Notas iniciais
Oii, leitores *-* Esse capítulo foi uma sugestão da leitora Bournic, que sugeriu que eu falasse um pouco mais sobre o Arthur, então eu o fiz. Só lembrando que o Arthur tem dez anos a mais que o Alfred. Não tive tempo para revisar, mas se você achar algum erro, por favor me informe que eu concertarei. Aliás, esse capítulo ficou bem maior, mas eu não gosto de fazer capítulos grandes, pois acho que cansam o leitor, então eu enxuguei bem antes de postar. Mas espero que vocês gostem õ/

Arthur Kirkland. Você o conhece por ser responsável pelo Alfred. Um típico inglês com o queixo erguido e sua indecifrável paixão por chás, por mais amargo que este seja, sempre com o terno impecável. Um homem bem vivido que já sobreviveu a Grande Guerra e agora é testemunha da sucessora dela, ele não chegou a presenciar os bombardeiros violentos em Londres, estava seguro, afinal, na América. Mesmo assim não deixava de se preocupar com a Europa e o que estaria acontecendo lá. Por quê?

Bom, então o que acha de conhecê-lo um pouco mais? Para isso, temos que regressar no tempo.

Vamos para as ruas imundas de Londres, a capital da Inglaterra, em 1924. Arthur tinha apenas dez anos nessa época, ele estava sentado na biblioteca de sua casa, com as costas levemente curvadas e pernas cruzadas e sobre os joelhos portava um livro, seu romance favorito. Frankenstein; or, The Modern Prometheus. Os olhos verdes como esmeraldas estava fixos nas páginas amarelas daquele livro que já estava levemente desgastado, devido ao número de vezes que ele já repetiu a leitura.

–Arthur! –A voz aguda de sua mãe o desconcentrou e ele fechou o livro depois de marcar a página que estava lendo, se levantou a poltrona e caminhou até a cozinha.

Emily Kirkland é uma mulher demasiada jovem para a sua idade. Com médios cabelos louros que vão um pouco além dos ombros, porém sempre amarrados em um coque elegante, uma curiosidade é que ela sente cócegas ao sentir o cabelo na nuca, por isso anda sempre com os fios bem amarrados. Olhos azuis, então pode-se notar que Arthur puxou o verde de seu pai.

Viu que sua mãe estava sentada à mesa com as rugas da testa comprimidas em desgosto e ela ficava olhando para as unhas bem feitas. O menino de cabelos loiros sentou-se em uma cadeira ao lado dela ficou observando por um tempo a preocupação da mulher antes de falar.

–Senhora?

–Querido, aquele homem está dormindo na calçada novamente. –A mulher loira se levantou e foi até a janela, afastando a cortina apenas para olhar o mendigo que deitava entre jornais velhos e borrados. –Coitado. Não deve comer há dias. –Suspirou soltando a cortina e voltando a roer as unhas de ansiedade. –Você poderia ir até o mercado comprar pão para ele?

Arthur fez que sim com a sua cabeça, embora demonstrasse indiferença no rosto, por dentro até que gostava dessa ideia, já que estava entediante ficar dentro de casa. Outra curiosidade sobre Emily é que ela nunca daria um pão dormido a um morador de rua, tal como suas vizinhas fazem, ela gosta de ajudar e faz isso com respeito ao próximo.

O garoto loiro pegou sua bicicleta e montou nela, pedalando pela sua de pedra. A rua era inclinada e a direção do mercado ficava para baixo de um morro, Arthur sempre tomava impulso nos pedais. Assim o fez, ele pedalava em uma velocidade exorbitante morro abaixo, seria triunfal se não houvesse um boneco rua que prendesse a roda.

O resultado disso foi a bicicleta parar, mas o corpo do britânico voou por cima do guidão e rolou o resto do morro até bater fortemente com uma árvore que havia no final da rua.

Arthur colocou a palma da mão no chão para lhe dar suporte ao levantar, mas ambas estavam fortemente esfoladas com as pedras pontudas e ásperas da rua. Ele sentia o sangue quente escorrer pela sua testa, passando pela bochecha até o queixo e também sentiu o líquido metálico dentro de sua boca, visto que seu lábio também estava machucado. Em meio a toda essa dor, ele ainda teve forças para soltar um palavrão.

