Um Novo Começo

5 Primeira Missão


O ar fresco matinal refrescou Kitty Pryde. Ela cuidadosamente marcava seu ritmo, um pé depois do outro, enquanto corria pelo terreno da mansão, seu rabo de cavalo balançando da esquerda para a direita. Ao mesmo tempo, ela também desejava desesperadamente voltar para a cama e dormir até o mundo acabar.

Correu por mais ou menos meia hora até que pensou em desistir. Trinta minutos estava bom demais, ela compensaria no dia seguinte, terminaria uma hora e meia, com certeza estaria mais disposta.

Foi então que viu Peter Rasputin sentando-se de costas para uma árvore com um livro na mão. Ela decidiu continuar por mais alguns minutos, e, assim que completou a volta e viu seu colega, seus olhares se cruzaram e ele sorriu de forma simpática.

— Bom dia senhorita Pryde – disse ele, com um aceno, seu sotaque habitual fazendo com que arrastasse os erres.

— Ah, bom dia – respondeu ela, correndo. Sentiu seu rosto esquentar e se perguntou se devia parar e conversar um pouco com o russo.

Não teve tempo de escolher, porque Bobby Drake apareceu surfando nas suas plataformas de gelo e caiu bem na sua frente, interrompendo o ritmo tão difícil de manter. Ele fez uma pose e em seguida se curvou como se tivesse completado um grande truque de circo.

— Kitty, a garota que eu procurava – disse ele.

— O que você quer, Bobby? – ela se virou e recomeçou a correr.

Bobby foi atrás dela.

— Te convidar para uma noite de diversão e aventura, é claro – ele deu alguns passos e já se cansou. – Um dia de descanso para o melhor grupo de heróis mutantes do mundo. Só para maiores. Scott e Jean já confirmaram presença.

— Presença onde exatamente?

— Na noitada, claro. Encontrei um lugar que serve tanto para encher a cara quanto pra dançar, sacudir o esqueleto.

Ela pensou um pouco enquanto Bobby era torturado tentando acompanha-la.

— Alguém mais vai? – perguntou então.

— Ororo quase nunca sai com a gente, Hank é... ele é azul.

— E o Peter, você chamou ele?

— Mas aí cê tá querendo estragar o rolê, Kitty. O cara acaba com nosso estilo.

— Chama o Peter que eu penso no seu caso.

*

Scott acordou e percebeu que Jean já não estava mais do seu lado. Ele estava atrasado? Não, depois que colocou os óculos pôde ver que eram oito e meia. Ela provavelmente tinha levantado cedo para treinar com o professor Xavier. Antes de se sair da cama, ele agradeceu por não ter aberto os olhos enquanto dormia. Mesmo tendo treinado incontáveis horas para que isso nunca acontecesse, ele sempre respirava aliviado por ter mantido a disciplina.

Após a rotina matinal de usar o banheiro, tomar uma ducha e escovar os dentes, ele vestiu uma camiseta, as calças e o sapato. Ele nunca se permitia ser pego pelos alunos sendo desleixado ou preguiçoso, embora esses desejos continuassem presentes nele como qualquer pessoa normal.

Assim que fechou a porta do quarto, quase foi atropelado por Samuel, que havia propulsionado seu corpo para chegar na aula antes que se atrasasse.

— Desculpe senhor Summers! – disse ele, indo embora pelo corredor como um foguete.

“Senhor Summers”, tá aí um termo com que ele ainda não se acostumava. Ele fora também um aluno correndo atrasado para aula naqueles mesmos corredores, mas isso aconteceu há quase dez anos. Dez anos? Outra coisa que não lhe entrava na cabeça.

Na cozinha não havia ninguém, ele comeu seu café da manhã e logo pegou um dos elevadores escondidos por toda a mansão. Esse ficava atrás da parede entre duas armaduras medievais no corredor que levava à cozinha.

Como sempre, o porão estava silencioso, ele se dirigiu até o centro de controle da Sala de Perigo, para compilar a data dos treinos do mês do time inteiro. Mal podia esperar para ver como Bobby e Colossus se saíram. Contudo, quando iniciou o console, viu que certos números não faziam sentido, as últimas sessões estavam infladas, não batiam com o tempo que ele havia determinado para os treinos. Vasculhou por mais alguns minutos e, ao usar o sistema de backup, descobriu que alguém havia usado a Sala de Perigo todas as noites semana passada.

A porta atrás dele se abriu, Hank entrou segurando seu caderninho, anotando não se sabia o que. Sua atenção estava tomada, só percebeu Scott quando quase esbarrou nele. Vestia seu jaleco e usava seus pequenos óculos de leitura.

— Perdão, Scott, não vi você aí – disse ele, sempre educado.

— Tudo bem Hank. Ouça, você andou usando a sala à noite essa semana?

— Hum, creio que não, faz muito tempo que não pratico. Ando ocupado demais analisando os dados do Cérebro que Charles anda me passando.

Scott coçou seu queixo, pensativo. Então disse:

— Eu colocaria meu dinheiro no Bobby. Mas eu já cansei de falar pra ele não usar a sala sem supervisão.

— Aposto que ele também já se cansou de ouvir.

— Se imaginaria que sim.

Hank virou a página do caderninho e, meio desinteressado, os olhos fixados nos números, falou:

— Só que há uma variável que antes da semana passada não existia. Tem alguém novo na mansão.

*

O professor X, Logan descobriu, tinha uma moto na enorme garagem da mansão e, apesar de clássica, não estava em boas condições. Ele procurou pelas ferramentas e só o que encontrou foram algumas básicas, mas seria um começo. Decidiu consertá-la. Sabia que não tinha pedido permissão, mas aquilo seria uma forma de agradecer as contínuas sessões de invasão cerebral que eles tinham todas as tardes.

Depois de umas horas vendo o que havia de errado na moto, a sede o forçou a ir para a cozinha e, ao abrir a geladeira, suspirou. Pegou uma garrafa d’água. Foi então que Scott Summers entrou, calado por um instante e falando a seguir:

— Logan, você andou usando a Sala de Perigo?

Algo naquela pergunta fez com que sua paciência, cuidadosamente maquiada até então, acabasse. Era a entonação, o moleque falava como se fosse seu pai. A audácia. Logan era velho o suficiente para... O pensamento fez com que ele sacudisse a cabeça, não se lembrava de quantos anos tinha.

Mas acabou respondendo:

— O professor não mencionou que eu deveria dar satisfação pra você, Summers, por onde eu fosse na mansão ou fora dela.

Scott ficou surpreso com a resposta grossa do mais novo hóspede da mansão. Além disso, nunca alguém o havia chamado pelo sobrenome ali.

— Eu tenho que saber, como líder dos X-Men, sou responsável pela segurança de todos na mansão. Se algo te acontecer...

— Tá, tá. Da próxima vez que eu tiver de afiar minhas garras, vou avisa-lo. Agora, sai da minha frente.

Dito isso, saiu da cozinha, deixando um Ciclope pasmado.

*

A sala de estar sempre ficava cheia entre aulas. Alguns conversavam sentados nos sofás, outros jogavam pingue-pongue e assistiam televisão. Dentre os que assistiam estava um dos X-Men, no entanto, Kitty, que terminava de beber da sua garrafinha de água. Foi quando viu algo que lhe interessava nas notícias.

— Ei, ei, quietos – disse ela para os garotos que riam entre si. Aumentou o volume até o limite.

O apresentador, vestindo seu terno cinza anunciou:

“...e apesar da destruição, dezenas de vidas foram salvas graças aos esforços do grupo agora conhecido como “Quarteto Fantástico”. Estes mesmos heróis sofreram um terrível acidente ano passado no espaço, quando sua nave científica foi pega por uma tempestade cósmica. O líder do grupo, o doutor Reed Richards, foi bondoso o suficiente para nos dar uma rápida entrevista.”

Na tela então apareceu um homem já nos seus trinta anos, sorridente, trajando um uniforme azul claro com um número quatro estampado no peito, na sua frente o microfone do repórter, que fez a pergunta:

“Doutor Richards, como o Quarteto Fantástico conseguiu chegar tão rápido na cena do desastre?”

“Isso é graças aos nossos sistemas computadorizados que foram fornecidos à nossa base graças as Indústrias Stark, que foram extremamente gentis e prestativos conosco desde o acidente.”, respondeu o doutor. Ele tentava sorrir de uma maneira natural, mas ficava claro que ele não era experiente em lidar com aquele tipo de atenção.

