Um Lugar Chamado Lovelock
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Stiles falou rapidamente com o xerife enquanto destrancava a porta e entrava na casa. Esperou Derek entrar com a bagagem e riu quando Arya correu pela sala, já pulando numa poltrona vermelha perto da lareira, rolando na almofada escura e parecendo satisfeita com o que certamente se tornaria sua nova cama.
Só então é que se permitiu realmente olhar para a primeira parte da sua herança. A sala era simples, apenas um sofá grande, marrom, a poltrona vermelha que Arya alegou para si, duas outras cadeiras com estofado estampado e uma mesa de centro de madeira escura sobre um tapete persa.
Havia ainda uma TV de tela plana, 42 polegadas, um aparelho de DVD que tinha tanto pó em cima que Stiles suspeitava nunca ter sido usado. Alguns porta retratos sobre a lareira e muitos outros pendurados pelas paredes cobertas com um papel antigo, verde claro e bege. Nas janelas, cortinas pesadas e entre elas, mesinhas com vasos de plantas já bastante desidratadas, quase secas. A luz vinha de um lustre composto por pequenos cristais pendurados em uma estrutura metálica pintada de dourado.
Derek abriu as cortinas e as janelas, dizendo que o cheiro ali era sufocante. Stiles não achou muito estranho, era como se de repente suas lembranças, mesmo as menos claras, tivessem agora um perfume.
Eles foram conhecer o resto do imóvel. No primeiro andar encontraram a sala de jantar, composta por mais cortinas escuras, uma mesa de mogno coberta por uma toalha de crochê e com um candelabro prateado no centro. Ao redor da mesa, oito cadeiras de espaldar alto pareciam muito desconfortáveis. Na parede oposta às janelas, uma cristaleira cheia de taças, copos, baixelas de prata e utensílios de porcelana.
Havia um lavabo consideravelmente moderno perto do que eles já tinham visto até ali, uma porta que devia dar para o porão e mais adiante a cozinha que era maior que a da casa do rapaz e foi o cômodo que ele mais gostou até aquele momento.
Perto da grande janela decorada com uma cortina artesanal colorida, ficava a pia com duas cubas, mais à direita um fogão grande e um forno-elétrico. Sem micro-ondas. A geladeira era uma duplex branca, com alguns ímãs na porta e um enfeite que chamou a atenção de Derek.
– O cara era seu parente mesmo. – Derek comentou.
– O quê?
– O dono da casa. Só alguém com o seu DNA pra ter o Pinguim, do Batman, em cima da geladeira.
Stiles sorriu para o comentário e foi para a geladeira. Só quando abriu a porta que se lembrou de que o tio havia morrido há mais de uma semana, isso depois de passar quase um mês no hospital, e com certeza ninguém se lembrou de limpar o eletrodoméstico.
Provavelmente, nem mesmo a água nas garrafas estava própria para consumo, já contaminada pelo cheiro da comida estragada ali dentro. E Derek mais uma vez saiu para abrir portas e janelas, sentindo o estômago embrulhar com o cheiro ruim.
– Deus, não acredito que a primeira coisa que vou fazer nesse lugar é limpar a geladeira. – o menino resmungou – Faz alguma coisa de útil e olha no Google como tirar cheiro ruim disso aqui.
– Você vai limpar isso sozinho? – Derek arqueou as sobrancelhas.
– Você tem um focinho mais sensível do que a Arya. Não vou te torturar tanto assim. – ele respondeu sem ao menos se virar para o mais velho, puxando uma caixa de pizza que ele não quis abrir com medo de ficar traumatizado e nunca mais querer comer aquele tipo de alimento.
Derek conteve o sorriso e fez o que Stiles pedia, pensando que era fácil conviver com uma pessoa como ele. Apesar de tudo de irritante que o rapaz tinha, como falar alto, fazer piadas de cachorro com ele o tempo todo, sua principal característica era se preocupar com os outros, mesmo em coisas pequenas como o mau cheiro da geladeira.
– Aqui diz para misturar café com limão e deixar 24 horas na geladeira. E depois manter um pote de bicarbonato de sódio por mais 3 dias. – Derek instruiu, apoiado na porta que dava para o quintal.
– Você consegue entrar aqui na cozinha e procurar o pote de café? Limão a gente consegue amanhã cedo em algum mercado. – Stiles pediu, enquanto jogava no lixo dois potes de plástico sem sequer se atrever a abrir para ver o que tinha dentro.
