Um Lobo e Uma Ovelha
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Notas iniciais
Quando percebeu, não era nada. Não sentia nada. Nem dor, nem arrependimento, nem nada.
Sentia-se flutuando, e todo o seu mundo resumia-se àquela face tão adorável, àquelas mãos puxando seus cabelos delicadamente, enquanto se deixava queimar pelo fogo daquele corpo sempre tão frio.
Até que veio... A consciência.
E então... O nada....
Os olhos abriam-se lentamente. Desistiram no meio do caminho, voltando a fechar.
Nova tentativa, dessa vez com maior decisão, dois pontos azuis mostrando-se por debaixo das pálpebras pesadas, apenas para voltarem a se esconder, repentinamente.
Abrir os olhos doía.
Incomodava.
Tentava encontrar algo em que se apoiar, em sua própria mente, que lhe motivasse a abrir a porcaria dos olhos.
Nada.
Flashes, confusão, caos.
Felicidade.
Felicidade?
Com considerável esforço, conseguiu erguer a cabeça, e essa pesava pouco mais de umas trocentas toneladas. Estava tudo muito escuro... E mesmo assim via dezenas de pontinhos coloridos dançando à sua frente, debochando de si. Onde raios estava? Qual era mesmo seu nome? Que horas eram? Onde estava seu chocolate?
A boca estava seca. Algo entre o amargo e o doce. Entre prazer e arrependimento. Entre uma ressaca e um deliciosa embriaguez.
Tentou erguer o tronco, mas sentiu algo pesando, e simplesmente se deixou cair novamente sobre... Aquilo...Meio macio, meio duro... Que cheiro era aquele? Era familiar...
Tentou agarrar o que quer que estivesse sobre sua barriga, impedindo que se levantasse, e seus dedos se enfiaram em algo extremamente macio. Tentou puxar, pensando se não seria, sei lá, uma almofada obesa, quando ouviu um gemido de protesto, e sentiu sua cintura ser um pouco apertada.
... Mais hein?
Foi quando, afinal, seu cérebro levou um ponta pé e resolveu funcionar um pouco, expulsando os pontinhos farristas, pondo ordem na casa e conseguindo avisá-lo sobre certos detalhes até então obscuros.
Como o fato de estar sem camisa.
Como o fato de que aquela coisa não identificada que estava sobre si ser um tanto quanto quentinha.
Como o fato de que aquilo no qual estava deitado, incomodamente aliais, era um sofá.
Como o fato de seus dedos estarem incrivelmente melecados, grudentos até.
E, afinal, como o fato de que alguma coisa estava errada ali...
Ouviu um longo e demorado bocejo e seus olhos, que estavam começando a se acostumar com a escuridão, encontraram-se com dois outros, igualmente confusos e curiosos.
Negros. Com toques azulados e um pouquinho de vermelho ao redor, aliais.
Certo, ainda estava escuro para que pudesse ver tanto, não? Mas é que...
Os olhos eram os... Dele.
-...Near?- questionou, os olhos, que lhe haviam custado tanto a abrir, meio arregalados.
-...Mello...- respondeu, e este pensou ver um delicado sorriso tentando aventurar-se na face ainda adormecida.
...
Os dois se encararam por alguns segundos, ainda naquela posição.
... Impressão sua ou tinha algo meio errado ali?
- O que você está fazendo em cima de mim!?- berrou, tentando soar autoritário, mas um tom mais agudo do que pretendido. Nervosismo? Raiva.
Certa surpresa tomou os olhos negros, e a sombra do sorriso sumiu de imediato.
- Não grita...- protestou, tampando os ouvidos e escondendo o rosto no peito desnudo do outro, inconscientemente.
- Para de se esfregar em mim!! Aliais, sai dai!- berrou de novo, sua voz também lhe incomodando. Garganta rasgando, cabeça estourando.
Com uma cara meio resignada, mas parecendo aborrecido... Aborrecido?, Near começou a se mexer, e Mello sentiu-se mais incomodado.
Percebeu que o outro estava alojado no meio de suas pernas.
- Vai sair ou não?- sentia um pequeno calor subindo-lhe ao rosto, transparecendo em sua voz, angustiada, quase. Por quê?
Na verdade, era uma reação justificável.
Mas isso não importava.
-...
- O que foi, sai logo dai!- ordenou, remexendo-se, como se fosse tentar empurrar o pirralho para o chão, mas sem realmente o fazer.
Ele não o faria, mesmo
-... Mello, eu não estou com as minhas calças.- foi tudo o que disse, numa voz baixinha e... Tímida? Seria essa a palavra?
-... Como assim você está sem calças? Cadê suas calças? O que você está fazendo sem calças em cima de mim??- apoiava os cotovelos nos braços do sofá, onde sua cabeça antes repousava, erguendo o corpo para olhar melhor aquela criatura que baixara a cabeça, os fios alvos sendo tudo o que Mello podia ver.
- Talvez o mesmo que você esteja fazendo sem camisa debaixo de mim –respondeu, despeitado.
- Não quero nem saber das suas calças, quero que você saia de cima de mim.- afirmou, mantendo o controle sobre a voz.
Pode ver os olhos se revirando, e estão, languidamente, o menor foi se arrastando para fora dali... Ah, mas estava tão quentinho... Realmente, Near sentia-se bem ali...
Corou com aquele pensamento, e, por conta de certas cenas que invadiram sua mente, puxadas por aquela única sensação, acabou agindo ainda mais devagar, sem perceber, usando as coxas de Mello como apoio para erguer-se, apertando-as sem querer.
- SAI LOGO DE CIMA DE MIM!!- esperneou, irritadíssimo, justificável, terrivelmente vermelho.
Vergonha?
Assim que se viu livre, logo pôs-se de pé, caindo de volta no sofá quase no mesmo instante, tonto, os pontinhos coloridos filhos da mãe voltando com toda a força e farronisse.
Near não estava em situação lá muito melhor. Seu reflexo seria sentar-se no chão, a cabeça doía horrores, mas, bem, tinha um pequeno detalhe não muito agradável que o impedia.
Puxava a blusa que costumava vestir para baixo, tentando cobri-se tanto quanto possível, agradecendo aos céus por esta ser maior do que o necessário. Foi quando suas mãos relaram nas coxas, ainda quentes, e percebeu algo melado ali...
Tinha se esquecido.
Aquilo poderia ser um inconveniente mas, ao mesmo tempo, era um prova.
Mais uma.
- Mello... Onde nós estamos?- ao contrário do loiro, sua voz saia neutra, sem esforço. Não é como se soubesse fingir melhor. Simplesmente eram diferentes.
Bem diferentes.
- Não faço a menor idéia- respondeu por responder, jogado no sofá, o braço cobrindo o rosto...- Só estou sentindo cheiro de chocolate... Muito cheiro de chocolate...
Near levou os dedos lambuzados à boca e os lambeu demoradamente.
Como ele podia ser tão lerdo?
...
Não, ‘’lerdo’’ não era bem o termo, senão seria mais fácil.
‘’Cego’’, talvez?
Pré-potente, orgulhoso, teimoso, cabeça-dura? Tudo isso era digno.
Sempre se deixando levar pelos sentimentos...
E depois, ainda reclamava.
Mello sentiu suas mãos sendo agarradas, e antes que pudesse processar alguma coisa lógica, fosse ação, resposta, ou mesmo reflexo, sentiu algo quente e úmido passando por seus dedos.
Near... Estava... O lambendo?
- ...Chocolate...- a voz saiu com ares de explicação, ou melhor, reflexão. Sedução? Não!
Sem lhe dar tempo para que pudesse pensar, aquelas mãos atrevidas se arrastavam novamente pelas suas coxas, passando por todo seu abdômen e subindo até passar por seus lábios. Pode sentir um dos dedinhos contornando-os, e pode ver Near levando-o até sua própria boca depois...