O repórter continuou.

“Muita gente quer saber, doutor, vocês estão relacionados com o grupo conhecido como os ‘X-Men’? Há especulações de que o senhor mesmo é um mutante.”

Richards riu.

“Não, nossa condição não se trata de uma questão genética, mas posso lhe assegurar que se os X-Men salvam pessoas, eles são amigos do Quarteto Fantástico.”

A entrevista acabou e Kitty trocou de canal e se levantou, deixando os adolescentes relaxando em paz. Ela queria falar com alguém, por isso foi direto para a sala de Xavier, mas ele ainda não estava lá, devia estar no cérebro. Jean também não estava em seu quarto e quando pensou em ir para o porão, viu Ororo na sala de aula, lendo em sua mesa.

Hesitou antes de entrar, mas acabou batendo na porta e Ororo a recebeu com um sorriso gentil no rosto.

— Pode entrar, Kitty. Aconteceu alguma coisa? – perguntou ela, fechando seu livro, mas marcando a página com um marcador adornado com uma penugem emplumada.

— Eu não queria incomodar...

— Imagina, venha sente-se.

Kitty assentiu e se sentou na cadeira de frente para a mesa. Então falou:

— Não é algo muito importante, é só que, eu tava assistindo o noticiário e aquele grupo, o Quarteto Fantástico estava lá, acho que eles salvaram uma cidade de um desastre – ela parou para pensar um instante e prosseguiu. – Sabe, por que as pessoas não podem nos ver fazendo isso, sendo heróis, ajudando e dando entrevistas? A gente parece mais um grupo clandestino, operando nas sombras e tal.

Ororo também teve de refletir sobre aquilo, e, após um momento, respondeu:

— Os humanos ainda estão suspeitos em relação aos mutantes, pelo que sei. Charles nunca mencionou, mas ele sempre foi extremamente cuidadoso com nossas missões, quando e como agimos, porque, no fim, o resultado vai ser refletido em toda nossa espécie, no planeta inteiro. Imagina você não saber quem tem o poder de explodir um bairro inteiro, e, de repente, essa pessoa é seu vizinho e ele já se organizou com outro que pode manipular pensamentos. Toda organização mutante vai ser vista como perigosa.

— É, faz sentido – disse Kitty.

— Confie no professor, se fosse só por ele nós estaríamos em todos os jornais em artigos que nos elogiam como heróis.

Elas sorriram, então a voz de Charles Xavier invadiu suas mentes.

X-Men, para a Sala de Guerra.

*

Todos os membros se juntaram frente ao professor, e, para surpresa de Scott, Logan também estava lá, de braços cruzados e quieto. Em sua cadeira de rodas, ao lado de Jean, Charles foi o primeiro a falar:

— Usando o Cérebro, Jean localizou um novo mutante que despertou seus poderes. Ele está em trânsito em um navio cargueiro indo para a Europa. Scott, lidere um time pequeno para salvá-lo.

— Salvá-lo? – perguntou Kitty.

— Aparentemente ele está preso dentro de um container com outras pessoas – respondeu o professor. – Leve Logan com você, Scott.

Isso fez com que Ciclope hesitasse e olhasse para o novo membro da escola. Enfim conseguiu dizer:

— Logan acabou de se estabelecer no Instituto, nem sequer treinamos com ele ainda, professor.

— Sei bem disso, mas Jean e eu concordamos que a mente dele está nublada desde sua chegada aqui, e ele pediu para sair um pouco.

Logan disse:

— Pois é, eu só pareço um sujeito bonzinho, Summers, mas de vez em quando eu preciso desenferrujar as garras.

Eles se encararam por um minuto, e Scott acabou concordando com o professor. Após passar a próxima hora analisando o cargueiro, identificado nos computadores por Hank, ele escalou Lince Negra e Colossus para ir junto na missão. Ororo estava ocupada com seus alunos e era bom deixa-la de reserva numa posição de liderança caso a escola necessitasse. Jean parecia agitada durante toda a semana entre as sessões no Cérebro e com Logan, ela deveria descansar. Bobby tinha de passar um tempo na Sala de Perigo e Hank no seu laboratório.

