Um Mundo Assombrado Pelos Demônios
14 Tenente Jones...
Notas iniciais
Era uma manhã fria como todas as outras, afinal, estávamos no inverno. Havia algo mais naquela atmosfera melancólica que quis ignorar. Talvez porque era a mesma sensação que eu tinha quando toda vez que me preparava para uma batalha. Aquela sensação de que eu iria perder um companheiro hoje; a simples possibilidade de que talvez seja eu quem não retornarei para casa hoje, tudo isso me assustava em um nível que nem mesmo eu compreendia.
Fui treinado para ser um soldado, isso quer dizer, me sacrificar em nome do meu país. Seja se eu voltar vivo ou morto, serei honrado porque matei muitas pessoas ou então serei apenas um esquecido que morreu pelo país, eu não tenho um alto escalão assim, sou apenas um simples tenente.
Uma coisa eu tenho certeza: essa viagem me mudará para sempre. Sim, como todas as outras que enfrento. Essas batalhas sempre me moldam um pouco, nem que seja para me tornar um homem frio como o gelo ou para me transformar em um medroso completo; acho que esse último será o mais provável. Não conseguia mais dormir a noite sem ter pesadelos, toda vez que eu ouvia o som de uma explosão, mesmo que seja a rolha do champanhe estourando, não conseguia deixar de tremer e sentir que minha vida acabava ali. Eu não conseguia ser indiferente a tantas mortes que aconteciam na minha rotina de trabalho.
—Jones. —Ouvi alguém me chamar e despertei momentaneamente dos meus devaneios para encarar o soldado que me chamou. —Está comendo bem? Hoje vai ser um dia daqueles. —Comentou com um sorriso no rosto que me fez ter vontade de enfiar o punho na cara dele e arrancá-lo a força.
Eu sinceramente não entendo como algumas pessoas podem achar isso divertido; não, matar seres humanos não é nada divertido. Eles não dão a sensação de justiça e vitória que me prometeram na academia de treinamento. Já pensei na possibilidade daqueles homens estarem tão assustados quanto eu e o humor era a única maneira de acalmar isso. Entendo eles, pois já fui esse tipo de homem um dia.
Bom, agora não sou mais.
Fiquei encarando os meus ovos mexidos que até agora não foram comidos, eu não estava com muita fome, estava enjoado, sentia que iria vomitar se qualquer coisa descesse pela minha garganta. Mesmo assim, eu precisaria estar bem alimentado para hoje, não havia previsão de volta e podia ser só tarde da noite. Eles não costumam deixar levar comida.
Mesmo contragosto, eu comecei a comer os meus ovos. Não, eu não vomitei, mas também não me senti muito bem com o meu estômago revirando várias vezes.
—Alf! —Eu quase cuspi toda a comida fora quando senti alguém se pendurar no meu pescoço daquela maneira. Era exatamente disso que eu estava falando quando disse que tinha medo de tudo ao meu redor. —Então, não vamos nos ver até a noite. Eu quero ficar um pouco com você. —Disse Nicole com um tom manhoso, encostando o queixo no meu ombro.
Por um instante questionei por que eu tinha uma namorada. Algo como provar a minha masculinidade para as outras pessoas, eu tinha tanto medo de encontrar alguém como Arthur que tinha que provar a mim mesmo que era heterossexual. Não faz sentido, pelo menos eu não vejo nenhum.
Quando cheguei aqui a primeira vez, fiquei pelo menos três meses me dedicando mais ao treinamento que qualquer outra coisa, enquanto meus amigos sempre iam as festas e voltavam com uma garota, sempre diferentes. Sempre me questionaram porque eu era tão sozinho, que eu devia ter uma namorada. Bem, eu arranjei minha namorada. E agora não tinha mais ninguém para exibi-la, meus amigos estão mortos.
Acho que com o tempo juntos, acabei me apegando a Nicole, ela não era má pessoa no fim das contas.
—Não é como se não fosse um dia qualquer. —Falei sufocando uma risada. —Fazemos isso todos os dias. —Completei como se fosse a coisa mais normal do mundo, mas minha garganta estava formando nós.
