Um Novo Dia

2 Capítulo 2 - Boa Viagem


Acordei com o sol forte atravessando minha janela, olhei para o relógio ao lado da minha cama e já passava das dez.

Não acreditava que já estava de férias da faculdade, tinha estudado tanto neste semestre que não via à hora de correr para a casa do meu avô. Não queria pensar que após as férias seriam os últimos 6 meses de faculdade e isso sim ia me fazer ficar muito estressado.

Levantei meio sonolento e fui para o banheiro tomar um banho, a água bem forte e quase fria fez com que eu despertasse rapidamente.

Quando mudei pra capital para cursar a universidade, comecei a dividir um apartamento com Bill. O apartamento era pequeno, mesmo com dois quartos. Espaço suficiente para dois universitários.

Bill é um grande amigo, nos conhecemos através de um anuncio que ele colocou no jornal para dividir um quarto. Ele começava Historia da Arte, e eu estava começando História. Nos demos bem desde o início.

Tínhamos muitas aulas juntos, o que fez com que ficássemos muito próximos. Hoje Bill e eu somos grandes amigos. Claro que temos nossas grandes diferenças, eu sou muito pacato e Bill é o cara popular, gosta de baladas com a turma da faculdade, mas na questão de estudar temos o mesmo ritmo, somos apaixonados pelo que fazemos.

Neste verão Bill vai comigo para a casa do vovô, seguindo o script preciso, de um backup assim como o vovô tem o Sr. Muller. E depois de muitas análises, vovô e eu decidimos que Bill é a pessoa certa para isso. Só ainda não sabemos como começar a explicar toda história para ele, mas não tenho dúvidas das capacidades de Bill, tenho muita confiança nele.

Vovô já havia me sugerido para que eu começasse a desenvolver o assunto com Bill, mas fui relutante porque não há nada que se possa esconder dele e como ele é um ótimo entendedor, meias palavras iriam fazer questionar muito mais do que eu poderia explicar naquele momento.

Saí do banho com muito mais disposição. Eu queria sair logo após o almoço, pois até a casa do vovô são um pouco mais de 500 quilômetros, e eu não queria chegar à noite.

Coloquei uma calça de abrigo surrada e fui para cozinha tomar meu café para depois começarmos a carregar o carro.

_ Bom dia Sr. Soneca! _ disse Bill entrando pela porta, cheio de sacolas do supermercado.

_ Pelo visto o senhor madrugou! _ eu disse com ar de deboche_ Pra que tantas coisas?

_ Ora! Ora! Meu caro Anjo! Você acha que eu não iria levar alguns suprimentos para sobreviver tanto tempo no campo?

_ Bem... Conhecendo você tão bem, sabia sim que levaria algumas coisas, mas não imaginava que iria levar o supermercado todo!

_ Tudo muito necessário! _ disse Bill largando as sacolas na bancada da cozinha.

_ Posso imaginar suas necessidades! _ ri_ Mas já disse a você que caso precise de algo temos um grande armazém lá, com tudo que possa imaginar!

_Eles têm creme dental para dentes sensíveis? _ questionou Bill como um teste.

_Ah! Não vamos para uma tribo no meio da Tailândia! Somente vamos para o interior passar as férias!_ sacudi a cabeça em negação

_ Não posso correr o risco, sou um cara de apartamento, nunca fui para o campo, nem mesmo quando era pequeno_ Bill tira um frasco de repelente da sacola e sacode_ Tenho que estar bem preparado.

_ Cara! Você é muito exagerado! Um pouco de protetor solar e pouca roupa é o que vamos precisar!

_ Todo mundo lá usa pouca roupa? _ Bill malicia_ Uhuuuu! Vai ser melhor do que eu esperava!

_ Não exagere! Garanto a você, que não há nada lá que você queira ver com pouca roupa...

__... A não ser você! _ completou minha frase e rimos

Terminei meu café e fui ligar para o vovô para avisar que já estávamos quase prontos para pegar a estrada, mas infelizmente ele deveria estar no armazém do velho Muller, porque ninguém atendeu.