Claro, o novo membro do time poderia ser uma dificuldade a mais, mas ele deveria ver como Logan se comporta numa luta. O time vestiu os uniformes, e como Logan não tinha um, ele foi de jaqueta e calças jeans.

Encontraram-se no hangar e entraram no Pássaro Negro, prontos para a missão.

*

No tempo que levaram para chegar até o cargueiro, Ciclope havia revisado o plano várias vezes. Ao mesmo tempo, ele formulava planos caso o primeiro falhasse e assim por diante. Havia falado para o resto do time, mas ainda se preocupava com Logan, que se mantinha sentado olhando para a fina janela onde não dava para ver nada além de nuvens.

Foi então que se lembrou e disse:

— Logan, você já está com o comunicador, mas é bom nós usarmos seu nome. É por isso que temos codinomes.

Logan não tinha pensado naquilo, porém, dentro da mente, ele sabia muito bem qual seria. Falou:

— Certo, podem me chamar de Wolverine. É o nome que ficou na minha cabeça.

— Muito bem – disse Ciclope. – Estamos nos aproximando do alvo, Lince e Colossus, vocês sabem o que fazer.

Eles assentiram e se levantaram, indo até o fundo do jato. Peter cobriu o corpo com seu aço orgânico e disse para Kitty:

— Preparada?

— Eu nasci preparada – respondeu ela, dando um leve soco no braço do gigante russo, brincando.

Ciclope ficou feliz com o quanto aquela dupla em particular se comportava, eles trabalhavam muito bem juntos. Diminuiu a velocidade, segundo o radar eles estavam bem em cima do cargueiro. Devagar, ele desceu até uma altura segura e, após um minuto, abriu a comporta traseira e deu o sinal para os X-Men.

Lince Negra subiu nos ombros de Colossus e os dois pularam do jato, sem exibir qualquer hesitação ou medo. Peter aterrissou com um audível baque metálico, amassando o aço que era o chão do navio, no entanto, não chegaram ao convés, estavam no interior.

— Bom trabalho, Lince – disse o russo, quando ela desceu de seus ombros.

— Atravessar por dentro de um navio já virou moleza – disse ela. – Agora vamos amassar umas fuças.

Seguiram adiante, tomando cuidado para não alertar ninguém antes da hora. Subiram da sala do motor pela estreita escada até o andar superior, e logo encontraram alguém, um homem que, aterrorizado pela súbita aparição, permaneceu parado com os olhos arregalados.

Antes que ele conseguisse pensar em qualquer coisa, Colossus o puxou pelo colarinho com uma das mãos. Lince Negra, atrás do russo, então perguntou:

— Você sabe que está transportando pessoas em um dos containers? Só responda, e é melhor não gritar, ou meu amigo aqui vai ficar bem zangado.

Engasgando um pouco com a própria saliva, o marinheiro falou:

— Eu não sei do que está falando...

— Isso nós vamos ver – disse Kitty, e deu sinal para Peter.

Colossus descobriu seu corpo do aço orgânico e golpeou a cabeça do marinho com a sua própria, fazendo-o com que ficasse desacordado. Colocaram-no numa cabine vazia e percorreram os apertados corredores do cargueiro, questionando e desacordando todos os marinhos que encontrassem.

Enfim chegaram na ponte de comando e encontraram o capitão junto de seus homens, trabalhando nos instrumentos e computadores. Lince Negra pigarreou e tossiu e todos se viraram e imediatamente se assustaram. O capitão foi o primeiro a perguntar:

— Quem são vocês? Como chegaram aqui?

— Nós é que fazemos as perguntas, capitão – explicou Kitty.

Ao mesmo tempo, contudo, um dos operadores da ponte de comando pegou uma pistola escondida debaixo de uma das bancadas, e, desesperado, atirou em direção dos X-Men. Lince Negra parada, deixou que as balas passassem pelo seu corpo, atingindo um Colossus um tanto desprevenido, em seu corpo de aço, fazendo com que as balas ricocheteassem.

A tripulação se abaixou imediatamente e ninguém ficou ferido, apesar dos computadores destruídos e de algumas janelas quebradas. Outra vez Kitty fez um sinal para Peter e ele rapidamente pegou o capitão, não pelo colarinho, mas agarrando o pescoço. O capitão se contorceu.

