Um Natal, Três Ex, e Minha Mãe Como Final Feliz
1 Até Que a Primavera Voltasse
C A P Í T U L O Ú N I C O:
Até Que a Primavera Voltasse
O cheiro de canela com açúcar pairava pela casa como uma manta perfumada, aquecendo o ar da tarde chuvosa de dezembro. Na cozinha iluminada por luzes amareladas, o forno assava uma fornada de biscoitos natalinos que estalavam suavemente à medida que douravam. A casa inteira parecia respirar calor, mesmo enquanto a chuva tamborilava contra as janelas com ritmo de quem tinha muita opinião sobre o mundo.
Sakura Uchiha cantarolava baixinho alguma música antiga, algo delicado, provavelmente uma trilha sonora de filme romântico que Sarada não reconheceria.
Ela usava um avental florido por cima de um vestido longo azul marinho com mangas bufantes que parecia saída diretamente de uma minissérie da BBC.
Seus cabelos cor de rosa estavam presos em uma trança lateral solta, com fios escapando aqui e ali, e uma cópia gasta de Orgulho e Preconceito repousava aberta sobre o balcão com dezenas de post-its marcando suas passagens favoritas.
Na sala, porém, o clima era o oposto absoluto.
Sarada Uchiha estava afundada no sofá terracota como se fosse parte da mobília, enrolada em um cobertor xadrez e usando sua camiseta branca folgada do Nirvana, encarando a televisão desligada da mesma forma que se encara um ponto morto na vida.
Um pote generoso de sorvete de chocolate repousava em seu colo, já quase no fim. Seus olhos não estavam vermelhos de choro — ela não chorava por ninguém — mas de pura frustração adolescente. Daquele tipo que parece existir só para desafiar o universo.
O único som além da chuva e do murmúrio distante de Sakura era o da colher batendo no pote num ritmo agressivo. Cada colherada parecia uma declaração de guerra.
Foi nesse cenário que Sasuke entrou na sala descalço com uma xícara branca de chá preto na mão, com uma expressão de quem estava analisando uma cena de crime particularmente confusa.
Ele usava uma camisa preta de mangas longas, ligeiramente amarrotada, e calças de moletom acompanhadas daquele olhar eternamente entediado e profundamente atento ao mesmo tempo; o tipo de dualidade emocional que só Sasuke Uchiha dominava. O cabelo estava desalinhado, não o de costume, mas um desalinhado esteticamente intencional, do tipo que denuncia: hoje não mexa comigo.
Ele parou atrás do sofá, observando a filha em silêncio.
Alto nível de contemplação pragmática.
— Boruto terminou comigo por mensagem — disse Sarada, sem olhar para ele, como se estivesse lendo o letreiro das próprias desgraças no teto. — Por mensagem.
Sasuke sorveu um gole de chá.
— Mensagem é eficiente — falou com a naturalidade de quem comenta um relatório semanal.
Sarada virou lentamente o pescoço, como uma coruja indignada.
— Sério? É isso que você tem para dizer?
Ele sentou-se na poltrona ao lado e cruzou as pernas com a calma irritante de quem simplesmente não se abala por nada.
— Estou tentando ser pragmático — respondeu.
— Claro, porque o senhor é o rei da pragmática emocional — ela bufou, enfiando outra colher de sorvete na boca. — Vocês e a mamãe pelo menos já se amaram de verdade? Ou foi tipo... um casamento por afinidade curricular?
Sasuke piscou devagar, como se estivesse tentando decidir entre responder ou desligar a própria consciência.
Levou a xícara aos lábios, soprando o líquido.
— Qual o motivo da pergunta?
— Estou tentando entender se o amor é uma fantasia coletiva ou uma falha química temporária no cérebro — murmurou Sarada, encarando o vazio. — Vocês parecem mais amigos do que casal. A mamãe vive citando Jane Austen como se fosse o Novo Testamento. E você…
Ele finalmente a encarou, e os olhos escuros prenderam os dela por um segundo longo.
— Eu — disse ele — sou prático.
A colher raspou o fundo do pote com a intensidade de uma ameaça diplomática.
— Você já amou alguém antes da mamãe? — Sarada perguntou.
A sobrancelha de Sasuke arqueou sutilmente. Ele não gostava de ser provocado emocionalmente.
— Por que quer saber?
— Curiosidade mórbida. Estou em luto amoroso. Nada como mexer no passado dos outros. Autópsia emocional.
Uma respiração longa escapou do homem. O olhar dele se perdeu por um instante como se estivesse espiando por uma porta antiga e pesada dentro da própria mente.
A chuva lá fora se intensificou enquanto a conversa seguia.
— Houve… outras pessoas — admitiu.
Sarada endireitou a postura imediatamente.
— Quantas?
— Três. Com sua mãe, foram quatro.
A boca dela se abriu devagar, como se estivesse prestes a cair do sofá.
— Pai… você foi um galinha emocional?
— Fui um homem funcional com baixa tolerância a demonstrações afetivas — respondeu sem alterar o tom.
— Isso é só uma definição acadêmica para “galinha emocional”.
Ele soltou um suspiro pesado, como se lamentasse a criação humana.
— Nem todos os amores precisam ser escandalosos para serem reais — murmurou. — Às vezes, são silenciosos. O tipo que você só percebe quando termina… ou quando nunca começou.
Aquela frase pousou em Sarada como uma pluma pesada.
Ela se aproximou, agora realmente investida:
— Quero saber tudo. Em ordem cronológica. Sem censura.
— Não.
— O quê?! Como assim, não?
— Você vai descobrir sozinha.
Sarada ergueu os braços, indignada.
— Você tá me tirando, né?!
Sasuke se levantou, deu outro gole no chá e caminhou até as escadas.
— É uma lição de casa emocional — disse, já subindo os primeiros degraus.
— Papai! — exclamou, alto.
Ele parou por um instante.
— Boa sorte, Sarada. Às vezes, a verdade precisa ser montada em pedaços.
Então, desapareceu no andar de cima como se fosse um fantasma minimalista.
Sarada ficou ali, estática, absorvendo o caos de emoções que o pai acabara de despejar nela.
Depois, respirou fundo, abriu o celular e mudou o nome de um grupo no WhatsApp intitulado “Uchihas e Aliados” — esse que antes já existia para casos de emergência emocional, troca de memes e, ocasionalmente, debates sobre qual bolo Sakura deveria fazer nos aniversários.
Digitou:
Gente. Projeto confidencial.
Preciso de informações sobre o passado amoroso do meu pai.
Tudo vale: fotos, cartas, relatos, lendas urbanas.
Quem ajudar ganha biscoitos da mamãe.
p.s.: ele não pode saber.
Quinze minutos depois, Naruto Uzumaki — melhor amigo de infância da família e pai do seu ex-namorado — mandou um áudio de dois minutos, completamente desnecessário em sua duração:
“AAAA SARADA teu pai era uma porta trancada com cadeado, mas teve umas meninas sim… cê quer saber daquela da escola que tinha voz de gás hélio? A líder de torcida? Parecia ter saído do filme Legalmente Loira? Ela enchia o saco dele todo dia…”
Sarada sorriu devagar.
O jogo tinha começado.
E ela estava mais do que pronta para começar a jogar.
A tarde estava cinzenta, mas confortável, o tipo perfeito para ficar com meias quentinhas, beber chocolate quente e tomar decisões duvidosas sobre investigar o passado amoroso do próprio pai.
Na varanda dos fundos, Sarada se acomodou em uma poltrona de madeira coberta por uma manta xadrez. O som da chuva batia no telhado como uma trilha de suspense cuidadosamente planejada.
