Um Lugar Chamado Lovelock
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Os dois dias seguintes correram normais, mas ambos sentiam-se como que pisando em ovos quando algum vizinho ou conhecido estava perto. Eles reconheciam os olhares desconfiados, os sorrisos contidos que lhes eram dirigidos e finalmente Stiles compreendeu porque a senhora Flatcher, que morava do outro lado da rua, andava o tempo todo com binóculos.
Era com o terceiro dia que Stiles estava preocupado, a primeira lua cheia em que passavam sozinhos, longe de Beacon Hills e dos membros do bando. Ele não tinha se dado conta do que aquilo poderia representar, ainda mais vendo Derek tão mais aberto, tranquilo e simpático com as pessoas em geral. Mas o lobisomem passou o dia ligeiramente mal humorado e conseguiu quebrar duas ferramentas na oficina. Isso não era um bom sinal.
Quando pensou que não poderia mais aguentar a energia que formigava sob sua pele, Derek trocou as calças sujas de graxa por um short de nylon preto e foi correr. Correu por toda a cidade, mais do que a hora habitual que fazia todos os dias.
Precisava tirar os pensamentos negativos da cabeça. Sua âncora não era mais a raiva de antes e temia que seus sentimentos pudessem fazer com que ele perdesse o controle. Queria mesmo arrumar um jeito de Stiles sair de casa naquela noite, para que ficasse longe e protegido.
Era isso, ele ia pedir para Stiles passar a noite fora. Depois de trancá-lo em um dos quartos, com mountain ash em volta de si de preferência. Voltou para casa determinado, mas estancou no passeio quando notou o rapaz na varanda da casa, com Arya ao colo e Ian de pé, um degrau abaixo dele.
Sentiu seu sangue ferver e Stiles olhou para ele no instante em que o lobisomem sabia que seus olhos estavam brilhando azulados. A expressão no rosto do rapaz era de choque e Derek teve que respirar fundo algumas vezes antes de andar até a varanda.
– Derek! – Ian sorriu largamente.
– Oi. – ele não se esforçou para ser simpático. A verdade é que todos os seus instintos gritavam para que ele arrancasse o sorriso do rosto de Ian com as garras por ele se atrever a entrar no espaço pessoal de Stiles.
– Estava aqui chamando Stiles e você para um cinema. Depois podemos ir jogar boliche.
– E eu estava falando para Ian que não é uma boa ideia. Pelo menos, não esta noite. – Stiles encarou o amigo com um olhar bem significativo.
Era essa a oportunidade que Derek precisava para tirar Stiles de casa. Ele poderia ir para o cinema e jogar boliche com Ian, Brian e Justin. Era perfeito. Derek nem teria que se dar ao trabalho de discutir com o rapaz sobre a necessidade de passar a lua cheia sozinho.
– Stiles disse que seus membros são descoordenados para o boliche. – Ian continuava falando – Mas já disse a ele que isso não é problema, posso ensiná-lo qual a melhor posição e...
– Não. – Derek se viu quase rosnando para o bombeiro – Obrigado, mas não. Sem cinema, sem boliche.
Ele entrou em casa deixando Ian confuso e só respirou fundo quando ouviu Stiles se desculpando, falando para o bombeiro que eles já tinham outros planos para hoje, que era a primeira lua cheia deles naquela casa.
Derek passou o resto do dia deitado na cama, o cheiro do cobertor que ele e Stiles compartilhavam era a única coisa que lhe trazia alguma paz. Quando a luz da lua brilhou no quarto, ele sentiu sua pele quase rasgar de dor.
Fazia anos já que não sentia a força da lua daquela maneira e o esforço para se conter, para manter o foco e não sair da casa era tanto que ele passou a andar de um lado para o outro. Antes que desse por si, um dos travesseiros havia sido estilhaçado e ele fugiu do quarto indo para o cômodo no fim do corredor.
