A leitura do testamento no dia seguinte foi absurdamente cansativa. Nem Stiles, nem Derek conseguiram dormir, estranhando o colchão, os travesseiros, o cheiro da casa, o silêncio bizarro do lado de fora do imóvel. Acabaram os dois na sala, recostando-se um no outro para ver TV e cochilar até amanhecer.

April e o doutor Agramanel Parks foram buscar os dois faltando 15 minutos para os oito horas. Andaram menos de cinco minutos de carro, passando três quarteirões, até chegar ao fórum, onde seria feita a leitura.

Não tinha nada de diferente do que o advogado já havia especificado na carta enviada para o xerife na semana passada. O tio-avô de Stiles o nomeou como único herdeiro, deixando a casa, o carro que estava na garagem, os bens de família (que incluíam um baú vindo da Polônia, dois quadros de um artista que Stiles nunca tinha ouvido falar, a prataria e os cristais que estavam na copa) e o dinheiro que estava em sua conta bancária.

A cláusula de que ele teria que ficar no imóvel por dois meses, realmente existia, mas ele poderia usar o dinheiro do banco para se manter enquanto isso. Saíram do fórum pouco depois das dez da manhã, após assinar toda documentação, e foram direto para o banco. Stiles recusou a carona do advogado e disse que preferia caminhar e conhecer a cidade.

Na verdade não havia muito a conhecer. Stiles fez um pequeno saque de dinheiro, apenas para as compras, e foi com Derek ao supermercado. Pegaram um carrinho grande, que o lobisomem ia empurrando, enquanto Stiles pensava no que podiam precisar.

– Isso tem muito açúcar. – Derek o repreendeu quando viu o rapaz colocar uma caixa de cereal no carrinho.

– Você vai me fazer comer granola?

– Não, mas pelo menos você podia manter os mesmos hábitos que tem em Beacon Hills e deixar o açúcar para o fim de semana.

– Ok, ok, Mister Saúde. – ele devolveu a caixa para a prateleira – Mas nem pense em me proibir de comer kit kats durante a semana.

– Jamais faria isso com você. – Derek respondeu, virando-se para pegar um pacote de biscoitos.

– É por isso que eu te amo, sourwolf! – Stiles sorriu.

– Oh meu Deus! – uma voz estridente soou atrás deles e os dois se viraram para ver uma mulher magra, com os cabelos presos num rabo de cavalo, calça jeans muito justa e camisa social com dois botões abertos, formando um decote indiscreto – Você é o sobrinho do Jed! A Carmela não havia exagerado.

– Oi? – Stiles ergueu uma sobrancelha, confuso com a reação da mulher que os media de cima a baixo.

– Carmela, sua vizinha. Ela me ligou hoje de manhã para marcar hora no meu salão, vai ter baile no country club este fim de semana e ela não gosta de ir sem retocar a balaiagem. Enfim, ela comentou comigo sobre os novos vizinhos, falou que vocês eram uma graça. E ela não mentiu. Me desculpe, estou falando sem parar né? Mal de cabeleireira. Minhas clientes esperam que eu fale muito. Prazer, sou Cindy.

Os dois aceitaram o cumprimento e se apresentaram adequadamente.

– Espero que vocês apareçam no baile. Mesmo não sendo sócio do clube, podem pagar 15 dólares e entrar. A cidade inteira vai estar lá. E é bom para conhecerem gente da sua idade. Agora vou deixar vocês voltarem para suas compras. Beijinhos, rapazes.

Os dois continuaram suas compras, discutindo vez ou outra sobre a marca de leite, da manteiga de amendoim, o tipo de carne e o sabor das massas congeladas. Ainda pegaram ração para Arya, produtos de limpeza e itens de higiene pessoal.

– Não se esqueça de pegar o limão. – Derek lembrou do cheiro da geladeira.

– Ah sim, limão e bicarbonato. E depois sorvete. Nós merecemos sorvete, Derek.

– Só se for de chocolate com amêndoa. – o lobisomem quase sorriu sabendo que Stiles concordaria com ele.

– E existe sorvete de outro sabor? – o rapaz piscou e foi para o freezer pegar dois potes da iguaria.

Passaram as compras pelo caixa e Derek retirou a carteira do bolso para pagar, já que Stiles tinha saído de casa sem carteira e achou melhor guardar o dinheiro com o lobisomem. Depois de tudo acertado, a caixa do supermercado perguntou:

– Vocês vão levar ou quer que mande entregar?

– Pode mandar entregar. – Stiles decidiu e se virou para Derek – Não estou afim de pegar táxi de novo.

– Sim, caminhar vai fazer bem para você. É melhor gastar um pouco de energia na rua, senão acho que não dou conta de você em casa. – Derek brincou e Stiles fez cara de ofendido.

Quando se viraram para agradecer, notaram que a garota estava ruborizada, mas Stiles achou que era apenas o fato de que todas as pessoas ficavam assim quando Derek sorria. Eles se despediram e ela, se recuperando do constrangimento, respondeu:

– Até mais, Stiles e Derek!