Fui para o quarto pegar minha bagagem e colocar uma roupa para a viagem.

_ Vamos almoçar na estrada? _ gritou Bill

_ Não, vamos almoçar por aqui mesmo! _ respondi no mesmo tom _ Já vou descendo com a minha mala!

Fui saindo do quarto e lembrei de olhar a lista de coisas que sempre faço para levar, para minha sorte, estava esquecendo o carregador do celular e as chaves da casa. Não corríamos o risco de chegar lá e não ter ninguém, mas sempre as carrego em caso de um imprevisto

Quando sai do quarto vi uma mochila na sala, mesmo não acreditando perguntei:

_ Posso descer sua mochila Bill?

Como quem cala consente, desci com a mochila dele.

Não acreditei na vista que tive ao chegar à garagem do prédio. Ao redor do carro havia umas cinco malas grandes.

_ Você só pode estar brincando comigo? _ Perguntei ironizando

_Tudo muito necessário! _ Disse Bill_ mala dos calçados, mala de roupas de frio, mala de bermudas e camisetas...

Interrompi _ Roupas de frio? Estamos a quase 40ºC e você pensa em frio?

Como se eu não tivesse falado nada ele continuou

_ Mala de roupas pra sair, mala do combustível... _ afirmou ele se referindo a bebidas

Eu estava achando aquilo tudo um absurdo e ele apontou para a mochila que eu estava carregando

_ E claro não poderia faltar as guloseimas para degustarmos na viagem!

_ Isso é claro que você não iria esquecer!

Não adiantava contestar ou tentar confiscar alguma coisa, Bill era muito persuasivo e acharia uma boa resposta caso eu quisesse lhe autuar por excesso de bagagem.

Começamos a carregar o carro, um Jipe amarelo que eu havia ganhado da minha mãe quando entrei para a faculdade. Claro que meu avô me ajudou a escolher o carro. Poderia ter escolhido qualquer carro do ano, mas quando vimos aquela nave no estacionamento da concessionária, não tive dúvidas.

Minha mãe achou esquisito eu ter escolhido aquele tipo de carro, mas não se negou a comprá-lo pra mim.

_ Você pegou o Ipod que deixei carregando? _ perguntei ao Bill

_ Putz!_ exclamou e subiu correndo para pegar.

Enquanto Bill subia para buscar o Ipod, tentei ligar novamente para a casa do meu avô, mas sem sucesso, não havia ninguém. Tive um desconforto com isso, mas sabia que vovô logo chegaria. Aproveitei e liguei para minha mãe.

_ Oi mãe, liguei só pra avisa que já estamos saindo_ e com aquele assunto de mãe do outro lado da linha_ Sim claro que vou com cuidado! Sim, vamos almoçar antes! Claro que revisei o carro mãe!_ Neste momento chegou Bill _ Bill esta mandando beijos! Ligo quando chegarmos! Beijo amo você!

_ Por que as mães são tão previsíveis? _Brinquei

_ Garanto que a minha não é!_ Bill brincou

Passamos no posto de gasolina para abastecer e verificar a água e calibrar os pneus. Fomos almoçar no café de uma amiga nossa que servia somente comida Uruguaia. Nada melhor para nos dar energia para umas quatro ou cinco horas de viagem.

Logo após o meio dia já estávamos em alta estrada, muito bom viajar neste horário porque as vias são calmas.

Como o sol era forte e aqueceu a lona da capota, resolvemos ir com a capota recolhida, pegando o vento e nos bronzeando no sol, ou melhor, assando no sol!

A viagem estava bem tranquila, tocando uma boa música no rádio, e é claro que o Bill já estava atacando as guloseimas que ele trouxe.

_ Bala de goma? _ disse ele.

_ Caracas, você não para de ruminar! _ Brinquei _ Queria saber pra onde vai tudo isso?

Bill, tinha quase 1,80 de altura, de família italiana, tinha a pele e os cabelos claros e um corpo atlético.

_Metabolismo acelerado meu caro Angel! _ Respondeu mascando as gomas!

