Um Lugar Chamado Terra Do Nunca

3 Capítulo 3 - Papai e Mamãe


Notas iniciais
OOOI! Fiquei empolgada com os comentários e escrevi um capitulo um pouco maior agora. Espero que gostem e continuem comentando. E quem nao comentou ainda, por favor comente para que eu fique sabendo do que estão achando. É muito importante para mim. Obiragada e beijinhoos

– Wendy – acordei em um pulo com Michael me balançando.

– Oi. O que foi? – disse esfregando os olhos para enxergar no breu da noite.

– Eu tive um pesadelo.

Levantei e me apoiei com os cotovelos na cama. Fiz um gesto com a cabeça para que Michael sentasse na beirada dela.

– O que tinha nele?

– Mamãe e papai... Eles – ele soltou um leve soluço e continuou – Eles voltaram para nos buscar.

– Ah, mas isso é bom, não?

– Não. Por que isso não pode acontecer.

Pobre Michael. Tão jovem e já tinha que carregar esse fardo horrível nos ombros. Eu ainda sofria um pouco, mas tive de ser forte por eles. Tive de erguer a cabeça para ser uma mãe.

– Você quer deitar comigo? Posso contar uma história até conseguir dormir de novo.

Ele se animou e pulou da cama.

– Você vai contar que história?

– A que você quiser. – falei sorrindo.

– Posso chamar o resto para escutar também?

– O resto...? — Olhei de relance para a porta e vi alguns olhinhos espiando e rindo. – Todos tiveram pesadelos?

– Sim... – respondeu Michael cabisbaixo.

– Ora essa – levanto da cama de repente – O que estão fazendo ai ainda, então? Venham logo!

Eles entraram correndo, gritando e se ajustaram ao pé da minha cama. Michael sentou-se ao meu lado.

– Qual o motivo da gritaria? – Peter surgiu esfregando os olhos – Meninos, já está tarde. Deixem a Wendy dormir.

– Eu os convidei, Peter. Não conseguiram dormir então me ofereci para contar-lhes uma história. Você é livre para se juntar a nós.

Peter apenas cruzou os braços, se apoiou na porta e me direcionou um sorriso presunçoso.

– Mike, qual a história que você escolheu?

– Terra Do Nunca.

Peter soltou uma risada abafada.

– Essa eu quero ouvir.

Ergui a sobrancelha e lancei um olhar de desaprovação para ele. Ele levantou os braços se rendendo e voltou a cruza-los.

– Bem, que assim seja. Em um lugar longe daqui, longe de qualquer coisa, existe um mundo. Um mundo onde as crianças não podem crescer e adultos não são permitidos. Um mundo cheio de coisas fascinantes como fadas, sereias, índios e, até mesmo piratas.

Um dos meninos levantou a mão.

– Sim?

– Piratas não são adultos? E índios também?

– Piratas são adultos que se recusam a crescer. Eles vivem o jeito fácil e aventureiro da vida, ao invés de fazer o trabalho duro. Piratas são crianças de um jeito indireto. E sobre os índios... Tenho algo a confessar: eu nunca soube.

Os meninos riem, mas logo voltaram à prestar atenção para que eu prosseguisse.

– Enfim. A Terra Do Nunca é completa de magias e aventuras. A cada quinze anos ela invoca crianças para habitá-la por um tempo, para que possam provar dos maravilhosos encantos que nela tem. A Terra Do Nunca tem vida própria e está a procura de líder nato. Se você sair, não mais como voltar. Se escolher ficar, o único jeito de sair seria... Voando.

Todos arregalaram os olhos na expectativa de poder voar.

– Isso que eu nunca entendi – Ouço John dizer debaixo das cobertas.

– O que disse, John?

Ele levantou de uma vez e buscou os óculos na bancada para poder me encarar.

– Isso. Esse negócio de voar. Eu nunca entendi. De tudo, de todos os elementos absurdos contidos nessa história, esse é o mais absurdo. É contra a lei da gravidade, nós não podemos voar.

Vi que alguns dos garotos ficaram com uma expressão confusa no rosto e outros, de tristeza.

– Mas é claro que podemos John. Não seja ridículo. Basta ter pensamentos felizes. Os pensamentos felizes te levantam no ar.

O rosto deles começou a se iluminar novamente, absortos na magia da Terra Do Nunca.

– Wendy, não tem como...

– Fim da história, pessoal. – anuncia Peter – Todos para cama.

Eles se remexem e fazem bico, mas me agradecem e vão embora.

– Obrigada, Peter. Mike, por que você não fica com Peter um pouquinho? Preciso conversar com o John. Assim que terminar você volta pra cá e a gente dorme um pouquinho, tá bom?

– Tudo bem.

Olhei para Peter esperando que não fosse um incomodo.

– Vem cá, carinha. Vou preparar um chocolate quente para você. Sempre me ajuda a dormir quando tenho sonhos ruins.

Ele correu em direção a ele e sorri em agradecimento. Peter acenou com a cabeça, segurou a mão de Michael e fechou a porta.

– O que deu em você? – explodi para cima de John – Quer fazer Mike sofrer mais do que já está?

