Um Mundo Assombrado Pelos Demônios
15 Ninguém Procura Um Homem Morto
A primeira vez que acordei, eu sentia que estava delirando de dor. Vários pontos em diferentes partes do meu corpo, ao mesmo tempo em todo ele estavam latejando de dor de uma maneira tão intensa que me fez ter vontade de gritar. Não o fiz, pois não tinha forças nem para isso, minha garganta estava queimando.
Tinha a impressão de que nem havia acordado direito, pois minha visão estava muito embaçada e eu nem conseguia mover o meu corpo, sinto que se eu fizer isso iria desmontar. Mesmo assim podia sentir que estava em um lugar bastante refrescante. O vento batia de leve no meu rosto, me fazendo tremer um pouco por causa do frio, mas o resto do meu corpo estava bem agasalhado.
Eu estava confuso, dolorido e cansado, nem durei muito tempo acordado, porque logo minhas pálpebras pesaram muito e eu adormeci novamente.
~*~
A segunda vez que acordei, estava sentindo um líquido quente escorrendo pelo meu rosto, mas que vinha da minha testa. Podia sentir algo macio tocar lá, não conseguia descrever bem o que era e nem tive forças para pensar. Meu corpo ainda doía muito e eu podia sentir que estava na mesma posição que antes, deve ter se passado algumas horas desde que acordei pela primeira vez.
Assim que minha visão melhorou um pouco tive o vislumbre de uma pessoa que estava bem próximo a mim. Não a enxergava direito, porque estava sem meus óculos e isso dificultava um pouco, mesmo assim eu sabia que parte era pelo fato de eu estar inconsciente por muito tempo.
Quando consegui abrir meus olhos ao máximo, percebi que a pessoa soltou uma exclamação surpresa ao me ver, se afastando um pouco e pude notar que estava segurando algo em uma das mãos, possivelmente era a coisa que estava passando na minha testa agora a pouco.
—Graças a Deus. —Exclamou alto em um tom de alívio quando se deixou jogar ao meu lado, olhando para mim atenciosamente.
Eu não sabia o que devia fazer, pois só de pensar em fazer alguma coisa já fazia meu corpo todo doer, não tinha certeza se poderia falar ainda, entretanto, estava com tantas perguntas na minha cabeça; as dúvidas me corroíam mais do que os ferimentos no meu corpo e foi sem pensar que abri a boca para falar.
—Onde estou? —Falar não parecia ter sido uma boa ideia, pois quando pronunciei minhas primeiras palavras veio acompanhado de uma sessão interminável e dolorosa de tosses cada vez mais fortes, que fizeram meu corpo se impulsionar para frente, de modo que uma onda de dor atingiu todas as partes do meu corpo. Foi um processo tão traumático que eu considerei nunca mais falar na minha vida.
A pessoa me olhou de um jeito preocupado e até com um pouco de pena quando colocou a mão no meu peito, me empurrando levemente para que eu me deitasse na minha posição anterior. Aquela parte também fez meu corpo queimar em pontos de dor muito próximos que até pude sentir lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Algo me dizia que pelo teor daquelas dores eu estava vivo por pura sorte.
—Não se esforce tanto, ainda não está totalmente recuperado. Na verdade, vai demorar um pouco para isso. —A pessoa conversou comigo calmamente, porém sentia preocupação em sua voz. Tinha um sotaque bastante suave que chutei ser de um asiático que falava inglês há algum tempo, isso me confundiu um pouco. —Aliás, te trouxe para minha cabana. Te encontrei ferido e não pude deixar de amparar. —Respondeu arrumando alguma coisa em mim, mas que me deixou mais confortável.
—Quantos dias fiquei dormindo? —Perguntei tentando ignorar a dor lacerante na minha cabeça, mas aparentemente não foi possível, muito pelo contrário.
—Eu não sei ao certo. —Respondeu confuso. —Vários dias, talvez um mês. Eu não tenho muita noção do tempo, me desculpe. —Ele parecia tão incerto quanto eu, mas mesmo assim fiquei espantado ao saber que fiquei desacordado por tanto tempo. Parecia que foram algumas horas.
Depois disso me deixei vencer pelo cansaço e não perguntei mais nada, mesmo que as dúvidas estivessem girando dentro da minha mente, meu corpo falou mais alto. Permaneci olhando para o teto, agora minha visão havia se acostumado e já enxergava tudo melhor que antes, inclusive a aparência daquela pessoa.
