, essa era a lei.

_ E por acaso ele não pode ter se mudado com a esposa para Heras?_ Bill deu uma risadinha assim que terminou a pergunta.

_ Não seja irônico Bill, ninguém, ao menos que eu saiba, daqui já foi a Heras.

_ Então meu caro Anjo! Esse é o ponto que quero chegar, talvez isso tudo seja somente uma história.

Bill continuava não acreditando, e tentando me convencer de que tudo aquilo era uma loucura.

_ Eu disse que ninguém daqui foi até lá, não que alguém de lá deixou de vir aqui!

Nesse momento Bill me olhou surpreso.

_ Como assim?_ Bill questionou meio gaguejando.

_Assim meu bom entendedor! Heras é governada por um rei, Edwin. Eles são amigos há muitos anos. Edwin esteve na Terra poucas vezes, uma delas foi quando eu nasci.

_ Sim ele vem de avião, não, não, ele veio no navio da Capitão Gancho! _ Bill insistia em ser incrédulo.

_Eu fico aqui falando sério com você e você fica de brincadeira comigo?_ Falei um tanto estressado_ Você quem me pediu pra contar tudo, e agora que estou contando, você fica fazendo piadinhas? Por favor ,Bill!

Bill baixou a cabeça um tanto que envergonhado.

_ Desculpe Angelis, estava tentando fazer disso menos doloroso pra você. Por favor continue, quero saber quando eu entro em ação.

Novamente ele brincou, mas dessa vez senti que ele estava sendo sincero, sacudi a cabeça , sorri e continuei.

_ Quando o rei Edwin nasceu na Terra de Heras, meu avô nasceu aqui. É como se eles fossem irmãos, sempre que nasce um lá, nasce outro aqui, para que haja um futuro rei em Heras e um futuro guardião aqui. Eles foram apresentados quando pequenos, o que fez com que criassem uma grande amizade. Quando eu nasci, em Heras nasceram dois bebes, até hoje eles não entenderam porque isso aconteceu.

Bill me interrompeu.

_Então você conheceu Edwin e seu filhos?

_ Não! Meu avô queria me preparar bem, queira ter certeza que eu estaria preparado para conhecê-los, para depois ser feita a apresentação.

_ Mas porque tanto mistério do seu avô Angelis? Será que eles são criaturas bizarras, ou monstros?

Ri com o pensamento fértil de Bill

_ Claro que não, eles são muito parecidos conosco, Bill, só que vivem em outro lugar.

_ Tipo ET’s então?

Nessa hora gargalhei.

_É Bill, quase isso, só que eles não vêm em disco voador, para chegar até a Terra eles atravessam um portal, que até onde sei, somente é aberto de lá pra cá.

_ Como assim? Tipo fax? Que não tem como responder? Não pode ser não, pela lógica assim como eles vêm, seu avô também poderia ir.

Nessa hora tive vontade de pular e dar um beijo na testa de Bill.

_ Claro, é exatamente isso Bill...

_ Sim é exatamente isso meu caro Anjo!_ Bill da uma pausa_ O que é exatamente?

_ Deve haver uma maneira de abrir o portal deste lado. Com certeza há, nós só precisamos descobrir como?

_Isso não ta me cheirando bem... disse Bill.

Nesse instante nos demos conta de que já fazia algum tempo que a comida estava no fogo. Bill deu um salto e desligou a panela.

_ E.. “Voilá”_ Disse Bill todo orgulhoso, após abrir a tampa da panela e aspirar o cheiro que vinha de dentro_ Hoje teremos cozido de “ tudo junto numa coisa só”! Você põe a mesa.

Nessa hora vi Bob se encolher todo embaixo da mesa, com medo do que viria. Levantei e coloquei a mesa para jantarmos.

Após provar a comida tive que fazer um comentário

_ Sabe Bill, até que você leva jeito pra coisa!

_ Eu levo jeito pra muita coisa, meu caro Anjo!_ Bill orgulhoso de seu jantar.

Após o jantar me sentei na sala, como costumávamos fazer sempre meu avô e eu. Fiquei na poltrona por alguns instantes sem pensamentos, como se eu estivesse em pausa, quando Bill, se aproximou e sentou-se na poltrona ao lado.

_A louça é sua. _ Disse Bill.

Naquele momento nem respondi, tínhamos uma resposta de brincadeira sempre que um dizia isso para o outro.

Lembrei do papel que tinha encontrado junto com meu avô, e resolvi mostrar para Bill.

_ Veja Bill_ tirei o papel de dentro da carteira_ Quando encontrei meu vô no porão, este papel estava em sua mão.

Entreguei a Bill que olhou com olhos de um especialista.

_ Uma cruz celta! _ Disse ele, com mais velocidade que qualquer site de pesquisa.

_ Sim, isso eu sei, mas o que você acha que pode significar?

_ A cruz celta não tem uma origem clara, ela era conhecida por ser o símbolo do deus do sol. Mas você prestou bem atenção neste desenho Angelis.