No colo, o notebook aberto. Ao lado, o caderno de capa dura cheio de rabiscos, setas, datas, interrogações e pequenas anotações dramáticas como:
“Meu pai já amou 3 mulheres antes da mamãe. Isso é… legalmente duvidoso.”
Sarada mastigava a ponta do lápis com a concentração de uma detetive noir.
Na página, reluzia em vermelho:
Relacionamento nº 1 — ???
Mas ela já tinha as primeiras pistas.
E então, como se fosse sincronizado pela força do destino (ou da fofoca), Ino Yamanaka surgiu na mente de Sarada exatamente no momento em que o som da notificação do grupo Uchihas e Aliados apitou com a foto de uma Floricultura marcada no mapa.
A loja ficava num dos bairros mais charmosos da cidade, ruas de pedra, vitrines com luzes quentes, arranjos de flores que pareciam ter saído de um editorial da Vogue.
Quando a adolescente abriu a porta, um sino dourado tocou, e ela foi imediatamente envolvida por uma onda de perfume fresco: lavanda e um leve toque de hortelã.
Ino estava lá.
E Ino… era Ino.
Exuberante. Dramática. Impecável. Com o rabo de cavalo loiro mais perfeito já produzido pela humanidade, óculos de aro dourado (obviamente usados como acessório, não para enxergar), uma blusa branca com babados dramáticos e uma saia lápis verde-oliva que dizia claramente: minha autoestima paga o meu aluguel.
— Sarada! — Ino abriu os braços para um abraço ruidoso. — Meu Deus, olha você! Cresceu! E sem aparelho dental! Orgulho define!
— Pois é… — Sarada respirou fundo. — Ino, eu preciso conversar com você. Oficialmente.
A loira arregalou uma sobrancelha afiada, imediatamente farejando fofoca.
— Sobre o quê?
Sarada abriu o bloco de notas no celular.
— Sobre o meu pai.
Ino levou a mão ao peito.
— Finalmente. Eu sabia que esse dia chegaria.
— Como assim, “sabia”? — Sarada piscou.
— Porque Sasuke Uchiha é uma casa antiga cheia de cômodos trancados, e um dia você ia querer a chave mestra. — Ela acenou dramaticamente. — Venha para a salinha dos fundos. Tenho chá de hibisco… e fofocas de adolescente.
— Os dois, por favor — respondeu.
O ambiente parecia uma mistura de ateliê indie com sala de terapia aromática: plantas penduradas, poltronas com almofadas fofas, luz baixa e um aroma suave de alecrim.
Ino trouxe uma bandeja com chá, biscoitos amanteigados e… um envelope antigo, amarelado pelo tempo.
Sarada se ajeitou na poltrona, abrindo o caderno:
Caso 1 — Ensino Médio
— Ino, você namorou meu pai, não é?
A loira riu, ofendida de brincadeira.
— Minha querida, “namorar” é uma palavra forte. Digamos que… tentamos.
Mas ele era… seu pai.
— Isso não ajuda.
— Ok, ok… vou começar.
Ela bebeu um gole de chá e, então, continuou:
— Seu pai e eu éramos o casal do ensino médio. Sabe aquele casal que todo mundo aposta que vai ficar junto, mas que qualquer pessoa sensata sabe que é um desastre esperando para acontecer?
Sarada anotou:
Desastre iminente — confirmado.
— Por quê? — ela perguntou.
Ino sorriu com nostalgia.
— Porque eu era um furacão. E ele era…
— Um muro? — chutou Sarada.
— Não! — Ino riu. — Um lago. Fundo e assustador às vezes.
Ela abriu o envelope e tirou uma foto.
Sarada quase engasgou.
Sasuke, com 16 anos, encostado no armário da escola. Camiseta do Metallica, jeans escuro, tênis All Star preto surrado. Cabelo caído no rosto de um jeito propositalmente não proposital. Olhar sério… mas com algo vivo ali, algo que Sarada nunca tinha visto.
E ao lado dele, Ino, com uniforme de líder de torcida, fazendo chifrinhos na cabeça dele com os dedos.
— Ele… ele parecia humano! — Sarada murmurou.
— Era! Mas versão beta — Ino respondeu, rindo.
— E como vocês… tipo… “rolou”?
A Yamanaka tirou outra coisa do envelope: um papel dobrado.
— Ele me escreveu isso.
Sarada quase caiu para frente.
O bilhete dizia:
“Você fala muita bobagem. Mas, às vezes, é agradável.”
Sarada arregalou os olhos.
— Ino… isso é horrível!
— Sarada, meu amor… — Ino suspirou com carinho. — Para ele, isso foi uma declaração épica. Guardar isso foi meu jeito de lembrar que eu fui importante na vida dele, mesmo que por pouco tempo.
Sarada escreveu:
Prova documental: bilhete romântico nível Uchiha — semi-afetivo.
— Por que vocês terminaram? — ela perguntou.
Ino mordiscou um biscoito.
— Porque eu queria um amor de filme daqueles com declarações para todo o colégio, banda, confeites, fotos e plateia. E ele era um amor silencioso, observador… mas muito limitado.
E então, algo na expressão da loira mudou.
Não tristeza e nem arrependimento. Mas um tipo de saudade boa.
— Sarada… seu pai nunca me olhou do jeito que olhou para outra pessoa.
A jovem congelou.
— Outra pessoa? Quem?
Ino sorveu calmamente seu chá.
— Ahh… isso, meu amor, é com você.
Sarada saiu da floricultura com:
— uma foto,
— um bilhete romântico estranhíssimo,
— um saco de biscoitos extras,
— e um senso urgente de que seu pai tinha segredos demais.
No caderno, ela escreveu:
Se o primeiro amor já foi assim, quão fundo vai esse buraco emocional chamado Sasuke Uchiha?
O quebra-cabeça estava montando sua própria forma.
O dia seguinte amanheceu com nuvens pesadas e aquele tipo de claridade fria que parece pedir introspecção.
Dentro da casa Uchiha, tudo estava mais silencioso que o normal — só o som ocasional das folhas batendo contra a janela.
Sarada sentou-se novamente na varanda dos fundos, envolvida pela manta xadrez, como se estivesse prestes a resolver um crime emocional de alta complexidade.
No caderno, agora mais preenchido, ela escreveu:
Relacionamento nº 1 — Ino Yamanaka
Mas havia uma página seguinte, um espaço vazio em vermelho vibrante:
Relacionamento nº 2 — ???
E então, como se fosse chamado pelo destino ou pelo cheiro da torta de amora recém-saída do forno, Itachi Uchiha entrou pela porta dos fundos com Izumi ao lado.
Os dois tinham essa aura de casal que aprendeu a rir das próprias tragédias. E, claro, eram especialistas certificados em fofocar com classe.
Itachi serviu-se de café. Izumi pegou dois biscoitos.
Então, casual como sempre, ele soltou:
— Ah… a moça da poesia…
Sarada travou instantaneamente.
— O quê?
Itachi ergueu a sobrancelha, satisfeito com a reação.
Izumi riu, apoiando a cabeça no ombro dele.
— Aquela da faculdade. Lembra, amor? A tímida?
— Tímida, mas quando lia — Izumi acrescentou. — Parecia que o mundo ficava menos barulhento.
Sarada abriu o caderno com velocidade de ninja.
— Nome?
Itachi sorriu de canto.
— Hinata Hyuuga.
Sarada quase caiu para trás.
— Hinata?! A tia Hina?!
Izumi assentiu, completamente natural.
— Era como assistir dois fantasmas tentando conversar em código Morse.
— Comunicação silenciosa, densa… até bonita — Itachi confirmou.
Sarada parou de respirar por um momento.