–O que diabo aconteceu? –Depois de dez minutos tentando se levantar, ele conseguiu apenas se sentar e encostou as costas esfoladas na árvore, soltando outro gemido de dor.

Atrás de um corredor entre uma casa e outra que formava um beco, uma outra criança surgiu e olhou bem para Arthur. Ele tinha a mesma idade de Arthur, cabelos loiros brilhantes e sedosos que caíam como cachoeira pelos ombros, olhos azuis claros e limpos, não podia negar que era um menino muito bonito. Ele continuou gargalhando quando chegou perto do inglês.

–Me desculpe. –Falou com um sotaque carregado, logo de cara pode perceber que ele não é nativo da Inglaterra. –Você estava descendo a colina tão depressa. Fiquei com medo de ser atropelado e corri para a calçada, mas deixei cair a boneca da minha irmã. –Ele abriu um sorriso de escárnio que mostrava muito bem que ele não estava arrependido do que aconteceu.

–Francês filho da puta. –Praguejou Arthur ao colocar a mão na cabeça e acaricia-la, gemendo quando passou a mão no ferimento pelo qual escorria o sangue. –Seu sotaque me dói os ouvidos.

–Realmente não tive intensão. –O sorriso continuava lá, o que não validava as palavras do francês. Ele soltou outra gargalhada antes de se aproximar mais. –Quer ajuda?

–Além de indecente também é burro? É claro que eu preciso de ajuda!

O garoto ainda pode dar um riso irônico antes de puxar o inglês com o braço sem cuidado, diga-se de passagem, e o pôr em suas costas.

–Está doido? Vai me quebrar ao meio? –Resmungou Arthur ao sentir ser puxado, ele envolveu os braços ao redor de seu pescoço.

O francês não respondeu ao último insulto. Segurou firme embaixo dos joelhos de Arthur e voltou até o local do acidente, pegando a boneca decepada pela bicicleta, colocando-a no bolso antes de se virar e terminar de descer a colina. Após o mercado, que é a distância que Arthur sabia contar, mais quatro casas e o menino entrou em uma casa bege.

Francis entrou e deixou Arthur sentado no sofá, depois entrou mais na casa, voltando com uma maleta de primeiros socorros. Não trocaram uma palavra enquanto o francês cuidava dos ferimentos do outro, Arthur o olhava com total desdém, visto por seu contínuo desprezo por franceses. Algo bastante patriota, na verdade. Motivos pessoais ele não tinha nenhum, mas não se importava.

Enquanto Francis cuidava de uma esfoliação no joelho, ele aplicou um remédio que ardeu a perna inteira de Arthur.

–Ai! Cuidado, seu idiota! –Gritou Arthur pulando um pouco para trás. Francis riu pela quarta vez hoje.

–Você mereceu. Eu não fiz nada para você e fica me olhando como se quisesse me matar.

–Só quase me matou. –Cuspiu as palavras venenosamente, mas logo deixou a máscara cair quando sentiu outro choque de ardência pelo remédio novamente aplicado no ferimento.

–Não fui eu. Foi a boneca da minha irmã. –Francis enfiou a mão no bolso e mostrou a boneca deformada para Arthur.

–Por que você anda com essa boneca?

–Não ando. É que ela já estava estragada. Apenas levei ao hospital de bonecas que tinha naquela rua, você foi o doido que desceu correndo. Podia ter me atropelado.

Arthur não disse nada reconhecendo a sua derrota, ele até pensou em um murmurar um fraco e inaudível “desculpa”, mas o britânico é muito orgulhoso para tal ato. Ao invés disso apenas ficou calado e deixou que o outro terminasse de fazer o curativo.

Quando finalmente terminou, Arthur simplesmente se levantou e caminhou de fora da casa, mesmo sem despedir da pessoa que cuidou dele. Embora ainda doesse todas as partes do seu corpo, ele continuou andando até o mercado, onde comprou dois pães frescos. Ao voltar para casa, resolveu usar outro caminho que, embora fosse mais longe, com certeza não teria o cheiro do trauma tão recente.