- O q-que você está fazendo?- merda de voz tremida!
- Tem chocolate nas suas coxas, provavelmente saiu das minhas, já que eu estava deitado em você. Mas não tem nada no resto do seu corpo, a não ser na sua boca e nos seus dedos. Mas isso não faz muito sentido. Que dizer, na sua boca tudo bem mas nas minhas coxas não.
Ah, certo, era o Near.
O cara que acorda deitado em cima de outro, sem calças, se agarra na cintura deste, faz carinha de pidão e ainda tem a capacidade de analisar tudo friamente.
...Friamente?
Questão de opinião.
Mello lambeu os lábios, sentindo aquele gosto conhecido... Hum... Vício. Descarado, despudorado, aberto e declarado.
Tudo nele era assim, óbvio, gritante.
Mesmo que ele não soubesse.
Levantou-se, mais lentamente dessa vez. Impulsivo, não burro.
Sem muito esforço, pode encontrar uma cortina que foi prontamente puxada. A janela estava teimosamente emperrada, parecendo rir das tentativas daquele loirinho semi-nu, mas Mello não ligou muito. Precisava, pelo menos, enxergar decentemente o lugar onde estava... O vidro estava terrivelmente empoeirado, o que dificultava a passagem dos parcos raios solares, atrevidos, que conseguiam passar por espessa fileira de nuvens pesadas com jeito de tempestade.
Ao menos, já servia para que pudesse perceber que parecia estar em uma das salas de brinquedos do orfanato, uma das mais abandonadas, diga-se de passagem. E, ao que tudo indicava, aquele era um fato... Relevante.
A quem tentava enganar?
Mas não era só isso que a luminosidade lhe revelara. Suas orbes azuis surpreenderam um garotinho pálido tentando esconder as coxas, coisa que fazia mal, parado num canto, a expressão vazia com ares de reflexão.
Mergulhado em algum pensamento profundo, como sempre.
Mello nunca conseguia penetrar naqueles olhos.
Como se quisesse...
Ele que morresse afogado em sua maldita profundidade!
....Garoto complicado.
Decidido, desviou-se daquela cena, e o outro achava ‘’divertido’’ o quanto aquele ser podia ser previsível...
Na verdade, a regra básica de Mello era que nunca se deveria confiar plenamente em suas ações.
Sem limites, fiel à si mesmo, acima de tudo.
Quase sorriu, enquanto o admirava, é, admirava, olhando ao redor, analisando aquela cena de caos. Tentava adivinhar sua linha de raciocínio.
...Céus...
Algumas muitas garrafas e latas de bebidas, as mais variadas coalhavam o chão, numa mistura caótica com brinquedos, maços de cigarro, pratos, alguns potes que pareciam ser de geléia e pecinhas de montar. Tudo muito sujo, empoeirado, abandonado e até quebrado.
Mas uma garrafa em especial, naturalmente, poderia-se dizer, chamou a sua atenção.
Não só por ser a única que ainda não tinha uma valorosa camada de pó por cima.
Foi mais algo como ‘’intuição’’.
Ou apenas por ser o Mello mesmo.
Com simplicidade, levou a boca e sorveu todo o líquido que ali ainda havia.
Nada mais nada menos que chocolate derretido... Ou algo assim.
Com um gosto meio incomum, mas isso não importava no momento.
-... O que aconteceu aqui?- falava consigo mesmo, mas em voz alta. O chocolate parecia ter conseguido clarear sua mente, e agora, só precisava raciocinar. Um plano perfeito, não?
- Não sei... Mas parece que estamos presos.- foi a resposta, fria, prática e objetiva. Near.
-Quê!?- deixou a garrafa cair, correndo para a porta.
Entretido com o chocolate, sequer reparara em Near encaminhando-se para a porta. Com toda a sua sutileza recheada pela ressaca, forçou a maçaneta, mas estava trancada.
Tentou de novo, com mais força. Hunf, Wammy’s e suas portas à prova de gênios rebeldes...
- Também não acho que adiante muito gritar... – Near observou- E você só está conseguindo lambuzar a maçaneta com chocolate.
- Cala a boca, Near. Eu, pelo menos, estou fazendo alguma coisa.
- Lambuzando a maçaneta de chocolate.
Mello queria poder acertar aquele idiota com alguma coisa, uma das garrafas no chão, quem sabe?
Mas não parecia a melhor opção no momento.
Novamente: Impulsivo, não, necessariamente, burro.
Nem com vontade de ser indiciado por homicídio.
-... Mello, você não se lembra do que aconteceu ontem?- perguntou repentinamente, mas no mesmo tom de sempre.
- Não.- não lembrava mesmo, e ai?
- ...Nada?- insistiu, e Mello pensou ver as sobrancelhas se aproximarem, numa expressão... Concentrada? Ah, que seja.
- Não, não lembro de porra nenhuma.
- ...- os olhos pareciam estreitar-se. Como se estivesse diante de um quebra-cabeças particularmente complexo. Se bem... Nunca um enigma era complicado o suficiente para Near.
Aquilo só o incitava mais.
- Responde logo, lembra ou não?
Lentamente, Near aproximou-se, olhando pra baixo.
Mello apenas o encarava, algo entre curioso e de saco cheio.
Duas mãos estranhamente quentes foram levadas à seus ombros.
Ele realmente sentia ímpetos de bater naquele atrevido, apenas agressão, nada de (muito) sangue, mas sentiu os dedos avançarem para sua nuca, aprofundarem-se nos fio loiros num doce carinho.
Não que ele estivesse aceitando aquilo, ok!? Só ficou surpreso.
E mais surpreso ainda quando Near o encarou profundamente.
Mas... Aquele não parecia Near.
Não muito, pelo menos.
A começar pelos olhos, sempre lapidados e analíticos, recobertos por uma suave névoa que Mello não sabia precisar de onde vinha, nem o que pretendia esconder, só sabia que estava ali.
Depois, tinha o rosto, que antes ele acreditaria sem retrucar se lhe dissessem ser feito de mármore e gelo, com uma aparência tão suave, convidando ao toque, um calor desprendendo-se, fazendo seus pensamentos lógicos derreteram pouco a pouco, fazendo-o se hipnotizar pelo terceiro fato: os lábios. Sempre tão simplórios, Mello percebeu estarem levemente inchados, avermelhados, e até pareciam ter uma pequena ferida, além de suavemente abertos, puxando o ar num suspiro lânguido que fez todo o seu corpo tremer.
-...Near?
E ele percebeu que os pés do pequeno ficaram na pontinha para alcançar seu rosto, e sentiu uma atrevida língua, quente e úmida, percorrendo-lhe a bochecha, fazendo o caminho de volta em beijinho rápidos e silenciosos, que chegavam aos cantos de seus lábios tensos e secos.
E... Não conseguiu fazer nada.
Nem quando as mãos se tornaram mais possessivas, puxando-o mais pra perto ainda, sentindo aquele corpo que estava acostumado a tocar com fúria aproximar-se levemente, sentindo algo roçar-lhe no meio das pernas e uma boca tímida explorar-lhe o pescoço.
Deixou-se encostar na porta, as mãos caídas ao lado do corpo, os olhos querendo fechar-se enquanto aquele desconhecido o tocava.
Pode sentir aquele mesmo dedo que passara em busca de chocolate contornar seus lábios, a outra mão ainda presa a seus cabelos, antes que um hálito quente e com o delicioso frescor do chocolate se aproximasse perigosamente.
Sentiu o gosto, familiar.
Suas mãos chegaram mesmo a erguer-se, tencionando envolver aquela pessoa que mal conhecera, já adorava, quando tudo se acabou, e viu-se sozinho, recostado num pedaço desgraçado de madeira.
- Lembrou de alguma coisa?- ouviu o infeliz perguntar, simplesmente.
