Mais uma vez o mesmo sonho. Já fazia meses que vinha sonhando com isso, e sempre acontecia a mesma coisa, somente o fim era diferente, mudando de varias formas o modo como o sonho acabava.

Bom, pra começar meu nome é Jenyce Sckriper, tenho 16 anos, moro em Londres desde que nasci, minha melhor amiga é minha gata de estimação Scout, não sou muito de fazer amigos, ate porque todos me acham um tanto estranha. Dois anos atrás eu fui internada, meus pais não sabiam mais o que fazer comigo, eu estava perturbada, com depressão,me faziam tomar remédios fortíssimos, queria me matar, e cada dia tentava achar um jeito novo para fazer isso. Como vocês perceberam, eu infelizmente não consegui.

Meus pais sofreram um acidente no caminho de casa, quando tinham acabado de sair da Clinica Psiquiátrica onde eu estava internada, e eu tinha feito o maior escândalo, dizia que não queria mais vê-los e que saíssem imediatamente dali. Minha mãe chorava e abraçava meu pai enquanto olhava em meus olhos. Ela não sabia mais o que fazer comigo. Meu pai tinha problemas cardíacos e estava ficando cada vez mais estressado com aquela situação. Então eles decidiram ir embora.

Eles estavam a um quarteirão de casa, estavam discutindo, meu pai se distraiu e perdeu o controle do carro e foi para a outra pista onde um caminhão estava vindo, e acertou em cheio o carro. Papai morreu na hora, eles estavam levando minha mãe para o hospital com esperança de poder salva-la. Mais ela morreu no caminho.

Só fui saber do acidente na madrugada do dia 18 de junho de 2005, um mês depois da morte dos meus pais, eles disseram que não me contaram no dia por que tinham medo da minha reação. Tipo meus pais morrem e eles tem medo do que? Que eu surte mais do que já surtava antes? Que tente me matar como sempre tentei? Não pude nem ir no enterro deles, não pude chorar em cima de seus caixões, me desculpar por tudo, enterra-los ou ser a primeira a jogar rosas em suas covas antes de fecha-las. Tudo por que eles tiveram medo da minha reação!

Depois que soube eu me senti sozinha e muito triste, foi ai que percebi que minha vontade de morrer era só uma ilusão causada pela pressão psicológica das pessoas a minha volta, eu estava me sentindo tão sufocada que sentia vontade de me matar, de chamar atenção e fazer com que as pessoas parassem com tudo aquilo.

Agora eu realmente queria morrer, sem mais nem menos, queria poder me juntar aos meus pais ou pelo menos voltar no tempo e não ter tido aquela discussão com eles, não ter sido uma menininha mimada, e talvez agora eles podiam estar vivos e poderíamos tentar ser uma família feliz de novo. Como éramos enquanto eu era apenas uma criança inofensiva.

Desde esse dia eu me trato com uma psicóloga tentando achar um jeito de me sentir melhor e não me culpar tanto pelo que aconteceu. Admito isso não resolve muito.

Sempre na mesma data, 18 de junho, eu me tranco no quarto e não saio o dia todo. Sempre tenho recaídas, meus braços vivem machucados, cortados, esse é um dos jeitos que eu escolhi para me punir e tentar fugir um pouco das lembranças. Fico relembrando tudo desde os meus aniversários que comemorávamos juntos e felizes, e até os momentos tristes quando eles viram que eu estava piorando e teriam de aumentar as doses dos meus medicamentos, quando decidi tentar me matar pela primeira vez, ou quando eles me colocaram nesse lugar.

Eu começo a melhorar então chega a data, e todo esforço é em vão. Tudo que eu consegui em uma ano se vai em um dia, e sempre acabo estragando tudo. Tenho medo de perder as únicas pessoas que me consolam e me ajudaram, tia Margaret e Julie. Sem elas eu estaria sozinha, estaria ainda naquela clinica. Não sou muito próxima aos parentes da família, meu pai era filho único, e mamãe só tinha Margaret. Ela foi a única que me aceitou de braços abertos.

Eu tento ser forte.

***

– Jenny vamos acorde é o primeiro dia de aula, você não vai querer se atrasar — disse tia Margaret na maior empolgação, como se fosse o seu primeiro dia de aula, e não o meu.

– Já vou ok, já vou — então me sentei e tentei realmente acordar

–Vamos garota mais animação, levante logo que você ainda tem que se arrumar.