Do lado de fora do supermercado, Stiles comentou:

– Não sei o porquê, mas tenho a sensação de que até sábado, a cidade inteira vai saber sobre a gente.

Stiles não estava errado com sua previsão. Na verdade, era como se ele e Derek fossem duas celebridades porque não eram raras as vezes em que eles pegavam alguém na frente da casa, olhando atentamente para as janelas.

Quando Derek descobriu que o carro na garagem era um Corvete conversível, ano 53, com todas as peças originais, ficou eufórico. Stiles implicou com ele, dizendo que era possível ver a cauda balançando de tão excitado que o lobisomem ficou.

Não era para menos, o carro era uma raridade. Pelo visto, o fato de morar numa cidade tão pequena fazia com que o velho Jed quase não usasse o veículo. O couro do banco ainda era original e os pneus com faixas brancas também eram de fábrica.

– Stiles, você conhece esse carro? – Derek tentou explicar a situação para o rapaz – Você por acaso sabe que carro é esse?

– Anh... – o rapaz franziu a testa – Um carro velho?

– Um carro velho? É isso que você acha? Esse corvette é mais que um carro velho, é praticamente um item de colecionador. Só foram produzidos 300 unidades desse modelo. Se eu conseguir fazer esse carro funcionar, você paga sua faculdade só com o dinheiro da venda do veículo.

Stiles ficou chocado quando soube que só o carro poderia ser vendido por quase 400 mil dólares e ficou mais empolgado que Derek. Eles tentaram ligar o carro, mas o motor se recusou a funcionar. Assim, o lobisomem saiu no dia seguinte em busca de ferramentas para consertar o veículo.

A primeira coisa a fazer era empurrar o carro para o lado de fora da garagem que era muito escura e apertada para Derek trabalhar. Stiles fingiu ajudar nessa parte, já que os vizinhos não tiravam os olhos deles e seria estranho explicar como Derek conseguia empurrar o veículo sozinho.

De todo o jeito, o movimento na frente da casa deles aumentou consideravelmente. Era de se esperar: Derek Hale de macacão jeans, sujo de graxa, suando ao sol.

– Isso é quase um filme pornô. – Stiles resmungava, enquanto jogava bola com Arya.

– Você não devia reclamar. – Derek respondeu – Tem uma coleção considerável de pornografia no seu notebook.

– Você mexeu no meu notebook?

– Desculpe, perdi o sono ontem e não tinha nada pra fazer.

– Você podia ter me acordado em vez de mexer nas minhas coisas.

– Não ia acordar você. Faz uma semana que não dorme direito e ontem foi a primeira noite que você conseguiu fechar os olhos antes das duas da manhã.

Stiles sorriu, pensando que era engraçado ver Derek cuidando dele. Não que um não tivesse cuidado do outro antes, mas nas outras vezes era apenas uma questão de vida ou morte e ali era apenas preocupação com o bem estar. Trivialidades.

Naquele momento Stiles percebeu que ele e Derek eram mesmo amigos. Eles se gostavam, se importavam, cuidavam um do outro. Ou melhor, Derek cuidava dele.

E o rapaz se sentiu péssimo. O lobisomem havia deixado sua casa e seu trabalho para trás apenas para que Stiles não ficasse sozinho naquele fim de mundo. Estava cuidando do carro para que ele pudesse vender. E até então não tinha dado mostras de mau humor exagerado.

E o que Stiles tinha feito para retribuir isso? Nada. Absolutamente nada. Sabia que Derek não ia dormir direito porque o cheiro da casa o incomodava, sabia que ele não ia sair para seus exercícios físicos para não lhe deixar sozinho. Ele precisava dar um jeito de tornar as coisas mais fáceis para Derek também.

Levantou do degrau da varanda onde esteve sentado pela última meia hora e foi para dentro de casa. Vinte minutos depois voltou com uma jarra de limonada e alguns sanduíches de atum, pepino e mostarda que ele sabia ser o preferido de Derek.

– Descansa um pouco, Sourwolf. – ele chamou, colocando a bandeja com a comida no chão da varanda e lançou uma toalha para Derek se limpar.

O lobisomem olhou para Stiles com o rosto inexpressivo, serviu um copo com a limonada gelada e pegou um sanduíche.

– Obrigado.

Ele pareceu tímido ao agradecer, o que fez Stiles sorrir e começar a comer também. Ficaram em silêncio, apreciando aquele piquenique improvisado na varanda de casa, jogando pedaços de pão para Arya que veio se sentar com eles. Nenhum dos dois fez qualquer comentário, mas foi a primeira vez desde que chegaram a Lovelock que se sentiram em casa.

Mais que isso até. Eles não se sentiram apenas em casa, eles se sentiram próximos, unidos. E foi uma mudança tão significativa na relação dos dois que naquela noite, quando Stiles arrastou seu travesseiro e cobertor para a cama de Derek e chutou o lobisomem para que ele desse espaço para se deitar, o outro apenas se deslocou mais para a esquerda da cama, sem falar nada.

Derek dormiu a noite inteira.

Notas finais
Sim, eles estão virando "celebridade" na cidadezinha...rs...