— Em um dos seus containers – disse Kitty Pryde, roendo e examinando suas unhas, — estão presas algumas pessoas, queremos saber qual deles.

Os operadores correram para ajudar o capitão, Kitty atravessou o corpo de Colossus e chutou um deles no queixo, deixando-o meio grogue, então atravessou de novo seu parceiro, dessa vez dando uma rasteira em outro, que caiu batendo a cabeça no chão. Ela avançou, atravessando um dos marinheiros, e o chutou atrás da perna, ele perdeu o equilíbrio e ela o socou na garganta.

Outro marinheiro chegou em Colossus por trás, segurando uma cadeira, e o atacou, destruindo-a completamente. O russo virou um pouco a cabeça e soltou o capitão, chutando seu agressor no peito e fazendo com que ele voasse contra a parede, desacordado com o forte impacto.

Lince Negra, vendo que ninguém mais ali era uma ameaça, foi até o capitão e o chutou no nariz. Ele gritou e, caído, disse:

— Chega, por favor! Tá bem, está bem! Ninguém da tripulação sabe, eles me pagaram para transportar essa gente, por favor, piedade.

— Qual é o container? – perguntou Kitty.

Levou menos de dois minutos para que o capitão pegasse a lista da carga e apontasse qual dos containers transportava pessoas. Lince Negra ia informar Ciclope, quando de repente, o mesmo container, posicionado no topo, rangeu e explodiu, soltando pedaços de metal por todos os lados.

Ela pôs a mão na orelha e disse:

— Ciclope, você viu?

Scott, ainda no jato que pairava sobre o navio, respondeu:

— Sim, permaneça em posição.

O que saiu dos destroços não parecia uma pessoa. Era gigante, duas vezes o tamanho de Colossus, sua pele era enrugada e coberta por feridas e, à medida com que ele se reconstruía, se tornava uma colcha de retalhos, diferentes cores se juntando numa única massa de carne. A massa deu um grito gutural que misturava ódio e horror. Ódio com aqueles que o aprisionaram, horror por ter se tornado um monstro.

Ele tinha braços e pernas, dedos e orelhas. Seus olhos se viraram para cima, para o Pássaro Negro, e ele urrou, direcionando toda sua raiva no primeiro alvo que tinha notado. Esticou seus braços como se fossem feito de uma borracha de carne humana, e fincou seus dedos na fuselagem.

Os alarmes tocaram e Ciclope se esforçou para manter os braços firmes no manche.

— Está nos puxando pra baixo! – disse, cerrando os dentes, controlando o máximo que podia.

Logan se levantou do assento depressa e falou:

— Já chega de ficar só olhando. Tá na hora de desenferrujar as garras.

— Wolverine, espere! – Ciclope tentou chama-lo, mas Logan correu e abriu a comporta com a alavanca traseira, saltando logo em seguida com as garras à mostra.

Ele se usou delas para amortecer sua queda, rasgando a carne dos braços do monstro até pousar bem na sua frente. Achou que tinha feito um estrago e tanto nele, mas a carne aberta pelos cortes se juntou outra vez.

— Então você é uma bola de carne que não quer se desfazer – disse Wolverine. – Vamos ver se isso tem um limite.

*

Kitty, em uma mistura de nojo e terror, assistiu um Wolverine correndo e cortando a criatura em vão, seus ataques ineficazes com a capacidade regenerativa dele. Foi quando ouviu a voz de Scott no seu ouvido:

— Ouçam: Colossus, arremesse Lince em direção ao jato e desça para ajudar Wolverine. Lince, preciso que você controle o Pássaro Negro.

— Entendido – disse Peter Rasputin, e se virou para Kitty. – Com sua permissão?

— Certo, vamos nessa – respondeu ela, estalando o pescoço e os dedos.

Ela pousou um dos pés na enorme mão do russo, envolvendo seu braço ao redor do pescoço dele para se equilibrar. Por um instante eles se olharam e Kitty sentiu seu rosto esquentar. Com uma força descomunal, Peter a lançou feito um dardo e ela, instantaneamente se concentrando, atravessou parte do teto da ponte de comando e o vidro quebrado.