Depois anotou com força:
Suspeita nº 2 confirmada — Hinata Hyuuga
Era hora de descobrir a história.
A porta de madeira encerada rangeu quando Sarada a empurrou, revelando o interior amplo da biblioteca municipal. O teto alto, as janelas enormes filtrando a luz cinza do dia, o cheiro de papel. Tudo parecia um cenário de filme sobre romances que nunca chegam ao fim certo.
O coração dela bateu mais rápido quando finalmente avistou:
Hinata.
Sentada em uma mesa próxima à janela, cercada por pilhas de livros recém-organizados.
Os longos cabelos azulados caíam sobre os ombros. Os óculos escorriam um pouco pelo nariz. Ela usava um suéter bege tricotado, simples, mas que lhe dava aquela aura de personagem que você sabe que vai destruir seu coração com delicadeza.
Sarada respirou fundo.
— Tia Hina?
Hinata levantou os olhos e sorriu.
Um sorriso pequeno, discreto, mas tão gentil que parecia acariciar o ambiente.
— Sarada, querida… que surpresa boa. Está procurando algum livro?
A Uchiha respirou fundo.
— Estou procurando… uma história.
Hinata inclinou levemente a cabeça.
— E essa história tem um nome?
Sarada respondeu com firmeza:
— O meu pai.
A bibliotecária fechou o livro com cuidado, sem espanto, sem drama.
Apenas compreensão.
— Vamos caminhar. Histórias assim gostam de movimento.
Elas caminharam entre estantes altas, iluminadas por lâmpadas pendentes que deixavam a madeira brilhar suave.
O som dos passos ecoava como um poema não dito.
Hinata passou a mão pelas lombadas gastas, como quem cumprimenta amigos muito antigos.
— Eu conheci seu pai aqui — ela começou. — Durante a faculdade. Eu fazia estágio de biblioteconomia. Ele vinha todos os dias… quase no mesmo horário.
Sarada já imaginava a cena.
Sasuke, mais jovem, entrando com aquele silêncio cheio de presença.
— Ele sempre pegava três autores — continuou ela. — Dostoiévski, Kafka e Joyce.
Sarada esfregou a testa.
— Meu pai colecionava sofrimento então.
Hinata deu uma risadinha leve.
— Talvez ele procurasse sentido no que não sabia explicar. Ou… talvez estivesse fugindo.
Sarada anotou mentalmente:
Padrão Sasuke Uchiha: fuga filosófica com literatura densa.
Hinata continuou:
— Um dia… eu lia Emily Dickinson em voz baixa. Coisa minha… ler poesia como se fosse oração.
Ela sorriu, como se ainda sentisse a luz daquele momento.
— E ele… parou do meu lado.
Sarada franziu o cenho.
— Tipo… parado, parado?
— Parado — ela confirmou. — Silencioso. Quase imóvel. Apenas ouvindo.
Hinata tocou a madeira de uma mesa antiga, com carinho.
— Era estranho no começo… mas havia algo muito humano. Ele parecia… curioso. Sem saber como demonstrar.
Sarada suspirou, escrevendo:
Uchiha Sasuke — categoria: Emo Apático Curioso.
Hinata riu.
— Depois disso, começamos a trocar bilhetes.
Elas chegaram a uma mesa antiga, arranhada pelo tempo.
Hinata passou a mão pela lateral da madeira… e apontou.
Lá estavam.
Pequenas marcas de caneta. Letras discretas. Uma caligrafia seca, meticulosa… reconhecível.
— Ele escreveu isso — sussurrou Hinata.
A frase, apesar de pequena, tinha um peso que Sarada não esperava:
“Para alguém que escreve como se estivesse sorrindo por dentro.”
A adolescente engoliu seco.
— Ele… realmente escreveu isso?
— Com a mão trêmula — Hinata confirmou. — Não por emoção… Mas por medo de ser claro demais.
Sarada recostou-se na mesa, absorvendo tudo.
— Vocês… namoraram?
Hinata pensou por um momento.
— Namorar não é a palavra certa. Foi uma quase-história de caminhadas curtas, bilhetes escondidos em livros e
silêncios confortáveis.
Ela respirou fundo.
— Mas ele nunca me deu o que não sabia dar.
Sarada encarou-a.
— E por que terminou?
Hinata parou. Fechou os olhos por alguns segundos.
— Porque eu me apaixonei pelo Naruto. E seu pai…
— Ele ficou triste? — Sarada perguntou, mais suave.
— Ficou — Hinata admitiu. — Mas não brigou. Ele apenas… sumiu.
Sarada sentiu uma pontada no peito.
— Sumiu?
— É o jeito dele de dizer “está tudo bem, mas dói”. Além disso… — Hinata ergueu o olhar. — Eu sempre soube que havia alguém.
Sarada arregalou os olhos.
— Quem?
Hinata sorriu, um sorriso que sabia mais do que falava.
— Essa parte… não me cabe. Mas eu acho que você já sabe para onde deve olhar.
Ela tirou um envelope da bolsa.
— Guarde isso. Parte da história dele… também é sua.
Sarada pegou o envelope com as mãos trêmulas.
E entendeu que a linha do tempo emocional do pai não era simples.
Era feita de sussurros. De silêncios que sempre apontaram para o mesmo lugar.
Quando voltou para casa, encontrou Sasuke lendo “Felicidade Conjugal”, óculos na ponta do nariz, e Sakura arrumando um arranjo de lírios brancos.
O homem nem ergueu totalmente os olhos quando disse:
— Encontrou o segundo caso, não foi?
Sarada apertou o caderno contra o peito.
— Como… sabe?
Sasuke virou a página com calma irritante.
— Você está anotando como uma detetive. E olhando para mim como se eu fosse personagem de livro.
Sarada corou.
— Você é, pai.
Ele ergueu um olhar rápido e intenso.
— Só espero que o final esteja à altura.
Sarada sorriu porque sabia exatamente para onde a história estava levando.
O pior?
Ele também sabia.
Algumas semanas se passaram, Sarada estava em busca da terceira história.
O prédio da editora parecia uma relíquia urbana: paredes cheias de prêmios antigos, cheiro de café requentado, carpetes que absorveram décadas de desespero editorial e janelas enormes iluminando pilhas e pilhas de manuscritos abandonados.
Sarada entrou acompanhada de Naruto, autoproclamado consultor investigativo emocional — enquanto ajustava o caderno contra o peito.
— Tio Naruto — ela murmurou — você tem certeza que não está inventando metade do que disse?
Ele ergueu as mãos.
— Eu jamais — deu ênfase na palavra — inventaria escândalo envolvendo o Sasuke. Eu só... ajustaria a narrativa para ficar mais divertida.
Sarada revirou os olhos.
— E aí? Por onde eu começo?
Naruto apontou para um corredor com expressão solene — como se fosse anunciar o caminho para uma masmorra proibida.
— Por ali. Foi onde seu pai virou uma lenda urbana.
— Lenda… tipo como?
— Tipo “não olhe nos olhos dele se estiver emocionalmente frágil”.
Sarada suspirou.
— É basicamente… o Sasuke normal.
— Isso! — Naruto vibrou. — Eu sabia que você herdou meu talento para resumos!
As portas do elevador abriram.
E assim que Sarada deu o primeiro passo no andar, ouviu.
A voz.
Aquela voz.
— Uchihaaaaaa!
Naruto congelou.
Sarada congelou.
O universo congelou.
Porque a mulher que emergia no centro da sala parecia capaz de congelar e incendiar tudo ao mesmo tempo.
