- Eu não posso acreditar! É você, Kitsune? — a garota de quimono azul notou que algo estava faltando — Kitsune? Kitsune? Onde você está?

- Ah, droga... Agora, essa raposa vai desaparecer... — Pablo suspirou e tirou seus óculos escuros, deixando à mostra seus olhos grandes e verdes. Passou a falar em Japonês — Você deve ser amiga dessa raposinha de cabelos curtos, não?

- Sim... Sou amiga dela — disse a menina, envergonhada — Quem é você?

- Meu nome é Pablo Speranza e moro aqui nesta cidade. Muito prazer — ele estendeu a mão, esperando o cumprimento que não recebeu — Você mora aqui? Nunca te vi antes...

- Chegamos aqui há uma semana atrás, Pablo — ela conseguiu pronunciar o nome do brasilo-uruguaio — Também nunca te vi desde a minha chegada aqui... Sabe, tua cidade é muito bonita; lembra demais a Europa.

- É que Nuova Perugia foi colonizada por italianos e japoneses. Mas, na verdade, eu nasci no Brasil; porém, sou do Uruguai e moro aqui apenas para cursar a faculdade.

- Uruguai... Nunca ouvi falar dese país... Onde fica? — ela ajeitou seu quimono, enquanto olhava para a sua scooter.

- Ao sul, perto da Argentina... Uns 1500 Km daqui — o rapaz olhou fixamente para a moça — E você? Como se chama? Com esse quimono, você está como uma japonesa típica — riu levemente.

- Meu nome é Aoyama Motoko. Cheguei aqui junto com minha irmã e o marido dela, depois de ser reprovada na faculdade... Você fala Japonês muito bem, Pablo!

- São dois anos de convivência com a colônia, Motoko. Aliás, teu nome é bonito, viu? — na sua cabeça, Pablo pensava, em Espanhol: "Credo, cada nome que a japonesada bota em seus filhos..."

Ao parar de pensar, o rapaz conseguiu localizar Kitsune através de sua excelente visão: ela estava num maid-café, localizado no outro lado da avenida principal, bem ao lado do terminal rodoviário.

- Achei a raposa, Motoko! Ela está naquele maid-café! — apontou para o estabelecimento.

- Maid-café? Até no Brasil tem isso aí?

- Se não me engano, é o único de toda a América do Sul... Sabe como é: 55% da população daqui são descendentes de japoneses ou japoneses mesmo. Tu vai achar de tudo que encontrava em seu país natal aqui.

- Sobretudo, depois que minha irmã abrir a sua loja — Motoko sorriu para Pablo — A inauguração será na próxima semana!

- Kazoku? — perguntou o garoto, lembrando-se do outdoor que viu no campus tempos atrás. Antes de esperar a resposta, ele mudou de assunto — Vamos ver a raposa no maid-café. Quer que guarde o teu capacete no carro?

- Não, obrigada... Eu vou levar-o no braço mesmo — ela ficou mais envergonhada e passou a seguir o rapaz, dois passos atrás dele.

Pablo e Motoko entraram no maid-café, que já estava lotado naquela hora. Antes de ir até à mesa onde estava Kitsune, o brasileiro foi interrompido por uma pessoa bem conhecida por ele.

- Seja bem-vindo, Pablo! — disse uma voz feminina, em Português bem macarrônico.

- Ah, é você, Misaki? — ele logo o reconheceu: era Misaki Ayuzawa, garçonete do maid-café — Como tu vai, ô guria?

- Estou indo bem, apesar dos problemas em casa... — ela baixou a cabeça — E essa garota? Sua namorada?

Motoko levou um soco no estômago ao ouvir a frase da garçonete.

- Não! É apenas uma conhecida! Nos conhecemos há pouco! — Pablo se colocou entre as duas garotas e fez as apresentações de cada uma.

- Eu te conheço, Aoyama-san! Não foi você que foi derrotada no final do Campeonato Japonês de Kendo no ano retrasado, pela jovem Busunjima-san?