– Também estou sofrendo, Wendy. E... Essa história... – uma lagrima escapou de seus olhos – Essa história lembra tudo neles. Tudo.

– Você acha que não sofro? Eu sofri ao dizer cada palavra sobre aquela história. Eu sofri ao ver que Mike já caiu na real. Eu sofri ao ver o rosto desiludido daqueles meninos depois que você arrancou a esperança de seus corações. Eu sei que não podemos voar, John. Eu sei o que é a gravidade. Mas eles, não. De algum jeito esses garotos perderam a família, assim como nós. Então deixa de ser babaca, por que você não é o único que está sofrendo.

Sai do quarto em um pulo. Não estava afim de escutar os lamentos dele. Fui para a cozinha e encontrei Peter com uma caneca na mão e Michael deitado na mesa da cozinha.

– O que houve?

– Fui fazer o chocolate quente e quando virei de novo ele já estava assim.

Aproximei-me, peguei-o no colo e gentilmente o conduzi pelo corredor até depositá-lo na minha cama. Olhei para John que continuava do mesmo jeito de quando sai. Pressionei o dedo indicador nos lábios e disse:

– Vá dormir e não faça barulho. Eu já volto.

Fui até a porta e fechei-a atrás de mim para poder conversar com Peter.

– Camisola legal. – ele ri quando me virei para ele.

Analiso minha camisola grande e branca de manga comprida.

– Ela é muito confortável, tá?

– Eu não disse nada – ele ri de novo e empurro seu ombro.

– Obrigada pelo o que fez. John estava precisando de uma dose de semancol.

– Sem problema, fico feliz em ajudar.

Sorri para o chão.

– Sabe o que eu não entendo? – ele diz puxando minha atenção para seus olhos verdes – Como você pode contar uma história com tanta convicção se nem ao menos acredita nela?

– Por que meus pais acreditavam. Eu só transmiti o poder da fé deles nas minhas palavras.

Ele me encarou por um tempo e por fim sorriu.

– Boa noite, Wendy.

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Acordei na manhã seguinte e Michael não estava mais na cama comigo. Espiei a cama de John e ele não estava mais lá também. Fui andando em direção à sala e encontrei os meninos fazendo barulhos de índios e John fingindo ser um pirata com mão de gancho. Encontrei Peter sorrindo sentado na mesa. Juntei-me a ele para assistir a cena.

– O que eu perdi? – perguntei sentando ao lado dele.

– Basicamente os índios se revoltaram com os piratas e estão clamando por guerra.

– Mas só tem o John de pirata.

– Exatamente. – fiz uma feição de confusa e Peter me olhou mais sério – John veio falar comigo hoje de manhã. Ele achou que você não o ouviria então pediu que eu dissesse: Ele quer pedir desculpas por ter sido muito infantil e percebeu que deveria estar ajudando ao invés de piorando. E é por isso que ele é um pirata agora – ele ri.

– Eu não devia ter sido tão dura com ele. É só que... Eu só tenho 15 anos. É difícil carregar esse papel de mãe inteiro nas costas. Estou dando meu máximo, mas não está sendo o suficiente.

Peter segurou minha mão por debaixo mesa, o que fez virar minha atenção para ele.

– Não precisa carregar isso sozinha. Pode dividir comigo quando quiser.

Estávamos tão próximos um do outro, podia sentir seu hálito junto ao meu. Depois que sai do transe que seus olhos provocavam em mim, arrastei um pouco a cadeira para me afastar.

– Hm... Érr.. Obrigada. – Olhei em volta da sala e percebi um detalhe: Não havia nenhum adulto responsável – Peter? Quem é o dono do orfanato?

– Bem, o Padre Anthony é o dono. Mas ele só vem aqui uma vez por semana pra checar se está tudo bem e reabastecer geladeira, produtos de higiene, coisas em geral. Mas tem um grupo de freiras aqui do lado que estão sempre a nossa disposição. É como eu digo: isso aqui é mais um refúgio do que um orfanato.

Foi ai que vi uma vantagem na remota chance de nunca sair de lá: eu nunca me separaria de meus irmãos. Ou de Peter.

– E você cozinha para eles? – perguntei rindo.

– É comida congelada. Só esquentar e comer. Mas não é tão ruim quanto parece.

– Ei, Peter. Vem se juntar aos índios.

Um dos garotos gritou e Peter logo correu para o meio deles fazendo barulhos de índio com a boca. Corri para o lado de John e fingi tirar uma espada da cintura.

– Avante! – gritei. John sorriu ao perceber que isso era o meu jeito de dizer que ele estava desculpado.

Michael encolheu os ombros e me encarou.

– Wendy, você não pode ser pirata se o Peter é índio.

– Por que não? – ergui uma sobrancelha.

– Porque o papai e a mamãe não podem lutar um contra o outro. – ele protestou.

– Suponho que eu seja a mamãe. – ele acenou com a cabeça – E Peter o papai? – ele fez que sim, novamente.

Encarei Peter que tinha um sorriso malicioso nos lábios. Revirei os olhos.

– Sendo assim. – disse Peter e caminhou até o meu lado fingindo pegar a espada da minha mão. – Vamos à luta!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.