Cabelos ruivos cortados em um bob assimétrico. Óculos de armação escura que davam um charme intelectual agressivo. Lábios carnudos pintados de carmim, usava salto 15cm que ecoava como tiros na cerâmica. Os olhos eram afiados.
Seu nome é Karin Uzumaki.
Segurava um manuscrito como se fosse um suspeito sendo interrogado.
— Quem foi o imbecil que escreveu isso aqui?! — ela vociferou. — "Ela chorou em silêncio como se o mundo tivesse parado de escutá-la." Isso é literatura ou refrão de música cafona do James Blunt?!
Sasuke — muito mais jovem, muito menos grisalho, e surpreendentemente sensual em versão “estagiário recém-traumatizado” — ergueu os olhos com a calma irritante de um monge budista.
— Está no texto original — respondeu ele. — Se incomoda, edite.
Karin estreitou os olhos.
— Não me desafie, Uchiha.
— Não estou desafiando. Só falando o óbvio.
— Ah! Mas você sabe muito bem que o óbvio me irrita!
Sarada estava de boca aberta.
— Eles… — ela sussurrou — já eram assim no primeiro encontro?!
Naruto respirou fundo.
— Assim? Sarada… isso é eles no modo educado.
De repente, Rock Lee deixou cair um copo de café, petrificado.
— Vai dar namoro ou vai dar BO? — ele sussurrou, reverente.
Shikamaru Nara, esparramado no sofá da sala de descanso, suspirou:
— Por que você acha que eu pedi transferência para outro setor?
Sarada arregalou os olhos.
— Chegou a esse nível?!
Shikamaru coçou a nuca, cansado.
— Sarada… eles brigavam sobre tudo. Sobre vírgulas. Sobre títulos. Sobre a fonte usada nos e-mails. Sobre a cor da caneca que ele usava na copa.
— Isso é… loucura.
— E ainda assim — Shikamaru continuou — a gente via. Tinha ali um troço… perigoso.
— Perigoso como?
Ele ergueu um dedo, explicando:
— Como dois gatos brigando na rua às três da manhã. Muita tensão. Zero lógica. E se alguém interrompesse, tomava uma patada.
Naruto abriu a boca, mas Sarada o calou:
— Não quero imagens mentais! Por favor!
Shikamaru continuou:
— O ponto de virada foi quando os dois ficaram trancados na sala de revisão revisando uma crônica sobre divórcios.
— Só isso?
Naruto tossiu teatralmente.
— Por duas horas.
Sarada piscou.
— E…?
Shikamaru suspirou.
— Quando saíram… o cabelo dela estava bagunçado. O dele também. E os dois pareciam ter corrido uma maratona.
Sarada apertou os olhos, traumatizada.
— Não quero saber!
Naruto finalmente disse:
— Querida… essa é a vida adulta. Sinto muito.
Sarada caminhou até um café charmoso no centro da cidade.
Jazz suave. E lá estava ela: Karin, em versão “CEO elegante”.
A ruiva sorriu ao vê-la.
— Ah… a Uchiha Pequena. — Ela fez um gesto para a cadeira. — Sente-se. Pedi um cappuccino para você. E um cookie. Uchiha gosta de açúcar escondido.
Sarada corou.
— Eu… precisava falar com você sobre… o meu pai.
Karin levantou os olhos, divertida.
— Estava esperando. Todo mundo espera esse dia.
Sarada arregalou os olhos.
— Todo mundo quem?!
— A cidade inteira, querida. Sasuke Uchiha é quase um gênero literário.
Ela bebeu um gole do café.
— Então vá em frente. O que quer saber?
Sarada respirou fundo.
— Você… amou ele?
Karin sorriu — não com drama, mas com honestidade madura.
— Amei. Do meu jeito. — Ela girou a colher no cappuccino. — Mas ele… nunca foi meu. Não de verdade.
— Por quê?
Karin ergueu uma sobrancelha.
— Porque quando seu pai ama… ele ama calado. E o silêncio dele nunca foi pra mim.
Sarada sentiu o estômago afundar.
— Meu Deus…
Karin assentiu.
— A sua mãe estava nessa história desde o início. Até quando ela não estava.
— Você sabia?
— Sempre soube. Sasuke tentava esconder… Mas o corpo dele falava. Principalmente os olhos. A forma como congelava quando alguém dizia “Sakura”.
Sarada mordeu o lábio.
— E como vocês terminaram?
Karin deu um mini sorriso triste.
— A gente se gastou. Eu queimava demais. Ele… queimava para dentro. E ninguém queria apagar uma parte do próprio fogo para caber no outro.
Ela tocou a mão da garota com firmeza inesperada.
— O que você vai descobrir agora… Não é sobre uma ex.
— É sobre quem sempre esteve lá — sussurrou Sarada.
Karin assentiu.
— E sobre o que sempre foi amor. Mesmo quando ninguém dizia.
A casa estava silenciosa quando Sarada abriu a porta. Não era um silêncio triste, era o tipo de silêncio que existe quando duas pessoas estão tão à vontade uma com a outra que as palavras viram detalhe.
Na sala, Sakura estava com a cabeça apoiada na coxa de Sasuke, coberta com uma manta vermelha felpuda.
Ela segurava um exemplar de Norte e Sul, com os olhos dela brilhando enquanto falava algo sobre o capítulo. Sasuke estava óculos no rosto, uma das mãos apoiada no livro, a outra mexendo distraidamente nos cabelos dela — ouvindo com atenção quase reverente.
Sarada observou os dois por longos segundos.
Não eram um casal exibido e nem de beijos cinematográficos na cozinha. Mas o ar inteiro ao redor deles pulsava um afeto silencioso, profundo, construído em camadas invisíveis.
Era amor. Daquele que existe mesmo quando ninguém fala.
Sakura foi a primeira a perceber a presença da filha.
— E aí, amor… deu certo sua investigação?
Sarada, com o caderno apertado contra o peito, engoliu seco.
— Eu preciso… fazer uma pergunta.
Sakura se sentou, ajeitando a manta no colo.
— Claro.
Sasuke permaneceu ali, imóvel. Olhos fixos na página aberta, mas ouvidos todos virados para elas.
Sarada respirou fundo.
Era agora.
— Mamãe… — ela abriu o caderno cheio de anotações coloridas — como você e o papai se conheceram?
Sakura abriu um sorriso quase culpado. Sasuke virou a página do livro com a elegância passivo-agressiva típica dos Uchihas.
— Essa história é longa — respondeu a mãe.
— Nunca aconteceu assim — murmurou o Uchiha, sem levantar os olhos.
— Sasuke — advertiu Sakura, com o tom doce e ameaçador que só ela conseguia combinar.
Ele fechou a boca e continuou lendo. Mas Sarada viu: ele estava escutando TUDO.
Sakura respirou fundo e começou.
O vento gelado de outono levantava folhas de bordo vermelhas pela rua.
Sakura corria, mochila balançando, uniforme amarrotado, respiração acelerada.
— Sasuke! Espera! — ela gritava, rindo sem fôlego. — Eu disse para você não andar tão rápido!
E lá estava ele com seus 15 anos, caminhando com as mãos no bolso da calça, postura impecável, expressão de tédio estudado, mas sempre deixando espaço ao lado. Um espaço que ele nunca admitia ser para ela.
Mas era.
No portão da escola, ele encostou na cerca, cruzou os braços e inclinou a cabeça.
Mas… ele a esperava.
Sempre esperava.
Sakura tropeçou no último degrau e quase caiu e, rapidamente, Sasuke segurou o braço dela antes que tocasse o chão.
— De novo — ele disse, com aquela frieza que só servia para esconder o verdadeiro susto.
Sakura deu risada.
Ele desviou o olhar, mas a ponta das orelhas dele estava vermelha.