Ele tinha cabelos cor chocolate que estava preso e alguns fios ainda caiam teimosamente pelo seu rosto, a mesma cor dos seus olhos característicos de um asiático que não sabia reconhecer, porém eu chutava que fosse um chinês por causa da roupa que trajava. Uma túnica chinesa vermelha de manga comprida. Estava sentado de modo característico também.
Deu-me vontade de olhar como era a cabana também, mas sei que se eu fizer isso vou me arrepender, por isso me mantive quieto apenas notando coisas que estavam em meu campo de visão. Ainda bem que eu estava confortável, pois sabia que por pelo menos alguns dias não conseguiria girar o meu corpo, nem mesmo o meu pescoço. Tinha que me acostumar a ficar quieto. Engraçado, logo isso que é a coisa mais difícil para mim, uma vez que eu não consigo ficar quieto.
Depois de alguns minutos em silêncio, a pessoa se levantou e sumiu do meu campo de visão, até achei que ele tinha me deixado, todavia voltou alguns instantes depois com algo em mãos. Ajoelhou-se bem próximo de mim e segurou a minha cabeça com suavidade. Ele era bom nisso, pois não senti nenhuma dor quando ele inclinou minha cabeça para frente, de modo que eu ficasse levemente sentado.
—Um pouco de água. —Disse em um tom gentil, encostando o cantil na minha boca.
No momento que o líquido frio inundou a minha boca percebi o quanto eu estava com sede, por isso que bebi como um condenado no deserto, sentindo um alívio sobrehumano quando a água descia pela minha boca. Por um instante eu pensei não ser mais possível sentir uma felicidade tão aparente por causa de algo tão comum no meu dia-a-dia.
—Como está o dia? —Arrisquei perguntar mais uma vez, porque estava realmente curioso para saber as coisas ao meu redor. Não sabia exatamente por que, porém acho que era para ter uma certeza de que eu não estava morto.
O chinês sorriu levemente para mim e virou sua cabeça para trás, em seguida para mim de novo, me dando mais um pouco de água antes de me responder.
—Noite e nublado. Tenho a impressão que vai chover mais tarde. —Respondeu com uma precisão incrível o que eu estava perguntando, como se lesse a minha mente.
Quando fiquei saciado da minha cede, eu fiz um balanço com a cabeça para mostrar isso e o rapaz tirou o cantil da minha boca, tapando-o e se levantou novamente saindo do meu campo de visão. Retornou pouco tempo depois se sentando ao meu lado.
Ficamos por vários minutos em silêncio apenas apreciando a companhia um do outro, muitas vezes tive a impressão que o chinês estava ali apenas me vigiando, pois constantemente me lançava um olhar de preocupação. Muitas coisas eu queria perguntar, entretanto estava sem forças para isso, como se aquela pequena conversa e beber água tivesse acabado com todas as minhas forças, era horrível me sentir como um incapaz.
—Qual o seu nome? —Foi a vez d’ele quebrar o gelo e ficou me olhando curioso.
—Alfred. —Respondi com uma voz empoeirada. —E o seu? —Retruquei a pergunta, pigarreando um pouco para normalizar a voz e não parecer que eu estava doente.
—Yao. —Disse simplesmente, enquanto se levantava. —Bem, Alfred, eu vou dormir um pouco, mas estou bem perto de você, então qualquer coisa pode me chamar.
Como resposta eu apenas dei um aceno de cabeça e Yao me ajeitou pela última vez antes de ir dormir. Foi bom ele ter feito isso, pois eu estava sentindo frio e agora estava bem melhor. Mesmo ter ficado desacordado por tanto tempo, ainda sentia meu corpo pesado e o cansaço me dominando cada minuto mais.
Por algum motivo eu não conseguia pegar no sono mesmo assim. Por mais que o meu corpo estivesse relaxado, minha mente ficava dando voltas como se tivessem soltado fogos de artifício dentro da minha cabeça, isso me dava uma dor de cabeça terrível, mas não conseguia parar.
O tempo todo eu ficava me perguntando o que aconteceu com o avião para ele não ter explodido junto comigo, o que me levou a estar vivo agora, parecia uma morte tão certa. Mesmo assim, não sinto vontade de retornar, parece ser bem mais pacífico um lugar como esse, era a tranquilidade que eu estava procurando. Queria saber também se pelo menos vieram verificar se eu morri, possivelmente não, ninguém espera que eu vá sobreviver a uma queda de avião e também ninguém retornaria para buscar o corpo de um companheiro morto e arriscar ser pego pelos japoneses; ainda acham que eu estou apodrecendo.