—Isso que me mata. —Retrucou com um tom triste. —Essa incerteza de que vou te ver novamente.
Fiquei fitando-a por alguns instantes antes de segurar seu rosto pelo queixo e levantar seu rosto, obrigando-a olhar em meus olhos. Por um instante eu vacilei ao ver as lágrimas no rosto da garota, mas fiz o possível para me recompor.
—Ei, não se preocupe comigo. Eu sou muito forte. —Aquela velha mentira do dia-a-dia. Era uma das mais comuns em uma guerra.
Ela pareceu acreditar em mim quando abriu aquele sorriso sincero e eu mesmo abaixei a minha cabeça até chocar nossos lábios juntos. Eu não sentia nada naquele beijo, era um dos meus momentos que eu achava que era um homem de gelo. Entretanto, sua companhia é um alívio nesse tempo de caos.
Depois do café da manhã, eu voltei para o meu setor e tomei um banho. O único permitido até que voltássemos, porque até a água era escassa. Eu não reclamo, sei que há homens de tocaia na França que estão em situação pior que a minha.
Terminado o banho, vesti a minha farda e fui até o campo de treinamento. Era ali que o general passava todas as ordens para o ataque do dia. Particularmente, o pior momento de todos. Eu até podia suportar matar japoneses como se fossem vacas no abate, mas não conseguia aguentar aquele homem tirano que se acha deus.
Meu superior é um homem tão asqueroso que até um rato teria mais honra que esse homem. Além da extrema violência física e psicológica que ele pratica com os novatos, eu incluso, ele era sádico e tinha o prazer em ver pessoas morrendo. Quando um ou outro consegue capturar um soldado japonês, ele vem para a base antes de mandarmos ele para a prisão. Eu nunca soube com detalhes, mas sei que ele faz coisas horríveis com esses japoneses. Boatos variam entre tortura extrema e até mesmo experiências.
Nunca soube se isso é verdade, mas sei que ele se tranca com os prisioneiros na sua sala e sabe lá deus o que faz com eles.
—E ai, suas mocinhas? —Era seu simpático cumprimento matinal. —O ataque de hoje é muito importante, então tenham em mente que se as garotinhas voltarem vivas e sem a cabeça daqueles japoneses, é melhor nem voltar. —Ameaçou em um tom que deixava claro que ele não estava brincando. —Para repassar o cronograma para vocês, trouxe um general russo muito reconhecido pela sua vitória com os alemães.
No momento que ele falou isso, um ar gelado bateu no meu corpo, fazendo-me encolher dentro da minha jaqueta para me abrigar do frio. Eu não queria ver, mas vacilei ao ter um vislumbre do homem a minha frente. Ele era alto, muito alto para falar a verdade, apesar de seus cabelos tão loiros que confundem com o grisalho, ele tinha uma aparência bastante jovem para ser um general de alto escalão. Trajava uma farda do exército russo, por cima havia um sobretudo grosso e quatro estrelas no peito, eu o olhei de cima abaixo.
—Sem querer ser rude, senhor. —Finalmente me manifestei. —Por que acha que um general do exército pode nos ajudar em um combate aéreo? Um russo ainda por cima? —Questionei no auge da minha arrogância, porque eu não tinha medo; não desses caras.
Tive outro vacilo quando o russo soltou uma risada de canto de boca e fez um sinal indicando que não era para meu general responder. Aos poucos, ele foi andando até mim e eu quase me arrependi de ter sido tão petulante. Quase.
—Qual seu nome, filho? —Perguntou com um sotaque carregado. Ele levava tanta tranquilidade na voz que me fez encolher.
—Jones. —Respondi sem delongas.
—Seu primeiro nome. —Exigiu ainda com aquela voz tranquila.
—Alfred.