— Seu pai fingia que não gostava de mim — disse Sakura, ajeitando um fio do cabelo rosa atrás da orelha. — Mas sempre me esperava na esquina da escola.
— Não esperava — corrigiu Sasuke, automático. — Eu simplesmente parava ali por… logística.
— Logística — Sakura repetiu com sarcasmo. — Claro. Porque caminhar dez metros a mais deve ter sido um grande problema.
Sarada anotou: Logística emocional = desculpa esfarrapada.
Sakura inclinou a cabeça, perdida em lembranças.
Sarada — no presente — apertou o caderno.
Sakura continuou:
— Nós éramos… inseparáveis. A gente estudava junto todos os dias depois da aula. Ele reclamava. — Sakura sorriu. — Mas confiava em mim para tudo.
A voz dela ficou suave.
— Eu fui com ele no dia que ele recebeu a primeira nota baixa da vida. Ele ficou devastado, achando que tinha destruído o futuro inteiro.
— Eu não estava devastado — Sasuke resmungou no presente, sem levantar os olhos do livro.
Sakura deu um leve tapa na perna dele.
— Você chorou.
— Não chorei.
Sarada mordeu o lábio para não rir.
— A biblioteca era mais tranquila quando você dormia — Sasuke disse, ajustando os óculos.
— Eu não dormia! Eu descansava os olhos.
Sarada anotou: Mamãe: negação. Papai: provocação passiva.
— Ele nadava — Sakura disse.
— Eu não sabia disso! — Sarada anotou como se fosse evidência de um crime.
Sasuke franziu o cenho.
— Não nadei por muito tempo.
— Mas enquanto nadou. — Sakura sorriu. — Eu estava lá. Em todas as competições. Enrolada num cachecol horrível, gritando o nome dele como se fosse torcedora profissional.
— Em volume excessivo — Sasuke comentou.
Piscina. O cheiro de cloro. Barulho abafado.
Sasuke se preparava para pular quando olhou para a arquibancada: ela estava ali, abanando um cartaz rosa neon escrito: “VAI, SASUKE!! Você é o melhor!!”
A boca dele quase sorriu.
Quase.
— Você sorriu — insistiu Sakura.
— Contraí músculos involuntariamente — Sasuke rebateu.
Sarada anotou:
Papai: emoções = espasmos.
— No meu aniversário de dezesseis — Sakura disse — ele apareceu com edição rara de David Copperfield usado que eu queria há meses. E cheio de anotações.
— Era o único exemplar disponível — Sasuke justificou.
— Com anotações suas!
Sasuke olhou para o teto, claramente arrependido do passado.
— Era… contexto adicional da leitura.
Sarada riu alto.
— Papai, isso é romance.
— Isso é… marginalia — ele insistiu.
— Foi naquela época que ele começou a me tocar assim — Sakura encostou dois dedos na testa de Sarada, trazendo o gesto —, quando queria dizer algo mas não conseguia.
Sarada ficou boquiaberta.
— Você inventou esse gesto?
— Ele inventou — Sakura disse, apontando para Sasuke. — Porque não sabia o que fazer com as mãos.
Sasuke quase caí da poltrona.
— Era um gesto de aproximação controlada!
— Era carinho, Sasuke — Sakura retrucou.
Silêncio.
Ele desviou o olhar.
Era carinho.
Sakura suspirou antes de continuar:
— E, então… veio dezembro.
— Não! — Sasuke fechou o livro de vez.
Sarada pulou para frente.
— Sim! Contem tudo!
O mundo cheirava a café quente, pão artesanal e frio cortante. Dezembro havia chegado como um tapete branco, silencioso e cheio de promessas. As luzes da cidade piscavam em fios dourados pelas janelas dos prédios, refletindo-se nas poças de chuva fina, o tipo de dezembro úmido que tentava ser neve, mas ainda não conseguia.
No passado, a escola estava decorada com luzes coloridas, coro infantil desafinado e cheiro de chocolate quente.
Era o dia da festa de final de ano.
Sasuke caminhava pelo campus com as mãos nos bolsos e o cachecol verde musgo escondendo metade do rosto. O inverno deixava seus olhos ainda mais profundos, mais atentos, mais… vulneráveis. Não que ele admitisse. Era simplesmente um rapaz que observava tudo e falava pouco, o tipo de pessoa que ouvia o mundo antes de responder.
Naquele dia, porém, ele não ouvia nada.
Somente o som dos próprios pensamentos.
Somente uma pergunta que o perseguia há semanas:
“Por que ela ainda não apareceu?"
Sakura costumava chegar correndo pelo pátio, como de costume: atrasada e ofegante, sempre viva demais, enquanto ele fingia que não estava esperando.
Porém, naquele dia, o banco onde ela costumava deixar o casaco rosa estava vazio. E isso o incomodou mais do que ele estava pronto para admitir.
Até que, finalmente, ele ouviu a voz familiar, apressada, atravessando a praça:
— Sasuke!
Ele virou devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar aquele instante.
E lá estava ela.
Sakura correndo entre as árvores quase nuas, cachecol xadrez, bochechas coradas pelo vento gelado. O cabelo rosa preso em um coque meio torto, os olhos verdes brilhando como se carregassem a luz natalina por dentro.
Ele soltou o ar sem perceber que o prendia.
— Você sumiu — murmurou, quando ela chegou perto demais.
Perto o suficiente para sentir o perfume dela que soava a chá, livros velhos e algo floral, leve. O cheiro que, sem perceber, havia se tornado familiar.
Pararam embaixo de um gazebo enfeitado com guirlandas. Logo acima deles, pendurados sem nenhuma sutileza, um ramo de visco balançava com o vento.
— Eu… — Sakura ajeitou a alça da mochila, nervosa. — Eu precisava te contar uma coisa. Mas… queria fazer isso pessoalmente.
Ele seguiu o olhar dela. As bochechas ficaram vermelhas instantaneamente, o corpo ficou rígido e o ar ficou pesado.
— É só… tradição — ela murmurou, com voz trêmula. — Não significa que…
A respiração dela falhou um pouco quando levantou o rosto, não para o visco, mas para ele.
Os olhos dela eram uma pergunta.
Os dele eram uma resposta que ele ainda não tinha coragem de dizer.
Sasuke deu um passo muito devagar, como se lutasse com cada músculo do corpo. Até que ele parou na frente dela. Tão perto que ela sentiu a respiração quente dele no rosto.
Os dois ficaram imóveis.
As mãos tremendo, os olhares fixos. O tempo havia parado para eles.
Sasuke tocou os dedos no queixo dela.
Aproximou-se.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou ele, tentando manter a voz neutra.
O coração dele deu um passo para trás. Ou talvez para frente. Já não sabia dizer.
O céu estava cinza, pesado.
Ela mordeu o lábio, o gesto que sempre o deixava confuso, porque parecia dizer tantas coisas ao mesmo tempo.
— Sim. Quer dizer… eu acho que é uma coisa boa. Ou… talvez não sei.
Ele franziu o cenho.
— Sasuke… — ela começou, com a voz baixa. — Eu fui aceita.
— Aceita onde?
Sakura respirou fundo.
— No Instituto Berner de Estudos Literários, na Suíça. Ganhei uma bolsa integral por um ano... talvez dois.
Sasuke piscou como se estivesse tentando absorver o impacto.
— Suíça — repetiu ele, sem emoção.
Mas ela conhecia aquelas pausas. Conhecia a maneira como ele engolia o ar quando algo o atingia por dentro.
O silêncio dele sempre dizia tudo.