Bill se aproximou com o pedaço de papel e apontando com o dedo indicador.

_ Preste bem atenção, veja que em torno da cruz há um círculo, ou melhor dizendo, uma mandala viking.

_ Não tinha prestado atenção nisso, o que você acha que quer dizer?

_ Ora meu caro Anjo, o termo celta vem de keltoi* e significa segredo ou escondido. A mandala atrás mostra os pontos norte, sul, leste e oeste, em cada um desses é subdivido, com um nome onde ficam os deuses da mitologia, mas isso nunca foi muito bem definido.

_ Claro Bill, então esse papel é um mapa!_ Disse empolgado_ O mapa de como chegar a Heras.

Bill me olhou espantando.

_ Pode até ser Angelis, mas como vamos ter certeza disso? Não sabemos nem como começar.

_ Vamos dormir amanhã cedo sairemos para a cidade, vamos ao armazém do velho Muller, acho que lá acharemos uma resposta.

Levantei, e fui em direção ao Bob que estava deitado ao pé da mesa da cozinha. Me abaixei para fazer um carinho em Bob como se fosse um “boa noite” e ao levantar a cabeça avistei no centro na mesa a vasilha que meu vô deixava ali sempre com as peras. Fiquei surpreso em vê-las em ótimo estado, peguei uma rapidamente e fiquei olhando enquanto segurava na mão.

“Esse é o caminho da sabedoria, Angelis”_ recordei meu avô falando .

_ Isso vai me ajudar_ Pensei alto.

Subi as escadas correndo.

_ Espere ai Angelis, não vá me deixar aqui sozinho.

Meu amigo Bill era um super valente, mas quando se tratada de ficar sozinho no escuro se tornava uma criança.

Bill subiu correndo atrás de mim.

Quando amanheceu, descemos, tomamos nosso café e logo pegamos o carro para ir para a cidade. Nesse momento só pensava o que poderia encontrar.

_ Nossa Angelis, você ao menos poderia ter esperado eu terminar de tomar café, já estou com fome.

_ Não reclame seu papa tudo, em poucos minutos estaremos em seu armazém, lá tem muitas coisas que você pode comer, e melhor, de graça.

_ Não gosto nem de me imaginar como quitandeiro, você consegue ver isso? Imagine eu atrás de um balcão com um avental branco, ou melhor dizendo, todo encardido, com aqueles paninhos na cabeça que os portugueses dão nós nas pontas!

Fiquei imaginando a cena e não contive a gargalhada.

_ É meu amigo, se for ser assim mesmo, toda vez que entrar no seu armazém e ver você assim, vou rir com a mesma intensidade.

_ Engraçadinho você! Angelis..._ Disse Bill com uma voz piedoso_ Você me promete que não vai deixar eu ficar assim? Nem que eu case com uma velha gorda?

Respondi rindo_ Claro que não deixo! Você vai ser um quitandeiro super estiloso e vai casar com uma super modelo que mora aqui na cidade!
_ Está brincado que aqui tem uma super modelo?

Nem respondi, somente ri e sacudi a cabeça. Nesse momento Bill percebeu minha brincadeira e cruzou os braços feito uma criança emburrada.

Entramos na cidade. Já se passava das dez da manhã. Algumas poucas pessoas na rua me cumprimentavam baixando o chapéu em sinal de condolência.

_ Nossa quanto movimento Angelis, cuidado pra não passar no sinal vermelho!_ Bill debochou, sabendo que na cidade somente havia uma semáforo.

Estacionamos em frente ao armazém, antes de entrar ainda espiei pelo vidro na esperança de ver algum movimento lá dentro, mas nenhum sinal.

Peguei a chave, abri a porta e adentrei. Assim que pus os pés dentro do armazém, percebi que ali no chão ainda estava o bilhete que eu havia deixado uns dias antes.

_Nossa! _ Exclamou Bill_ Até que não é tão ruim quanto eu pensava. Talvez depois de uma boa reforma, umas mesas aqui, um teto rebaixado, um novo piso, prateleiras novas, uma nova fachada, um caixa informatizado, acho que ficaria bonzinho, não acha Angelis.

_ Quem sabe você não coloca tudo abaixo e constrói novamente?_ Falei para Bill em tom irônico.

_Pode ser uma outra alternativa, o que você acha melhor?

Naquele momento não tinha tempo para as brincadeiras do Bill, fui até o balcão, abri a caixa registradora ( era uma das antigas) e percebi que havia muito dinheiro ali ainda. Então provavelmente o Sr. Muller saiu apressado, com intenção de voltar.

_ Posso pegar uns salgadinhos e um suco? Ainda estou com fome._ Gritou Bill do meio das prateleiras.

_ Claro, ou você já se esqueceu que é tudo seu?_ Respondi

Entrei na porta que fazia conexão com a casa, passei pelo corredor, entrei no quarto. A cama estava arrumada e todas as roupas estavam dentro dos armários, inclusive um chinelo velho que o Sr.Muller sempre costumava usar, estava aos pés da cama. Passei para sala, tudo estava impecavelmente arrumado, como sempre. Nenhum sinal de que alguém teria estado ali. Quando entrei na cozinha, percebi que a porta do refrigerador estava aberta. Levei um susto quando Bill saltou de trás da porta.