Sacudi minha cabeça e ri.

_ Cara como está a situação do seu trabalho de conclusão? _ perguntei.

_ Não sei mais o que fazer Angelis! _ Bill em tom um pouco desesperado_ Entreguei o projeto, foi aprovado, mas ainda não era isso que eu queria.

_ Mas durante toda a faculdade você sempre estudou tudo sobre a vida e a obra do Toulouse Lautrec, não vai dar pra trás agora não é?

_ Claro que não! Sou fanático nele, mas eu queria algo que causasse um impacto na banca._ Bill comentou

_ Então se vista de Toulouse, apresente o trabalho!_ Brinquei.

_Olha que não é uma má idéia _ Bill silênciou por segundos, imaginando a cena_ Mas eu teria que amputar as pernas pra ficar igual!

_ Pra você impressionar a banca, eu não duvido que faça isso!

Rimos muito.

Mudou a música no player, e Bill comentou:

_ Adoro essa música!

_ Eu também! _ Exclamei.

A música era Folding Chair, e começamos a cantar:

_ “Come and open up your folding chair next to me

My feet are buried in the sand and there's a breeze...”

_ Acho muito boa a parte que ela imita um golfinho!_ Bill imitou.

Não tinha o que dar errado nesta viagem, Bill estava empolgado, e sabia que ele ia gostar, caso contrário, já estaria achando desculpas e resmungando de tudo.

Mesmo com toda a diversão, na minha cabeça eu procurava uma maneira de começar o assunto com Bill.

_ E você Angelis? Até hoje não entendi o que você vai fazer para conclusão de curso. Te vejo sempre pesquisando, cheio de livros, mas acho que você nunca me disse o que é!

Essa era a deixa que eu estava esperando para começar o assunto. Respirei fundo.

_Bill, você pode pegar o protetor solar no porta-luvas, por favor? Meu rosto está queimando!

No mesmo momento, sem hesitar, Bill abriu o porta luvas e começou a procurar o protetor solar.

_Nossa Angelis, que bagunça neste porta-luvas! Para uma pessoa super organizada como você, isso é um lapso!_ se espantou Bill _ Aqui está! Pegue!

Mais uns segundos se passaram enquanto Bill mexia no porta luvas, e eu estava apreensivo no volante.

_ Que caixa é esta Angelis?_ perguntou Bill surpreso.

Bill havia achado uma caixa de madeira entalhada a mão, era um caixa pequena, no estilo de uma caixa de caneta.

_ Então... Ai está meu trabalho de conclusão!_ Falei a ele_ Ou melhor uma parte dele!

_ Como assim? O que é isso?

_ Abra!_ respondi.

Bill curioso analisou a caixa em todos os seus lados, e com velocidade de uma criança abrindo um presente de Natal, levantou o pequeno lacre de metal que havia no meio da estrutura. A caixa era acolchoada por dentro e forrada por um veludo vinho já desbotado pelo tempo, e no centro descansava preso a um cordão de couro com um pingente triangular em cor de cobre.

_ Você está fazendo o seu trabalho sobre um colar?_ Bill falou ironizando.

_ Não seja bobo Bill, preste bem atenção.

_ Posso?_ disse Bill, pedindo permissão para tirar o objeto do berço.

Eu assenti que sim com a cabeça.

Bill ergueu com cuidado o colar enrolado em sua mão, de modo a proteger do vento que batia da estrada. Com cuidado e suspeita aproximou o rosto do pêndulo. Sabia que ele iria identificar o que era, assim que analisasse as pequenas gravuras e símbolos que haviam gravadas ali. Ele analisou por um minuto.

_ Uma chave!_ Exclamou Bill , com um ar de detetive que descobre o significado de uma pista.

Não falei nada, continuava olhando para estrada e dirigindo.

_Sim uma chave!_Continuou Bill_ Mesmo parecendo antiga, ela é nova, novinha! De onde esta chave Angelis?

_ Da ampulheta de Heras!