Mello ficou sinceramente furioso!
Ok, ok, se deixara levar, provavelmente Near tinha colocado alguma coisa no seu chocolate e estava se aproveitando para humilhá-lo.
- O que foi que você fez?- interrogou, acusou. Exasperado, intrigado, indignado. Ah, e com dor de cabeça.
- Eu? O que foi que você fez.- veio logo a retórica, nem tão fria, nem tão seca, nem tão objetiva assim- Admito que não sei lhe imitar tão bem, mas também não estava tão ruim.
- Eu?- sentia-se no direito de estar bravo, de falar daquele modo. Não que precisasse de algum ‘’direito’’ para ser ele mesmo, mas enfim.
Revirando os olhos, Near desabotoou os dois primeiros botões de sua blusa, puxando a gola e deixando o pescoço à mostra.
Mas.. Não o ‘’pescoço alvo’’.
E sim um pescoço cheio de marcas roxas e vermelhas, intensas, por toda a região.
Mello sentiu-se levemente desconcertado com aquela visão.
Certo, acabou arregalando os olhos, numa típica expressão de, nem tanto surpresa, mas sim incredulidade.
- ...Está insinuando que eu fiz isso? -sua voz já não soava tão segura quanto antes, mas ainda estava firme, de certo forma.
- Supõe que eu tenha feito?- ..Aquilo... Aquilo eram sobrancelhas arqueando-se, sumindo por baixo da franja despenteada?
- Por que não?- comentou, os olhos agora desalinhados, um desnecessariamente aberto, outro intimadoramente estreito. Em muitos, aquela expressão seria bizarra. Em Mello, era apenas mais uma de seu repertório.- você é todo esquisito, pode ser masoquista também.
E então, com um gesto de impaciência que em nada lhe era característico, Near, ou quem quer que fosse aquela pessoa, puxou a blusa, arrebentando um botão, expondo o corpo quase nu ao loiro, agora sim surpreendido. Deixou o tecido escorregar pelos braços, sem o retirá-lo, mas o suficiente para que as costas também pudessem ser vistas.
- Suponho que eu também tenha feito isso, então.
Era incrível o quando os olhos de Mello podiam mudar, arregalando-se desmedidamente agora.
Numa cena mais fútil, dir-se-ia que fez isso por conseqüência da ‘’bela vista que tinha à sua frente‘’, ou coisa que o valha.
Mas, afinal, apenas o fez porque aquilo era realmente...
Porque aquilo...
Não parecia o Near.
Não que quisesse admitir, mas parecia...
Ele.
O peito ainda em formação também não estava tão branco como deveria, mas ainda assim um pouco menos maculado do que o pescoço. As costas que lhe surpreenderam, cheias de arranhões profundos, com ares autoritários e possessivos por toda a extensão.
Inevitavelmente, aproveitou para olhar as coxas ainda sujas, e, apesar da pouca claridade, pode definir marcas que em muito se assemelhavam à mordidas...
Diante da expressão de Mello, Near se vestiu novamente, e saiu andando, tateando o chão, procurando por sua calça.
Como se não soubesse que ela nem estava ali.
- Bem, se esqueceu tudo mesmo, não tenho o que fazer. Melhor simplesmente me ajudar a arrumar isso para quando alguém aparecer.- declarou, no seu tom de Near habitual.
....Oi?
- Como?! — Mello não se conteve.
- Algum problema, Mello?- questionou, ainda olhando para o chão.
- — Problema? Problema tem você, que acorda no meio das minhas pernas quase nu e não se lembra aonde enfiou as calças.
Near apenas de deu de ombros.
Como ele podia ser tão irritante!
- Eu ainda quero saber o que aconteceu!- declarou, veemente.
- Se não lembra de nada, qual a razão de ficar insistindo no assunto?- enrolava uma mechinha alva, a cabeça virando suavemente, vasculhando o chão imundo.
-Por que você sempre tem que ser assim!?
-Desculpe se sinceridade lhe incomoda.
Não era isso, seu imbecil.
Mello queria muito enfiar a mão naquele idiotinha pré-potente, de novo!, mas a dor de cabeça lhe atingiu com um pouco, um pouco?, com muita força, e ele acabou agachando-se no chão.
Sequer viu um reflexo intenso de preocupação sobre si, as mãos enfiadas nos cabelos que escorriam por aquela cabeça que não parava de latejar.
- Near... O que nós fizemos ontem?- cansado, derrotado.
Nós.
- Você não lembra mesmo, talvez seja melhor simplesmente fazer de conta que nada aconteceu e...
- Você nunca fala, e agora fica tagarelando um monte de besteira- a voz saiu fraca, mas raivosa. Cansado, derrotado, mas sempre Mello- Cala a boca, respira, e me responde, ou será que ‘tá difícil?
Ouviu um suspiro, mas um suspiro estranho.
Algo de melancólico.
Algo de impaciente.
Talvez, um pouco de esperança.
Um instante de hesitação, e pode sentir alguém sentar-se ao seu lado.
‘’Alguém’’.
Near.
E era tão estranho os dois ali, juntos.
Não que os dois juntos fosse estranho, na verdade era comum até.
O estranho era os dois ali, assim.
- Até onde você se lembra?- Near disse numa voz suave, mas sem jamais abandonar a praticidade.
Ações, tons e palavras desnecessários eram, obviamente, descartáveis. Jamais entendia a mania das pessoas de ficar desperdiçando tempo e energias com coisas que não levariam à lugar algum.
Near nunca fazia nada por acaso. Justamente por isso, talvez pudesse ter passado pela mente de Mello que este talvez se sentara assim, perto, para não precisar falar alto, poupando sua cabeça mas... Bem, isso não vem ao caso.
- Não sei... Do Matt, acho... É, eu e o Matt no quarto... Matt- gemeu irritado- nós estávamos planejando alguma coisa... Ah, é, nós íamos sair. O Roger saiu não foi?
- Foi- pronunciou, monossílabo vazio, desinteressado? Não exatamente. Podia observar uma macha distante e ouvir uma história ao mesmo tempo.
Mas Mello jamais aceitaria isso.
- Que merda, por que você simplesmente não me conta as coisas ao em vez de ficar brincando de adivinha?- queria gritar, bater, obrigar. Mas a cabeça não deixava. E agora reparava que seu pescoço também estava com um mau jeito... Cortesias do sofá.
- Seria mais fácil se eu soubesse até onde você lembra.Terminou?
- Não, não terminou, idiota. Eu lembro do Matt saindo enquanto eu colocava alguma coisa na água dos monitores... E dele voltando com outros três garotos... Várias garrafas e...Latas. Nos juntamos e Matt, aquele imbecil... Aliais, isso é tudo culpa dele! — só agora percebia aquilo?-Tenho que lembrar de matar aquele maldito...
- Culpa de que, Mello?- Aquilo era esperança? Não, era apenas ele mesmo.
- Culpa dessa ressaca maldita!
-Ah. Então, o que tem o Matt?
- Será que dá pra calar a boca e me deixar falar?
Near reprimiu um suspiro.
Antes fez birra porque não queria falar.
Agora fazia drama porque não podia falar...
- Continue então. Brincando de quem bebe mais...
- Não lembro de mais nada.- encerrou, enfiando as mão ainda mais nos fios, irritado.
Near revirou os olhos, num gesto que parecia dizer ‘’mereço’’.
E merecia mesmo.
- E será que dá pra parar de ficar revirando esses olhos? — como ele tinha visto seu gesto, com a cabeça teimosamente baixa? -Coisa mais chata! Eu também não estou gostando de estar aqui preso com você. Na verdade, estou odiando.
Mas... Ele nunca disse que não estava gostando.
- Depois que vocês já estavam completamente bêbados, começou aquele ceninha clássica, de um desafiando o outro. Matt sugeriu que se organizassem e fizessem um ‘’verdade ou desafio’’ e...