– Me arrumar? Me arrumar pra que? — falei com desgosto.

– Ah não minha sobrinha não vai ir para o colégio com essa cara toda amassada e esse cabelo desgrenhado, você vai se arrumar e ficar linda para o seu primeiro dia de aula, vai colocar uma roupa bonita, passar uma maquiagem nesse rosto e arrumar esse cabelo como se deve pra poder causar uma boa impressão nos garotos.

– Como se prestassem atenção em mim — sussurrei esperando que ela não escutasse

– Como não iriam prestam atenção em você! Já se olhou no espelho? Você é uma garota tão linda que deveriam lhe admirar. — diz num tom de quase estresse

– Como se beleza fosse tudo não é Srta. Sckriper — debochei tentando descontrair um pouco o clima — Vou tomar um banho e já desço.

– Não demore muito Jenny, tenho que deixar Julie na escola, depois levar você.

– Ok! — falei entrando no banheiro com minhas coisas.

Não demorei muito no banho, sabia que tia Margaret estava com presa. Então me vesti, coloquei minha calça jeans rasgada nas pernas, meu all star de sempre, um moletom velho, e por preguiça de pentear e secar o cabelo só o prendi em um rabo de cavalo e pra tirar um pouco a cara de sono passei um lápis escuro nos olhos, e desci rápido para tomar meu café da manhã.

– Você vai nesse estado no seu primeiro dia de aula? — disse Julie fazendo careta pra mim

– Vou, algum problema Julie?

– Você esta parecendo uma mandinga com essa blusa gigantesca e com essas calças rasgadas — debochou Julie.

– E você parece uma patricinha com esse vestidinho cheio de babados — provoquei, sabendo que Julie odiava quando a chamavam assim.

– Chega meninas! — Gritou tia Margaret descendo as escadas — Andem logo com esse café da manhã. Julie, querida você pegou todas suas coisas?

– Peguei sim mamãe — disse conferindo sua mala

– E você Jenny, — perguntou — Ai meu deus você não vai desse jeito né?

– Viu, viu, viu, eu disse que você estava feia, vestida assim parece ate um garoto — disse Julie quase junto com a tia Margaret.

– Julie, quieta — berrou, em seguida se dirigiu a mim — Jenny minha querida, eu sei que não sou sua mãe, mas como sua guardiã tenho o dever de cuidar de você depois de tudo que aconteceu não será fácil, mas você ira se adaptar a essa vida nova, pode ser que demore, mas aos poucos você se acostumará, tenho certeza disso .

– Obrigado tia Margaret — falei com a cabeça baixa.

Tia Margaret olhou pra mim com cara de pena, uma das coisas que eu odeio que as pessoas façam comigo.

– Vamos garotas, eu ainda tenho que levar vocês e ir para o trabalho.

Entramos no carro, e no caminho para o colégio fui pensando em como seria mais esse ano. Será que eu vou conseguir me controlar? Talvez se eu pelo menos... Péssima ideia, eu nunca vou conseguir fazer amizades do jeito que sou. Todos me olham de um jeito estranho quando passo, ficam cochichando, devem me achar "um monstro" por saber o que ouve com meus pais.

Gostaria muito de não morar mais aqui. Todos sabem sobre o acidente, e sobre eu ter sido internada. Devem pensar que tudo foi minha culpa, assim como eu mesma penso. Se as pessoas não me questionassem sobre isso, será que seria melhor para mim? será que eu pararia de me culpar e talvez melhorasse?

Tia Margaret interrompe meus pensamentos me chamando.

– Jenny, chegamos. — disse arrancando os fones do meu ouvido para mim prestar atenção — Esta tudo bem com você?

– Sim, estou bem — falei tentando não dar muitas brechas para o assunto continuar.

Minha cabeça já estava cheia, e o dia ainda nem havia começado realmente. Então já imaginei em como seria o restante do dia.

– Que bom — falou com um meio sorriso no rosto — Tudo vai dar certo, você vai ver. Tente se enturmar, faça amigos. Vai ser melhor esse ano. — ela me abraçou, e eu sai do carro

Tentei sorrir para ela, mas minha tentativa não foi uma das melhores. Eu gostava muito do jeito que ela me tratava, por mais que eu não seja sua filha ela se esforça tanto para me ajudar. Minha psicóloga sempre tem conversas com ela, talvez seja por isso que ela seja assim comigo. Isso ate que ajuda um pouco, mas não muito.

