Eram Onze da manhã. Talvez meio-dia, ele não podia dizer. Ninguém podia. O céu estava sempre da mesma forma: Cinzento e entristecido, frio e melancólico. Coberto por sua grossa camada de sujeira e fumaça, a posição do sol era desconhecida, e a noite vinha com uma diferença de iluminação sutil, somente percebida quando o toque de recolher soava e as ruas ficavam vazias. Por isso, não existiam postes de luz nas ruas, e o mundo mergulhava-se em breu.

Kill estava sentado embaixo de uma árvore, sua árvore, descansando, ainda ofegante, da viagem até o topo da colina onde a planta se encontrava. O corpo pequeno e magricela do garoto era fraco e frágil, facilmente machucado, embora rapidamente regenerado; um joelho ralado não era nada mais que uma lembrança após pouco menos de uma hora.

Dali de cima, era possível ver toda a cidade, pequena e simples, que exibia uma similaridade sem graça que tirava toda a beleza que uma cidade poderia ter; casas iguais, ruas em simetria... Tudo muito perfeito, e deveras entediante.

O esforço para chegar onde estava, na colina mais alta da cidade, era recompensado pela visão privilegiada do céu: gostava de vê-lo, dizer-lhe que seu estado era parecido com o dele. Eu te entendo, céu. Era o que vivia sussurrando recentemente. Perguntava-se se o céu o ouvia; talvez estivesse irritando-o se esse fosse o caso.

Seus pensamentos foram cortados por um bocejo. Há quando tempo estava esperando ali? Ele também não sabia. O quanto mais Eles demorariam pra chegar? Era um pouco de falta de consideração sua demora, visto que era culpa deles que Kill estava em um estado tão miserável e tristonho. Tão deplorável quando o céu que lhe encantava. Eu te entendo, céu...

Suas pálpebras se fechavam, pesadas como pedras, mesmo tendo o peso de uma pluma. Em segundos, o brilho bruxuleante que seus olhos azuis exaltavam seria bloqueado pela camada de pele fina que parecia pesar tanto. “Um dia, o céu foi tão azul quanto seus olhos. Talvez mais!” lhe disseram um dia. O que o deixara tão feio e cinzento desta forma? A fumaça das fábricas, com certeza... Isso e mais alguma coisa. Talvez o céu o invejasse... Talvez o céu pudesse realmente ouvir e sentir...

Talvez...

Kill, finalmente, fechou os olhos, apesar de ter acordado a, ele imaginava, poucos minutos antes –a primeira coisa que fez ao acordar foi correr ali, ansioso para Os ver: o céu e seus amigos, que demoravam tanto para chegar. Se encolhendo todo graças ao frio que recobria, talvez, todo o planeta –que não recebia o calor solar diretamente -, Kill estava pronto para adormecer novamente, sozinho e ansioso, quando fora impedido:

—KILL!

O garoto reabriu os olhos num salto, ato este acompanhado por um grito estridente e alto. Bateu a cabeça no tronco, sentindo-se voltar a ofegar. Seus olhos se encheram de lágrimas tão rápido quanto um pequeno galo se formava na parte de trás de sua cabeça, onde ele podia senti-lo latejar. Ele encarou a pessoa que gritara, na qual agora ria descontroladamente.

—Por que fez isso?! –Indagou o garoto, não com raiva, mas magoado.

E a pessoa ria como se fosse a única coisa que podia fazer. Ela ria e ria, e não importava quantas vezes Kill reclamasse, ela continuava a rir. Era insensibilidade dela, que garota insensível. Foi o que o garoto imediatamente pensou, depois de desistir da tentativa inútil de conseguir alguma reação diferente da parte dela. Ela só ria, como se nada a preocupasse, enquanto Kill só podia suspirar e esfregar o local machucado com força.

Que insensível...

Um soluço. Baixo e escondido –o garoto não queria revelar que estava à beira das lágrimas-, foi o que finalmente trouxe a garota de volta à realidade. Ela olhou para Kill com o olhar de preocupação que ele secretamente estava desejando. Envergonhou-se de si mesmo por isso, e quis esconder o rosto vermelho numa tentativa inútil.

—Meu Deus, Kill. –ela sussurrou, no processo de se ajoelhar ao lado dele –Você se machucou? Me mostra! Me fala, caramba!

