Um Lar Para Klaus
1 Capítulo 1: O sexto resgatado
Às oito e quinze da manhã de sábado, Lia já tinha chegado à conclusão de que fazer trabalho voluntário era uma atividade muito mais bonita quando praticada depois de oito horas de sono.
Ela tinha dormido quatro.
Talvez quatro e meia, se estivesse disposta a considerar como sono o período entre três e vinte e cinco e três e cinquenta e oito, quando acordara com alguma coisa pesada sobre o peito e descobrira que não estava tendo uma parada cardíaca.
Era Heimdall.
O gato considerara apropriado dormir sobre ela.
Às quatro, Lia desistira definitivamente de tentar recuperar o restante da noite.
Agora estava parada diante da cafeteira, usando uma camiseta larga, jeans, tênis e a expressão vazia de quem ainda esperava que a cafeína terminasse de carregar o sistema operacional.
Morrigan a observava de cima da geladeira.
Aegis estava sentado educadamente junto ao pote de ração.
Sekhmet tentava abrir uma sacola.
Kitsune estava ajudando Sekhmet a cometer o crime.
Heimdall, responsável por parte considerável da privação de sono da dona, aguardava o café como se não tivesse qualquer participação nos acontecimentos.
Lia apontou para ele.
— Você.
Heimdall piscou.
— Quatro da manhã.
O gato bocejou.
— Exatamente. Não tem argumento.
Seu celular vibrou sobre a bancada.
Lia olhou.
Era uma mensagem do cliente.
Claro que era.
Ela havia passado boa parte da sexta-feira em reunião com um homem que conseguia transformar uma alteração aparentemente simples numa discussão de cinquenta minutos.
Queria uma coisa.
Depois queria outra.
Depois perguntava se seria possível manter as duas.
Depois decidia que talvez fosse melhor voltar para a primeira.
Mas com elementos da segunda.
E uma funcionalidade nova que, segundo ele, era "só um detalhezinho".
Lia já aprendera que, em desenvolvimento de software, nenhuma frase iniciada por é só terminava bem.
Ainda assim, havia uma compensação nada desprezível.
Ele pagava.
No prazo.
Sem barganhar.
E muito bem.
Era impressionante quanto de sua personalidade Lia estava disposta a tolerar quando a fatura era quitada corretamente.
Ela terminara o ajuste que prometera entregar, enviara tudo pouco depois das duas da manhã e decretara que aquele sábado seria folga.
Relativamente.
Porque era seu dia no projeto.
O celular vibrou novamente.
Lia tomou um gole de café antes de olhar.
Excelente trabalho. Segunda conversamos sobre alguns pequenos ajustes.
Ela fechou os olhos.
— Pequenos ajustes.
Kitsune ergueu a cabeça.
— Se um dia eu desaparecer, procurem esse homem.
Nenhum dos cinco demonstrou preocupação.
— Que bom saber que sou amada.
O projeto social funcionava numa casa grande adaptada que já conhecera dias melhores.
Não era exatamente um abrigo permanente. Servia mais como ponto de acolhimento e encaminhamento. