Um Menino Quase Feiticeiro - A Verdade
8 A Criatura das Trevas e o Sanguinário
Notas iniciais
– Ainda bem que ele não vai dormir aqui hoje. – Falei. – Ele é bem capaz de me estuprar à noite.
– Sabe – Maramon começou a falar – vocês deveriam de ser mais companheiros.
Comecei a rir,então disse:
– Conta outra. – Pensei um pouco. – Será que o velho vai ficar bem com um vampiro?
– Melhor do que nós. – Disse Maramon.
Suspirei e me senti feliz pela poção da ilusão ter dado certo,era como se Darget não existisse,porém o efeito durava pouco tempo,Tobeliey disse que uns dois dias.
– Tem certeza que todos tomaram o suco com a poção? – Perguntei.
– Sim. – Disse Maramon. – Para de perguntar isso.
Bufei,porém um leve sorriso veio em minha boca ao lembrar da mala de Darget...Eu queria saber o que havia dentro,afinal,queria saber o que Tobeliey havia colocado ali.
Fui andando até a grande mala verde,uma mala simples,daquelas de viajens,agachei-me e abri.
– Não deveria fazer isso. – Advertiu Maramon.
– Só uma olhada. – Olhei para Maramon. – E além do mais,ele é seu servo.
– Meu. – Disse Maramon,que depois suspirou.
Abri a mala,havia algumas roupas,muitas pretas...Também havia uns quatro livros de poesia,toalhas...Garrafas pretas para botar o “suco de framboesa” dele...E umas garrafinhas,daquelas que botam o sangue quando tiram,esqueci-me o nome...Mas dentro delas havia um líquido estranho,uns eram rosa,outros verde...
– O que é isso? – Perguntei para Maramon.
– Poções. – Disse Maramon. – Defesa pessoal.
“Ah que ótimo” – Pensei. – “Um vampiro que pode destruir uma tropa inteira tem que ter defesa pessoal,enquanto eu só tenho um cachorro que morde,que me morde”.
– Sabe,ele acabou de vir do submundo...É normal que Tobeliey tenha dado isso pra ele,afinal,as criaturas das trevas percebem,e podem até atacar.
Suspirei,fechei a mala,fui em minha cama e deitei-me,perguntei para Maramon:
– Sabe como apagar a luz?
– Sei como queimar.
Bufei e levantei novamente,apaguei a luz,deitei na cama e lembrei da garotinha que ensinou-me que bater debaixo do queixo é uma boa tática de luta.
Adormeci.
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Tobeliey foi gentil com Darget e lhe explicou o que aconteceu,que pela vez do vampiro,sentiu nojo de querer o sangue daquele garoto.
– Desculpe. – Ele disse.
– Tudo bem. – Disse Tobeliey rindo. – Afinal,está se acostumando com pouco sangue,você está fraco,é normal ter “recaídas”.
– Eu quase bebi todo o seu sangue. – Disse Darget olhando para a marca no pulso de Tobeliey.
Tobeliey riu,e disse:
– Claro que não.
Darget suspirou e abaixou a cabeça.
– Oh,Darget,fique calmo,aposto que Maramon não vai te dar castigo pelo seu descontrole,é normal vampiros terem recaídas.
– Não me preocupo com isso.
– Se preocupa com o que então?
Darget suspirou.
– Com nada,só odeio o fato de querer o sangue daquele garoto.
Tobeliey riu.
– Robert pode ser um garoto um tanto...Difícil,mas no fundo,é um bom garoto.
– Bem no fundo.
– Darget,sei que é uma hora difícil,mas posso perguntar uma coisa?
Darget,como Tobeliey já esperava,não lhe respondeu,por fim Tobeliey continuou:
– O jogo do xadrez...Sei que ele vale em toda a Floresta do Norte do Submundo como um jogo “livre,gratuito e a qualquer hora”...É a magia do local,e os prisioneiros são do calabouço inicial...Mas...Por que um...Xadrez?