— Eu… eu queria te contar antes de contar para qualquer outra pessoa — explicou ela, com a mão tremendo um pouco ao prender a mecha solta atrás da orelha. — Você é meu… melhor amigo. E eu…
A voz dela falhou.
Os dedos dela apertaram a alça da mochila.
E ele queria pegar a mão dela.
Queria dizer: não vai.
Queria dizer: fica comigo.
Queria dizer: eu não sei como existir sem você ao meu lado.
No entanto, Sasuke Uchiha havia construído muros altos demais. E medo demais para derrubá-los.
— Parabéns — disse ele, num fiapo de voz.
Ela piscou rápido, surpresa.
— Só isso?
— Se isso é o que você quer… — ela murmurou, com a voz partida — então eu não vou impedir.
Sasuke respirou, tenso, como se estivesse quebrando por dentro.
— Você sempre quis isso. É uma grande oportunidade.
— E você? — a pergunta saiu pequena. — Você está… feliz?
Ele deveria dizer a verdade. Mas a verdade parecia grande demais para caber na boca.
— Estou — ele mentiu.
Sakura fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, havia algo quebrado ali.
— Então… acho que é isso — murmurou ela, afastando um passo.
O mundo inteiro recuou com esse passo.
— Sakura — ele chamou, impulsivo.
Ela virou o rosto, esperançosa — esperança que doeu nele como faca.
O vento balançou o visco acima deles.
Eles estavam tão perto.
Tão perto que ele percebeu o contorno do sorriso triste dela.
Tão perto que sentiu a respiração quente dela no frio.
Tão perto que qualquer movimento seria um beijo.
Ela esperou.
Esperou como se esse momento fosse o capítulo final de uma história que só precisava de uma frase dele.
Mas ele… Não disse, tampouco fez nada.
O coração dela apertou num nó impossível.
— Desculpa.
Sakura se levantou devagar. Antes de ir, colocou algo no banco. Era um chaveiro pequeno, simples, com o desenho de um cervo branco, o símbolo do livro que eles leram juntos no primeiro inverno.
Sasuke olhou para o chaveiro como se fosse uma faca.
— Sakura…
— Feliz Natal, Sasuke — ela disse, sem olhar para trás.
Então, ela sorriu. O tipo de sorriso que nasce para camuflar um choro.
— Adeus, Sasuke.
E ela se afastou.
Passo… Após passo… Após passo…
Até desaparecer na bruma fria do pátio.
Ele ficou ali, imóvel.
Congelado.
Com o coração batendo de um jeito que doía fisicamente. Quando finalmente encontrou ar, estendeu a mão para onde ela tinha estado segundos antes, como se pudesse trazê-la de volta.
Mas não trouxe.
Sasuke Uchiha perdeu Sakura Haruno porque teve medo de dizer uma única frase.
E, naquela noite, sentado sozinho no dormitório, abriu a gaveta onde ela deixara cair um pequeno envelope dobrado.
Ele não sabia que ela tinha deixado nada.
Porém, lá estava.
Com sua letra redonda e cuidadosa:
“
Para quando você estiver pronto para dizer a verdade.
”
Ele não abriu.
Não naquele dezembro.
Pois a verdade era grande demais. E ele, pequeno demais diante dela.
Mas guardou o envelope com a mesma reverência com que se guarda algo sagrado.
E foi assim que o último dezembro deles terminou: com um quase beijo e um adeus que durou anos.
A neve começou a cair, fina, silenciosa, exatamente como dois anos antes, quando ela o beijou pela primeira vez.
Mas agora… doía.
E caminhou em direção à neve.
Sasuke esticou a mão.
Quase chamou.
Quase correu.
Quase.
Mas medo é um monstro que paralisa.
Ele ficou sentado com o chaveiro na mão.
Enquanto o amor dele se afastava com passos pequenos e devastados.
Sakura voltou para casa naquela noite com o casaco molhado e as mãos tremendo.
Na mesa, havia um envelope branco com seu nome.
Ela abriu.
E reconheceu a letra.
Era dele.
Eu não sei se consigo ficar ao seu lado sem medo. Mas também não sei viver longe de você.
Se eu fosse corajoso, pediria pra você ficar. Se eu fosse egoísta, te puxaria pela mão.
Mas eu sou só eu...
Só o que eu posso dizer... Me perdoe.
A lágrima caiu na página. Ela abraçou a carta contra o peito.
— Por que você não me deu isso antes de partir? — ela sussurrou para o papel. — Por que não falou isso para mim?
Dias depois, ela soube a resposta.
Sasuke voltou ao banco.
Para esperar por ela, mas ela não estava mais lá.
Sakura o viu apenas mais uma vez naquele ano por acaso no mercado.
Ele estava parado no corredor, segurando o chaveiro. Os olhos vermelhos, o corpo rígido como se estivesse segurando o mundo sozinho.
Quando a viu…três emoções passaram pelo rosto dele: choque, dor e amor.
Mas nenhum deles venceu o medo.
Ele desviou o olhar.
E ela passou por ele em silêncio.
Foi o último dezembro deles.
O último antes da vida mudar para sempre.
Sakura enxugou discretamente o canto do olho com a manga do suéter.
Sarada estava com a mão sobre o coração, sentindo cada pedaço da história como se estivesse lá.
Sasuke não disse nada. No entanto, sua expressão… dizia tudo.
Sakura suspirou.
— Nós só fomos nos reencontrar anos depois.
Sarada abriu o caderno.
Virou a página.
E escreveu: O Reencontro
Ela ergueu os olhos.
— Mamãe… papai… Como foi?
Os dois se entreolharam.
E foi Sakura quem respondeu:
— A segunda chance mais bonita da minha vida.
Os olhos de Sasuke suavizaram.
E a história seguiu.
Sakura se formou em letras, estava fazendo mestrado. Fez novos amigos em Suna e passou a namorar Sabaku no Gaara, a fim de esquecer todo seu passado com Sasuke em Konoha.
Enquanto ele… Sasuke se tornou jornalista investigativo, trabalhou em três lugares diferentes, conheceu Karin Uzumaki, desenvolveu uma amizade colorida.
Algumas vezes seu irmão e Naruto conseguiam fazer com que socializasse com pessoas.
Tentou evitar todos os caminhos que levavam a Sakura.
Menos um. Sempre que passava pela praça… ele olhava para o banco.
O banco onde tudo começou. E onde tudo terminou.
Ele sempre dizia a si mesmo:
“Só estou passando por aqui.”
Mas era mentira.
Ele estava esperando.
Mesmo que inconscientemente não admitisse.
Era dezembro, novamente.
Sakura estava em uma pequena papelaria do centro, procurando um presente para a Izumi.
Folheava um caderno quando ouviu a porta abrir.
Não deu importância até sentir um arrepio estranho.
Aquele tipo de arrepio que avisa o coração antes que a mente entenda.
E então…
— Sakura?
A voz.
Aquela voz tão única e inconfundível. Era baixa e contida. Ela reconheceria em qualquer século, em qualquer vida.
Seu corpo travou.
Ela virou devagar.
Sasuke estava ali. Mais velho, alto, magro, com cabelos mais compridos nos olhos. O casaco preto, echarpe cinza e as mãos dentro dos bolsos como quem tenta segurar um terremoto interno.
E quando ele a viu — realmente viu — algo dentro dele quebrou.
Sakura sentiu o peito apertar.
— Oi, Sasuke.
Os dois ficaram imóveis como se o tempo tivesse dado uma trégua.
A respiração dele estava tensa. Os olhos, tão escuros e profundos quanto sempre foram, percorriam cada detalhe dela: o cabelo mais comprido, o casaco claro, o pequeno colar de cereja no pescoço.
Algo brilhou no olhar dele.