Não tenho exatamente certeza se queria realmente estar alimentando ratos. Há meses que não tenho mais vontade nenhuma de continuar, mesmo assim continuo por uma chama de esperança bem pequena no meu peito de que algum dia essa guerra irá acabar e eu poderei procurar por aquele que tanto amei. Todavia, aos poucos, essa chama vai se apagando e eu não tenho mais certeza do que irá acontecer. Talvez o mundo acabe com essa guerra, muitas pessoas morreram e ainda não está nem perto da paz.
Nem sei em que momento dos meus pensamentos eu comecei a chorar, mas assim eu estava fazendo. Talvez fosse a chuva lá fora que estava dando esse clima triste para mim, eu precisava muito desabafar de uma maneira que me obrigaram e prender quando eu estava na base militar. Era tudo que eu sempre quis, me alistar no exército, mas hoje não quero mais, muitas vezes tive vontade de jogar a toalha, porém sabia que se fizesse isso eu seria julgado para o resto da minha vida. Meu general sempre diz para voltar com honra seja com ou sem vida, é sempre nisso que eu me agarrei.
Achei que estava fazendo algo bom para meu país, não, para o mundo, pois estava lutando para ele não ser devastado, entretanto percebo que não passo de um assassino a sangue frio; não sei mais até que ponto posso alegar legítima defesa já que também tentaram me matar. O mundo está um caos total e foi muita ingenuidade da minha parte achar que poderia fazer alguma coisa para mudar isso. Olha onde fui parar.
Tentei mover meu braço direito para obter alguma resposta, mas tudo que consegui foi uma dor terrível que subiu pelo meu braço até o meu pescoço, me fazendo encolher no lugar. Não tinha jeito, era batalha perdida. Pelo menos eu sei que não perdi os movimentos do meu corpo, pois sentia meus braços e minhas pernas, era um alívio em meio a tanta dor.
Tinha que me contentar em estar naquela posição, Yao já havia me deixado bem confortável, mas tenho certeza que vou me cansar dela rápido. Porém, ao sentir os primeiros sinais daquela dor terrível, eu com certeza iria me esquecer dessa vontade de me mexer.
Pois bem, eu acabei fechando os olhos para tentar dormir um pouco.
Acordei no dia seguinte com a claridade me dando bom dia, era um sol fraco de inverno, por isso era até bom ser banhado com ele. Eu havia adquirido o costume de acordar cedo desde que entrei para o exército, não foi uma experiência muito boa, se quer saber. Ser acordado com uma trombeta todos os dias era terrível e ainda tinha gente do meu escalão que ainda não se acostumou com isso; pobres coitados.
—Oh, você acordou, aru. —Ouvi uma voz vindo ao meu lado e se eu não tivesse tão paralisado, com certeza daria um pulo de susto, pois foi muito de repente.
—Você já estava acordado? —Perguntei calmamente olhando para Yao que parecia já estar bem desposto.
—Sim. Eu acordo cedo todos os dias para colher ervas, aru. —Respondeu-me calmamente, ele aparentava estar amassando algo com as mãos, mas não conseguia enxergar o que era. —Sorte a sua que a chuva não as estragou ou não teríamos remédio para você hoje.
Antes que eu pudesse perguntar do que ele estava falando, senti um vento frio bater no meu corpo para então notar que eu estava descoberto e seminu. Exceto por alguns curativos que cobriam boa parte do meu corpo. Yao deixou sua mistura de lado e segurou em cada lado do meu corpo, me puxando para que eu ficasse em uma posição sentada. Não foi nada agradável a experiência, mas eu tentava suportar isso agarrando-me na túnica do chinês.
—Eu preciso trocar esses curativos. —Me avisou pegando um estilete e começou a cortar as faixas sujas de sangue. —Logo poderá se deitar novamente, aru. —Garantiu com um tom bem gentil.
Deixei então que ele fizesse o que tinha que ser feito e quando todas as gazes estavam cortadas eu tive um vislumbre do meu corpo e entendi a gravidade da situação. Havia feridas abertas enormes na minha costela, coxa esquerda e panturrilha direita. Meu antebraço estava ardendo com um corte extenso que ia do pulso até o cotovelo, não conseguia enxergar meu tórax, mas ele também ardia muito. Isso porque não contei inúmeros hematomas roxos ao redor do meu corpo e também não podia ver minhas costas, não sentia nenhum ferimento ali, porém doíam pra caramba.
—Como está o meu rosto? —Perguntei porque queria ter uma imagem completa do meu corpo na minha mente. Yao me olhou por alguns instantes antes de voltar ao que estava fazendo.
—Tem um corte na sua testa que tive que dar alguns pontos, seu lábio está ferido, sua bochecha está roxa e inchada.