Você que causou isso, não tem o direito de ficar brava comigo! Pensou Kill, afastando o olhar dela e tentando, ao mesmo tempo, esquecer a dor e a vergonha, ambas causadas pela indiscutível verdade: ele era muito fraco. Droga...

—...Você quer um abraço?

Sem pensar duas vezes (e ele meio que queria ter pensado, mas não tanto) o garoto se jogou nos braços da amiga, num ato desesperado por reconforto. Ele amava abraços; nos braços de alguém, há tantas coisas para sentir que é esquecido, por exemplo, o sentimento de dor e vergonha: Ele estava focado em sentir o cheiro do cabelo da garota, sentir seus batimentos cardíacos constantes no peito, sentir a pele dela esquentar sua própria, sentir o carinho que ela queria passar no ato de afagar seus cabelos, sentir a respiração em sua nuca... Era tudo maravilhoso, quase como lhe roubando da (cruel) realidade por gloriosos momentos, momentos esses que deu tempo o suficiente para o pequeno galo desaparecer tão rápido quanto apareceu.

No final, a garota deitada com a cabeça no colo de Kill, enquanto era sua vez de lhe acariciar seus longos cabelos negros. Ela parecia pronta para voltar a dormir após se desculpar com o garoto. Por um momento, ele ficou olhando-a em seu colo, antes de voltar a olhar para o céu; é, ele sempre acabava olhando para o céu.

Assim que bateu os olhos na imensidão acinzentada que era o céu, Kill se lembrou de que se sentia triste e miserável, e a razão desse sentimento estava quase dormindo em seu colo...

Mas ela não era a razão completa.

—Kim? –chamou Kill, obrigando-a a reabrir os olhos e encará-lo –Cadê o Matt? Ele normalmente chega aqui logo depois de mim...

—É, eu saquei... Eu sou sempre a atrasada...

—Você não sabe?

Kim abriu a boca para responder...

—Bem aqui! –Mas não foi sua voz que o fez.

Os dois olharam para a origem da voz, para cima. Sem dar-lhes tempo de computar nada, o garoto de cabelo afro e pele escura, Matt, que antes deitava tranquilamente num encontro de galhos pelados da árvore quase morta –coisas fracas como folhas não sobreviviam muito tempo no ambiente, fora de uma estufa protegida do frio e da poluição – diretamente acima deles pulou dali, em direção à eles.

A única coisa que Kill pôde fazer foi soltar um grito fraco, enquanto Kim fechava os olhos com toda sua força. A mesma acabou entre as pernas do garoto, que aterrissou em pé de forma perfeita. Então, ele deu um beijo no nariz da, ainda de olhos fechados, Kim, que os abriu imediatamente, como se confusa e se perguntando “eu ainda tô viva?!”.

—O que deu em vocês dois hoje?! –Reclamou Kill, novamente envergonhado pela própria reação, enquanto enterrava o rosto entre as mãos.

—Desculpa aí, carinha... –Disse Matt, e procedeu a passar por cima de ambos, sentar-se ao lado do garoto e beijar-lhe o topo da cabeça.

Kill não reclamou.

Eles ficaram daquela forma por um bom tempo: Kim com a cabeça no colo de Kill, e este, com a sua no ombro de Matt que, por sua vez, apoiava a sua por cima da de Kill; ele podia sentir o cabelo do amigo fazer cócegas em suas bochechas, talvez tornando a posição ainda mais confortável! O silêncio prevaleceu, com os três encarando o pálido céu. Talvez estivessem pensando em palavras para organizar, talvez estivessem rezando para que ninguém falasse nada, mas os três sabiam. Eles sabiam e, se Kill ficasse calado por mais tempo, ele achava que sufocaria, engasgado com as palavras presas no peito, que o faziam doer tanto...

-Vocês... tem mesmo que ir? –Ele começou, sentindo os amigos darem um pequeno salto –Tem mesmo que ir para Future Academia?

—Argh! –Exclamou Kim –Nem me lembre!

—Temos que ir, garotão. –Respondeu Max, com carinho – Sabe que temos...

E tinham mesmo. Todos tinham. A verdade é que a FA- Future Academy é governamentalmente obrigatória à todos: O recrutamento era feito no dia dois de maio de todo o ano para todos com quinze anos, ou seja, amanhã, e Kim e Matt participariam da seleção.