Depois de quinze minutos, normalmente duraria cinco, ele finalmente chegou perto do homem que descansava em baixo de jornais velhos. O cheiro dele era horrível, sem dúvidas, mas ele prendeu a respiração e esticou o pacote para o homem que o pegou com uma fúria animalesca e repetiu:

–Deus te abençoe.

Arthur sorriu e só então entrou em casa. Ele cumprimentou a mãe e foi de volta para a biblioteca, ler de onde parou.

Ele ficou na mesma posição de antes, visto que é a única posição que ele acha confortável ler. Leu vinte e duas páginas antes de um barulho irritante vir da janela. O som da unha batendo no vidro isso deixa o Arthur muito nervoso. Ele virou o rosto para a janela esperando ver o mendigo implorar por mais, mas quase caiu para trás quando viu o francês que cuidou dele mais cedo.

O inglês se levantou mais uma vez da sua poltrona e abriu a janela.

–O que está fazendo aqui? –Perguntou irritado. Antes de falar, Francis ergueu a mão e mostrou a bicicleta desmontada de Arthur.

–Vim trazer isso. –Respondeu com um sorriso debochado.

–Como soube onde eu morava?

–Eu te segui. –Francis respondeu com o sorriso mais descarado que pode.

–Suma da minha frente. –Quando Arthur ia abaixar a janela novamente, uma mão forte a segurou.

–Espera. –Francis impediu que o outro a fechasse e colocou a cabeça pela abertura da janela. –Meu nome é Francis Bonnefoy.

–Hunf. Franceses. Que nome ridículo. –Disse Arthur venenosamente, ele desviou o olhar, pensando bem se iria se apresentar ou não, afinal o cara quem causou o seu acidente. Enfim tomou uma decisão. –Meu nome é Arthur Kirkland.

–E ainda fala do meu nome? –Riu Francis e segurou no pulso do garoto que segurava a borda da janela. –Venha brincar comigo.

Antes mesmo que Arthur respondesse, o outro já havia puxado pelo pulso e o arrastando colina abaixo novamente.

Depois desse primeiro e conturbado dia, a amizade dos dois floresceu. Era uma relação constante de amor e ódio. Amor por parte de Francis e ódio por parte de Arthur. Os dois cresceram juntos, no mesmo bairro, mesma escola. Apesar das constantes brigas e os xingamentos de Arthur, eles se tornaram inseparáveis.

Arthur não queria admitir, mas gostava da companhia do outro, embora sempre mantivesse sua pose de desdém como um típico inglês. Sua frase costumeira quando Francis começava a falar sempre foi:

–Seu sotaque me dói os ouvidos.

Mas ele adorava ouvir o sotaque.

Um ano, quando os meninos tinham quinze anos. Francis acabou sendo mais avantajado que Arthur, ficando mais alto que o mesmo, embora a mesmíssima idade, também nasceram pelos precocemente no rosto, formando uma barbicha loira que usava para se gabar dos demais colegas com a face lisa, inclusive Arthur.

–Grande coisa, esse troço é sujo.

Mas ele adorava aquela barbicha.

Um dia ambos estavam na aula de geografia. Arthur copiava tudo que o professor ditava na frente, não que ele quisesse aprender, mas a figura do homem o assustava um pouco. O professor Emerson era um homem com a coluna reta e braços para trás em uma perfeita postura de ditador, com seu monopoly moustache ele olhava para os demais alunos com uma expressão de desdém como se todos fossem vermes.

Arthur sentia amedrontado, mas admirava o homem, simplesmente por essa sensação de medo que ele passa. Um dia ele queria ser um professor, de preferência igual ao professor Emerson. Enquanto se concentrava em escrever as palavras abafadas pelo bigode, ele sentiu uma bolinha de papel na parte de trás da sua nuca. Era Francis com certeza, pensou. Resolveu que não iria virar-se, simplesmente pelo professor, não queria ser castigado.