- Como você sabe?
- Hã?
- Acabei de perceber, como você pode saber do que aconteceu ou deixou de acontecer? Estava lá?
... Se fosse um pouco menos ‘’ele’’ poderia dar uma bela resposta ali.
Pergunta mais desnecessária, por mais que fizesse sentido.
Na verdade, até que era uma pergunta boa. Mello que não soubera elaborar. Sempre fazendo as coisas certas do jeito errado...
‘’ - Near, hey, Neeeaar!
Alguém batia na porta de seu quarto. Olhou para um relógio.
Onze horas, já passara da hora de recolher.
Tinha duas opções. Abrir ou não a porta.
Uma batida mais entusiasmada o fez perceber que, afinal, só tinha uma opção.
- Matt?- como se tivesse outra pessoa naquele lugar que usasse aquele óculos, ou que tivesse aqueles cabelos.
- ‘Bora beber?
-... — é sério isso?
- Não me olha com essa cara não, Near.- começou a se defender, entre uma risada e outra. Cheiro de cigarro.- Nem esquenta, Roger ‘tá fora, e eu já dei um jeito nos monitores. Temos o bastante para todos, por que não larga esse joguinhos ai um pouco e vem com a gente?
Ainda não conseguira processar o que o ruivo estava fazendo em sua porta.
Minto, o que ele estava fazendo ali já estava óbvio.
A questão, afinal, era por que ali.
- Matt, por que exatamente está aqui?
- Ai, ai, mania de complicar as coisas. Parece alguém que eu conheço.
‘’Alguém’’.
- Certo, vou abrir o jogo. Eu quero convencer o Mello a jogar verdade ou desafio com a gente.
- ...
- Okay, já entendi sua cara de ‘’ e eu com isso’’. É que eu sei que as chances dele se enfiar em qualquer coisa que você também esteja participando são bem maiores. Ainda mais numa brincadeira dessas, com oportunidade de humilhação gratuita.
Muito motivador.
- E por que quer que ele jogue?
- Ai, você só vai entender se jogar. Poxa, você não gosta de jogos? — pra que esperar a resposta?- Então!
Desconsiderando o abismo existente entre lego, quebra-cabeças, e verdade ou desafio com adolescentes bêbados, claro.
- Matt, além de tudo, eu não bebo.
- E você sabe que eu não vou sair daqui sem você, não é?
Às vezes, achava Matt parecido com uma raposa. Talvez fosse o sorriso. Talvez, fosse o que tinha por trás do sorriso.
Aquilo não fazia o menor sentido...
E saíram os dois pelo corredor’’.
- Você bebeu também?- interrompeu, curioso.
E ele achando que o loiro estranharia o fato de Matt ter quase arrombado sua porta para convidá-lo para beber.
- Se me deixar terminar, posso te responder.- revidou.
- Ou pode simplesmente responder o que perguntei agora.- revidou.
- Então, o Matt deu a idéia de verdade ou desafio. Logo de cara caiu em mim e eu pedi desafio...
- Você é burro ou não ‘tá a fim de me responder mesmo?
- ... E eu fui desafiado a beber alguma coisa que tinham trazido, já que até então não tinha bebido nada, e o Matt me deu uma garrafa que estava meio escondida.- Completou, enfadado, recebendo um bufo impaciente, com aquele jeito de ‘’não estou nem ai se você me respondeu, continua errado’’.- Na verdade, era licor de chocolate. Se não muito me engano, era aquela mesma garrafa que você achou agora à pouco, acho que ele tinha separado pra você, e eu acabei tomando metade.
- E você vomitou?- curiosidade. Afinal, Near não tinha cara de quem beberia meia garrafa de qualquer coisa alcoólica sem sofrer algumas conseqüências.
- Não. Nem cheguei a tomar toda a metade, foi mais para um quarto. Mas essa não é a questão.- chato- Pouco depois, caiu você e Matt, ele perguntando. Cheguei a pensar em quais seriam as chances dele ter planejado aquilo como vingança aos cigarros comidos...
- Quem mandou ele comer um cigarro?
- Um maço. Ele foi comendo durante o jogo.
- Quem fez isso?- estava quase que indignado. Quem obrigara o Matt a comer cigarros!?
- Você.
- Ah- droga- que seja. O que ele me mandou fazer?
Near parou por um instante antes de responder.
- Me fazer beber o resto do licor.
‘’- Vamos, Mello. Você tem que embebedar o Near!
— Por que eu tenho que fazer isso? Tem dezenas de desafios melhores nos quais você poderia ter pensado!
- Ah, mas eu quero ver! Ele quase vomitou o que teve que beber antes!
- É, Mello! Vamos, como você vai fazer?
Pode ver as mãos decididas agarrarem o gargalo da garrafa, como se sua honra dependesse de concluir aquela tarefa.
Aproximou-se do garotinho, e este sentiu algo meio estranho.
Os dois estavam terrivelmente quentes.
Mello estava bêbado, claro.
Mas Near... Sentia alguma outra coisa...
Sentiu o queixo ser abruptamente empinado, a boca à mercê de Mello.
- Abre!
Near apenas fechou os olhos. Aquele negócio era horrível, no mínimo!
Sentiu as mãos se apertarem mais, e estava doendo já. Ele estava descontrolado...
- Abre logo!
- E ai Matt, o que a gente faz se o Mello não cumprir o desafio?
- Boa pergunta, boa pergunta- o outro parecia uma mistura entre um cafetão e um mafioso, com uma cara horrível pelo gosto dos cigarros- vamos ter que pensar em outro...
- Um pior!
- Ou um melhor... Que tal um boquete em alguém?
- O quê!?- Mello berrou indignado.
- Ué, não consegue enfiar um licor na boca do Near, vamos ter que enfiar alguma coisa na sua boca, me parece justo...
- Nem fudendo!
- ''Quem falou em foder? Só quero um boquete, seu tarado''
Mello pensou seriamente em simplesmente espancar todos eles, mas agora seu orgulho estava em jogo...
Pior, seu orgulho estava arriscado por conta de Near!
Olhou com muita, muita raiva mesmo para o infeliz que mantinha os olhos tão teimosamente cerrados quanto a boca...
Um sorriso diabólico formou-se e ele levou a garrafa aos próprio lábios, deixando que uma boa dose do conteúdo escorresse, mas resistindo a engoli-lo.’’
- E eu consegui?- Mello não resistiu a perguntar.
Afinal, isso significaria uma vitória contra Near.
Vitória era vitória.
Near se perdeu por mais um instante...
‘’ Sentiu as mãos terrivelmente quentes se aproximarem novamente, mas dessa vez seu cabelo foi puxado com força pra trás e, não conseguindo resistir a um gemido de protesto, sentiu os lábios... Não, não os lábios, sentiu todo o corpo de Mello contra o seu. Logo o licor, aquecido, invadia sua boca e, em puro desespero, engolia tudo em grandes goles, o corpo amolecendo.
Quando se deu conta, estava praticamente deitado no chão, aquelas mãos segurando firmemente sua cabeça, impedindo qualquer tentativa de fuga, seu quadril sofria uma tortura terrível, com Mello sentado sobre si, seu corpo descrevendo um arco, as coxas o envolvendo.
- Eeeee, tá bom, tá bom- ouvia alguns tentando apartar os dois.
- Deeeixa eles. Aliais, acho que depois dessa, só essa dose ta boa- Matt atalhou, rindo para si.
Mas o pior de tudo, mesmo, algo que deveria ser nojento, algo que lhe permitira ignorar todos aqueles comentário, foi... aquilo. Ele e Mello estavam se beijando.
De língua.
Mas... Não tinha nada de nojento ali.’’
- Na verdade, conseguiu sim...
- Como?
- Quer mesmo saber?