—Muito bem, Alfred. Não sei onde te ensinaram a questionar os seus superiores de maneira tão arrogante e pretensiosa. Acho que por um instante você se esqueceu qual a sua posição. —Eu não sabia se ele estava me ameaçando ou o quê, só sei que toda aquela calmaria está me fazendo ter medo e eu ficava recuando quando ele colocou a mão no meu pescoço. —Vou deixar as coisas bem claras entre nós: você é um macaco e eu sou o tratador. Certo, camarada?
Eu abri a boca para falar alguma coisa, tinha vários xingamentos na ponta da língua para aquele desgraçado, mas fiquei quieto, pois estava com medo. Nunca tive tanto medo assim de um superior, porém aquele russo tinha algo diferente em sua atmosfera, me faz tremer. Me encolhi no lugar, ajeitando a minha jaqueta para me tornar mais quente.
—Está com frio? —Perguntou em um tom estranhamente preocupado.
—Sim. —Respondi em um tom desconfiado.
—Você não sabe o que é frio. —Disse com uma risada alta e bateu duas vezes no meu pescoço antes de voltar a sua posição.
Francamente, o sotaque dele me doía os ouvidos. Sotaque russo era uma merda mesmo, mas era obrigado a ouvi-lo. Vários dos meus colegas ficaram me encarando durante a passagem do cronograma, alguns ficavam me olhando preocupado, outros seguravam o riso e cochichavam entre si. Eu ignorava todos, para falar a verdade. Não era incomum um homem ter medo, não devia ser uma coisa tão extraordinária assim.
Não prestei atenção na parte teórica da luta, mas eu adorava quando partíamos para o treinamento prático. Finalmente a hora de pilotar a minha criança, uma das únicas coisas que valem a pena naquela minha vida desgraçada. Sentir o vendo fresco no meu rosto, cada vez mais frio quanto mais altitude eu pego, não tem nada comparado a isso.
Era muito bom sentir o motor tremer em minhas mãos e a dificuldade em levantar, virar aquele volante, tudo isso me fazia sentir muito mais vivo do que estar em terra. Era minha única distração, ajuda-me aguentar.
Tínhamos repassado a formação várias vezes e o céu estava laranja, indicando o começo da noite, deviam ser umas seis horas da tarde, entretanto não tinha tempo de olhar no relógio, chegou a grande hora.
Estávamos todos nos trocando e alguns ainda tinham o tempo de rezar para o seu deus para chegarem vivos depois dessa. Eu não tinha uma religião há tanto tempo, tinha que me contentar em saber que eu estava sozinho nessa. Apertei bastante o sinto da minha calça para me dar segurança, não me pergunte como, mas isso funcionava, vesti a minha jaqueta da sorte e coloquei meu chapéu de aviador. Eu tentava encontrar qualquer motivo para estar fazendo aquilo, porém tudo que eu chegava era no simples fato de matar. Eu era um monstro.
De repente, o rosto de Kiku apareceu na minha mente, sem razão aparente, como sempre. Toda a minha adrenalina do treinamento durante a tarde sumiu dando lugar a uma tristeza infindável. Sentei-me na minha cama e tampei meu rosto com minhas mãos, sentindo as lágrimas quentes escorrerem pelo meu rosto. Era um choro silencioso, já que ninguém podia ver um tenente chorar, a mim não era permitido a fraqueza; de certa forma, isso parece ainda mais doloroso do que o normal.
Conforme limpava minhas lágrimas, mais sujo o meu rosto ficava, mais vontade de chorar eu tinha. Eu era um covarde por viver aquela vida miserável, quando tento encontrar no fundo da minha mente qualquer razão para estar aqui, nada encontro além de um imenso vazio. Não sei se vou sair vivo dessa guerra, mas se eu não morrer nela, certamente morrerei com minhas próprias mãos. Isso não é vida. Isso não devia ser normal.
Apenas parei de chorar quando senti uma mão sobre meu ombro, não virei meu rosto para ver quem era, mas olhando de soslaio percebi que era o carteiro, sempre na mesma hora.
—Carta para o senhor Jones. —Ainda bem que ele nem notou que eu estava chorando.
—Sou eu mesmo.