_ Minha Nossa Senhora, tomara que a vigilância sanitária não passe por aqui, caso contrário, fecharei as portas antes mesmo de abri-las.

Levantando uma torta mofada na mão.

_ Essa já deve estar debutando, mas ninguém avisou que verde já não é mais tendência nos bailes de debutante.

Era uma das tortas deliciosas de Dona Norma. O que significa que nem ela estivera ali nos últimos dias. A cada sinal como esse, ficava me perguntando onde eles estariam, e qual a razão deles terem fugido as pressas?

Abri a janela da cozinha para ver se avistava algo no pátio da casa, para minha surpresa no meio do pátio uma árvore. Naquele mesmo momento dei a volta abri a porta da cozinha que dava para o pátio e sai.

Fiquei abismado ali em frente aquela árvore imensa. Tinha um tronco largo, que nem meus braços dariam a volta em torno dele, uma copa verde e farta, e para minha surpresa cheia de peras. Ali tive a certeza de que estava no caminho certo.

Quando me virei pra chamar Bill, percebi que ele já estava ali.

_Angelis, você está vendo o que eu estou vendo?_ Bill perguntou com uma voz embargada.

_ Sim_ Respondi com empolgação_ É um pé de peras...

_ Não seja bobo Angelis, isso eu sei, veja o chão. Bill apontou para as raízes da árvore.

Naquele momento não acreditei no que estava vendo, era o mesmo círculo que havia no papel em torno da cruz. A Mandala.

Começamos a andar em volta da árvore, como dois loucos sem saber o que fazer. Tudo indicava que algo de importante havia ali, mas o que?

Quando parei pra ficar analisando, senti uma sombra tocar o meu rosto, e me virei para ver o que era.

Do pátio da casa conseguíamos ver a torre da igreja, e na ponta da torre havia uma Cruz Celta.

Assim que me dei conta, fui mostrar para o Bill o que estava vendo e ele já estava sentado no chão olhando para a cruz, boquiaberto.

Percebi que a sombra estava refletida no chão, e a cada minuto que passava se aproximava mais do centro da árvore. Sabia que era ali o lugar certo, mas o que fazer?

_ Você se deu conta que assim que chegar o meio dia a sombra da cruz estará bem no centro do círculo assim como a árvore?_ Disse Bill

Não tinha pensado nisso naquele momento, comecei a caminhar de um lado para o outro, sem saber o que fazer. Minha mente estava um turbilhão e os minutos pareciam passar mais rapidamente ainda.

_ O que será que isso quer dizer? O que temos que fazer? _ perguntei já nervoso a Bill.

_ Não sei Angelis, vamos cavar?_ Disse Bill.

Naquele momento era a coisa mais absurda a se fazer, mas como não tínhamos uma idéia melhor e Bill estava acertando todas, não custava tentar.

_ Ok! Vamos cavar_ Disse a Bill_ Pegue uma pá que tenho na carroceria do Jeep.

Faltavam alguns minutos para o meio dia, e conseqüentemente para que a cruz ficasse exatamente no centro do círculo.

Bill em um salto, saiu para ir buscar a pá, eu estava ansioso demais para esperar ele voltar. Fui em direção a árvore, comecei a rodeá-la, tocava , olhava no chão, tentava entender os símbolos que haviam quase que apagados, no círculo.

Me deparei com a frente da cruz novamente, a sombra já estava no centro do círculo. Se eu estivesse olhando da torre da igreja estaria olhando a cruz fundida na arvore. Nesse momento me senti desolado, sabia que tudo aquilo queria dizer algo, mas o que? Por que meu avô não tinha me explicado tudo antes? Se ele tivesse feito tudo como deveria naquele momento eu não estaria ali, sofrendo pela perda dele, tentando buscar uma coisa que nem sei o que é.

Tive vontade de gritar, de chorar. Fui perdendo as forças, ali tinha sido meu ápice, eu tinha aguentado tudo, mas estava em um beco sem saída, ou melhor em uma história sem fim, sem respostas.

Me encostei na árvore e fui perdendo minhas últimas forças pra me manter em pé. Quando percebi que a árvore parecia mais macia do que deveria. Senti enquanto depositava meu peso em seu tronco, parecia que estava deitando em um macio colchão de espuma. Devia estar desmaiando, mas me dei conta que não, quando aquilo pareceu estar engolindo meu corpo. Tentei voltar, me segurar, mas não consegui era tudo macio de mais. Quando não consegui mais ver a cruz da igreja, comecei a sufocar. Então senti meu corpo cair pra trás, assim como quando a gente cai de uma cadeira quando está se embalando. Abri os olhos depois do susto, e percebi que estava noite.


Notas finais
* Keltoi _ designação celta