Darget suspirou,e por fim lhe respondeu:
– Xadrez é pura malícia. – Ele mordeu seus lábios. – É um jogo que engana,uma pessoa faz a outra de boba e por fim a peça mais frágil e valiosa não tem saída...É isso o que acontece com a pessoa que perde,o rei significa a liberdade.
Tobeliey piscou por alguns segundos.
– Entendo...Obrigado,Darget.
Darget olhou por uns segundos Tobeliey,e disse:
– Onde está o seu interligado?
Tobeliey ficou parado durante um instante,sem reação.
– Vou lhe contar uma história,meu jovem,contudo prometa-me que não ira dizer para ninguém.
Darget engoliu em seco,ficou feliz por alguém confiar nele,porém com medo por isso mesmo.
– Prometo.
– Pois bem...Cresci em uma fazenda em algum lugar deste Brasil,depois mudei-me para Rio de Janeiro,pois meu pai queria que eu herdasse a fazenda,coisa que eu não desejava... – Ele suspirou,parecia triste. – Arranjei um emprego,e conheci uma garota linda!Apaixonei-me perdidamente por ela...
– Quantos anos ela tinha? – Perguntou.
– Ela tinha treze anos... – Tobeliey esperou mais alguma pergunta,e como não obteve,continuou: — E ela se apaixonou perdidamente por mim...Quando percebemos,já havia se passado um ano e ela estava grávida! – Ele riu. – A mãe dela ficou doida,e o pai de minha amada ficou...Vamos dizer: Encantado. Ele me adorava,ficou feliz com a gravidez rápida da filha,porém eu também iria ser pai jovem,eu tinha quinze na época. – Tobeliey suspirou,cansado.
– O que foi? – Perguntou Darget.
– Nada...Continuando: Porém,no meio disso tudo...Eu encontrei,encolhido em um canto da esquina suja e nojenta dos bairros onde aconteciam crimes inexplicáveis,um filhote de gato,uma filhotinha,na verdade. – Tobeliey riu. – Ela era arisca,não queria que eu a pegasse,arranhou-me e me mordeu,mas eu a trouxe comigo,para a casa em que eu morava com minha amada...A gatinha era esperta,muito esperta,fitava à todos,conseguia o que queria e não saía correndo atrás de ratos...Foi aí que ela começou a dar as primeiras falas,de começo eu fiquei aterrorizado,tentei...Matá-la até – Tobeliey tosse – eu era muito religioso na época...Mas tentei manter a calma e fui aceitando aquilo,aos poucos...No fim ela já me explicava sobre trevas e outras coisas de cor e salteado,mas eu estava mais preocupado com minha mulher e meus sogros,meus sogros sofriam de uma epidemia de uma doença que não lembro-me o nome...E minha amada sofria pela dor deles,coitada!Grávida e vivenciando aquilo,pobre de meu filho... – Ele para de falar um pouco e olha para Darget,que sem piscar prestava atenção em tudo. – Até que se foi meu sogro,e depois de uns dias,minha pobre sogra...Minha mulher estava quase parindo,nos últimos dias de gestante,quando as trevas vieram,e Missy,o nome de minha interligada disse que eu deveria abandoná-la,se não,algo poderia acontecer de muito ruim,com ela e meu filho,e foi assim que em uma noite chuvosa,não voltei para casa. – Ele suspirou tristemente. – Missy e eu lutamos contra as trevas,destríamos criatura por criatura,sem dó nem piedade...Até que um dia,um privilegiado se satã veio e...Para poupar minha vida,Missy se sacrificou na luta: Ou eramos nós dois,ou um de nós...E foi assim que ela se foi,e aquele “ajudante” nojento riu amargamente e voltou para onde ele nunca deveria ter saído.
Darget estava pasmo diante de tal história,queria dizer algo,mas antes que pudesse abrir a boca,Tobeliey continuou:
– Sabe...Eu sinto ela perto de mim,e isso é demais...Sinto ela dentro de mim.