Porém não adiantou ignorar, Francis atirou outra bolinha. E mais outra. Já irritado, Arthur virou-se o mais discretamente que pôde para olhar o amigo que o encarava com o típico sorriso de escárnio.

–Hunf. Franceses. –Sussurrou Arthur, olhando rispidamente para Francis. –O que você quer?

–Nada. –Riu baixinho. –Só queria te desconcentrar e fazer você perder a explicação?

–O quê?! –Arthur elevou a voz, parecia não se importar com as consequências. –Eu te odeio, seu puto! –Sim, Arthur não o chamava mais de “filho da puta”, pois já conhecia Clarissa Bonnefoy e gostava muito dela.

Ao se virar, ele deu de cara com o Sr. Emerson que estava há centímetros de sua mesa, sua face torta estava séria e puro sadismo brilhava em seus olhos. Na mão ele portava um saco grosso e pesado de milho puro, o professor o sacudia como se mostrasse para Arthur o que viria a seguir.

O inglês se encolheu enquanto caminhou para o corredor, onde seria dado o castigo, deixando para trás algumas risadas dos colegas, mas ele só identificou uma no meio das outras. Eu vou matar aquele maldito francês, disse a si mesmo antes de se ajoelhar sobre os milhos duros que o Sr. Emerson havia espalhado pelo chão. Enquanto aguentava a dor nos joelhos, ele fechou os olhos e se imaginou dando esse castigo para algum aluno, quando ficar mais velho.

Na hora da saída, Arthur ajeitava a bolsa que sempre escorregava do seu ombro, batia os sapatos furiosamente no chão e jogava maldições para o francês que o fizera ficar ajoelhado no milho durante vinte minutos. Ainda podia sentir as pontas finas nos seus joelhos sensíveis.

–Arthur! –Ouviu justamente a voz que não queria ouvir, continuou a andar, mas fechou os olhos, massageando as têmporas e implorando para que fosse apenas uma voz na sua cabeça. –Artie! –O sotaque soou mais forte dessa vez, como se Francis fizesse de propósito com seu charme francês, ele tocou o ombro do britânico.

–Não fala comigo! –Despejou sem ao menos parar, na verdade só aumentou a velocidade, mas Francis também era rápido.

–Me perdoa, mon chéri. –Quando aquela voz rouca veio até seu ouvido, com o típico sotaque, Arthur teve que parar para recuperar o fôlego depois que todos os pelos do seu corpo se arrepiaram. Aguardou alguns minutos até que se controlasse da provável gagueira, então continuou.

–Por sua culpa eu fui castigado!

–E o que queria que eu fizesse? Que me oferecesse para levar o castigo no seu lugar?

Arthur olhou bem nos olhos azuis de Francis com um olhar de raiva e decepção misturadas. É claro que Francis não faria isso, não em um castigo bobo de escola. Mas Arthur tem certeza de que se houvesse algo mais perigoso em jogo, Francis se jogaria para protegê-lo, não importa como. Pensando bem, não é fácil ficar com raiva desse francês. Por mais puto que ele seja. Mesmo assim, Arthur não deu o braço a torcer.

–Está difícil andar, sabia? Meus joelhos estão me matando. –Terminou dando uma careta ao acariciar o local em cima da calça.

Francis deu um sorriso maroto como costumava dar e se ajoelhou para ficar a altura do joelho do menor, Arthur achou que ele iria dar um beijo no machucado dele. Quem dera fosse só isso. Os braços fortes do jovem envolveu as pernas do outro e ele se levantou, erguendo Arthur sobre os ombros e continuou a andar.

Assustado, Arthur segurou forte o paletó do outro para não cair, a pele branca europeia de Arthur ganhou uma coloração mais avermelhada, talvez fosse porque o sangue subiu rapidamente para o seu rosto ou simplesmente vergonha. O adolescente olhou ao redor, estranhado o caminho que Francis andava.

–Francis, para onde está me levando?

–Para a estação de trem. –Francis riu.

–Estação de trem?! Pra quê?

–Eu não te contei que o meu primo da Alemanha está vindo me visitar?