Saudade. Há cinco anos.
— Você… está diferente — ele disse.
— Cresci — respondeu Sakura.
Um pequeno sorriso triste passou pelo rosto dele.
— Eu tentei — Sasuke murmurou, quase sem querer.
— Tentar o quê?
— Te esquecer.
A papelaria ficou silenciosa.
O som mais alto era o coração dos dois batendo do jeito que sempre bateu um pelo outro.
Sakura respirou fundo, lutando contra o tremor na voz.
— Conseguiu?
Ele negou com a cabeça.
— Nunca.
O ar escapou dela, leve e dolorido.
— Sasuke… — ela começou, mas ele a interrompeu.
— Eu fui covarde.
Os olhos dele estavam úmidos. Era quase imperceptível , mas estava lá.
— Eu fiquei com medo — confessou. — Medo de precisar de você demais. Medo de perder se eu tentasse. Medo de amar errado.
Ele engoliu seco.
Sakura sentiu as mãos tremerem.
— Eu te amava — ela admitiu. — Eu te esperei.
Sasuke fechou os olhos.
Quando abriu… todos os anos de saudade estavam ali.
— Eu sei. — Sua voz falhou. — E eu destruí isso.
Foi a primeira vez que Sarada ouviu a mãe suspirar com dor.
— Eu sempre carreguei isso — ele disse.
Era chaveiro de servo branco gasto que ela havia lhe dado.
Sakura sentiu o mundo girar devagar.
— Todo dezembro eu vinha até aqui na esperança de te ver.
Foi aí que algo nela que estava congelado há anos começou a derreter.
— Por que não disse isso antes? — ela sussurrou.
Ele deu um passo hesitante. Mas suficiente para encurtar a distância de cinco anos.
— Porque eu tive que aprender a perder você para entender que te amar não era fraqueza. — ele murmurou. — Era o único pedaço de mim que realmente valia a pena.
Sakura sentiu os olhos arderem.
— Sasuke…
— Eu não estou pedindo nada — ele disse rápido. — Só queria que você soubesse. Que você foi…
Ele respirou, com dificuldade.
— Você foi o meu começo. E o meu fim.
Sakura levou a mão à boca. A emoção subiu como uma onda.
Ele deu outro passo.
Agora estavam perto demais. Como antigamente. Como deveria ser.
— Eu senti a sua falta — ele confessou, num sussurro. — Todos os dias.
As lágrimas dela finalmente caíram.
— Você voltou tarde, Sasuke.
Ele assentiu, com a dor estampada no rosto.
— Eu sei.
— E agora? — ela perguntou.
Então Sasuke fez algo que nunca fez antes.
Nem no primeiro beijo.
Nem no último adeus.
Nem na adolescência inteira.
Ele estendeu a mão devagar, trêmulo... Tocou a testa dela com dois dedos.
Sakura arfou como se o corpo finalmente lembrasse como era estar ali.
Quando ele recuou, sua voz saiu baixa:
— Agora… depende de você. Se você quiser que eu fique.
O coração de Sakura finalmente se soltou do nó.
Ela segurou a mão dele com firmeza.
— Então fica, Sasuke. Dessa vez, fica de verdade.
E ele sorriu.
Um sorriso pequeno, quase tímido. Mas verdadeiro.
Um que ela não via desde a adolescência.
Ali, na papelaria iluminada por luz quente, com neve caindo lá fora, eles se reencontraram pela primeira vez.
Não como passado quebrado, mas como futuro possível, um futuro que sempre esteve esperando.
Sarada estava chorando discretamente ao segurar o caderno com força.
E antes que ele fugisse de novo…
Sakura segurou o rosto dele entre as mãos.
— Então aprende — sussurrou.
As mãos dele trêmulas na cintura dela.
— Você me beijou — afirmou Sakura.
— Eu ia… avaliar probabilidades — Sasuke corrigiu, a voz rouca.
— Você estava vermelho.
— Era calor.
— Em Dezembro?!
Sasuke encostou a mão na testa.
Sarada anotou: Beijo visco negado = trauma nacional.
Sasuke murmurou no presente:
— E eu aprendi.
Sakura encostou a cabeça no ombro dele.
Sarada fechou o caderno. E percebeu a verdade inteira:
Todas as ex eram apenas capítulos na vida de seu pai enquanto sua mãe era o livro todo.
— Vocês… — ela sussurrou — …vocês realmente passaram por tudo isso?
Sakura enxugou os olhos, rindo suave.
— O amor mais bonito da minha vida não foi fácil. Mas foi real.
Sasuke olhou para a filha e colocou os dois dedos na testa dela, o mesmo gesto herdado, transformado, renascido.
— E valeu a pena.
Sarada sorriu entre lágrimas.
— Isso explica tudo. Agora eu entendo por que vocês são assim. Por que vocês se olham como se tivessem sobrevivido ao universo inteiro.
Sakura faz carinho na cabeça da filha.
Sasuke desvia o olhar, mas sorri de leve.
Sarada respira fundo:
— Agora… falta só mais uma coisa.
Sakura e Sasuke a encaram.
— Eu quero saber… — a adolescente aponta o lápis para o pai — como foi o primeiro Natal oficial de vocês dois como casal.
Sakura abre um sorriso maroto.
Sasuke fecha o livro na mesma hora.
— Não precisa contar.
— Sasuke… — Sakura ri — ela tem direito de saber.
Sarada arregala os olhos.
— Tinha visco, né? Tinha visco. Tinha pinheiro? Chuva? Sapatos encharcados? Beijo? Drama?
Sakura pisca.
— Tinha tudo isso. E mais.
Sasuke suspira.
— Isso tá saindo do controle…
Sarada pula no sofá.
Sasuke cruza os braços.
— Eu não sei por que isso é necessário.
— Porque — diz Sarada — se hoje estou aqui é por causa dessa história. Então eu preciso saber.
Sasuke revira os olhos.
Sakura sorri vencida.
— Tudo começou… naquela semana. O nosso primeiro Natal como casal.
Sasuke suspira, resignado.
— Só não exagera.
— Eu não exagero — Sakura responde. — Eu enfeito.
Sarada esfrega as mãos.
— Quando quiserem.
O frio daquele dezembro era diferente. Tinha cheiro de madeira quente, de castanhas assadas nas ruas e de vento cortante que deixava o nariz rosado.
Sakura estava de luvas brancas, cachecol branco e um casaco creme que lhe dava um ar de filme romântico europeu. As bochechas estavam naturalmente coradas, parte pelo frio, parte por… bom, por Sasuke. Ela carregava sacolas de presentes, andando depressa, porque: estava atrasada. O metrô seria um caos e, ela tinha uma missão de vida: fazer aquele Natal perfeito.
Sakura sorriu para si mesma.
— Ele vai surtar com as luzes… — murmurou. — E os enfeites. E as trilha sonora romântica.
Naquele dia, ele estava tentando montar uma mesa de centro que teoricamente tinha cinco parafusos…
Ele segurou um manual.
— Isso não faz sentido.
A campainha tocou.
Ele foi até a porta.
Quando abriu…
Sakura entrou como um tornado.
— Feliz início de Natal! — ela cantou, entrando, esbarrando numa pilha de livros, quase derrubando o cachecol no chão. — Trouxe comida, trouxe enfeites, trouxe chocolate...
Ela parou.
Sasuke estava… olhando para ela.
Aquele olhar. O mesmo que paralisava ela desde que tinham 15 anos.
Ele não disse nada.
Só aproximou, tirou neve do cabelo dela e murmurou:
— Você está… linda.
Sakura ficou vermelha na hora.
— Você também.
— Eu não fiz nada.