- Do jeito que você fala parece que eu te taquei no chão e enfiei tudo na sua boca com um beijo pervertido, ou qualquer coisa do gênero.
Near ergueu as sobrancelhas, encarando Mello fixamente, profundamente. Significativamente.
- Eu não fiz isso, fiz?- arriscou ainda, num sussurro desiludido.
- Se te fizer sentir melhor, a outra opção era pagar um boquete pro Matt...
Pode ouvir Mello socando a própria cabeça.
- Eu. Vou. Matar. O. Matt... Eu quero saber o que aconteceu depois?
- Bem, o jogo continuou. Você saiu de cima de mim com um sorriso vitorioso, sentou no seu lugar e a garrafa girou de novo. Quer que eu conte todos os desafios e verdades ou...
- Ah não ser que envolva algo bem humilhante e doloroso pro Matt, passe logo pra parte em que acabamos aqui...
- Na verdade, o Matt teve uma sorte terrível. O máximo que aconteceu, além dos cigarros, foi lamber a sola do pé de alguém... Depois de um certo tempo a garrafa caiu entre eu e o Matt, e dessa vez achei melhor escolher verdade...
- E o que te perguntaram?
‘’ – Haha, vamos desmascarar os segredos do Near!
- O que vai perguntar?
- Ahhhh, já sei. Near, responda com ‘’sim’’ ou ‘’não’’. Qualquer cosia além disso ou uma mentira, vai resultar num castigo!
Apenas manteve-se em silêncio, aguardando... Por que raios mesmo tinha ido parar ali? Sua mente estava confusa... Sentia-se não exatamente bêbado. Na verdade, toda a sua mente estava terrivelmente confusa, sim, mas por outros motivos... Motivos que ele não entendia muito bem... Motivos que tinham a ver com chocolate...’’
- ‘’Você gostou do Mello ter te beijado?’’
‘’Sentiu o rosto esquentar absurdamente. Sempre tão seguro. Sempre tão certo. E agora sentia-se patético ao perceber aquele tom terrivelmente tremido em sua voz.’’
- E o que você respondeu?
- ‘’Não’’.
‘’- Mentiroso!!- um coro ergueu-se em toda a roda, tirando o loiro.
- Vamos, Matt, ele merece um castigo!
- Sim, castigo, castigo!
- M-mas, eu estou falando a verdade...’’
- Hum...- não conseguia saber se aquela resposta lhe agradara ou não. O incomodara sim, mas.. Flashes. Flashes... Melhor ouvir tudo antes de tirar satisfações. Momentos de racionalidade.- E ai?
‘’- Ah, tá! Então, por que está vermelho desse jeito? Olha lá, Mello, ele não fica uma gracinha vermelho?
- Eles disseram que eu estava mentindo.- respondia mecanicamente já, mais interessado em seus pensamentos, em suas lembranças... Em seu delírio.
‘’- Qual o castigo, Mello? Você que deveria escolher o castigo!’’
- E qual foi o seu castigo?
-... Te beijar.- a resposta simplesmente saiu...
- Quem escolheu isso!?
- Adivinha.
‘’- Vamos, faça melhor então, Near!- o loiro desafiou, bravo, alguma coisa em si ferida, exigindo vingança.
- Você não pode estar falando sério...- Near ainda tentou resgatar a razão no bêbado raivoso que se aproximava perigosamente.
- Estou sim, seu desgraçado. Anda logo, se acha que eu não beijo bem, vem me mostrar o que pode fazer!
Em pé, à sua frente, era a atenção da rodinha curiosa.
Lembrar de nunca mais dar ouvidos ao Matt.
- Mello, não foi isso que eu disse...- disse baixo, mirando o chão, sem ter a oportunidade de terminar.
- Meeeeello, ele não está cumprindo o castigo! Pense em outro, pense em outro!
- Me passa essa garrafa de chocolate!- ordenou, sendo prontamente atendido.
Near teve pouco tempo pra raciocinar antes que Mello agarrasse bruscamente seu braço e o puxasse para fora da roda, para fora do jogo.
- Espera aê, pô! A gente tem que presenciar.
- Vai à merda, seu pervertido bêbado.- ralhou, seu dedo médio ilustrando o valor que dava aos comentário dos colegas.
- Olha quem fala, olha quem fala, que castigá-lo sozinho, néeeee?
- Continua ai que já a gente volta!- sequer dignou-se a olhar pra trás, mas Near pode sentir o aperto em seu braço intensificar-se.
Sequer conseguir formular um protesto, simplesmente se deixou ser arrastado, e logo estavam num corredor escuro e deserto. Sem maiores delongas, foi jogado contra a parede. Jogado contra a parede de um corredor escuro. Jogado contra a parede de um corredor escuro por um bêbado. Por...Ele.
- Mello, o que você vai...?
O outro apenas ergueu a garrafa de chocolate.
- Eu tive que fazer você beber essa porra, se não gostou, tenta fazer melhor. Se não conseguir me fazer tomar isso, eu te largo lá no meio da rodinha daqueles bêbados sem calças pra eles fazerem o que quiserem com você.
- Mello, isso é só um jogo, por favor, nós dois sabemos que você vai se arrepender disso depois e...
Antes que pudesse continuar, sentiu suas calças serem bruscamente puxadas pra baixo. Tentou ainda segurá-las, mas em vão. Quando curvou-se envergonhado, sentiu seus ombros pressionados contra a parede.
A quem estava tentando enganar? Mello não se arrependeria.
- Ainda duvida de mim?’’
-... Eu fiz isso?- a voz veio, menos surpresa ou mesmo curiosa do que antes.
Não que o mais novo tenha percebido. Na verdade, não era pra ele perceber.
Near limitou-se a balançar a cabeça, numa afirmativa muda.
- Da próxima vez que eu beber, esteja longe de mim...- brincou... Sim, brincou, esfregando todo o rosto com as mãos, lentamente, mas com certa força.
- Você fala como se eu tivesse gostado de ser quase estuprado.
- Eu quase te estuprei!?- tinha sido assim que parecera à ele?
- Posso continuar?
‘’ Não tinha escolha. Pegou a garrafa com dúvidas, e deu um curto gole, mantendo todo o conteúdo na boca. Olhou de canto para Mello, tão irritado como antes, e esticou-se tanto quanto possível, chegou mesmo a juntar os lábios, mas o outro em nada facilitou, os braços cruzados. Sentiu chocolate escorrendo por seu queixo.
Estava quase engasgando, cuspindo tudo aquilo, quando sua cintura foi enlaçada... Ok, quando sentiu os dedos finos e quentes praticamente se fincarem em sua carne, o puxando possessivamente para perto. Já esperava um ataque, sim, aquele era o termo, ‘’ataque‘’. Fechando os olhos em puro reflexo, com força, chegou mesmo a sentir o rosto corar num quase engasgo, quando a face também ruborizada, mas fria, de Mello aproximou-se. Sentiu as testas unirem-se.
E todo aquele chocolate ainda em sua boca. Não resistiu a um pequeno gole, podendo sentir o liquido escorrendo por sua garganta.
- Eu disse que podia beber?- o hálito de Mello estava pesado pelo álcool, sua voz meio sussurrante, meio fraca...
Abriu os olhos, surpreendendo-se ao ver que o outro mantinha os seus fechados. Apesar de não afrouxar em nada os dedos, sua expressão estava estranhamente tranqüila. Aquilo era... Contraditório?
A imagem de um gato esfregando-se em algo que gosta, para marcar território, lhe veio à mente, quando sentiu o rosto, tão... macio, roçando-se no seu, num carinho...
Carinho.
Aquilo era... Carinho?
Antes mesmo que tivesse a chance de chegar ao fim de sua linha de pensamentos, não conseguiu pensar em mais nada. Algo úmido trilhava sua bochecha, deixado um rastro frio, que logo foi percorrido de volta, na forma de beijos.