Arthur deu um tapa na própria testa. Ele tinha esquecido completamente desse tal primo do Francis que viria. Ao que ele entendeu, o garoto é austríaco, mas vive na Alemanha. Ah, ele também é judeu.

Ao chegarem a estação de trem, Francis colocou o jovem no chão e se esgueirou entre a multidão para encontrar os cabelos castanhos de seu primo. Agarrou a mão de Arthur para que este não se perdesse, ou pior, fosse embora e o deixasse sozinho. Ele conseguia empurrar a multidão até chegar onde estava o trem que desembarcava.

Um jovem, também de quinze anos, se destacou entre aqueles tantos branquelos. Cabelos castanhos e olhos escuros revestidos por óculos de metal, ele sorriu quando viu seu primo e correu em direção a ele, mesmo que desajeitado por causa da mala. Francis soltou a mão de Arthur por alguns segundos, apenas para abraçar o amigo que não via há anos, foi retribuído, embora não com a mesma intensidade.

Arthur não gostou que ele soltasse sua mão.

–Judeuzinho. –Esse é o apelido carinhoso que Francis batizou em Roderich. –Poderia tocar piano para mim e para Arthur essa noite.

Um grande sorriso branco surgiu nos lábios de Roderich e ele acenou com a cabeça afirmando. Pegou sua mala novamente e o trio andou pelas ruas de Londres até a casa de Francis. Por mais incrível que pareça, Roderich foi o único que conversou. Ele contava sua história ao andar de trem, saindo da Alemanha para Luxemburgo, onde pegou um navio para o Reino Unido, só então pegou outro trem para Londres. Uma viagem demorada de dez dias, contando as paradas.

Dito e feito, quando chegaram a grande casa dos Bonnefoy, Roderich deixou sua mala ainda feita no quarto dos hóspedes, Francis não queria esperar para ouvir um pouco do grande talento musical do austríaco. O jovem desceu novamente para a sala de visitas e postou-se em frente de um piano de cauda branco, intacto e empoeirado. Os dedos finos do judeu pressionaram as teclas brancas, logo as pretas formando uma melodia que ele mesmo compôs.

–Para acompanhar essa agradável melodia. –Francis falou indo até uma das prateleiras de vinho francês de seu pai e pegou uma garrafa do vinho envelhecido de 1908, distribuindo igualmente em três taças. –Só mesmo bebendo um belo vinho envelhecido.

Arthur engoliu em seco e vacilou um pouco em aceitar a bebida, visto que ele tinha um fraco para álcool. Mas então decidiu que só uma noite não o faria mal. Aceitou de bom grado a taça e bebericou do líquido com leve sabor de uva e apreciando os dedos mágicos de Roderich.

Após quatro horas de conversa fiada e vinho, Arthur estava definitivamente bêbado, haviam três garrafas de vinho abertas sobre a mesa, ele e Roderich riam de outra piada suja que Francis contava. Até que o inglês sentiu o gosto do vinho subindo pela sua garganta e sua cabeça girava. Sua face corada, ele ria como um louco, mesmo que a piada em si não tivesse tanta graça.

–Ixi! –Exclamou ao olhar pela janela. –Olha como é tarde. –Olhava para o céu escuro, embora não estivesse tão tarde assim. –Eu vou para casa.

E o jovem foi cambaleando para a porta da frente e quando finalmente chegou, tropeçou no tapete e caiu. Foi Francis quem o ajudou a se levantar. Roderich ria da cena, mas baixinho para não parecer tão mal educado. A verdade é que nem Francis quanto Roderich estavam bêbados. Roderich estava um pouco alterado pelo vinho, mas não tanto quanto Arthur.

–Eu vou te acompanhar em casa, Artie, desse jeito você nem sobe a colina. –Afirmou Francis segurando a cintura do amigo para ele não cair novamente.

–Não! –Arthur arrastou a letra do meio por pelo menos trinta segundos antes de continuar. –Pode ficar ai com o seu priminho. –Soluçou em desgosto, apontando o dedo para Roderich, com dificuldade de mantê-lo levantado.

Roderich soltou uma gargalhada.