Bill se jogou para trás, e começou a gargalhar. Eu continuei serio dirigindo. Neste momento Bill percebeu que eu estava falando sério.

_ Você deve estar brincando _ agora Bill tinha um tom nervoso na voz.

_ Não meu amigo_ disse a Bill_ Esta é um chave original da ampulheta de Heras.

Percebi que Bill começou a ficar mais tremulo, e pálido.

_ Por favor Angelis, preciso parar um pouco. Não estou me sentindo bem.

Me assustei com a reação de Bill, no mesmo instante comecei a estacionar o carro no acostamento da estrada. Assim que parei Bill desceu e se apoio com as mão na lateral como se quisesse vomitar. Comecei a ficar assustado. Desci do carro e o contornei correndo.

_Você está bem?_ perguntei depositando uma das mãos nas costas de Bill.

_ Só preciso de um pouco de água. _ disse ele ainda com as pernas tremulas.

Voltei ao carro, peguei uma garrafa de água e me dirigi novamente para onde estava Bill. Molhei as mãos e depositei sobre a nuca de Bill, enquanto ele bebia um pouco de água.

Nos sentamos no chão ao lado do carro, enquanto Bill se recompunha. Ficamos ali em silêncio por alguns instantes.

_ Está melhor?_ questionei.

_ Está passando_ disse ele com a voz parecendo cansada.

Já estávamos na metade do caminho e aquela parada, mesmo que de emergência, foi boa para esticarmos um pouco as pernas. Comecei a me espreguiçar ali, enquanto pensava como iria contar toda história ao Bill.

_ Angelis, você sabe que pode estar equivocado quanto a esta chave? Que quem lhe deu pode estar inventando isso? A ampulheta de Heras é uma lenda! Não existe!_ exclamou Bill.

Mas no mesmo momento que ele dizia isto, sabia que dentro de sua cabeça, estava passando tudo que aprendemos sobre a historia da ampulheta na faculdade, que ele mesmo estava se contradizendo, porque sempre acreditou nos registros da ampulheta.

_ Não há tal possibilidade Bill.

_Cara, mas isto é uma lenda, nunca nenhum historiador sequer achou um rastro desta ampulheta! Só há em manuscritos antigos!_ Bill era persuasivo, porem nem ele acreditava que conseguiria.

_ Beba mais um pouco de água! _ Disse a ele_ Vamos voltar a estrada, no caminho te explico tudo, só não podemos esperar mais para não chegarmos muito tarde.

Estendi a mão a ele, para ajudá-lo a se levantar.Subimos no carro e pegamos a estrada novamente.

_Angelis meu amigo, desculpe, mas não consigo acreditar ainda, estou meio incrédulo.

_ Claro que te entendo Bill, também achei bobagem quando soube, ainda mais para um garoto de dezessete anos como eu tinha.

_ Como assim? Você tem esta chave desde jovem?_ Bill questionou_ Não existem relatos disto desde o século III, impossível! Sendo assim você seria um dos guardiães do tempo.

_ Pode parecer absurdo, mas a resposta é sim!_ disse a Bill

_Isso é um absurdo!_ Disse Bill rindo_ Meu amigo, o que você andou tomando?

_ Estou falando a verdade Bill.

_ Mas não há como eu acreditar! Sequer existe um nome de um guardião, segundo a lenda era um clã muito secreto, tanto que ninguém sabe quem criou a primeira ampulheta. Sabe-se as ampulhetas que vieram depois, eram usadas em navios pra controlar o tempo de viagem.

_ Exato!

_ Agora só falta você me dizer que já viu a ampulheta de Heras?_ Bill questionou ironizando, e esperando uma resposta negativa.

_ Sim, não só a vi, como a toquei! _ respondi

_ Você só pode estar ficando louco!_ Bill já não tinha argumentos

_ Bill, você verá com seus próprios olhos assim que chegarmos.

_ Mais absurdo ainda! Se fosse verdade o que você está falando Angelis, jamais poderia me mostrar, porque eu não faço parte do clã!