— Justamente. É injusto que funcione tão bem.
Ele levantou a sobrancelha.
— O que é isso?
— A gente faz isso agora. É namoro.
Sasuke desviou o olhar, tentando esconder o sorriso.
Sakura abriu as caixas.
Sasuke observou, confuso.
— Você comprou… muitos enfeites.
— Isso é “o básico”.
— Tem glitter.
— Glitter é essencial para a magia natalina, Sasuke.
— Não.
— Sim.
— Não tem glitter na neve.
— Mas tem glitter no meu coração. E se você me ama, tem glitter no seu também.
Sasuke encarou a árvore.
— Eu… não acredito nisso.
— Vai acreditar.
Puxou-o pela manga do suéter para o lado da árvore. Era quase ridículo como ele ficava bonito com aquele suéter azul escuro, o cabelo bagunçado e o olhar meio perdido tentando entender por que havia uma rena de pelúcia dentro da caixa.
Os dois ficaram ali, montando juntos.
Ele tentando ser metódico: “as bolas precisam estar equidistantes”.
Ela colocou as luzes de forma caoticamente charmosa.
Em algum momento, os dedos se encostaram ao mesmo tempo no mesmo enfeite.
Sakura congelou.
Sasuke também.
Empurrão de memória.
Um déjà vu do ensino médio.
O calor entre as mãos, mesmo com luvas.
A eletricidade suave e o coração acelerando.
Ele foi o primeiro a desviar, limpando a garganta.
— Você está com frio.
— Estou com você. Então sempre estou um pouquinho quente — ela brincou.
Sasuke virou o rosto, vermelho.
— Você está… impossível hoje.
— Estou feliz.
E o sorriso dela acertou o centro dele como sempre.
Sakura estava animada quando pendurou um pequeno galho de visco na entrada do apartamento.
Sasuke franziu o cenho.
— O que é isso?
— Um convite.
— Para quê?
— Para beijo, Sasuke. É tradição.
— Que tradição idiota.
— Mas você gosta de mim.
— Não tanto assim.
Sakura riu alto.
— Ama sim.
Ele desviou o olhar, mas não negou.
Ela terminou de pendurar.
— Tá pronto.
— Isso vai ficar aí?
— Sim! Para o clima natalino!
— Isso é uma armadilha.
— É.
— Você é irritante.
— E você é meu namorado. Lida com isso.
À noite, quando a cidade começou a ficar branca e silenciosa, faltou luz.
Sakura piscou.
Sasuke pegou o celular.
— É o bairro inteiro.
— Mas… mas a ceia!
— A gente improvisa.
Eles acenderam velas.
Sakura se encolheu no sofá.
— Frio.
Sasuke tirou o cachecol e colocou no colo dela.
— Aqui.
— Você vai ficar com frio!
— Eu aguento.
— Então senta aqui comigo.
Ele hesitou, mas sentou.
Ela encostou a cabeça no ombro dele.
Sasuke ficou rígido… depois respirou… e relaxou.
— Melhor? — ele perguntou.
— Melhor é pouco. Isso aqui é perfeito.
Ele olhou para ela.
Ela olhou para ele.
— Sasuke… — ela sussurrou. — Eu esperei tanto por isso.
— Eu também.
Ele tocou a bochecha dela.
— Você sabe que eu… não sei fazer essas coisas.
— Eu sei.
— Mas eu quero tentar.
— Eu sei.
— Quero… ficar com você.
— Eu sei.
E então, pela primeira vez na vida…
Ele sorriu abertamente.
Sasuke pigarreou.
— Eu trouxe uma coisa.
— O quê? — os olhos dela brilharam.
Ele abriu a mala. Tirou uma caixa retangular, comprida, embrulhada em um tom pastel rosado, com fita branca e um pequeno sininho preso na ponta.
Sakura levou a mão à boca.
— Sasuke… isso é…?
Ele coçou a nuca, nervoso.
— Só abre.
Ela abriu com cuidado. Primeiro tirou a fita, depois o papel. Por fim abriu a caixa.
E lá estava um caderno.
Mas não era qualquer caderno.
Era um diário artesanal de capa dura bege com bordas douradas e na frente, em caligrafia elegante:
“Para a minha melhor história.”
Sakura sentiu os olhos encherem.
— Sasuke… é lindo.
— Não acabou.
Ela virou a primeira página.
E perdeu o ar.
Dentro estavam colados
— o bilhete que ele nunca entregou no ensino médio
— uma foto deles estudando juntos em 2008
— um ingresso de cinema amassado (O Castelo Animado — sessão 19h)
— um guardanapo escrito “não esquece de comer”
— um post-it com a letra dele: “volto às 18h. espera?”
E no fim da página, mais recente, escrito com tinta preta:
“Eu sempre voltei para você. Eu só demorei para admitir.”
A lágrima dela caiu direto no papel.
Sasuke sorriu pela primeira vez desde que pisou no Japão.
— Não chora... Eu tive maior trabalho para montar tudo isso.
— Sasuke… — ela soluçou — isso é… isso é tudo que eu sempre quis.
O Uchiha a abraçou, sem pensar. Com o rosto enterrado no pescoço dela, o cheiro dela preenchendo todos os vazios.
— E não quero mais perder... — ele disse, sem hesitar desta vez. — coisas que só existem com você.
Sakura tremia. Mas seu sorriso era tão grande que poderia iluminar o terminal inteiro.
— Eu te amo, Sasuke.
Ele encostou a testa na dela.
Sakura segurou as mãos dele, entrelaçando os dedos.
— Você pode… — ela sorriu — me acompanhar daqui em diante.
Sasuke sorriu pequeno, mas genuíno.
— Eu tô chegando.
E pela primeira vez na vida… ele não estava atrasado.
Um espaço para o epílogo da própria vida.
Sakura entrelaçou os dedos com os de Sasuke sem nem perceber. Era tão automático como respirar.
Anos Depois:
Sarada folheava um velho caderno na cafeteria, tomando chocolate quente.
Era o mesmo caderno da investigação. Agora cheio até a última página.
Boruto, sentado à frente dela, mexia na caneca como um adulto que finalmente entendia a vida, mas ainda era meio desengonçado.
— Então… seu pai namorou três mulheres antes da sua mãe? — ele perguntou, arregalando os olhos.
— Não — Sarada corrigiu, com um sorriso. — Ele teve três distrações. Mas sempre foi ela.
Boruto ficou em silêncio.
Depois riu.
— Você fala como se tivesse escrito um livro.
Ela fechou o caderno com cuidado.
— Eu escrevi. Pelo menos na minha cabeça.
Do lado de fora da cafeteria, a neve começava a cair lentamente.
Sarada apoiou o queixo na mão, olhando pela janela.
E então disse:
— Sabe… acho que amor é isso. Uma coisa que às vezes demora para você enxergar. Mas quando chega você nunca mais esquece.
Boruto corou, por algum motivo que ela ainda não tinha percebido.
— E seus pais? — ele perguntou. — Eles ainda fazem aquele gesto estranho de tocar a testa?
Ela sorriu largo.
— Sempre.
E nesse instante, do outro lado da rua, ela viu os pais andando de mãos dadas, cobertos pela neve leve.
Sakura ria de algo que Sasuke havia dito.
Ele, contrapartida, estava com as mãos no bolso, desviava o olhar, mas sorria.
O sorriso pequeno e raro que sempre foi só dela.
Antes de entrar no carro, ele tocou a testa dela com dois dedos.
Sarada colocou a mão sobre o coração.
Porque ela sabia:
Aquela era a história completa.
Uma história que começou com um dezembro perdido e terminou com um dezembro encontrado.
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