Um Novo Despertar
2 Paranóia - O Final
Notas iniciais
— Aí Monamu pega leve. — Denise limpou os ouvidos. — Não dá pra ouvir os babados se você me deixar surda!
— Ele é um monstro e você se preuocupando com a sua audição? — Cebola questionou.
— A gente já viu uns fantasmas baphonicos, tinha o tal do samir lá, necrotauro... — Denise contou nos dedos. — E você tá estranhando uma lagartixa?
— Eu não sou uma lagartixa. — O crocodilo lhe deu um olhar de censura. — Nem um monstro.
Ele deu pequenos passos em direção ao Cebola, que correu atrás de Carmen para usá-la como escudo humano.
— Vê se me erra, plebeu! — Exclamou ela.
— Qual é a do crocodilo? — Cascão o encarou. — O que tu quer?
A risada foi bem prazerosa.
— Meu nome é Eso, sou o deus da loucura.
— Aí... — Carmen sussurrou. — Lembra daquela história de psiquiatra?
— EU NÃO SOU LOUCA! — berrou Denise.
— EU NÃO SOU LOUCO! — Uma voz se ouviuao longe.
— Foi o Licurgo? — Perguntou Cebola.
— Bizarro. — Cascão comentou.
— Qual é a da lagartixa? — Perguntou Sofia, percebendo Eso, finalmente.
— Eu vim fazer um favor à uma velha amiga...
— Eu? — Pensou Denise. — Podia jurar que o Xavequinho era o mais feio dos meus amigos...
— PARA DE ME AVACALHAR! — O rugido da criatura fez o cenário branco tremer.
— Pala de avacalhar ele! — Exclamou Cebola.
— Isso mesmo, para! — Cascão se encolheu atrás de Sofia, que estava tapando os ouvidos.
— Tá bom oh deus doido ou seja lá que for, da onde você me conhece?
— Você trocou a minha jóia, por um Cupcake, tava ótimo por sinal.
— Você não era um dragão? — Disse Cascão, espiando detrás da Sofia.
— Eu sou Eso. — Ele repetiu. — Agora vamos direto ao ponto. Denise, você me invocou para buscar seu amigo Do Contra, certo?
— Você sabe onde ele esta? — Sua expressão mudou para um tom preocupado.
— Não, mas posso ajudar a encontrá-lo, vença o meu jogo.
— Como assim? — Cebola entrou na conversa. — Jogos são a minha praia, a Denise é mó noob.
— Minha inteligência é superior à sua, bestão. — Denise mostrou-lhe a língua. — Como acha que a Carmen chegou ao ensino médio?
— Seduzindo os professores... AI!
O soco de Carmen o machucou.
—Ai! — A mão dela também se machucou. — Seu maldito, você me fez machucar minha mãozinha...
— Tá doida mulher? Eu não mandei você me bater...
— CHEGA! — Eso gritou novamente.
— More, você tem que parar com essa gritaria! — Denise reclamou. — Vai pagar de bicha histérica na casa do caralho.
— Boca suja? — Carmen estranhou. — Desde quando você é assim, amiga?
— As pessoas mudam, Carmen. — Ela disse, suspirando. — Você devia experimentar, essa moda de patricinha fútil já tá ultrapassada.
Lágrimas saíram dos olhos da loira.
— Você tá bem? — Sofia se aproximou.
— Claro. — Ela limpou as lágrimas e voltou a empinar o nariz. — É preciso mais do que a boca da peble para derrubar a realeza.
— Carmen... — Dessa vez foi a voz de Cebola.
— Nem fala nada, vegetal. — Ela o censurou. — Não preciso de você.
— Gente, dá pra deixar o crocodilo falar? — Disse Cascão. — Se é um jogo, tem que ter regras e se vocês não deixarem ele falar as regras, tá todo mundo fodido!
— Parem de poluir meus ouvidos! — Carmen disse em voz de choro. — Vocês eram mais educados antes.
— Foi mal, foi mal. — Disse Cascão constrangido. — Só para de chorar... Ou eu vou chorar também BUAAAAAA!
— Ninguém merece esses corações molengas. — Cebola sentou-se no chão branco. — Manda a real aí lagartixa.
— Eu não gostei de você. — Eso o encarou. — De todo modo, a única regra aqui é: não morrer. Seu objetivo é achar o Do Contra em um dos 7 reinos, cada um representa uma coisa específica e cada um tem uma chave, só com as sete vocês poderão sair daqui.
— Eu não tô gostando... — Cebola murmurrou.
Eso abriu um enorme sorriso.
— COMECEM!