Darget piscou três vezes,depois perguntou:
– P-por que...Contou-me isso? – Ele tremia.
– Confio em você e...Acho que se eu visse o meu filho com quinze anos,ele seria parecido com você,pois minha mulher era ruiva...E tinha os olhos verdes... – Tobeliey parecia estar extasiado.
– Entendo... – Darget riu. – Então...Você é brasileiro?Pensei que era francês...Ao menos é o que me parece,e o nome é enrolado.
Tobeliey riu.
– Meu pai estava bêbado quando deu meu nome...E não estou de brincadeira,ele realmente estava! – Tobeliey pensou. – Mas minha bisavó veio da França para o Brasil,por questões...”Familiares”.
Darget riu,depois colocou a mão na boca,assustado.
– Pode rir,eu não me importo. – Tobeliey sorriu. – Quem lhe ensinou esses modos?São tão antigos...Sei que são da minha época,até muito antes de sessenta e sete anos atrás...
– Você acertou. – Disse Darget.
– O que?O sessenta e sete?
– Não,o quinze,eu virei vampiro com quinze anos.
– Isso deve de ser difícil...Quer contar-me?
Darget negou com a cabeça.
– Bem...Quer chá? – Perguntou Tobeliey.
– Sim...Por favor.
Tobeliey sorriu e por fim foi para a pequena cozinha,deixando Darget sozinho naquela sala com os vidros das janelas quebrados e teias de aranhas se formando ali,porém a aparência assustadora era só ali,pois naquela pequena sala,era tudo aconchegante...O sofá,onde ele estava,era macio...Havia uma pintura ali,pela qual Darget já sabia a história...Enfim,era um lugar pequeno,feito de tijolos,ele só queria saber onde era a lareira...Já que a casa tinha chaminé.
– Chá... – Disse chegando Tobeliey com uma xícara de chá,e entregou para Darget. – Beba. – Disse Tobeliey sorrindo.
Darget sorriu e bebeu,e gostou do sabor.
– Está bom?
– Sim,do que que...- Darget sentiu uma fraqueza indescritível,deixou a xícara cair e adormeceu profundamente.
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Levantei-me feliz por saber que era sábado,ou seja: Sem escola.
– Não fica tão feliz assim,pirralho. – Disse Maramon enquanto eu trocava de roupa. – Tem treino com Tobeliey.
Bufei,teria que encontrar aqueles favelados,o treinador de educação física metido a “todo poderoso” e o “rei das trevas”.
– Ei. – Disse abotoando minha camisa cor creme. – Tava de brincadeira quando você disse que eu era uma criatura das trevas,não é?
– Não. – Disse Maramon seriamente.
Não liguei para ele,apenas desci para tomar o café da manhã,havia panquecas.
– Ei garotão! – Disse Maramon do quarto,o que eu torci para ninguém ter ouvido. – Espera!Eu amo panquecas!
Maramon veio correndo atrás de mim,e,quando cheguei na cozinha,mamãe disse:
– Então,Maramon! – Ela disse. – Vamos fazer o seguinte: Eu boto a comida no seu cantinho de comer,e você colabora usando a caixinha de areia.
Maramon saiu correndo em direção a mesa,pegou algumas panquecas com a boca,e saiu correndo em direção ao jardim.
– Isso é um não? – Pergunta minha mãe,desanimada.
– Acho que é. – Respondo.
Passou-se a manhã,e quase a tarde inteira,agora estava meio que batendo 16:00,e soube que teria que ir,já estava até atrasado,como sempre.
Saí com Maramon,a fim de ir de novo encontrar Tobeliey,porém algo me assustou: A mesma garota que eu avistara com Darget e no submundo estava na minha frente,secando-me com os olhos.
Maramon rosnou.
– Cachorrinho mal... – Ela disse. – Vai me atacar mesmo,uma garota inocente,num lugar tão movimentado?
– O que quer? – Retruquei.
– Oh,então lindão,como vai o seu braço? – Ela perguntou olhando para o meu braço enfaixado,o que me deixou extremamente irritado.
