Lembro-me do princípio, há incontáveis eras, mas não lembro de nada antes disso... só que esperava alguma coisa. Havia poucos sons, como o das ondas quebrando na praia ou do vento em planícies vazias. Esses sons eram calmos e sábios, e traziam consigo imagens das primeiras épocas da Terra, onde tudo era misterioso e mágico.

Com o passar dos anos, novos sons preencheram o ar límpido. Os passos de gigantes tremiam o solo, o vento barrado por centenas de novas espécies de flora, os corações quentes de pequenos seres, a água vertendo da terra, o estrondo de trovões no céu, e ocasionalmente, uma explosão colossal no topo de antiquíssimos vulcões, que lançavam suas cinzas para o ar.

O silêncio se intensificou depois disso, quando tudo congelou. As estranhas criaturas que estavam formando-se sumiram, deixando poucas para criar uma nova linhagem. Os lagos estavam muito mais silenciosos nesse período, e creio que foi aqui que o oceano atingiu o ápice de sua sabedoria.

Milênios passaram depois dessa época, com mudanças lentas ocorrendo ano após ano. Era sempre triste ver um ser desaparecer lentamente, transformando-se incessantemente até que não pudesse mais reconhecer a si mesmo. Quase mais triste que a extinção total que eu presenciara anos atrás... mas aqueles eram tempos difíceis.

Aqui, eu comecei a sentir falta do passado, pois percebi que aturdia-me o barulho. Em eras ancestrais, ao afastar-se do oceano, o silêncio era completo, mas agora isso era quase impossível. A vida exuberante movia-se, pulsava, mas jamais se silenciava. Até mesmo um pequeno inseto se movendo no solo era um incomodo para meus ouvidos sensíveis. Mas era bonito. Eu gostava daquela terra, então procurei aguentar o barulho que gerava, recorrendo ao picos de recém formadas montanhas quando o resto do mundo parecia-me demasiado cacofônico. Não era perfeito, mas era melhor.

As coisas tornaram-se realmente insuportáveis com o desenvolvimento daqueles insólitos macacos. Devo admitir que apresentavam uma inteligência notável comparada aos demais seres com quem compartilhavam a terra, mas eram demasiado arrogantes à cerca disso.

Primeiro, foi o barulho de suas fogueiras crepitando ao luar, seus gritos de caça, seus suspiros de amor. Eu gostava de observá-los nesse período de sua história, pois eram muito diferentes dos outros animais. Organizavam-se em sociedades pacíficas, mas também guerreavam. Eram espertos o bastante para modificar o material que o mundo lhes dava, facilitando sua sobrevivência, e acredito que seriam presas fáceis, não fosse por isso. Também amavam de uma forma estranha, e cunharam conceitos como inveja, rancor, paixão, medo, adoração, alegria, tristeza e tantos outros que inclusive, uso agora para falar-lhes. Não são coisas concretas, mas há um consenso entre aquilo que significam. Todas essas palavras ficaram por muito tempo indefinidas, e jamais teria sido possível falar delas se não fosse pelos humanos.

Os estranhos macacos também criaram formas de se comunicar, usando sua grande capacidade de articulação vocal para emitir mais do que rosnados. Também aprenderam a pintar símbolos, e a entender o que os símbolos de outros significavam. Organizaram-se em grupos maiores, que chamaram de cidade, e aprenderam que poderiam conseguir dos outros macacos, através de trocas. Nessa época, os macacos adotaram o nome "humanos", separando-se definitivamente, se seus parentes mais selvagens, ainda vivendo nas florestas.

Era divertido passear nas cidades dos humanos, observar suas construções e todos os detalhes inúteis que continham. Tais detalhes eram o que chamavam de "arte", e serviam para tornar algo mais agradável de se ver ou ouvir. Os humanos também brincavam de fingir, contando, como se fosse verdade, histórias que não poderiam ser reais, para outros humanos que se reuniam para assisti-los, mesmo já sabendo que era mentira.

Junto com essas mentiras, os humanos criavam sons maravilhosos, usando ferramentas que eles inventaram. Esses sons eram chamados de música. Eu amava música. Ainda que exausta de outros sons, eu sentia que poderia passar a eternidade ouvindo a bela arte sonora, tanto que até mesmo me dei ao trabalho de aprender o nome de certos deles, como Mozart, Paganini e Beethoven.

O tempo parecia passar mais devagar, desde que os humanos surgiram. Atribui isso ao fato de que com eles, vieram muitas novas cores e formas, e um milhão de linguagens e conceitos com os quais podia me entreter. Eu vi os séculos passarem, e as coisas mudarem drasticamente para os estranhos macacos.

Eu amei com eles, e também sofri com eles, e depois percebi o quão errado era a miséria dos humanos: sempre causada por outro humanos. Eu me misturei na grande massa, e quase esqueci dos sons ancestrais, de tão embriagada de música e de sons metálico. Eu enlouqueci, e fui arrancada de meu silêncio e mistério para aquele mundo vulgar, que duraria apenas um segundo.

Um dia, eu percebi que o oceano já não sabia coisa alguma. O mar infinito que representava o mistério e magia, e que guardava muitos segredos e sabedoria, parecia raso, frágil, uma pálida sombra das antigas águas soberanas. Foi como ver um velho mestre perdendo lentamente sua sabedoria, e percebi que isso era culpa dos macacos.

Com suas máquinas, sua sujeira, seus sons incessantes, eles haviam de alguma forma destruído o velho mar. E estavam fazendo o mesmo comigo, a medida que me embebedavam com suas belas ilusões e com suas canções e músicas. Eles estavam varrendo minha antiga sabedoria, minhas memórias de um tempo perdido...

Desde então, eu não consegui mais ouvir a música. Na verdade, qualquer som, por mais discreto que fosse, causava-me repulsa, e eu passei a odiar tudo. Eu queria que se calassem, fosse qual fosse o custo, e por isso, decidi que todos deveriam ser silenciados.

Os humanos foram primeiro. Foi relativamente fácil, tudo que tive de fazer foi libertar uma pequena anomalia que eles mesmos tinham criado em um laboratório de um dos países mais brilhantes e cacofônicos da época. Depois, todo o resto. Aquilo que não morreu com os humanos, eu queimei até virar pó, e entreguei as cinzas como um presente para o mar.

Quando eu terminei com a destruição, o mundo me lembrava o princípio. Por fim, tudo estava em silêncio. Restava somente o mar e eu mesma, e eu me deleitei com o silêncio por milhões de anos, finalmente em paz.

Mas... algo faltava. Havia o som do mar... e só. Eu sentia falta de outros sons. Com o tempo, a ausência deles tornou-se insuportável, e então percebi, com horror, o que havia feito. Senti minha mente escorrendo, tornando-se insana devido à falta daquele barulho...

Minha mente não resistiu por muito mais tempo. Foi um erro procurar o silêncio, no mundo que jamais se cala...

...

Eu não sei o exatamente o que estou fazendo aqui. Mas esse deve ser o princípio, pois eu estou aqui, ao lado de um grande oceano. Esse oceano é estranhamente sábio, considerando que é jovem, e por isso eu o admiro. Eu vou ficar junto desse oceano, e deixar os sons dele preencherem minha mente com seu mistério e magia, enquanto espero... alguma coisa. Sim, é isso. Eu estou esperando alguma coisa.

Notas finais
Obrigada por ler ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!