~^-^~
Capítulo 1 - Paranóia
Em um piscar de olhos, Eso sumiu. As paredes brancas também. Carmen estava caída em meio a um gramado, bem similar ao campinho, mas estava diferente, a grama ers bem mais alta e não haviam as traves.
A menina se levantou, tirando os pedaços de grama do cabelo.
— Vai demorar uma eternidade para meu cabelo ficar lindo de novo! — Esbravejou.
— Ah, claro. — Era a voz de Cebola. — Porque seu cabelo é a coisa mais importante aqui...
— Pode não ser a coisa mais importante, mas com certeza é a mais bonita. Onde a gente tá?
Cebola se levantou, com dor de cabeça.
— Acho que aqui é o Limoeiro... Quando tinha limoeiros no bairro.
Eles olharam em volta.
Não havia nenhum sinal de modernidade, nenhum shopping, nenhum prédio, nem asfalto tinha na verdade. Era terra e grama, muitas árvores e um lindo céu azul.
— É um dos reinos que o Eso falou?
— Eso... Esse nome me é muito estranho.
— Eu não quero ficar aqui. — Carmen cruzou os braços. — Me leva de volta.
— Se eu pudesse ter feito isso, acha que já não teria feito?
— Dê seu jeito. Você me deve.
— Eu hein, não te devo nada guria.
— Você quase quebrou meus pezinhos na festa da Marina, lembra?
Cebola já nem lembrava disso, fazia tanto tempo... aquela foi mesmo a última vez que ele havia interagido com ela? Tinha aquela vez na praia também, mas eles nem chegaram a conversar, a Amanda havia roubado toda atenção.
— Tá, vamos tentar sair daqui. Cadê a galera?
— Agora que você falou... Só tem a gente aqui. Não gostei, quero a Denise!
Cebola sugeriu que procurassem sua casa, ou algo familiar pelo menos, eles seguiram por uma trilha em direção a área urbana do bairro.
— O que você tem com a Denise? — Perguntou Cebola.
— Isso é da sua conta? — Ela respondeu.
— Olha aqui Carmen, menos. Eu também não queria estar sozinho com você então não torna isso pior.
— Não queria mesmo? — Ela o encarou com aqueles enormes olhos azuis.
Cebola começou a corar. Ela era tão linda...
— Na-não! — Ele insistiu. — Quero dizer, sim, mas não só pra ficar te admirando.
— Cebola! — Ela exclamou.
— Calma, não é isso. — Ele se apressou em dar uma desculpa antes que ela lhe batesse de novo — Eu quero dizer que... Sei lá, você pode ser legal além de bonita, por que não tenta?
— Vou ignorar você não me achar legal. Tudo bem, eu conto. — Ela olhou para outro lado. -Você já ficou longe de uma pessoa e ela acabou se tornando uma estranha para você?
Cebola pareceu pensar.
— Na verdade... Não.
— Tá, não importa. — Ela tirou cabelo do rosto. — A Denise está andando mais com a Mônica agora com aquela baleia terrestre, ela já não se importa mais comigo e eu tenho medo...
— De perder sua melhor amiga? — Ele completou.
— Você entende, não é? — Agora ela parecia desesperada. — Depois daquela treta do Titi, as meninas me deixaram sozinha e...
— Não precisa dizer. — Quem diria, Carmen tinha sentimentos, e eles pareciam estar bem feridos. — Quer um abraço?
— Você foi muito legal em me ouvir, mas menos né? Não vamos ficar amiguinhos por isso...
Cebola desistiu de tentar entender a cabeça dela e continuou seu caminho.
A medida que andavam, o cenário ia mudando. Agora o lugar era cheio de casinhas de pedra e madeira em um design bem antigo.
— A gente voltou no tempo. — Disse cebola. — Argh! A gente não podia ter ido pro futuro não?
— Tá brincando? Isso é demais! — Exclamou Carmen. — Olha o vestido daquela mulher que arraso!
Praticamente saltavam corações de seus olhos.
— Não! — Exclamou Cebola. — Isso tá errado... A gente está em 1800 e alguma coisa, a julgar pelas vestes...
— E...
— E o bairro do limoeiro foi fundado em 1934, aqui devia ser uma fazenda ou um campo, não uma vila vitoriana...
— Não devia, mas é! Ah, eu to adorando isso.
— Não era você quem queria voltar pra casa?
— E quero... Mas não sem um daqueles vestidos, vem!
Carmen saiu arrastando Cebola pela cidade. As pessoas olhavam de modo estranho para eles, principalmente quando Carmen tentou pagar um vestido de festa vermelho com cartão de crédito, Cebola consertou isso dizendo que os trocados que ele tinha eram moedas estrangeiras e valiam o triplo dos Réis.