Então ele me entregou uma carta; a mesma carta, com o mesmo selo, o mesmo papel, tudo era igual, até mesmo o autor dela. Me perguntou se algum dia ele iria desistir de mandar essas cartas. Eu tenho vontade de mandar uma de volta dizendo para ele me esquecer, pois o odeio muito, mas isso seria gastar papel. Foram exatamente as mesmas palavras que disse quando sai de casa e mesmo assim, veja que nada aconteceu.
Eu sentia um profundo ódio, tudo me dava nojo, tudo me fazia ter raiva, quando me tornei esse homem? Culpa do Arthur, mas é claro, aquele merda. Em um ato raivoso joguei a carta no chão como se fosse o próprio britânico e comecei a pisar nela com força, esfregando meu pé no chão e a chutando. Claro, era só papel, não tinha o efeito que eu desejava e isso me dava mais raiva.
Em um grito doloroso de raiva, eu caí de joelhos no chão chorando mais um pouco, porque não era o suficiente. Era sufocante a quantidade de pesar que tinha dentro de mim, preenchia todo o meu ser e eu sentia que pesava toneladas. Afundei o rosto na minha cama e chorava sufocando meus berros ali. Eu não era nada, mas uma criança que estava vivendo um pesadelo, não tinha ninguém ali para me abraçar e dizer que estava tudo bem.
Sim, porque era tudo que eu queria ouvir. Essa simples mentira, mas que me faria muito bem ouvir de alguma voz confortante, junto com um carinho nas minhas costas; eu não tinha nada disso.
Eu sou tão sozinho.
Fiquei por alguns longos instantes ali liberando todos os sentimentos presos dentro de mim quando finalmente me levantei. Peguei a carta no chão, que estava toda amassada e até um pouco rasgada e fui em direção ao saguão, ela teria o destino de todas as outras.
Para a minha sorte, a fogueira estava acesa e isso pouparia muito trabalho, porém, quando eu ia jogar o alarme soou indicando que era para todos irem para o pátio.
Olhei uma vez para a fogueira, em seguida para a minha carta, sem saber o que fazer, eu podia apenas jogar ali e ir embora, mas tive um momento de vacilo e coloquei a carta dentro da minha jaqueta. Eu poderia jogá-la no mar.
Corri em direção ao pátio e fui direto para o meu amado avião, subindo na sua asa e pulando para a sua cabine.
—Está atrasado, Jones. —Reclamou um soldado que estava recarregando o seu fuzil, seu tom era de desaprovação.
—Estou aqui agora, não estou? —Respondi sem fazer questão de parecer simpático.
Em seguida, eu liguei o rádio que me conectava com todos os outros caças e com a central também, colocando os headsets para diminuir os ruídos. Coloquei a mão dentro da minha jaqueta e tirei de lá a carta, olhando para ela por um tempo. Tive um vislumbre da curiosidade ao pensar que poderia ler a carta agora, antes de ir de encontro para a morte, mas resisti essa vontade e a coloquei no porta-luvas, junto com meus olhos, substituindo-os pelos de aviador.
Foi só então que eu comecei a verificar se tudo estava bem no meu avião. O motor parecia estável, o tanque estava cheio, as armas estavam funcionando perfeitamente e também não havia irregularidades na hora de abri-lo, ao que tudo indicava, estava perfeito para voar.
Quando o general soou o alarme pela segunda fez, eu dei a partida, sentindo aquela doce sensação do motor tremendo abaixo de mim. Aquilo por si só era muito relaxante e eu abri um sorriso em êxtase com aquele pequeno alivio. Passei a mão pela cabine de controle como se sentisse o corpo de alguém, fechando os olhos para estar em sintonia com ele. Era a minha vez agora.
Apertei um botão que as rodas dianteiras do avião se abriram, então começamos a tomar velocidade. No final da pista, eu já começava a levantar o volante e a minha criança levantou voo, pegando altitude com os outros aviões.
Era uma fileira de caças, uma formação semelhante aos pássaros que migravam, eu estava na fila da esquerda e era o segundo. Apenas seguíamos o da ponta, que era como se fosse o manda-chuva.