Entrei no colégio com a cabeça abaixa, sem reparar nos olhares que me cercavam, fui ate meu armário e coloquei minhas coisas e fiquei lá esperando pelo primeiro sinal.

Minha primeira aula do dia era Inglês avançado. Era com um professor novo, nunca o tinha visto antes, ele aparentava ter uns 35 anos, alto, e parecia ser bem inteligente. Quando chegou escreveu seu nome no quadro negro, Sr. Scott. Realmente eu ainda não havia ouvido falar sobre ele.

Não prestei muita atenção na minha nova turma, só me sentei no meu lugar de sempre, no canto da sala, mas não no fundo. Ninguém falou comigo, mas percebi que umas garotas ficaram me olhando e cochicharam entre elas.

Eu abaixei a cabeça e tentei não me importar de estar ali, tentei pensar em outras coisas, coisas que um dia já me fizeram feliz. Então de repente me jogaram uma bolinha de papel que acertou em cheio minha cabeça. Tentei ignorar, mas um dos garotos gritou:

– Pega a bolinha ai sua anormal — zombou, tentando se aparecer para a turma

Eu sem querer mais confusão peguei a bolinha, e a abri. Fiquei decepcionada, tinham feito um desenho horrível meu, com os braços cortados e pingando sangue, com as roupas manchadas e segurando uma faca na mão direita, e em cima do bonequinho havia um balão onde se lia:

“Meus pais morrem por minha culpa Hahaha, porque eu sou uma maluca.”

Meus olhos começaram a se encher de lagrimas, não de tristeza, mas sim de ódio. Eu olhei pra eles. E percebi que me encaravam, foi quando um deles falou:

– Não cheguem perto dela, vai que isso passa — todos riam e ficavam me chamado de "louca", "estranha", "maluca" e outras coisas.

– Essa garota não devia frequentar o mesmo colégio que nós — falou uma das garotas se sobressaindo — Ela deveria ter ficado numa daquelas clinicas que ela frequentava antes.

Ate que um garoto que eu nem tinha percebido estar na sala se levantou e falou:

– Chega com isso, deixem a garota em paz — gritou, batendo uma das mãos na carteira.

A garota que tinha acabado de falar foi pra perto dele, segurou em seu braço e disse:

– Deniel, não defenda essa garota. Você não tem nada a ver com ela — e me olhou com cara de nojo — e não quero que fiquem falando depois que o meu namorado ficou defendendo a lunática da sala.

– Já chega Samanta! — o garoto olhou pra ela com uma cara de decepção, e a fez largar o seu braço — Não fique falando assim dela, eu já disse pra você parar com essas coisas — e quando estava voltando para o seu lugar olhou fixamente pra mim, e se sentou.

– Classe, quietos, quero que todos se sentem — o professor então viu que estava tendo um pequena confusão na sala de aula – Agora chega de discussão e façam o favor de prestarem atenção na aula.

Eu olhei para trás, e ele continuava olhando pra mim, sem ao menos querer disfarçar.

Ele me lembrou o garoto dos meus sonhos.

***

Na hora do intervalo, me sentei em uma mesa sozinha, um grupo não muito longe de onde eu estava, ficavam me encarando, mas não do jeito que todos me olham, foi estranho. Um garoto se levantou e começou a vir em minha direção, uma menina também se levantou correu um pouco para alcança-lo.

– Oi – disse fazendo-me perceber sua presença ao meu lado — A gente viu que você estava sozinha aqui – disse pausadamente – Você não quer se juntar a gente na outra mesa?

Eu só levantei meus olhos para ele.

– Hum... – pensei rapidamente, e percebi que ele nem havia se apresentado – É que...

– A mil desculpas – disse a menina que estava junto a ele – nos nem ao menos nos apresentamos – falou rapidamente – eu sou a Becky e ele é o Charlie, somos do ultimo ano – falou sorridente

– Prazer – falei travando – eu sou Jenyce, Jenny – falei rapidamente me corrigindo, não gostava muito que me chamassem pelo meu nome, só pelo apelido – sou do 2º ano

– Bom Jenny – começou Becky – esta esperando alguém? – olhou para os lados para ver se ninguém vinha ate minha mesa

– Não – falei com a cabeça abaixa

– Então, ok – falou – Quer vir com a gente?

Eu não respondi, só assenti com a cabeça uma vez. Ela me puxou pelo braço me levando ate a mesa no maior entusiasmo.