–Ele tem ciúmes de mim?

–Não se preocupe. –Assegurou Francis subindo as mãos para os ombros do inglês, este quase caiu pela terceira vez. –Ele só está bêbado.

–Báh! Bêbado é você, francês estúpido. –Riu com o próprio insulto, rodopiando e caindo nos braços do francês.

–Muito bem, vou levá-lo de volta. –Francis olhou para Roderich. –Estarei em casa logo, está bem? –Roderich assentiu com a cabeça.

Francis foi porta a fora segurando Arthur e o ajudando a se locomover. A parte mais difícil foi a colina que separava ambas as casas, ela era tão inclinada que se Arthur caísse uma vez sequer, rolaria como quando eles se conheceram. Francis teve que apoiar a palma da mão firme nas costas do inglês e com a outra mão segurava a de Arthur.

O adolescente inglês estava exausto, o álcool já começava a fazer efeito em sua corrente sanguínea e ele subia o morro com preguiça, contanto os segundos até chegar na sua casa. Seu corpo todo estava mole e ele ainda sentia o sabor de uva nos lábios, enquanto os lambia para sentir mais um pouco em sua boca.

Foi quando chegaram na porta da sua casa que as coisas começaram a esquentar. Arthur mirou diretamente nos azuis brilhantes de Francis, ficou tão atraente visto com a iluminação somente da lua cheia atrás dele. O coração do inglês disparou quando sentiu dois braços fortes envolverem a sua cintura e instintivamente abraçou seu pescoço. Eles ficaram se olhando por mais alguns segundos, cada segundo os rostos se aproximavam mais. Até que Arthur sentiu o hálito de vinho do Bonnefoy.

E aconteceu. Duas bocas se uniram sob a luz da lua cheia. Uma boca francesa e outra inglesa. Mas a nacionalidade não importava, pois naquele momento eles se sentiram como um só. As mãos fortes de Francis apertaram e empurrou as costas de Arthur mais para o seu corpo, em um ajuste delicioso. Era um beijo desengonçado, mas gostoso. Francis mordeu levemente o lábio inferior do menor para que ele abrisse, deslizou sua língua para dentro da boca, explorando-a e acariciando a língua, arrancando suspiros do jovem inglês. E as mãos? Sim, as mãos passeavam por todo o lugar. As mãos finas de Arthur penetrou entre os fios sedosos do rapaz e as mãos másculas de Francis acariciavam a base da espinha por debaixo do colete.

Esse momento podia durar para sempre. Mas não durou. Quando o ar esgotou de seus pulmões ambos tiveram que deixar a boca um do outro, mesmo contragosto. Arthur olhou seu amigo por mais alguns segundos, pelo menos até achar a maçaneta e entrar em casa. Não pensou no que acabou de fazer, simplesmente correu para a pia mais próxima.

No dia seguinte, os primeiros raios solares penetraram a janela de vidro e os olhos esmeralda se abriram com dificuldade. Arthur sentou-se sobre a cama e pressionou a cabeça fortemente com o coque de dor que tomou conta do seu cérebro. Com uma carranca no rosto ele notou o quarto inteiro bagunçando, ao pisar no chão para se levantar, ele acabou pisando em uma parte do seu lençol e caindo no chão. Um gemido de dor foi abafado com seu rosto no piso.

Depois de se vestir e –tentar- pentear os fios loiros, ele desceu as escadas com cuidado para não escorregar novamente e foi até a cozinha tomar seu café da manhã. Particularmente, ele não queria comer nada, apenas queria uma boa xícara de café, mas não podia. Havia pouco café na casa, porque seu pai parou de comprar devido à crise. Essa tal crise mundial que falavam não afetou tanto a família Kirkland, porque ela não era dona de uma grande empresa, mas teve que cortar gastos mais fúteis. Pela falta do café então, foi uma xícara de chá.

Enquanto tomava, um som muito forte de batida veio da sua porta. Desde quando essa merda ficou tão barulhenta? Pensava com ele mesmo se levantando e indo até a porta, abrindo-a. Para a sua surpresa, ou não, lá estava o francês que sempre o azucrina, com uma bela rosa vermelha nas mãos. O coração de Arthur acelerou ao ver aquela bela figura, embora ele não soubesse por que.