—Piloto 03 do caça 201, tudo certo? —Ouvi o general falar no rádio comigo, então apertei um botão para falar.
—Tudo ótimo. —Respondi com uma risada, olhando para baixo, vendo que já podíamos ver o mar.
Dei uma olhada rápida no radar para ter certeza que não tinha nada por perto e parei de subir quando tínhamos atingido a altura necessária. Agora tínhamos apenas que esperar chegar na costa do pacífico e despejar esse monte de carga, era uma rotina tão costumeira que se não fosse por causa das explosões e do perigo eminente já teria se tornado chato.
Era uma viagem longa, no entanto, precisava de três galões de gasolina para ir e mais três para voltar, mesmo assim chegávamos estourando. Uma vez tive que fazer um pouso forçado na água.
Quando avistamos a ilha, a ponta mandou um sinal para o meu caça, indicando que já era para descer e eu liguei todos os botões para suportar a pressão e comecei a descer em direção a praia.
—Está na hora. —Avisei para os outros soldados nos fundos, mas eles já estavam empunhados com seus rifles.
Chegando perto da praia, eu já acionei a alavanca para abrir o compartimento de carga do avião, por onde os homens começaram a sair, mas tinha que ficar bem firme para não perder forças e o motor apagar.
Ouvi o som da lataria indicando que todos já desceram e fechei o compartimento mais uma vez, levantando voo. Comecei a sobrevoar o oceano pacífico em busca de algumas frotas japonesas, entretanto elas estavam longe o que me deixava um pouco preocupado. Se acontecesse alguma coisa e meu avião fosse atingido eu não poderia voltar a costa.
Mesmo assim eu fui procurando com a arrogante confiança de que nada iria acontecer comigo. Avistei um navio não muito longe e conforme eu me aproximava mais deles apareciam, estavam todos agrupados e eu nem prestei muita atenção nesse detalhe quando escolhi o meu alvo e mandei o primeiro míssil.
Eu ri quando ouvi o som alto da explosão atingir a proa, em seguida de gritos desesperados de ajuda, eu me sentia vivo novamente.
Comecei a marcar meu próximo alvo, que era uma fragata, e lancei o míssil. Em um momento de distração, não percebi que um míssil vinha em minha direção também e puxei o volante com toda a minha força, querendo subir o mais alto que conseguia para desviar daquele míssil. Ouvi um som tão alto que podia ter ficado surdo com essa e o avião começou a balançar com força, vários sinais dentro dele soaram dizendo que algo estava errado, eu precisava voltar para a costa agora mesmo.
—Mayday! Mayday! —Gritei no rádio, tentando conseguir algum sinal urgentemente. —Avião abatido! Repetindo, avião abatido! —Chamei várias vezes, mas nenhuma resposta.
Liguei o piloto automático rapidamente e me levantei para ir até o compartimento, vendo que o homem que ficava ali cuidando combustível parecia desesperado estancando o vazamento de óleo.
—O que temos aqui? —Perguntei tentando manter a calma.
—Um dos motores foi detonado e o combustível está vazando, temos que sair daqui, esse avião é uma bomba-relógio. —Ele também tentava manter a calma, mas estava obviamente em pânico.
Eu dei um tapinha nas suas costas para acalmá-lo, olhando em volta por qualquer coisa que me desse alguma esperança, então uma luz veio na minha cabeça.
—Quando chegarmos na praia, eu vou abrir o compartimento e você vai pular. Mas atenção, tem que ser rápido, porque o avião está muito rápido. —Alertei. O homem engoliu em seco.
—M-Mas e você? —Perguntou em um tom desesperado.
—Eu vou ficar na pilotagem e parar essa criança —Respondi firmemente, ouvi o outro soltar um grito surpreso.
—Ficou louco?
—Não, mas tem uma vila perto da praia, se eu abandonar o avião, ele vai esmagar esse lugar. —Avisei com um suspiro.
—Você realmente se importa? —Me espantou o tom incrédulo que ele perguntou isso.