Não sabia bem o que fazer, então fui atrás deles. Me senti meio mal por estar indo me sentar com gente que eu nem ao menos conhecia. Mas fui mesmo assim, eles pareciam ser legais. E talvez esse ano pudesse ser bom se eu me esforçasse um pouco mais para conseguir amigos como tia Margaret sugeriu para mim.

– Então Jenny – disse Becky – Você é uma deslocada?

Me levantei rapidamente, pensando que eles iriam começar a me zombar ou coisa parecida.

– Não, não, não! Caramba. Calma Jenny. Só estou perguntando por que já fomos assim, foi por isso mesmo que a chamamos. Nós sempre ajudamos os calouros, ou o que os populares aqui chamam os “estranhos”.

Eles realmente não pareciam muito ser como eu. Mas quem sabe fossem. Tinha que dar-lhes uma chance, ate porque eles foram os únicos que falaram comigo sem ser para zombarem do meu passado.

– Ok vou lhe apresentar o grupo – disse se levantando – Pra começar – deu risada – Eu sou gótica e “antissocial”, as pessoas não gostam de mim, até já inventaram que eu matei pessoas para me juntar a uma seita – todos riram – mas é mentira não se preocupe, eu não vou matar você.

– Ela ERA a “antissocial” agora veja no que a tornamos – brincou um garoto que estava junto na mesa

– Esse é o Jason o único normal do grupo – provocou – ele esta no time, você não precisa de detalhes por enquanto. – continuou com as apresentações – Essa é a Dakota – e a garota interrompeu.

– Eu sou bissexual. Comecei a andar com esses loucos ano passado, e hoje eu digo “foda-se” para quem não me aceita do jeito que sou – disse rindo – Aahhh eu estou na mesma turma de inglês avançado que e talvez em algumas, afinal estamos no mesmo ano.

Eu ri, ela parecia ser muito divertida.

– E esse é o Charlie o troféu grupo – ele olhou com uma cara seria pra ela, mas não aguentou e riu – ele é o nerd e não conversa muito com as pessoas, por isso todos acham que ele tem “problemas”.

– Eu apenas tenho uma inteligência superior, e isso me da um bom motivo para não responder idiotas – completou – e quem tem problemas são eles, não tenho culpa alguma se eles são nubs.

– Então, as apresentações estão quase completas só falta você conhecer a Lindsey mas agora não, ela não é muito sociável com novatos, assim como você e a Dakota ela também é do 2º ano, a diferença e que ela fundou esse grupo.

– E quando eu vou poderei conhecê-la? –eu digo com curiosidade

– Bom esse é o problema, você só vai conhecê-la se ela quiser que você a conheça.

– Vocês a conhecem?

­-Bom eu e o Charlie a conhecemos o resto não. Mas não se preocupe, se você a conhecer ira aprender muito com ela – então olhou para mim – Agora é sua vez Jenny, qual é o seu caso?

– Bom é o que todos já sabem fiquei dois anos internada, E meus pais morreram em um acidente de carro algumas horas após eu ter discutido com eles – todos ficaram quietos quando terminei de falar – E talvez realmente eu tenha sido a culpada.

– Por que você acha isso Jenny? – perguntou Becky – Não tem motivos pra você ficar se culpando.

– É claro que tem – meus olhos já estavam começando a se encher de lagrimas e eu já estava com vontade de sair correndo dali – Meus pais morrem por minha causa. Eles tinham ido me visitar no dia, e eu discuti feio com eles, falei que não queria mais vê-los e que saíssem de lá. Então eles começaram a discutir e sofreram aquele acidente.

Dakota se aproximou e me abraçou.

– Sinceramente você precisa conhecer a Lin urgentemente. – disse Becky – E não se culpe ok, tudo o que acontece na vida tem uma razão, e seus pais terem morrido não foi sua culpa.

Estava prestes a dizer uma coisa quando o sinal tocou. Eles não me deixaram sozinha, todos fomos ate nossos armários pegamos nossos materiais. Por nem um minuto eles paravam de puxar assunto comigo, pareciam interessados em saber tudo sobre mim. Eu era a nova “integrante” do grupo como Charlie falava.

– Qual sua aula agora? – perguntou Dakota para mim

– Teatro – Falei depois de conferir a folha de horários – E a sua?

– Também – Ela disse sorrindo – Pelo jeito seremos boas amigas.

Eu sorri para ela. E nos fomos para em direção à sala de teatro.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.