Derek prendeu a respiração e entrou na cozinha, abrindo os armários embutidos para procurar o café. Encontrou alguns instantes depois, mas continuou vasculhando para ver o que mais achava ali.
Enquanto Stiles se concentrava na tarefa de jogar tudo fora, legumes podres, verduras já melando em seus pacotes, ovos, leite, suco de laranja e água, além de um vidro de maionese, um pote de manteiga de amendoim e dois de geleia de uva e morango, Derek colocou sobre a pequena mesa redonda tudo o que tinha nos armários e separou em duas pilhas, uma para os alimentos dentro do prazo de validade e outra para tudo o que deveria ser jogado fora.
Não era muita coisa, mas eles tinham dois pacotes de oreo, três potes de café, macarrão instantâneo, açúcar e achocolatado. Para descartar, Derek colocou toda a comida enlatada que encontrou, além dos pacotes abertos de outros produtos como farinha de trigo, açúcar mascavo e mistura para panqueca.
O que deu mais trabalho foi limpar o freezer. Todos os alimentos estavam devidamente congelados, mas o cheiro ruim na cozinha era tão grande que nenhum dos dois teria coragem de comer qualquer coisa que saísse de lá. Foram duas peças de carne, um pacote de asas de frango e dois quilos de linguiça direto para o lixo.
Gastaram mais de uma hora e meia na limpeza da cozinha, porque depois que Stiles jogou tudo fora, ele ainda fez questão de desligar o aparelho da tomada e lavar as prateleiras com detergente.
Stiles amarrou o grande saco de lixo preto e foi para o quintal deixar tudo o mais longe possível do focinho sensível de Derek. Quando voltou para a cozinha, olhou o que sobrou de comida na casa e fez uma careta:
– Eu nunca vou ficar satisfeito com macarrão instantâneo e oreo, só para constar.
– Como se eu tivesse alguma dúvida disso. Deve ter uma lista telefônica na casa e nós podemos pedir uma pizza e depois sair com a Arya.
– É uma excelente ideia. Vou só ao banheiro enquanto você liga pro...
Mas ele não terminou de falar, porque naquele momento a campainha tocou. Stiles ergueu a sobrancelha e Derek fez um gesto indicando o lavabo para ele, enquanto se dirigia para a sala.
– Carmela? — ele indagou, sem saber se ficava mais surpreso com a presença da vizinha ou com o aroma incrível de carne cozida que desprendia da panela que ela segurava com luvas térmicas.
– Oh, Derek não é? – ela sorriu de um jeito que ele lembrava sua avó costumava fazer sempre que tinha um doce escondido no bolso do vestido – Pensei que vocês chegaram tarde demais e...
– Carmela! – uma outra voz de mulher soou atrás da primeira, mas parecia ligeiramente irritada – Não acredito que copiou a minha ideia. Eu falei a você que traria alguma coisa para os meninos comerem.
– Não copiei a sua ideia, você disse que faria uma lasanha de boas vindas e eu fiz uma caçarola de boas vindas. São coisas diferentes! – Carmela respondeu com um tom naturalmente cínico e um sorriso forçado.
A outra vizinha subiu os degraus da varanda e Derek pôde ver que ela era um pouco mais jovem e mais robusta, com um vestido floral avermelhado e o avental preso a cintura. Seus cabelos eram arrumados num penteado arredondado que lembrava um capacete e ela tinha as bochechas salientes e rosadas. Atrás dela, um homem meio acanhado vinha arrastando suas sandálias de couro, calças xadrez que pareciam de pijama, uma camisa cinza e um roupão felpudo azul escuro.
– Olá, querido! – a vizinha mais nova falou – Sou Tamara, e este é meu marido, Orson.
– Ah... Muito prazer! – ele parecia apavorado.
Foi nessa hora que Stiles resolveu aparecer, para alívio de Derek. Parou um passo atrás do lobisomem, a expressão curiosa vendo tanta gente em sua varanda, além do cheiro de comida que fez seu estômago roncar indiscretamente e arrancou de Derek um olhar ofendido, como se ele tivesse feito aquilo de propósito.
– Stiles! – Carmela sorriu, se aproximando dos meninos e passando por eles para entrar na casa – Não se preocupe, conheço o caminho da cozinha. Vinha muito jogar canastra com seu tio.