—Sim, isso não se trata mais de guerra, há pessoas inocentes ali. Ou você desce desse maldito avião assim que eu mandar ou morre comigo. —Minha voz estava tão firme e dura que até eu mesmo me assustei, pois não costumava falar assim, mas aquele cara já estava me irritando.
Ele não disse mais nada e tomei aquilo como uma afirmação. Nem mesmo quis falar muita coisa, logo voltando para o meu lugar de piloto e acompanhar como estavam as coisas. A cabine de comandos estava incrivelmente quente, o que mostrava um superaquecimento do motor, o homem estava certo, aquele lugar era uma bomba relógio.
Quando segurei o volante, quase o soltei novamente, porque estavam em chamas. Mantive minhas mãos firmes ali, usando a minha força para puxá-lo e controlar o avião que caia rapidamente, só tinha que controlar de chegar perto o suficiente do chão para abrir o compartimento, depois só garantir que não caísse em cima da vila.
Suspirei aliviado quando vi a praia não muito longe, mas eu estava com tanto calor que podia desmaiar ali, era o inferno na terra e aumentando. Cheguei perto o suficiente do chão, porém me esforçava para manter o avião no ar, não tinha como mantê-lo parado no ar como eu normalmente faria, se ele parar, tudo explode. Por isso me limitei apenas em abrir o compartimento de carga e rezar para que o homem tenha saído a salvo.
Nem ouvi quando ele saiu, apenas quando vi já estava entrando no meio da floresta. A minha sorte que os vidros eram bem resistentes ou eu já teria sido arremessado para fora dali, mas tentei subir o máximo que conseguia. Podia ver que o avião estava se esforçando para obedecer ao meu comando, mas era demais para ele.
Passei minha mão pela cabine de comando, ela estava queimando os meus dedos, mas não me importava. Não mais.
—Foi uma honra trabalhar com você, senhor. —Disse como se falasse com a própria máquina acariciando-a carinhosamente.
Olhei novamente para frente apenas para ver uma árvore muito grande a frente. Engoli em seco e fechei os olhos, o rosto de Kiku veio a minha mente quase no mesmo instante e fui dominado por uma paz infinita, mais do que a maioria dos homens sentem quando estão prestes a morrer de forma tão dolorosa.
Tudo foi ficando mais lento, mais próximo da escuridão, chegou a minha hora e eu só pude sentir uma lágrima escorrendo pela minha bochecha.
Eu senti a sua falta, Kiku.
~*~
Dias depois...
Arthur estava sentado a sua poltrona, lendo um livro que havia comprado recentemente sem muito ânimo. Depois de algumas páginas lendo palavras avulsas sem querer necessariamente compreender o sentido delas, ele fechou o livro e guardou na sua vasta estante. Sentou-se a sua escrivaninha e pegou um papel de carta, uma pena e molhou na tinta, escrevendo quase automaticamente.
Seu coração parou por um momento quando sentiu o som de alguém batendo na sua porta e ficou paralisado por uns instantes fechando as duas mãos em um punho silencioso e vacilou por uns instantes antes de se levantar e atender a porta.
Havia um homem fardado da aeronáutica americana, ele segurava em suas mãos uma bandeira dos estados unidos perfeitamente dobrada de modo que formasse um triângulo, em cima havia a foto de Alfred.
Arthur ficou em silêncio por uns instantes, completamente em choque e teve que se apoiar na porta para poder se sustentar. Lágrimas escorriam pelo seu rosto de forma calma.
—Senhor Kirkland. —O homem finalmente falou e abriu a bandeira, mostrando a farda de Alfred. —Eu sinto muito... —Lamentou-se em tom baixo.
O britânico agarrou a farda do irmão fortemente e o puxou para si, abraçando a roupa como se fosse o próprio Alfred e caiu de joelhos no chão, chorando mais livre dessa vez. Soluços dolorosos escapavam de si e ele sentiu que podia morrer ali e agora, não se importaria mais.
—Oh, não... —Murmurava Arthur em prantos, agarrando mais a farda para si.
—O Tenente Jones está morto.
Fale com o autor