E aquelas mãos ainda estava ali...
- Pode engolir, eu deixo...- a voz veio mansa, mas com um quê de matreiro, de malícia, ressaltados por uma mordida na orelha, que quase fez com que cuspisse todo o conteúdo. Ou engasgasse terrivelmente, o que daria no mesmo, afinal.
Sem pensar em mais nada, engoliu tudo, em goles rápidos, grato por poder livra-se daquele incomodo na boca.
- Heey, sabe que ainda tem mais na garrafa, não é? Vamos, Near.- seu nome saiu terrivelmente arrastado, naquela fala macia que não conseguia definir. Que ele não queria definir. Sentiu uma pequena mordida no pescoço, antes que Mello largasse sua cintura, e se afastasse, tomando a garrafa em mãos, sacudindo-a de leve, mostrando quanto ainda tinha ali dentro- você já está sem calças. Pra ir pra roda, são dois passos. Vamos, número um- pode perceber nitidamente o deboche- você consegue pensar em algo melhor para me fazer beber isso.
Aquilo, afinal, não era nada além de uma humilhação?’’
- Mello, está me ouvindo?- quase cutucou o outro, que já estava a um bom tempo imóvel, sem nem fazer interrupções.
- Minha cabeça está doendo...- a voz veio sofrida, quase chiada, rouca.
- Chama-se ‘’ressaca‘’.
- Eu sei o nome, seu retardado... Agora só me conta como foi que nós viemos parar aqui...
- Então, eu peguei a garrafa das suas mãos...- retomou a narrativa, constatando que ele realmente estava bem. Na medida do possível.
‘’Mirou por alguns instantes o vasilhame, percebendo que Mello se aborrecia com seu olhar analítico.
- Encarar a garrafa não mai me fazer beber porra nenhuma.
Ele sabia bem disso. Teve uma idéia... Ok, não era uma idéia. Era um desejo. Uma vontade.
Um instinto.
- Feche os olhos.
- Vai me pedir para abrir a boca agora também?- ainda brincou, mas os olhos se fechando, moles.
Near aproximou-se daquele ser, parado no meio do corredor, o corpo um pouco envergado para algum lado, balançando ao bel prazer da embriaguez, levando as mãos à blusa que o mais velho usava. Preta.
E ele de branco... Por quê estava reparando naquelas coisas, tão óbvias?
- Mantenha os olhos fechados.- ordenou, os dedinhos na barra da camisa- Você gosta de chocolate, não gosta?
Pode ouvir uma gargalhada irônica, digna de uma pergunta estúpida como aquela.
- Eu não gosto.- ajuntou logo, a cabeça virando um pouco para um lado.
Dessa vez, um muxoxo impaciente. Deixou que suas mãos ultrapassassem a barra, espalmando-as no abdômen, firme, de Mello, empurrando o lentamente para a parede. A garrafa ainda no chão. Ficou satisfeito quando ouviu o toque das costas na parede. Invertendo posições?
Posições?
Oh, meu Deus.
Talvez estivesse embriagado.
- Mas eu gostei do chocolate em você.
Mello quase abriu os olhos naquele momento, mas Near, ao perceber o quase gesto, o beliscou, numa advertência.
Aquilo tudo, afinal, era um jogo.
E até que era divertido.
- Eu quero provar mais do chocolate, Mello...- que raios de tom choramingoso era aquele?
Sentiu um formigamento lhe tomar, e precisou de uma inspirada mais lenta para se recuperar. Oxigenar o cérebro.
- Está tentando me seduzir ou o quê?- questionou, sem raiva, sem rudez. Apenas... Divertido.
- Estou tentando não ser estuprado.- porque ele não era idiota ao ponto de ter esperanças de que Mello estava apenas brincando sobre jogá-lo sem calças no meio de uma rodinha de adolescentes cheio de hormônios e com perigosos níveis de álcool no sangue.
- E quem te garante que não será?
- A garrafa, quando vazia.
Uma vez mais, Mello gargalhou. Aquilo deveria ser um mal-presságio, não? Mas... Near achou aquilo... Encantador. Tentador.
Num gesto rápido, abandonou o corpo de Mello, recuperando a garrafa, tomando um gole bem menor dessa vez, prevenido. Sua mãos buscou a de Mello e, com certa surpresa, se viu entrelaçando seus dedos nos dele. Com um pouquinho de jeito, conseguiu fazer com que ele abaixasse a cabeça o suficiente para que tocassem os lábios. Tentou soltar a mão, para agarrar-lhe a nuca, mas Mello não permitiu.
Na verdade, pelo contrário. Sentiu a mão livre dele tomar-lhe os fios, os dedos enrolando-se, mas sem puxar, apenas, afinal, seu próprio plano inicial.
Aprofundaram o beijo.
Troca de fluidos.
Troca de licor de chocolate.
Embriagando-se juntos.
Perdendo-se juntos.
Foi Near que terminou o beijo, com reclamações do outro.
- Ainda tem muita coisa na garrafa...- justificou, levando o gargalo aos lábios novamente.’’
- Vai me dizer que a gente tomou uma garrafa inteira desse jeito?
- Meia garrafa- corrigiu, automaticamente.- Ou três quartos, não lembro ao certo.
- Até onde eu saiba, a outra metade, ou três quartos que seja, tinha ido do mesmo jeito- acrescentou, sem se dar por vencido, com um olhar desconfiado.
É, de certo modo.
- De todo modo, a resposta é não. Foi assim que viemos parar aqui, afinal.
Mania de mostrar como ele estava sempre errado.
Mania de tentar mostrar que estava sempre certo.
- Como assim?
‘’- Você não pretende realmente me fazer beber isso ai na base desses beijinhos, né?
Sentiu-se contrafeito. Qual era o problema com seus plano que, por sinal, estava funcionando?
- Eu já disse, que vai ter que fazer melhor do que isso, Near...
Ok, aquilo era, definitivamente, pervertido. Podia não ter muito conhecimento sobre essas coisas, certo, nenhum conhecimento sobre aquilo, mas aquele tom, aquela voz, e aquela língua umedecendo os lábios, que parecia servir mesmo era para enfatizar a frase, eram definitivamente ‘’pervertidas’’.
E...Daí?
- Aceito sugestões, Mello- provocou, as mãos ainda juntas.
Sim, um detalhe que pareceria apenas secundário naquele clima.
Mas que era a única coisa que fazia Near prosseguir naquela brincadeira diferente. Perigosa? Sim, provavelmente. Deliciosa, sem dúvidas. Muito mais do que chocolate.
Recebeu um sorriso sacana, que até hoje só vira semelhante em Matt. Semelhante, sim. Afinal, aquele ali não era Matt, era Mello. Aquele era um sorriso sacana do Mello. Um sorriso sacana do Mello para si.
- Vamos pro ‘’porão’’.- sugeriu, a voz saindo meio cantarolada.
- Pra sala de brinquedos do terceiro andar?- era como uma ‘’terra sem leis’’ do orfanato. Os monitores faziam vista grossa para o que acontecia ali, e Roger nem deveria saber que estava abandonada à tempos.
- Ou isso.
Sem questionar, se deixou levar. Os dedos ainda entrelaçados. A garrafa ainda em mãos.
Pode ver Mello fechando a porta. Pela primeira vez, entendia o sentido da expressão ‘’ser comido com os olhos.
-Deite.
E Near deitou.
Mello sentou-se em seus quadris, tomando a garrafa de suas mãos, lambendo o gargalo de uma maneira que chegava a ser... Obscena. Ou seria Near que estava muito... Animado?
Álcool.
Hormônios.
E algo mais...
Sem arrependimentos, ou conseqüências.
Por hora.
- Abra sua blusa.
E Near abriu.
