Tóquio, Japão, Fevereiro de 20xx, 08:10

— "Próxima estação, Komaba-Todaimae! Desembarque pela porta direita", anunciou o alto-falante dentro do trem da Keio Railway, uma das várias ferrovias que operam em Tóquio. Apesar do horário, a composição não estava cheia; apenas algumas pessoas estavam viajando em pé, sem aquelas cenas típicas de trens suerlotados que percorrem os trilhos da capital japonesa todas as manhãs.

Após ouvir o anúncio, Motoko Aoyama se levantou do assento e caminhou junto a uma das portas do trem; estava muito nervosa e ansiosa, pois o resultado do vestibular da Universidade de Tóquio iria ser divulgado naquele dia, no campus Komaba. Desde a reprovação no exame do ano passado, a jovem descendente de samurais, nascida em Kyoto, estudara feito uma condenada para conseguir uma vaga no curso de Direito na Todai (como a faculdade é conhecida popularmente); para tanto, ela chegou a deixar os treinos na espada de lado somente para se dedicar aos estudos, enquanto sua irmã Tsuruko mandava dinheiro para a mensalidade do cursinho que fizera durante sete meses.

- Meu nome está lá, posso ter certeza... — Motoko não conseguia esconder a ansiedade ao falar seus pensamentos em voz alta, fazendo com que todos no vagão olhassem torto para ela. Assim que o trem parou na estação, a jovem de 19 anos saiu correndo pelos corredores da gare, rumo ao portão de acesso à universidade; estava tão desligada do restante do mundo que quase foi atropelada por um caminhão bem na entrada da Todai.

Continuava a correr em direção ao enorme painel com a lista de aprovados quando uma voz familiar a fez interromper a pequena maratona:

- Motoko! Aonde vai, com essa pressa?

- Ah... — ela virou a cabeça para o lado direito — Oi, Naru... Desculpe por não ter vindo com vocês; dormi demais e acabei perdendo a hora.

- Ora, que isso, Motoko? — disse Naru Narusegawa, jovem estudante da Todai e amiga da jovem samurai, que morava com ela em Hinata-sou, localizado na cidade de Hinata (próximo a Tóquio) — Fez tanto frio nesta madrugada que eu quase perdi a hora também. Sorte que aquele panaca do Keitaro está com a van velha do Seta e conseguimos chegar à aula sem atrasos... — ela suspirou — Preparada para ver o resultado do vestibular?

- Não sei, Naru... Confesso que nunca estive com tanto medo na minha vida — Motoko não aguentou segurar as lágrimas — Eu estudei o ano inteiro, larguei da espada, jurei à minha irmã e aos meus pais em Kyoto que eu iria entrar na Todai! Se eu não for aprovada hoje, será o meu fim!

- Calma, Motoko! Vestibular não é nenhum fim do mundo — Naru tentava consolar a amiga, enquanto um vento gelado soprava naquela fria manhã de inverno — Por que está com tanto medo assim?

- Minha irmã me disse ontem que, se eu não for aprovada, ela iria me reservar uma surpresa. Eu conheço bem as "surpresas" dela, Naru.

- Teu nome está na lista, Motoko... — as duas jovens voltaram a caminhar rumo ao painel de aprovados — Veja bem: você foi a segunda colocada no simuladão nacional! Só perdeu para o herdeiro do Trono Imperial! Sabe o que significa isso?

Nesse meio tempo, Keitaro Urashima se aproximava de Naru por trás, tentando alcançar-a.

- Narusegawa! Te procurei em tudo que é lugar... Onde você est... — de repente, o jovem rapaz de óculos pequenos e cabelos espetados tropeçou num desnível no piso e segurou nas calças de Naru, abaixando-as.

Todos viram as pernas e a calcinha de Naru, que respondeu ao ato de seu namorado Keitaro com um soco que o fez voar até a estação de trem em frente ao campus.

- Tarado! Mesmo estudante da Todai, não perdeu a vergonha, seu canalha! — gritou Naru, que novamente iniciou a caminhada com Motoko.

Cinquenta segundos se passaram até a chegada ao enorme painel de 4,00 metros de altura e 30,00 metros de comprimento, com o nome de todos os aprovados no vestibular da Todai, que acabara de ser reformulado. O movimento já era intenso, pois as vagas na principal universidade do Japão eram concorridíssimas.

- Preparada, Motoko? — perguntou Naru, preocupada com a amiga.

- Sim... — a samurai estava com seus olhos levemente puxados fechados.