— O que a gente faz agora? — Pergunta Carmen, já usando o lindo vestido.
— Tenta sair daqui... — Disse Cebola. — Mas a gente tem que achar o resto da turma antes.
A loira girou o corpo, se admirando no espelho.
— Carmen, tive uma ideia. — Cebola tinha pensado em um plano, esse seria infalível.
— Sobre a gente sair daqui? — Ela perguntou.
— Não. A gente tá quebrado, sem grana nenhuma.
— Eu tenho dinheiro. Cartão, mas...
— Crédito não adianta aqui, inteligente. Você é linda, linda mesmo.
— Que fofo, obrigado. Você deve ser o trilhonésimo homem que me diz isso.
— Escuta o plano, criatura!
— Tá, tá. Conta aí logo.
— Você seduz uns ricaços, rouba eles e eu te encontro do lado de fora das casas.
— Eu não sou uma ladrazinha qualquer!
— Não precisa ser qualquer ladra, só a mais bonita da região.
— E o que a gente faz com os caras que roubamos? — Ela cruzou os braços. — Eu não vou enterrar ninguém, vai estragar minhas unhas.
— Quem falou sobre enterrar? — Cebola cerrou os dentes — A gente não vai matar ninguém, tá doida?
— Ué, é o que a gente pode fazer pra eles não matarem a gente.
— Deixa isso comigo. — Cebola viu um potencial idiota — Aquele cara ali vai ser sua primeira vítima.
— Mas é o... Xaveco? — Carmen indagou.
— É ele mesmo... — Vem, vamos falar com ele.
~^-^~
— Senhorita Carminha... — Ele se curvou, retirando o chapéu. — E o senhor deve ser o Sr. Cebola.
— Você me conhece? — Ele estranhou.
— Claro, vocês são o casal mais famoso da cidade, até estranhei virem falar comigo...
— Como assim casal? — Perguntaram em uníssono.
— Perderam a memória ou algo assim?
— Mais ou menos isso.
— Eu nunca me rebaixaria a ponto de namorar com ele! — Carmen se virou.
— Espera aí... — Cebola colocou a mão na cintura da Carmen e a virou. — Você percebeu?
Carmen corou.
— Que você tem pegada? Me segura mais forte que tá gostoso.
— Não, — Ele revirou os olhos. — Você nunca namoraria comigo nem eu contigo, quem pensa em coisas que nunca vão acontecer?
— O Do Contra? Onde quer chegar?
— Não percebeu não é?
— Tá me chamando de burra?
— A gente tá na mente do Dc, ele foi quem criou esse cenário impossível.
— Tá... E daí? Saber disso não vai tirar a gente daqui mesmo.
— Eu descobri como a gente sai daqui. A gente só tem que achar a chave.
— Tá, e como vamos fazer isso?
— Contrariando o Dc. A gente tem que tornar esse namoro possível.
— É uma desculpa pra me beijar? Porque não sou dessas...
— Pra gente sair daqui, você tem que se apaixonar por mim. — Disse Cebola por fim.
— Que? Já não basta eu ser sua namorada nesse universo paralelo?
— Na verdade... — Mr. Xaveco entrou na conversa. — Vocês são noivos.
— Isso tá cada vez pior! — Choramingou Carmen.
— Da pra parar de me avacalhar?
— Xavequinho... — Carmen se aproximou, com aquele tom de quando quer algo. — O que acha de guiar a gente por enquanto?
Ele olhou no relógio.
— Não tenho nada para fazer mesmo, mas já tá quase escurecendo, então...
— Você tem medo do escuro? — Perguntou Cebola.
— Todo mundo aqui tem medo do escuro. Você sabe da maldição.
— Que maldição?
— A que a bruxa jogou na cidade anos atrás. Toda noite, fantasmas de crianças vagam por essa cidade e sequestram pessoas, que são encontradas sem vida na floresta de manhã, com o rosto arrancado.
— A gente veio parar numa história de terror? — Carmen tremeu. — Tá dando medinho.
— Conta mais — Pediu Cebola.
— Lá em casa, aqui não é seguro. Vou te contar sobre o demônio e as crianças sem rosto, me sigam.
Enquanto deixavam a rua onde trocaram as roupas, Cebola não parou de olhar para trás. Ele tinha a sensação de que estava sendo observado. Se ele fosse menos míope, conseguiria ver a criatura que o seguia de longe, com seus grandes olhos vermelhos sempre a observar.
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