Submisso? Nem tanto. Curioso, na verdade. Sem muita pressa, foi tirando os botões de suas casinhas, um por um, até porque não tinha como ser de outro modo, não é? Na verdade, não tinha pressa Estava gostando de Mello ali.
Submisso?, novamente se perguntava. Talvez. Mas só porque era o Mello.
- Até pra isso você é lerdo!
Impaciente, Mello abriu os últimos botões.
- Vamos, me faça querer tomar isso aqui- praticamente ordenou, sacudindo a garrafa, fazendo o líquido amarronzado rodopiar.
Deveria estar se sentindo envergonhado, não deveria?
Pudores, sentimentos éticos, bom-senso, timidez, qualquer coisa. Mas só o que sentiu foi o chocolate banhando seu peito exposto, lentamente, não muito abundante para não cair, suficiente para fazer os olhos de Mello brilharem, no escuro.’’
- Foi assim que eu ganhei a maioria das mordidas, e dos arranhões.
-... Só isso? Eu fiquei te lambendo até a garrafa acabar e a gente apagou no sofá?
-... Foi.
‘’Arfava, sentindo dor, sentindo um estranho prazer. Seria aquilo o que chamavam de masoquismo? Naquela altura, Mello já estava sem camisa, também melecado de chocolate, resultado de quando Near sentara-se despudorado em seu colo, as pernas cruzadas atrás de si, espalhando chocolate pelo corpo já marcado apenas para agarrá-lo em um beijo necessitado, e que serviu ainda de desculpa para lamber o peito de Mello, sujo por tabela, aproveitando-se para dar algumas mordidas ocasionais, que o outro repreendia arranhando ainda mais possessivamente as costas já feridas.
Já quase não se reconheciam.
Naquela brincadeira, se fora quase toda a garrafa, em várias posições e situações. Near trajava apenas sua cueca, Mello suas calças. Ambos descalços. Não sabiam muito bem quando tinha chegado ali. Os fios loiros espalhados pelo chão no qual o mais velho estava deitado, as mãos se fincando nas coxas que rodeavam seu corpo, manchadas de chocolate, enquanto permitia que Near o beijasse de uma maneira que jamais imaginara que alguém poderia beijar. Parecia devorar sua boca, suas línguas se tocando, os olhos fechados, como em sonho, as mão agarradas em seu rosto e, não pode deixar de notar, enrolando alguns fios em seus dedinhos tão melecados.
Mas...
Conforme o ritmo do beijo, Near se movia, sobre os quadris de Mello. E...
Ambos já começavam a se sentir incomodados.
- Near...
O menor apenas afastou-se o suficiente para que pudesse olhar seus olhos, mas sem tirar suas mãos, um gemido insatisfeito saindo-lhe dos lábios.
- Sai daí.
Near arregalou os olhos. O carinho que seus dedos faziam parou de imediato, e ele se apoiou no peito de Mello, podendo sentir sua respiração, um tanto quanto pesada.
- O que foi?
- Só sai.’’
- Tem certeza de que não está esquecendo de mais nada, Near?
- Tenho, sim.
‘’- O que foi, Mello?
Com brusquidão, e até violência, Near sentiu sua mão ser agarrada e guiada, sem maiores rodeios, até o meio das pernas de Mello e... Bem...
Sentiu o rosto corar violentamente.
- Ou você para de rebolar em cima de mim, ou eu te como. E eu não estou brincando, nem falando de chocolates mais.
-...
- Near, eu estou falando sério- advertiu. Como resposta, sentiu a mão pequenina fazendo um certo esforço para livrar-se da sua. Permitiu, soltando ainda a coxa, roxa e marcada, para que o mesmo se levantasse.
Qual não foi sua surpresa, que Near deliciou-se por dentro, secretamente, em constatar, ao sentir uma caricia mais forte naquela região. Provocativa. Um gemido involuntário misturado à resmungo e protesto escapou dos lábios finos, meio inchados.
- Sai de cima de mim, Near.- ordenou mais uma vez, rude e objetivo.
- E se eu quiser que você me... Me...- não saia.
- Que eu te coma? Você não consegue nem falar. É um pirralho. — juntou com desprezo.
- Não importa, Mello. Já chegamos até aqui mesmo, e daí se você...Me... -baixou a voz- se a gente fizer...
Mello estava bravo. Furioso. Sem esperar por mais nada, ergueu-se com fúria, pegando a blusa de Near num canto e jogando-a para o mesmo.
- Foda-se. Eu não quero te comer. Não quero transar com você. Nem porra nenhuma.
- ...Você me odeia, não é?- não conseguiu esconder a melancolia na voz.
Nem sabia que sua voz podia soar melancólica.
O álcool os estava fazendo coisas que pensavam que jamais seriam ditas. Que não deveriam ser ditas.
Que eles precisavam ouvir.
Num instante, Near se viu jogado no chão. Mello estava por cima de si, uma vez mais naquela noite.
Mas dessa vez...
Os olhos brilhavam, assustadoramente.
Podia ver os dentes cerrados com força, o maxilar rijo.
Uma vez mais, sentiu a boca de Mello em seu pescoço, mas sem haver chocolate nenhum ali. Sentiu uma mordida, e pode ver que Mello não estava se contendo. Nem um pouco.
- Idiota... Imbecil- praguejava, arranhando mais, mais forte, como se descontasse toda a sua fúria em Near. Como se o punisse por um pecado.
Estava doendo.
Realmente, doía...
Mas já não conseguia se conter.
Não queria se conter.
Levou as mãos as navegas de Near, com fúria e, ao menor sinal de protesto deste, o calou com um beijo.
E isso nada tinha de romântico.
Era... Tesão?
Puro e simples.
Estava avançando... Demais?
Quando deu por si, suas mãos já estava por baixo da roupa íntima do menor, quase tocando-o de uma maneira mais profunda.
Podia ver o corpo dele reagindo.
Tremia.
Tremia?
Mordeu, com raiva o canto da boca de Near, e chegou mesmo a sentir o gosto de ferro. O gosto de sangue.
Baixou os quadris perigosamente, roçando nos dele.
Roçando algo a mais nele.
Conseguiu colocar-se entre suas pernas.
Não era isso que queria!?
Num reflexo, sentiu as coxas tentando fechar-se, e mordeu a mais próxima com vontade.
Vontade de ferir? De machucar?
Os pensamentos só o fizeram ficar com mais raiva.
Raiva de si.
Near estava quase gritando. Tampou-lhe a boca com a mão mesmo, a outra já erguendo uma das coxas, como se para deixá-lo numa posição melhor.
Podia sentir uma pulsação, queria alivio, queria tudo o que podia.
Ao menos uma vez, não seria inferior.
Foi quando viu.
Os olhos. Negros. Profundos.
Conseguiu ver o que tinha ali, depois da escuridão, depois do vazio óbvio e pratico.
Medo.
-MERDA!- Berrou, largando Near, afastando-se, enfiando as mãos nos fios meio úmidos.
Near, surpreso com aquela mudança súbita, sentou-se rápido, mas sem conseguir se afastar de Mello. O que tinha sido aquilo?
Sentiu os olhos arderem. Aquilo era... Vontade de chorar?
Nem sabia mais o que era aquilo. ‘’Chorar’’, ‘’sofrer’’, ‘’temer’’. Coisas pouco práticas e que serviam apenas para atrapalhar-lhe o raciocínio.
Mas agora... Sentia, sim, sentia, tudo de uma vez.
- Mello...- chamou, ansioso.
Ansiedade... Mais essa.
- CALA A BOCA! Sai de perto de mim!- ordenava, a voz alta, bruta.
Sincera.
- Mello, o que foi isso?- precisava perguntar, precisava entender!
- Foi tesão, seu idiota! Eu disse pra sair daqui, eu disse pra sair de perto de mim, MAS NÃO!
Aquilo não se encaixava!