Kill não sabia quando aprendeu, mas sabia que sabia, e o que ele sabia era que segundo a lei governamental nº1, era “Estritamente proibido falar sobre a Future Academy fora dos estabelecimentos pertencentes ao local, sendo sem importância se a pessoa que receberia a informação já foi parte da academia ou se ainda é uma criança. A desobediência dessa ordem será severamente punida com multas e restrições de direitos civis”.

O garoto sentiu calafrios surgirem em sua espinha, se espalhando para o corpo rapidamente. A lei, restrita do jeito que era, causava este sentimento, claro, mas não era por esse motivo que Kill se sentia desconfortável. A final, alguém podia contar para um familiar ou amigo próximo o que passara entre aquelas paredes, e a informação se restringiria como um segredo, mas ninguém, após voltar de FA, queria falar sobre o assunto: Este era ignorado, ou apenas evitado com risadas forçadas e uma mudança de assunto imediata.

Era um mistério absoluto, entretanto, um mistério que se resolveria assim que um indivíduo completasse quinze anos. Um pequeno mistério não era o que preocupava Kill. A final, no próximo ano, ele o desvendaria com as próprias mãos. Sim, a saudade dos amigos o torturaria e mataria lentamente; o máximo de tempo que ficaram separados foi sete dias, quando Matt viajara com os pais e a vó para a fazenda da família, numa pequena cidade rural chamada Olhos de Nuvem, visando tirar a velha do alcance de uma febre perigosa que tinha se alastrado pela cidade. Coincidentemente, Kim ficara na cidade exatamente pelo mesmo motivo: ela pegara a doença e estava de cama. Kill estava bem, bem e sem amigos durante esse curto período de sete dias, em que o governo rapidamente preparou uma cura e a espalhou por toda a cidade em forma de gás, solto no ar. Doença erradicada!

Mesmo assim, não era a saudade que sufocaria Kill, não era a ideia dela que fazia o garoto se sentir tão cinzento; era a ideia de seus amigos mudarem.

Todos que vão voltam... diferentes...

Ele já havia presenciado a mudança de jovens energéticos e vividos, à adultos educados, sérios e, simultaneamente, carregando um sorriso mecânico no rosto. Um sorriso de felicidade falsa, ou distorcida.

Eles não eram mais os mesmos... Pareciam conchas vazias, cheias de algo bonito como glitter para agradar as pessoas ao redor. Não era substancial. Era isso que dava calafrios em Kill, era isso que o sufocava; o período de um ano em que os amigos estariam fora, sofrendo sei-lá-o-que, enquanto Kill estaria bem. Bem e impotente, inútil, sem poder.

—Eu não quero que aconteça com vocês... –Revelou o garoto, entre soluços, pronto para começar a chorar. Os amigos entenderam do que ele falara imediatamente, mesmo sem este ter explicado.

Normalmente, em uma situação em que Kill estava à beira das lágrimas, os amigos o consolariam: o abraçariam e o chamariam de “fofo”, talvez por ele ser mais novo que ambos, talvez por ele ser realmente fofo, ele não sabia. Mas não foi assim. Matt enrijeceu e olhou em outra direção. Kill sentia que ele estava tentando se afastar, como que pedindo para Kill sair de cima dele, mas sem querer ser rude. Kim fazia o mesmo, mas de maneira mais abruta: ela se levantara e sentara de modo em que não tocasse em Kill. O ar ficou pesado, e o silêncio machucava. Kill obedeceu aos desejos de Matt e retirou sua cabeça de seu ombro. O mesmo se endireitou, ficando da mesma forma que Kim.

Kill não pode evitar se sentir abandonado.

Matt era o mais velho dos três. Ele fazia aniversário um dia depois que as pessoas eram levadas – 3 de maio -, então era o que mais cuidava e se preocupava, mesmo sendo o de aparência mais despreocupada. Talvez, por esse motivo, ele tinha que quebrar aquela barreira de frieza que se levantara entre os amigos. Num tom brincalhão –que ele sempre assumia para dispersar preocupações e melhorar o clima -, ele abraçou Kill pelos ombros e o trouxe para perto de si com brutalidade (Kill deu de cara no pescoço do garoto, e seu nariz ficou dormente).

—Então você tem um ano para descobrir como evitar isso, carinha.

Isso, de alguma forma, despertou algo dentro de Kill. Ele ficaria um ano longe dos amigos, mas não precisava ser um ano improdutivo! Ele podia pensar em um jeito de falar com alguém que esteve lá dentro e convencê-lo a lhe ajudar; ele era bom em persuadir pessoas. Podia pensar numa maneira de fugir, ou em uma de não se alterar com o treinamento, qualquer que fosse os métodos.