Chegou no jato, atravessando o chão e solidificando seu corpo no exato momento que o virou para pôr os pés no teto e cair de quatro como uma gata que acabara de perder uma de suas sete vidas. Não perdeu tempo, foi até o assento do piloto, que ficou vago ao mesmo tempo em que Ciclope se levantou, e firmou os magros braços no manche, fixando o jato no lugar.

Ciclope, por sua vez, correu para a comporta aberta e olhou para baixo. Via tudo vermelho, mas identificou o corpo do monstro e, colando a mão no lado do seu visor, escolheu instintivamente o quanto deixaria sua rajada óptica sair de seus olhos. O raio vermelho iluminou o breu da noite, antes só parcialmente confrontado pelas luzes do navio, e o impacto de concussão de enorme poder destruiu parte dos braços da criatura, soltando o Pássaro Negro.

O monstro urrou de dor e fúria, as mãos caindo em cima do monte de containers. Logan se aproveitou e saltou sobre a cabeça dele, fincando repetidamente suas garras no que ele achava ser o cérebro da coisa.

Nessa hora Colossus havia chegado. Com um poderoso soco, ele rechaçou a perna esquerda da coisa, fazendo com que ela perdesse o equilíbrio e caísse de costas sobre o container, e, depois, entre as colunas de containers até o convés. Wolverine tinha ido junto.

— Colossus, você está vendo algum deles? – perguntou Ciclope, pelo comunicador.

— Nhét. Negativo.

— Esse deve ser o mutante que o Cérebro localizou, fique atento.

Do assento do piloto, Kitty disse:

— E as outras pessoas no container, o que aconteceu com elas?

— Não há mais ninguém aqui, senhorita Pryde – respondeu Peter. Omitiu os restos humanos e os restos de roupas que estavam por toda parte.

Ouviram um estrondo vindo lá de baixo, depois um grito. Logan veio voando e se prendeu num dos containers com suas garras. Suava, sangrava e sua jaqueta estava destruída. Olhou para cima e falou:

— Essa coisa ainda está viva.

Então escalou até ficar do lado de Colossus. Teve de recuperar um pouco o fôlego. Antes que pudessem formular um plano, os marinheiros na ponte de comando abriram fogo usando fuzis e metralhadores que antes estavam guardados em armários secretos.

O gigante russo se virou, os tiros refletindo na sua pele metálica. Logan correu e ficou atrás dele, não porque estava com medo de ser atingido, mas porque queria evitar que suas roupas fossem ainda mais rechaçadas. Tirou os retalhos que um dia foi sua jaqueta e estalou o pescoço.

Do jato, Ciclope agiu depressa e disparou sua rajada óptica, atingindo os atiradores até que todos fossem nocauteados. Quase nada sobrou dos instrumentos do navio quando ele parou, enfim.

— Wolverine, — disse ele – qual é o estado do mutante lá embaixo no convés?

— Eu cortei, cortei e cortei, mas ele não para de se regenerar. Acho que logo ele volta.

— Entendido. Lince, eu vou descer, mantenha o jato mais acima para que ele não seja pego de novo. Colossus e Wolverine, fiquem de prontidão e esperem pelo meu sinal.

Kitty desceu com o Pássaro Negro e esperou Ciclope descer para subir novamente. Os três agora estavam em cima do mesmo container. Logan foi o primeiro a falar:

— Você confia na garota pra pilotar o jato?

— Claro – respondeu Scott, seu visor vermelho se fixando em Logan. – Todos os X-Men recebem treino de voo.

— E a “garota” ainda pode te ouvir – acrescentou Kitty, pelo comunicador.

A coluna de containers estremeceu, escutaram uma batida que retumbou por todo o cargueiro, depois, o grito gutural do monstro. Rapidamente, Ciclope disse:

— Escutem. Vamos soterra-lo usando os containers. Colossus pule para o outro lado, Wolverine afaste-se.

— Escuta aqui você, Summers – começou Logan, mas não conseguiu continuar. O russo havia pulado para a coluna em frente, mas, antes que pudesse fazer qualquer coisa, o monstro surgiu de um salto. Daquela vez, no entanto, eram mais de um.

Tinham o tamanho de um homem médio, mas suas peles estavam expostas do mesmo jeito da criatura de antes, colchas de retalho formadas pelas peles humanas que provavelmente estavam dentro do container junto com ele. Eram iguais, não tinham cabelo ou qualquer pelo, e todos repetiam:

— Quem sou eu?