_ A ampulheta esta na minha família a gerações_ comecei a contar _ na minha família ninguém sabe dela, somente meu avô e eu! Hoje ela está em posse dele, e um dia estará em minha posse e eu terei que continuar o trabalho dele.

_ Mas você não entende Angelis, isto é secreto! Por mais que seu avô fosse um guardião do tempo, e fosse passar o posto dele para você, você não poderia contar isso a ninguém. Por este motivo não há como eu acreditar em você.

_ Te entendo Bill_ me direcionei a ele_ mas deixe eu te explicar tudo. Realmente o pouco de registros que há sobre a ampulheta é verdade. Ela é uma ampulheta que controla o tempo, por isso é de 24h. No mundo existem pouquíssimas deste tamanho. Ela realmente é feita de pó de chumbo, com pó de casca de ovo. Sua armação é feita de carvalho cinza, o que hoje não existe mais. Ela foi feita em Heras, que é como se fosse o um mundo paralelo ao nosso e foi designada para nós por segurança, para que não haja interrupção no processo de rotação de ampulheta.

Bill me interrompeu_ Você não vai querer que eu acredite que ela controla o tempo não é? Isso já é pedir demais.

_ Sim Bill, ela controla o tempo sim, mas isso você entenderá depois! Mas deixe eu continuar. O que não há nestes registros é que para girar a ampulheta é necessário esta chave que esta na sua mão; Por isso foi criado o que você chama de clã, que é formado por somente duas pessoas, uma que é responsável por rodar a ampulheta todos os dias, e um backup para caso haja algo com o guardião oficial. Quando o guardião chega a certa idade, começa a preparar seu sucessor, e como conseqüência o seu backup. Por isso estou começando a te contar tudo.

_ Supomos que isso tudo seja verdade_ Continuou Bill_ que seu avô está passando a guarda para você. Por que você estaria me contando tudo isso?

_Meu avô possui um backup da guarda, que é o Sr. Muller, um amigo de infância dele. E eu também terei que ter um.

_ Ok Angelis, depois de toda essa doideira, você está sugerindo que eu seja uma cópia de você?_ Bill falou ainda não acreditando em tudo.

_ Sim!_ respondi entusiasmado_ Não existe outra pessoa que eu confie tanto e que esteja mais capacitada que você Bill.

_ Supondo que isso tudo seja verdade_ Bill continuou enquanto abria um pacote de bala de gomas_ e eu recuse seu convite...

Interrompi _ Terei que matá-lo!_gargalhei!

_ Quer dizer que tenho somente uma opção!?_ Perguntou Bill, com a boca cheia de balas de goma.

_Ou melhor meu caro amigo, não tem opções!_ ironizei.

_ Aff! Como seu amigo vou fingir que aceito essa coisa doida toda, Angelis!

Sabia que Bill já estava começando a entender e aceitar toda essa história.

_ Estamos quase chegando e assim que chegarmos à casa do meu avô, você começará a acreditar em tudo, tenho certeza._ disse a Bill.

A tarde já estava caindo e já estávamos quase chegando a velha cidade. Eu adorava este momento do dia, o sol deixava o céu todo em tons de laranja e rosa. O horizonte se tornava uma tela a óleo simplesmente linda.

Em alguns minutos cruzamos a pórtico da cidade, ainda estava claro o bastante para eu poder fazer as honras da cidade a Bill.

BEM VINDOS A MISTIC VILLE _ dizia o pórtico

_ O nome já é sugestivo!_ disse Bill em tom de deboche.

Imaginava que ele iria dizer algo semelhante.

_ Esta é uma cidade muito antiga, meu vô nasceu e cresceu aqui_ comecei a explicar a cidade a Bill_ Não há muitos jovens, a maioria foi para a cidade grande estudar e procurar um melhor estilo de vida. Esta é a avenida principal. A ali adiante, à direita, fica o armazém do velho Muller, amigo de infância do meu avô...

_ Sim, sei! A tal cópia do seu avô!

_Esse é o único armazém da cidade, o único prédio grande que tem aqui!_contei a Bill como uma curiosidade.