Em um ano. É tempo suficiente.

Kill deu uma pequena gargalhada para si mesmo, e Matt imediatamente a percebeu. Temeroso com o que podia estar passando naquela cabecinha infantil e criativa, ele apertou o garoto para ainda mais perto, impedindo-o de sair dali e, potencialmente, fazer alguma besteira.

—Eu tava brincando, cara. Relaxa aí, eu não vou ser mudado por um bando de cientistas malucos nem nada do tipo. Pode confiar, eu sou Mathe...EI!

O discurso do garoto foi interrompido por Kill, que, entendendo as intenções do amigo de o prender, descobriu uma maneira de se libertar: ele mordeu a coisa que estava mais próxima de seu alcance, que no caso, o pescoço de Matt.

Finalmente livre do aperto, talvez pela surpresa do outro, Kill levantou-se num pulo, feliz e serelepe, e encarou os dois amigos. Kim o olhava com confusão, enquanto Mathew o encarava com medo, olhando pra a Kim indignado e repetindo “ele me mordeu!”. Em contrapartida, Kill os olhava com determinação não esperada de um corpo tão pequeno e frágil.

E era isso que mais assustava Matt.

—Matt tem razão! Eu não preciso, e não vou ficar parado sem fazer nada. Nesse ano que eu vou ficar sem vocês, vou usar meu tempo para fazer pesquisas de como a gente pode fugir de lá junto!

—Não, Kill. –Kim disse ao finalmente se dar conta da gravidade da situação –Falar sobre isso é contra as regras. Você só vai acabar sendo punido; você sabe o quão restrita as regras são, e sabe o quão chato os adultos são quanto as regras. Vão denunciar você assim que descobrirem seus planos.

Kim podia estar certa, e provavelmente estava. Dos três, ela era a mais inteligente e lógica. Em contrapartida, também era a mais preguiçosa: Ela sabia pensar, mas só pensava quando era extremamente necessário, e impedir Kill de fazer alguma burrada épica era muito necessário. Kill, aquele que era o mais ingênuo.

Saber que Kim não acreditava em seus planos o deixava triste, mas não menos animado. Ele ainda estava tão determinado a salvar os amigos quanto antes, e talvez até mais, pois agora também queria provar que a Kim estava errada sobre ele, provar que ele também podia ser forte!

Mas primeiro, teria de convencer a si mesmo sobre isso. Bem, concluiu em seus pensamentos, quanto antes melhor!

Sorriu para os amigos antes de se virar de costas e sair correndo colina abaixo. Matt e Kim se levantaram imediatamente e foram atrás, mas Kill era o mais rápido entre os três, e a distância entre eles se agravava a cada segundo. Kim podia ser a mais inteligente, Matt o mais forte, mas Kill, definitivamente, era o mais rápido! Umas das poucas vantagens de ser tão pequeno e magricela.

—Carinha, para! Isso é suicídio! –Matt gritava, mas sua voz parecia distante aos ouvidos de Kill, bloqueados pelas pulsações cardíacas fortes devido ao esforço.

—É exatamente o contrário, Matt! –Kill se virou para encarar o amigo – Prometo que vou salvar todos nós.

Por causa da surpresa causada pela confiança nas palavras de Kil, e talvez pela exaustão de estar correndo há um tempo, Matt tropeçou nos próprios pés e caiu, levanto Kim, que estava logo atrás, ao chão com ele. Kill estava preocupado, e seu passo se desacelerou um pouco, mas assim que viu que Kim ainda tinha disposição para xingar e bater em Matt, que se defendia xingando de volta com veracidade, concluiu que estavam bem e seguiu seu caminho, sem nem olhar para trás.

Os dois amigos observavam, ainda no chão, o distanciamento rápido do terceiro. Kim suspirou.

—Você é um idiota, Matt.

—Eu sei... –Ele baixou a cabeça, derrotado. Kim suspirou novamente.

—Você sabe o que a gente vai ter que fazer agora, por sua culpa, não sabe? –Kim perguntou enquanto se levantava. Suas roupas e cabelo estavam cobertos de terra (grama também não sobrevivia no meio ambiente), e a garota não tardou a se balançar para se livrar dela.

—Argh, sim... –ele se levantou logo após, e os dois se encararam, antes de falar num uníssono:

—Teremos que ir à Caverna da Bruxa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.