–Quanto eu bebi ontem para você me trazer essa rosa? –As palavras foram ásperas, mas só Arthur sabe o quanto ele lutou para não gaguejar.

–O suficiente. –Respondeu simplesmente.

Francis invadiu a casa e segurou nas costelas do menor, pressionando-o contra a parede do corredor, antes que Arthur sequer abrisse a boca ela foi selada pelos próprios lábios de Francis. Arthur não fechou os olhos, eles permaneceram arregalados em puro espanto e seu coração disparava tão forte que parecia que ele ia sair de seu peito.

Quando o suposto beijo acabou, Francis olhou direto para o rosto de Arthur que corou furiosamente. Não havia raiva e nem um insulto na ponta da língua, apenas surpresa.

E um tapa no rosto francês.

–Que diabo foi isso?! –Gritou Arthur. –Acha que pode entrar na minha casa assim e me atacar?

–Só estou repetindo o que houve ontem. –Francis disse com sinceridade, mas um sorriso malicioso aparecia em seus lábios, o rapaz menor franziu as sobrancelhas.

–Ontem?

–Sim. Você não deve se lembrar, porque estava bêbado. Mas você estava como uma putinha nos meus braços. –E outro tapa ainda mais forte foi dado no rosto do pervertido. Estava quase se transformando em soco se ele fizesse mais alguma gracinha.

–Você me respeite! –Ele não teve medo de meter um dedo na cara do outro, mas logo o abaixou, andando de um lado para o outro. –Jesus, Maria e José! Isso não pode ter acontecido.

–Claro que aconteceu e você adorou. –Francis sorria como um bobo, o que era um sorriso malicioso se transformou em algo de pura paixão.

–Francis, isso é sério! –Arthur puxou a mão do amigo até o sofá da biblioteca e se sentou com ele, as primeiras rugas de preocupação em sua testa aparecia. Mais tarde ia ser sua principal marca. –Só que isso não podia ter acontecido.

–Por que não? Você não gosta de mim? –Francis começava a ficar com o olhar mais sério ao perceber onde Arthur queria chegar, ele ficou de frente, olhando fixamente para os olhos de esmeralda.

–O que eu gosto não está em discussão aqui.

A mão do francês tocou a face de porcelana do outro e lentamente se aproximou esperando alguma reação negativa, quando não veio nenhuma Francis recebeu isso como uma confirmação. E foi o terceiro beijo deles, mais suave que os demais, pois Arthur estava um pouco balançado. Quando este acabou, Francis encontrou os olhos verdes que lutavam para não derramar as lágrimas.

–Francis, somos dois homens. Isso não é certo.

Francis tinha um olhar decepcionado, mas ainda permitiu dar um sorriso, mesmo que fosse fraco e triste.

–Sim, eu entendo.

Ele se levantou e saiu. Foi a primeira vez que Arthur chorou.

Conforme os anos se passaram nunca mais falaram no incidente, mas isso não quer dizer que ele foi esquecido. E a amizade entre ambos foi acabando. Mas a amizade acabou porque a paixão aumentou. Tantos foram os dias que Arthur chorava ao pensar em Francis, ao se lembrar os lábios sabor de uva e nas mãos aconchegantes do francês.

Então, aos dezoito anos, ambos já eram trabalhadores. Arthur lecionava inglês em uma escola do subúrbio de Londres e Francis também entrou para o ramo da educação, mas ele ensinava matemática, mas também trabalhava no seu mestrado. Até que no dia dezoito de abril de mil novecentos e trinta e dois Emily apareceu no quarto do filho que corrigia as provas finais das suas turmas.

–Querido, podemos conversar? –Arthur tirou os óculos de leitura e os deixou sobre os papéis, voltando sua atenção a sua mãe.

–Eu recebi uma carta do meu irmão, aquele que mora na América, lembra? –Arthur fez que sim com a cabeça, ele lembrava remotamente do homem, porque uma viagem da América a Londres era muito cara e levava tempo, então só o viu algumas vezes na infância. –Ele é um comandante da marinha.