– Oh, ok! – ele balançou a cabeça, confuso.
– Ah eu também vim muito aqui! – a outra mulher comentou, seguindo a mais velha – Orson e Jed assistiam aos jogos da liga nacional todas as semanas.
O homem ali seguiu a esposa, dando de ombros, como se não tivesse mais opção, deixando os dois verdadeiros moradores da casa ainda parados na entrada. Stiles foi o primeiro a sair do torpor e seguiu o resto da comitiva que invadiu a residência, dando um puxão na camiseta de Derek para que viesse junto.
– É... oi! Vocês são...? – ele questionou, já que havia perdido as apresentações na varanda.
– Ah sim, eu sou Tamara e este é Orson, somos seus vizinhos da esquerda. E fiz esta lasanha, receita de família, para dar as boas vindas. Imagino que, como chegaram tarde, não tiveram tempo de fazer compras então pensei, por que não? Aqui está, espero que apreciem! Vocês comem carne, não é? Aqui tem carne desfiada, presunto, bastante queijo e um molho feito com tomates orgânicos da minha própria horta.
Derek arregalou os olhos pensando que finalmente tinha conhecido alguém que falava tanto quanto Stiles.
– Ah, mas a lasanha pode esperar. Tenho certeza que eles vão preferir o cozido que eu fiz, com carne de primeira qualidade e legumes que vêm direto da feira municipal. Coloquei brócolis, alguma abobrinha, cenouras, batatas e o tempero especial. Esse cozido já foi premiado na cidade! – Carmela empurrava a caçarola contendo o alimento na direção deles.
Derek parecia constrangido sem saber qual vasilha aceitar e as duas mulheres tinham uma postura quase feroz, ansiando a escolha, até que Stiles resolveu a situação.
– Nada melhor que lasanha com cozido! – as duas ergueram as sobrancelhas – Sabe como é, sou um rapaz ainda em fase de crescimento aqui e o Derek come como um lobo, né sourwolf?
Stiles sorriu para a carranca que Derek assumiu, mas apoiou a mão sobre seu ombro esquerdo mesmo assim, sorrindo para as vizinhas.
– Sim! – Derek acabou concordando, mesmo ainda levemente emburrado – Eu gasto muita energia ás vezes?
– Oh, eu imagino! – foi a primeira vez que Orson falou desde que chegaram e sua voz era grave e num tom carinhoso – Temos um filho como você e sempre que ele vem pra casa, Tamara o enche de comida.
– Mas Brian precisa de todo alimento e amor do mundo! Você sabe que a vida dele não é fácil, mesmo que ele tenha conseguido se ancorar em Justin.
E foi a primeira vez que Carmela sorriu verdadeiramente amistosa para a vizinha e esta devolveu o olhar compreensivo com um suspiro resignado, enquanto Derek franzia a testa pensando se o tal Brian era um lobisomem também, embora ele não tivesse sentido cheiro de nada mais canino do que a própria Arya que estava dormindo no sofá. Seria possível que aquele simpático casal de velhinhos tinha um filho lupino e ainda compreendiam a importância de uma âncora?
– Onde seu filho mora? – Stiles deve ter pensado o mesmo que Derek, querendo ter mais informações sobre o rapaz.
– Em São Francisco. Mas vocês devem conhecê-lo em breve. Ele e Justin vêm passar uma semana conosco dentro de uns quinze dias. – Orson respondeu e virou-se para a esposa – Devemos deixa-lo, Tamy! Eles vão precisar acordar cedo amanhã, a leitura do testamento do Jed vai ser por volta das oito, segundo as palavras da April.
– April? – Stiles não tinha ouvido aquele nome em lugar nenhum além das Tartarugas Ninja.
– Sim, a secretária do advogado do Jed. Uma moça muito gentil. – Carmela explicou – Mas Orson tem razão! Vocês precisam descansar. Lembrem-se, qualquer coisa que precisarem, é só bater ao lado.
– Sim, só bater em qualquer um dos lados! – Tamara sorriu e deixou a residência, junto com os outros.
Derek e Stiles os acompanharam até a varanda e ainda ficaram observando os vizinhos entrarem em suas casas.
– Vem, vamos comer! – Stiles deu um tapinha no ombro de Derek e foi para a cozinha, enquanto o lobisomem fechava a porta.
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