_ Nossa!_ exclamou Bill_ se este é o maior prédio da cidade nosso apartamento aqui seria o Empire States!_ Bill debochou!

Rimos da bobagem que Bill falou. Mas pude observar que o armazém de Muller estava fechado, um coisa inédita, nunca havia visto o armazém fechado. Na minha surpresa, meu instinto despertou certa preocupação com aquela vista.

_ Assim que cruzarmos a igreja, pegamos a estrada para o sítio do meu avô_ apontei, mostrando a Igreja .

_Nossa Angelis_ começou a falar Bill_ essa é uma cidade de primeira, porque assim que você passa para a segunda marcha do carro, a cidade acaba!

Bill sempre tinha suas piadinhas, prontas. Começamos a pegar a estrada que levava ao sítio. Eu adoro essa paisagem verde por todos os lados.

_ Cara como eu gosto do cheiro dessa terra._ comentei inspirando fundo aquele ar de campo.

_Se eu respirar mais um pouco desse pó, vou ter que fazer uma lavagem nasal assim que chegar!_ Bill novamente com uma de suas piadinhas.

Em seguida chegamos na porteira do sítio. Bill desceu para abrir a porteira. Bob veio correndo, mas dessa vez não fez festa como fazia sempre. Desta vez parecia incomodado, acompanhou correndo atrás do Jipe até que chegássemos a casa. Estacionei na frente. Eu estava muito feliz de estar ali novamente, muito ansioso para terminar de contar e mostrar tudo a Bill. Fora a saudade que estava de meu avô. Bill desceu do Jipe se tapeando por causa do pó que pegamos na estrada.

_Se me jogarem um pouco de água viro uma estátua de barro!_Bill brincou.

Rimos da sua piada. Dei um abraço nele e fomos para traz do Jipe pegar as malas. Bill tirou os óculos escuros, e ao ver seu rosto não me contive, comecei a gargalhar, a cena foi hilária.

_ Do que você está rindo agora Angelis? O que houve? Devo estar com o rosto cheio de pó!

_ Quem dera se fosse somente o pó Bill! Veja no espelho do carro o estado que você está!

Bill correu para o espelho do quebra sol do carro, e se olhou com uma cara de pânico. Seu rosto estava numa vermelhidão horrível, queimado do sol. Ao redor dos olhos duas manchas brancas enormes, exatamente na forma dos seus óculos de sol. Não conseguia parar de rir aquela imagem era engraçadíssima.

_ Eu lhe avisei para passar protetor solar_ Gritei de trás do carro enquanto tentava conter o riso.

_Não vejo graça nenhuma nisso seu idiota! Estou parecendo um guaxinim albino!_ Bill falava com a voz embargada de raiva enquanto passava a mão pelo rosto analisando sua situação.

Ri mais ainda.

_ Não se aproxime do lixo do meu avô, por que o Bob pode atacá-lo!_ continuei a rir

_ To acabado! Como vou sair na rua assim!?_Como sempre exagerado, Bill falava agora quase chorando.

_Calma meu amigo, você continua bonito! Só que agora com uma beleza exótica!_ Tentei consolá-lo , enquanto segurava o riso.

_Obrigado Angelis! MUITO OBRIGADO mesmo!_ ironizou Bill.

_ Onde esta seu senso de humor Bill?_ sorri pra ele_ Vamos entrar! Meu avô deve ter uma loção para queimadura de sol! Depois descarregamos tudo.

Dei o braço a Bill, enquanto ele chorava de brincadeira.Já estava começando a anoitecer. Subimos as escadas da varanda e adentramos a casa. Sabia que meu avô já estava em casa, porque sua caminhonete estava no celeiro.

_Vovô! Chegamos!_ Gritei tentando chamá-lo

_ Sr. Peter, preciso de um cirurgião plástico com urgência! Estou desfigurado!_ Bill disse ao entrar na sala, já fazendo graça.