Arthur franziu as sobrancelhas, ele ainda não entendeu aonde sua mãe iria chegar com aquela conversa.

–Mas ele tem um filho em Seattle...

–Ele não tinha dois?

–Sim, o mais novo está vivendo com a mãe no Canadá. Mas o mais velho e a mãe não se dão muito bem. Eu gostaria que você fosse para a América para cuidar desse menino, talvez isso te anime e você não chore mais no banheiro.

Arthur arregalou os olhos mais uma vez. Nunca pensou que alguém soubesse das suas recaídas no banheiro, muito menos a sua mãe. A primeira vez pensou em negar, fingir que a mãe estava louca, mas depois para pensar bem, isso só atrasaria a conversa que uma hora ou outra seria inevitável.

–Há quanto tempo você sabe?

–O tempo suficiente.

Mordeu o lábio inferior e ficou apertando, até sentiu um pouco do sangue metálico escorrer para a língua, mas não se importou.

–América. Pode ser bom. –Sorriu para Emily confirmando seu convite.

No dia da embarcação ele via o navio a longe se aproximando do corpo. Seu coração batia rápido e ele olhava entre a multidão de pessoas que se despediam, ele só queria ver uma, mas ao mesmo tempo não queria. Tudo era tão confuso, ele queria embarcar nesse navio e sair daquela cidade o mais rápido possível.

Foi quando uma mão grossa tocou seu ombro, ele se virou para ver a figura alta que se tornou Francis.

–Eu li a sua carta. –Ele sorriu, mas estava longe de ser o sorriso branco e cheio de dentes que ele estava acostumado.

Arthur não respondeu nada e mesmo que o fizesse, Francis não ouviria, pelo som ensurdecedor do navio atracando no porto. O inglês desviou o olhar e segurou na alça da sua mala com força, se virando e caminhando até a passarela do navio, mas uma mão o impediu de ir.

–Espera, eu preciso saber. –Francis mordeu a língua, vacilou um pouco ao continuar. –Você vai voltar.

Arthur pensou bem na resposta, mas só chegou a uma.

–Eu não sei.

–Voltaria pra mim? –O coração do inglês batia rápido e ele sentiu sua garganta secar como se algo ficasse instalado. Mas novamente só conseguiu dar uma resposta.

–Eu não sei.

–Eu te amo. Te amo muito, Arthur.

Nesse momento Arthur quis responder que também amava Francis e se jogar nos braços dele. Por que não faz isso? Perguntava ele internamente, É o que você quer. Ele fechou os olhos nesse momento e foi como se todas as outras pessoas apressadas para pegar a embarcação tivessem desaparecido e fosse só ele e Francis, no parque como quando crianças.

–Apressem-se! –O marinheiro gritou. –O navio já vai sair! –Tornou a repetir despertando Arthur de seu sonho.

Ele soltou seu braço da mão de Francis e ainda se permitiu um último beijo, porém rápido.

–Adeus, Francis.

Não pôde esperar uma resposta do seu amado, pois sabia que um adeus do francês doeria até a alma, ele correu até o navio e subiu a bordo. Quando o barco começou a se movimentar, ele correu até a popa para olhar onde havia deixando Francis. Ele ainda estava lá, estático. Ficou ali até que a neblina cobrisse sua visão.

Se isso tornou Arthur Kirkland em um homem amargo que é hoje? Cabe a você responder essa pergunta. Perto do primeiro bombardeiro que houve em Londres, Francis o enviou uma carta dizendo que seu pai se casou com uma mulher canadense e que agora havia mais um irmão mais novo. Seu nome é Matthew William. Arthur sorriu quando Francis se lembrou dele, embora soubesse que não podia sorrir.

Então a guerra começou. Cada carta enviada a partir de agora se tornou preciosa, como um comandante sendo enviado a uma base naval no Hawaii. Você nunca sabe se vai retornar.

Notas finais
Então, o que acharam? *-* Críticas, sugestões e opiniões são sempre muito bem vindas!