- Quando contar até três, nós abriremos os olhos e você verá o seu nome, OK?

- OK! — Motoko fez algo que quase nunca fazia: falar uma expressão estrangeira, qualquer que seja.

Naru começou a contagem, com a sua mão esquerda apertada com a mão direita de sua amiga, que tremia de ansiedade e nervosismo. Ela também estava nervosa e ansiosa.

- Go, Yon, San, Ni.... ICHI!

Montevidéu, Uruguai, no mesmo horário

- "O Terminal Tres Cruces informa as próximas partidas: Agencia Central para Paysandú via Paso de los Toros, 20:15; COT para Chuy via Maldonado, 20:15; Nossar para Durazno, 20:17; Pullman Belgrano para Buenos Aires, 20:20; EGA para Curitiba, 20:20", anunciou o serviço sonoro do Terminal Tres Cruces, numa Montevidéu que derretia com o calor do verão platino.

Junto ao setor de embarques, Pablo Speranza Álvares Costa esperava o seu ônibus que o levaria para o Brasil, mais precisamente Curitiba. O jovem brasileiro radicado no Uruguai era estudante da Universidade Central do Sul (considerada a melhor da América do Sul e o maior pólo tecnológico e científico do continente), que se localizava numa pequena cidade perto da capital paranaense chamada Nuova Perugia; fazia um ano que o rapaz de 23 anos cursava Engenharia Civil, onde arrancava elogios dos colegas e professores do campus.

Depois de passar férias na casa de seu tio Sílvio, Pablo agora estava voltando para Nuova Perugia para retomar seus estudos. Sílvio era o único parente que o garoto tinha: depois que seus pais morreram numa tragédia aérea em São Paulo, em 2007, Pablo deixou a cidade natal de Bento Gonçalves e se mudou para o Uruguai, onde seu tio era dono de diversas empresas de transporte que operavam em todo o pequeno país do Cone Sul.

- Pablo, não entendo por que tu viaja de ônibus para o Brasil — perguntou Sílvio, com seu sotaque herdado de seu pai, italiano de Turim — Não vai dizer que é trauma por causa do acidente aéreo que matou seus pais.

- Não, tio... — o rapaz ajeitou seus cabelos negros encaracolados — Gosto de viajar de ônibus. Tu vê a paisagem, viaja mais sossegado, não tem turbulência.. E olha tantas malas preciso levar de volta para a faculdade — apontou para as três grandes malas que compunham a bagagem de viagem.

- Entendi, meu filho... — o empresário de 55 anos tratava Pablo como seu filho — Pronto para mais um ano na faculdade, garoto?

- Ah, claro que sim! — ele sorriu — Aliás, estou com muita saudade do povo lá da cidade...

- Até daquela japonesa de cabelos curtos? A Nat... Na... Porra, esqueci o nome... — um dos grandes defeitos de Sílvio era a sua linguagem desbocada — Eu ainda acho que ela gosta de ti, guri.

- A Natsumi, tio? — Pablo se referiu à sua amiga de Nuova Perugia, a policial Natsumi Tsujimoto (N.A.: personagem do mangá You're Under Arrest) — Ah, não... Ela é minha melhor amiga, tu sabe. Mas, bebe mais que carro velho; não sei como ela ainda não caiu da sua moto.

De repente, o sistema sonoro de avisos do terminal voltou a anunciar as próximas partidas:

- "EGA para Curitiba, Pullman Belgrano para Buenos Aires e COPSA para Punta del Este: última chamada para embarque!"

- Ih, tio... É meu ônibus. Tenho que ir!

- Calma, Pablo.... Teu carro está bem ao nosso lado — sorridente, Sílvio apontou para um enorme ônibus Scania de três eixos, pronto para ir a Curitiba — Venha... Vou te ajudar com as malas.

As três enormes malas couberam no bagageiro já lotado com muita dificuldade. Na porta do ônibus, Pablo abraçou fortemente seu único parente vivo.

- Tchau, tio! Prometo que voltarei para cá nas próximas férias.

- Que Deus te abençoe, filho! Faça uma ótima viagem!

O relógio do terminal marcava 20:27 quando o ônibus da EGA para Curitiba finalmente ingressou a Av. Itália, rumo à Ruta 9 e Brasil. Sentado numa confortável poltrona, Pablo começou a ouvir Pink Floyd em seu celular e relaxou. Iniciava assim uma longa viagem de 24 horas pelas planícies do Cone Sul.