– O que quer? – Perguntei novamente.
Ela riu,seus dentes eram brancos,muito brancos...
– Não se apaixone por mim tão rápido! – Ela disse em tom de deboche,notando que eu estava a observando.
– Calada!
A garota olhou ao redor,o que fez seus longos cabelos castanhos balançarem.
– Conheço um...Café expresso aqui perto,se quiser vir comigo,fique a vontade. – Ela disse,indo embora.
Maramon a seguiu.
“Esse animal quer mesmo morrer” – Pensei,não tendo outra escolha a não ser segui-lo.
Chegando ao lugar fique surpreso...Era um lugar de classe,muita classe...E tinham coisas ali que eu não poderia pagar,eu só tinha cinco reais no bolso.
A garota sentou-se em uma cadeira de uma mesa,e eu sente-me na outra cadeira,de frente para ela,Maramon ficou no chão observando.
“Esse cão imbecil me bota em cada uma!” – Pensava.
– Eu não tenho como pagar aqui. – Disse.
– Tudo bem,eu pago. – Disse a garota. – Mas quero devolução.
Ela era sarcástica demais para o meu gosto.
– Aceitam cães aqui? – Perguntei,ignorando o que ela havia dito.
– Sim,aceitam sim.
Olhei ao redor,só havia um casal naquele lugar,em uma mesa distante.
– Por que...? – Perguntei,olhando para ela.
– Por que eles estão a fim de tomar um cafezinho.
Revirei meus olhos.
– Não,quis dizer do por que me chamou.
– Achei você interessante.
– Você é uma vampira!Quer o que depois?Drenar todo o meu sangue com uma mangueira para botar em caixinhas de leite e fazer o novo “nescauzinho”?
– Suas piadas são tão...Engraçadas,sério,estou até rindo. – Ela parou,para mostrar-me sua cara séria. – E errou,não sou uma vampira.
– É o que então?
A atendente chegou,e perguntou educadamente o que queríamos.
– Quero um café amargo,um pedaço de bolo,um milk-shake de morango e sorvete de creme. – Disse a garota. – O que vai querer,Robert?
Assustei-me,pensei que ela havia pedido para nós dois.
– N-nada... – Eu disse,tinha que parar de gaguejar,estava começando a ficar igual a Madalena.
– Tem certeza?O milk-shake daqui é uma delícia! – Ela disse,sorrindo.
Aceitei o milk-shake,afinal,não iria conseguir ficar vendo ela comer um banquete,enquanto eu nada.
Ficamos em silêncio até a atendente trazer o que foi pedido.
– Então... – Eu disse,mexendo no canudo do milk-shake. – O que você é?
– Feiticeira. – Ela disse com a boca cheia de bolo.
Fiquei observando ela comer aquilo tudo,ela tinha...Olhos cor de mel,e eram lindos..Ah,feiticeira?
– Feiticeira? – Perguntei,já tonto.
– É,aquelas que fazem feitiços,sabe.
– Não me diga...
Tomei um pouco de minha bebida gelada,e gostei daquilo,tinha pedido frutas tropicais.
– O que quer de mim? – Perguntei.
– Só conhecer mesmo.
Fiquei pasmo.
– Não era você que queria matar todo mundo?Agora vem com essa de “querer conhecer”!
– Sou uma feiticeira independente. – Ela disse sorrindo. – Aceito trabalhos em troca de algo...E naquele de capturar alguém,gostei do seu jeitinho bobo,Robert.
– Não é eu quem sou o bobo aqui,feiticeira independente.
Ela riu.
– Robert...Você é um tanto atraente,tanto para mim,quando para minhas amigas do sub... – Ela disse chegando mais perto do meu rosto. – Ah,garoto,pode acreditar que você não é um simples interligado...Está mais para outra coisa...
Então,aquele ser de lábios rosados e carnudos chegou mais e mais perto...Dando-me um beijo de tirar o fôlego...Profundo e...Ardente.
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