Misaki morava há sete meses no Brasil, depois que seu pai resolveu fazer sociedade com um francês para abrir uma empresa em terras brasileiras. Entretanto, o francês faleceu, a empresa entrou em crise e seu pai cometeu suicídio; a mãe de Misaki, uma das sócias, contraiu dívidas imensas, faliu a empresa e praticamente caiu na miséria em Nuova Perugia. Assim, a garota de 16 anos, apesar de ser a melhor aluna do colégio e ser conselheira de classe, fora obrigada a arranjar emprego para sustentar a família.

- Sou eu mesma... Aquela vagabunda da Busujima me trapaceou e o pai dela deu propina para os juízes... Sou capaz de matar-a se eu a ver ela aqui!

- Ô Motoko! Ô uruguaio! Vem tomar uma cerveja comigo aqui! — gritava Kitsune, já meio bêbada — Pô, tem até cerveja Sapporo aqui, minha preferida!

- Ela é desse jeito mesmo, movida a álcool? — perguntou Pablo, chocado com as condições que a garota de Osaka se encontrava.

- É porque você não a viu lá onde a gente morava, Pablo... — voltou-se para Misaki — Ayuzawa, onde há um telefone para que eu possa chamar minha irmã? Sabe, aquela mulher aí é minha amiga e veio para trabalhar conosco. Pablo a trouxe desde Coratibá.

- "Curitiba", Motoko... — Misaki apontou para um telefone no balcão da recepção e arrumou seu uniforme de maid (empregada doméstica do séc. XIX) — Posso guardar sem capacete, por favor?

- Sim... Fique-o por um instante, por favor — disse a jovem de Kyoto, que deu o elmo vermelho para a garçonete para guardar num armário ao lado da entrada.

Dois minutos depois, Misaki se aproximou de Pablo.

- E então? Conversou com o seu tio sobre aquele assunto?

- Olha... Tenho uma boa nova para te dar: meu tio era um dos credores de seu pai. Contei a situação na qual vocês se encontram e ele vai perdoar as dívidas que ele deixou para a sua mãe — o rapaz tirou um pedaço de papel no bolso de sua calça social preta — Eis um fax que ele enviou desde Montevidéu hoje de manhã.

Misaki leu a carta e não conseguiu conter as lágrimas: finalmente, a sua família teria as suas dívidas perdoadas, sendo que elas tinham sido contraídas pelo sócio francês (que era um exemplo perfeito de pilantra).

- Não acredito.... Não acredito.... — ela abraçou o rapaz — Obrigada, Pablo! Em nome do meu pai, da família Ayuzawa... Muito obrigada!

De repente, uma outra voz interrompeu o gesto de agradecimento da garota.

- Ah, não sabia que tu já estava namorando, Misaki...

- Saeko? — ela virou para trás e reconheceu a garota que estava logo atrás dela, de cabelos longos azuis e vestindo uma blusinha preta. Era sua colega de classe, Saeko Busujima — Você não estava treinando?

- Os treinos já acabaram... Combinei um encontro com o Komuro aqui no maid-café; ele chegará daqui a uns cinco minutos, se ele não atrasar, né?

- Ah, o Takashi? — Misaki se referia ao namorado de Saeko, Takashi Komuro (N.A.: personagem de Highschool of The Dead) — Você foi uma sortuda em pegar aquele rapaz... Fiquei sabendo que ele tinha levado um fora lá no Japão ainda.

- Eu sei... — Saeko se voltou para o brasileiro — Pablo, tudo bem com você? Namorando a Misaki?

- Pô, mas vocês enchem, né? — disse, ironicamente e sorridente — Não tenho namorada ainda, mas a Misaki é só minha amiga, e das melhores! E aí? Quais são as novidades, Saeko?

- A novidade é que, mesmo aqui no Brasil, finalmente encontrei essa vagabunda, para eu me vingar da pilantragem que ela fez comigo em Tóquio! — gritou uma voz, chamando a atenção de todos dentro do maid-café.

Saeko reconheceu a voz e começou a tremer, de medo. Virou-se para a direita e levou um dos maiores sustos de sua vida.

- A... Ao... Aoyama Motoko?!?

(continua)

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.