Tudo bem, não foi uma boa ideia perguntar isso, ouvir aquilo me fazia sentir cada um dos ferimentos que ele havia citado. Também explicava o motivo pelo qual doía tanto na hora de falar.
—Como você fala inglês? —Perguntei voltando a minha curiosidade de ontem.
—Morei por muitos anos nos Estados Unidos. —Disse em um tom de nostalgia, em seguida suspirando de saudade.
—Então como veio parar aqui? —Questionei confuso.
—É uma longa e complicada história. —Ele fez uma careta triste, como se lembrasse de algo terrível. —Mas tem a ver com a guerra. —Me explicou e eu pude ter certeza que estava com os olhos arregalados em incredulidade.
—Você sabe sobre a guerra?! —Exclamei surpreso e ele bufou em resposta.
—Claro que eu sei sobre a guerra, aru. Acha que sou um ermitão que é alheio a tudo que acontece no mundo? —Questionou irritado, em seguida suspirou. —Estive bem mais perto da guerra do que você imagina, aru.
Não perguntei mais nada depois disso, mesmo que as perguntas girassem na minha cabeça e me tentassem muito a perguntar. De alguma forma eu sabia que aquele assunto era sensível para o Yao, não queria tocar na ferida, pelo menos não ainda.
Depois de um tempo em devaneios, gritei de dor ao sentir algo tocar nas minhas feridas frescas, mas era uma espécie de creme gélido que aos poucos foi ficando mais relaxante.
—Fica calmo, eu tenho que fazer isso para cicatrizar e evitar infecções. —Disse com uma voz calma, mas também aparentava estar gostando de me ver sofrer.
Eu não disse nada e como resposta eu tentei ao máximo desfazer a minha careta de dor, mas ela sempre voltava quando Yao esfregava o meu machucado daquela maneira, era uma tortura sem tamanho. Foi bom, pois aos poucos a dor era substituída por um alívio refrescante, o local ficava gélido e me dava uma sensação muito relaxante.
—Que remédio é esse? —Perguntei em um tom relaxado.
—São ervas que planto aqui, tive sorte de ter minha infância na fazenda, assim aprendi me subsidiar, aru. Não gostava muito de aprender sobre ervas e plantas quando pequeno, mas hoje vejo o quanto é importante. —Brincou dando uma risada, eu até me dei o trabalho de sorrir, coisa que não fazia há muitos meses.
—Obrigado. —Agradeci um pouco sem jeito.
—Não é por nada. —Respondeu com um sorriso ainda maior.
Então deixei que ele terminasse o trabalho e aplicasse aquele remédio pelos outros ferimentos, quando os tocava era sempre aquela queimação terrível que me fazia gritar que logo era substituído pelo gelo gostoso. Foi assim cada novo ferimento que Yao tocava, até que ele enfaixou tudo com gaze e eu me senti bem melhor, não havia mais aquele sangue seco me incomodando e ele me deitou novamente.
Em seguida, ele foi fazer as suas coisas me deixando sozinho novamente, pela primeira vez em tanto tempo eu sinto uma tranquilidade enorme dentro de mim, talvez seja o Yao que passa uma aura tão segura ou então aquele próprio lugar que era refrescante, só sei que eu gostava disso.
Quando voltou novamente, ele segurava uma tigela de madeira e começou a me dar uma sopa quente diretamente na boca, já que eu ainda não conseguia me mexer. Em meio a tanta coisa, eu esqueci de questionar o por que do Yao ter me salvado, mas eu sinto que não é uma pergunta que deve ser feita, não é como se eu quisesse questionar a caridade que ele estava fazendo. Eu podia estar morto agora.
—Qual lado da guerra está te caçando? —Perguntou naturalmente, francamente nunca me questionaram esse tipo de coisa.
—Os japoneses. E você? —Retruquei a pergunta ainda um pouco confuso do que ela significa.
—Ambos os lados. —Respondeu simplesmente, limpando a minha boca dos restos de comida que escapavam com um pano. —Horrível, não? Para o resto do mundo eu estou morto, quero que continue assim. —Continuou com uma voz diminuindo aos poucos.
Eu não sabia o que ele queria dizer com estar morto para o resto do mundo, mas aparentemente eu também estava e concordava com ele quando disse que queria permanecer assim. Ninguém procura por um homem morto.
—Eu acho que vou dormir, aru. —Disse Yao tentando manter um tom aparentemente comum, mas podia ver ainda resquícios de tristeza em sua voz. —Boa noite, Alfred. —Me cumprimentou antes de se levantar.
—Boa noite.
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