Se era mesmo tudo aquilo, e só aquilo, por que Mello parara...
Aproximou-se, e, ao tocar no ombro do loiro, este se levantou, se afastando, furioso.
- Que merda, Near. Eu to bêbado. Eu sei que eu to bêbado. Não sei nem do que eu vou lembrar amanhã.- resmungava, num tom mais baixo- Porra.- bateu em uma parede- E aqui, você vai acabar se machucando, caralho.
- E por que você se importa tanto?
- Porque eu te amo, seu imbecil!
Near o olhou, estático, agarrando-se mais à blusa.
Aquilo...
- ARGH! Eu te odeio, near!
Sorriu.
É, diante da declaração de ódio, profundo e sincero, sorria.
Porque aquilo sim se encaixava.
E fazia todo o sentido com Mello.
- Mello...
Levantou-se, botando a blusa antes de aproximar-se do loiro que, escorado na parede, matinha um punho na mesma, como se quisesse bater em algo.
E provavelmente queria mesmo.
Tentou tocá-lo, e recebeu um tapa.
- Quanto menos você relar em mim, melhor.
- Mello, eu não estou mais com medo...- que mentira deslavada...
- Foda-se você! Você acha que entende de tudo, mas não entende nada. Você é o número um, grande merda!- complexo de inferioridade. Tinha quase se esquecido desse detalhe- não pense que só por isso pode ficar brincando comigo!
- Eu quero te ajudar.
- Eu não preciso de você, fique longe de mim!- e andou em passos firmes para a porta, mas não conseguiu abri-la. Estava trancada. Deu um potente soco na mesma, enraivecido.
- Mello...- sequer pode terminar sua frase, antes do outro lhe cortar, irritadiço.
- Já disse que não quero!- agora, um chute na porta.
- Você quer sim, Mello. Ou então, tudo isso até agora, não passou de uma maneira de me humilhar, de fazer com que eu me sentisse inferior ou, melhor, que você se sentisse superior.
- Não, seu idiota, eu não quero te machucar!- brigou, por que era tão difícil aquele idiota lhe entender!?
- E eu não quero te ver mal!- responder, sua voz se elevando pela primeira vez em muito, muito tempo.
Pela primeira vez em muito tempo... Sentiu algo vazando de seus olhos.
Lágrimas?
Patético, francamente.
Mas, naquele momento, isso não importava.
Quando as primeiras saíram, foi difícil barrar as outras.
Excesso de sentimentos, quando já se desacostumara com eles.
Já nem sabia o porquê daquilo.
Se era por Mello, por si mesmo, ou por ninguém.
Já levara as mangas de sua blusa aos olhos, e percebeu o quando o material era áspero.
Não pode ver o olhar de estranheza que Mello lhe lançou.
Aquilo era, no mínimo, inédito.
E... Tinha sido culpa sua.
Consciência? Não exatamente. Na verdade, chegava a ser uma cena interessante.
Mas, ao mesmo tempo, não lhe agradava.
Fizera Near chorar, aquilo poderia ser uma vitória, não poderia?
Mas, na verdade, sentia-se vencido. Tocou no braço do menor, que logo foi abraçado.
E abraçou.
- Acho que depois dessa, eu até broxei...- não exatamente, mas isso não era relevante.
- Eu sou broxante?- as lágrimas já haviam estancado, sua voz normalizada.
Nova risada.
Não se reconhecia. Era o álcool? Era Near?
- Não. Não viu o quanto eu tava duro? — Como ele conseguia falar aquelas coisas, daquela maneira tão... Vulgar? E... Nem se importava mais. Near sentiu o suspiro de Mello, primeiro pelos movimentos da caixa torácica, segundo pelo vento a passear por seus cabelos.- Caralho. Minha cabeça está doendo demais...
Uma vez mais, Near se deixou guiar. Mello fechou as cortinhas puídas da única janela do local, deitou-se num sofá meio velho, ali esquecido e, sem ouvir qualquer protesto, puxou o menor para o meio de suas pernas, permitindo que este se aninhasse em seu peito.
Near percebeu que ainda tinha ‘’alguma coisa’’ ali. Mas preferiu não dizer nada.
- Você está cheirando a chocolate....- Mello comentou o óbvio.
— Ainda tem um pouco nas minhas coxas...
- Amanhã eu cuido disso... — bocejou, tampando a cabeça com um braço, o outro subindo e descendo pelas costas feridas- mas preciso que se lembre de uma coisa.
- Hm?
- Preciso que lembre que eu estava falando a verdade.
E sem aviso, caiu em sono profundo, Near logo em seguida.’’
Então... Se aquilo era verdade.
- Você é do tipo de bêbado que esquece as coisas que aconteceram depois, pouco antes de apagar?- Mello questionou, repentinamente.
Near fora pego de surpresa.
Como assim?
- O quer dizer?
- Lembrou de tudo, menos do final. A única coisa que eu pedi para você não esquecer... E ainda falam que é o número um dessa bosta...
- Você estava fingindo esse tempo todo. Ou só começou na metade?
- Não. Eu só me lembro das coisas importantes.
Near sentiu-se terrivelmente desconfortável com aquela declaração.
Uma coisa era ouvir e fazer certas cosias quando se está embriago.
E, no momento, sentia-se, infelizmente, terrivelmente sóbrio.
O som de uma chave virando quebrou o clima.
Ambos esperaram, para a porta se abrisse, e alguém os pegasse no flagra.
Como nada aconteceu, Mello ergue-se, abrindo ele próprio a mesma, vendo a chave, pesada e escurecida, ainda na fechadura.
- Matt...- Pensou consigo.
- Bem... Agora podemos ir embora. — Near apressou-se em dizer. Queria sair dali. Queria pensar.
- Poder a gente até pode...- Mello fechou a porta.- Mas e se eu não quiser?
Near o olhou, ainda sentado. Deja vu?
Tirando o fato de que agora, estavam sóbrios.
Ao menos, pensava.
Mello guardou a chave no bolso traseiro da calça.
- Até onde eu saiba, o Roger só volta de noite. E além do que, duvido que alguém vá subir aqui.
- Mello... O que está insinuando?
- Naquela hora eu não quis porque estava bêbado- abaixou-se, seus olhos azuis ficando na altura dos negros- mas agora eu estou sóbrio.- Passou um dedo por toda a extensão de uma das coxas, levando os resquícios de chocolate à boca em seguida.
Near o encarou fixamente, assustado.
- Era tudo verdade, Near- Mello sussurrou em seu ouvido- é tudo verdade...
- E o que me garante isso?
Mello irritou-se.
Com um gesto brusco, empurrou Near, ouvindo a cabeça do mesmo batendo contra o chão.
- Vamos ver se ainda vai ficar me retrucando- botou as mãos nos ombros de Near, impedindo-o de se mexer- depois que eu terminar.
Dessa vez, Near não resistiu a um riso, ainda que curto e singelo.
Era fácil rir quando Mello estava por perto.
Quase natural.
- ‘Tá rindo de mim, seu idiota?
- Estou, sim.
- Seu desgraçado!
- Também te amo, Mello.- declarou, envolvendo o pescoço de Mello.
- Hunf, nem começa a se achar não.- bronqueou, mas sem se afastar, ou negar qualquer gesto.
Near sentia-se... Completamente bêbado. Embriagado. Alto. Boêmio. O que fosse.
Não ligava para as conseqüências.
Para a situação.
Para nada.
Ou será que estava apenas... Feliz?
Do lado de fora, um ruivo passava, assoviando alguma coisa qualquer.
Qualquer coisa, Mello estava apagado debaixo da cama, por isso ninguém o vira, e nem se arriscaria a entrar lá, perturbando-o. Near estava em seu próprio quarto, onde ninguém conseguira entrar.
Tudo fica mais fácil quando se consegue roubar o molho de chaves do zelador.
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