Subi as escadas correndo e chamando meu avô, vasculhei tudo lá em cima e não havia ninguém. Desci novamente. Senti um cheiro de lata queimada e fui direto para a cozinha. A chaleira estava queimando, devia estar fervendo ali há horas, pois já havia secado. Comecei a achar aquilo muito estranho. Meu avô não era de deixar esse tipo de coisa acontecer

_Está tudo bem?_ Bill me perguntou.

_ Não sei Bill, não sei_ respondi.

Nos assustamos com um barulho estranho na porta, achei que fosse o vovô, para minha surpresa ao abrir a porta Bob estava raspando a porta. Ele me olhava e uivava como se quisesse me dizer algo. Deu duas latidas bem alto e desceu as escadas correndo. Quando chegou lá embaixo latiu mais umas vezes como se estivesse me chamando.

_ Aconteceu alguma coisa com meu avô!_ deixei sair a frase da minha boca.

_Angelis! Você está me deixando preocupado! É algo grave?_ perguntou Bill já assustado.

_Agora que vamos saber. _ respondi.

Descemos as escadas atrás do Bob. E o seguimos ao redor da casa em direção ao porão. Comecei a ficar nervoso com tudo aquilo. Quando começamos a nos aproximar do porão, percebi que as portas estavam arrebentadas como se estivessem sido explodidas de dentro pra fora. Corri na frente já apavorado .Bob já estava na porta de entrada do porão, latindo para dentro, mas não entrava, como se estivesse com medo. eu latido era de ataque.

_ A ampulheta!_ disse eu sabendo que algo havia acontecido.

Comecei a descer as escadas do porão, seguido de Bill. Bob ficou latindo na porta. Tentei acender a luz no interruptor da escada, mas nada aconteceu.

_Bill, pegue as lanternas que tenho no porta luvas do Jipe.

Bill saiu correndo.

_ Deus o que está acontecendo?_ sussurrei.

Bill voltou rapidamente com as lanternas e começamos a descer as escadas novamente.

Quando chegamos ao pé da escada direcionei a lanterna para ver o que tinha ao redor. E me apavorei com que estava vendo. Estava tudo bagunçado, havia pedaços de tijolos e pilastras por todos os lados, parecia que havia acontecido um terremoto ali. Com pressa fui direto para o pórtico da ampulheta, quando direcionei a luz, um frio gélido correu todo meu corpo, a ampulheta não estava ali. Comecei a ficar atordoado com tudo aquilo, o que havia acontecido? Onde estava meu vô? Uma voz ecoava no meio daquele caos.

_ Angelis! Angelis!_ Gritou Bill_ Tem alguma coisa aqui, venha rápido.

Sem pensar, corri em direção a voz de Bill, comecei a mexer no meio dos entulhos. Bill me ajudou a levantar uma pilastra. Não acreditei no que vi, quando a luz da lanterna de Bill focou.

_ Vou chamar uma ambulância! Chamem uma ambulância!_ Bill começou a correr e a gritar desesperado

Não queria ver aquilo, meu avô estava ali. O sangue cobria o rosto dele. Parecia estar muito machucado. Não sabia o que fazer, tomei-o em meus braços. Tentava chamá-lo, sacudi-lo. Quando segurei sua mão e senti um frio mórbido, não quis acreditar, comecei a surtar ali mesmo. Uma dor tomou meu corpo, as lagrimas começaram a correr, não conseguia entender o que estava acontecendo ali, quem teria feito aquilo? Meu avô não podia ter me deixado, perdi a única pessoa que eu confiava e que me fez ser um homem de verdade. Perdi meu melhor amigo. Um grito de dor saiu da minha garganta, as lagrimas corriam meu rosto. Nunca tinha sentido tamanha dor. Me senti perdido, só. Um vazio imenso. Fiquei ali por um tempo. O silêncio doía. Ouvi ao longe um barulho, uma sirene talvez. Bill havia chamado uma ambulância. Mas não havia nada o que fazer. Levei a mão do meu avô no rosto, para sentir um último carinho, e senti algo áspero correr no meu rosto. Percebi que havia uma queimadura muito grande na mão dele, quando a abri caiu um pedaço de algo que parecia um papel amassado.