— Mudança de planos! – gritou Scott e deu um salto para trás, soltando sua rajada que interrompeu e desmantelou um dos clones

Cinco dos clones pularam sobre Colossus e, momentaneamente, conseguiram imobiliza-lo. Porém, não durou muito, e o gigante se desvencilhou se utilizando de seus poderosos braços. Jogou um para um lado e outro para outro lado, para ele eram como se fossem feitos de massinha. A todo momento eles perguntavam:

— Quem sou eu?

Wolverine correu e saltou, as criaturas o perseguindo. Pousou sobre um container e cortou um, depois outro e então mais dois antes de saltar para outro container. Não conteve o sorriso, animado por finalmente poder cortar alguma coisa.

Mais atrás, Ciclope disparava sua rajada óptica, não permitindo que nenhum dos clones pudesse chegar perto. Disparou contra um, empurrando-o e, assim que notou outro vindo debaixo, com suas mãos e pés grudados na parede de metal, ajustou o botão e soltou um curto raio que rebateu na coluna à sua frente e acertou-o em cheio nas costas, fazendo-o cair.

Levou uns minutos, mas a luta acabou e eles puderam respirar. Mas Colossus segurava alguém, um homem nu que tremia incontrolavelmente. Soltou assim que percebeu que ele era inofensivo, pelo menos naquele estado. Os outros dois se aproximaram e Ciclope quebrou o súbito silêncio:

— Está tudo bem, não viemos aqui para te machucar.

O homem se virou para ele, seus olhos arregalados, os dentes batendo. Enfim ele teve força para falar:

— Eu... Eu machuquei aquela gente. As pessoas que estavam comigo. Estão dentro de mim, suas vozes estão na minha cabeça, gritando – ajoelhou-se e chorou.

Os X-Men se entreolharam. Ciclope disse:

— Tudo bem, foi um acidente. Você é um mutante, deve ter despertado seus poderes enquanto era transportado. Podemos te ajudar. Ajudar a os controlar.

— Não, não – disse o mutante. – Não, eu tenho que morrer, morrer!

Desatou a correr, queria sumir. Colossus o segurou pelo braço.

— Me deixa em paz! Esse... Esse não sou eu!

O braço pego pelo russo se soltou, não só do russo, como também do próprio corpo do mutante. Mesmo sem um membro ele correu e, sem pensar duas vezes, pulou direto no oceano. Scott havia colocado a mão no visor, mas tudo que faria era empurra-lo, não poderia ter ajudado em nada.

No breu, nunca poderiam tê-lo encontrado, mas ainda assim ficaram ali por um tempo, encarando as águas. No fim, Scott falou:

— Vamos avisar a marinha e voltar para casa.

*

Já de volta à mansão, Logan saiu do Pássaro Negro e foi recebido pelo professor, que disse:

— Bem-vindo de volta. O que achou do trabalho dos X-Men, Logan?

— Acho que minhas roupas não vão durar se eu continuar aqui.

Charles riu.

— Podemos cuidar disso. Vou conversar com Hank – quando os outros também tinham saído, ele prosseguiu. – Passei algumas horas no Cérebro, tentando achar o mutante do navio, mas não obtive sucesso. Ainda que não tenham conseguido convencê-lo de voltar para cá, bom trabalho em capturar a tripulação do cargueiro.

Enquanto o time saía do hangar, Scott disse para Logan:

— Sei que você esteve sozinho por muito tempo e que agiu por si só e está acostumado com isso, mas, se estamos em missão, você tem que obedecer ordens, Wolverine.

Kitty e Peter se entreolharam, mas permaneceram quietos. Por um momento, todos esperaram pela resposta, que, no fim, não veio. Logan deu um meio sorriso debochado e saiu andando. Deu de cara com Jean, que o cumprimentou e o deixou sem jeito. Mas logo ela foi para os braços do namorado e ele foi para seu quarto.

Quando chegou, tirou sua camisa e, só percebeu um minuto depois, viu um cesto sobre a cama. Dentro estavam uma caixa de charutos, e whisky. A voz de Charles veio à sua mente.

Só mantenha essas coisas longe das crianças, Wolverine. Bem-vindo aos X-Men.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.