Era o quarto de hóspedes, um dos lugares que eles quase não entraram desde que chegaram ali. O cheiro era estranho, um misto de poeira e cera para móveis e lhe dava uma sensação de pânico, de não reconhecimento.
Frustrado, Derek agarrou um abajur e o jogou na parede, derrubou uma cadeira no canto do quarto e teria partido o guarda-roupa em dois se a porta do cômodo não tivesse sido aberta o cheiro de Stiles o arrebatasse completamente.
Ele se virou para o rapaz, garras e presas a mostra, seu rosto completamente transformado e atravessou o quarto parando a poucos centímetros dele.
– Derek? – Stiles chamou em tom ameno.
O lobisomem rosnou para ele e uivou, ameaçadoramente.
– Saia daqui! – ele ordenou, entre dentes.
– E deixar você sozinho nesse estado? Só pode estar de brincadeira!
– É por causa desse estado que você tem que me deixar sozinho, Stiles. – ele atravessou o quarto, indo para o lado oposto à porta – Saia daqui. AGORA!
Mas Stiles nunca foi conhecido por fazer o que Derek queria. Em vez de obedecer ao lobisomem e deixar o quarto, ele entrou no cômodo, indo até a janela onde ele estava se apoiando, e tomou o rosto de Derek entre suas mãos.
– Somos só nós dois aqui, Der. Só eu e você. – a voz dele era alta o suficiente para se fazer ouvir por cima dos rosnados que o lobisomem emitia – Sei que não sou perfeito nisso, Der, mas por enquanto, me deixa ser a sua âncora.
Derek se calou e fechou os olhos.
– Olhe pra mim. – Stiles pediu, ainda em voz alta – Quero ver você olhando pra mim enquanto a gente faz isso.
O lobisomem sentiu-se impelido a fazer o que Stiles pedia. O toque das mãos do rapaz em seu rosto dava uma sensação de estabilidade, a pressão suave da pele quente, os calos conquistados pela prática de lacrosse, o cheiro do detergente que ele usava para lavar a louça da cozinha, tudo era simplesmente familiar.
Derek suspirou e abriu os olhos, o verde acinzentado voltando a suas pupilas. Stiles tinha o canto dos lábios tremendo, como se estivesse lutando contra um sorriso. Ele ergueu a mão e traçou as sobrancelhas de Derek com a ponta dos dedos.
– Ainda vou entender como elas desaparecem justo quando você deveria ser todo peludo.
A mistura de riso e rosnado foi uma resposta satisfatória na opinião de Stiles, que apenas se sentou no chão e puxou Derek para perto de si, colocando o lobisomem deitado em seu colo.
– O quê está...?
– Shiiii! – Stiles o interrompeu, fechando sua boca com o indicador – Estou ancorando você. Nunca fiz isso antes, você sabe. Mas se fosse comigo, se eu estivesse no seu lugar, ia querer que alguém me segurasse assim, com força, apenas para me manter seguro.
Derek se deixou levar, sentindo a ansiedade escorrer de sua pele a medida que sentia os dedos de Stiles passando por seu cabelo, traçando o contorno de seu rosto até que ele estava totalmente humano de novo.
Nas casas da vizinhança o barulho todo não passou despercebido, cada vizinho comentando os estranhos sons que o jovem casal fazia aquela noite. E na janela da casa ao lado, Brian suspirava, ouvindo pedaços da conversa e pensando que já há alguns anos que Justin não falava com ele daquela forma tão intensa.
Stiles e Derek não viram quando adormeceram, ainda sentados no chão do quarto. Não saberiam dizer, no dia seguinte, quando seus corpos mudaram de posição e Stiles acordou sentindo os braços de Derek ao redor de sua cintura e a respiração do lobisomem em sua nuca.
E depois que o sol finalmente se fez alto no céu e eles tiveram que levantar, ambos tinham consciência de que tinham cruzado uma linha tênue em seu relacionamento, mas ainda estavam atordoados pela força dos acontecimentos, como se vivessem uma grande ressaca emocional, para realmente conversarem sobre o assunto.
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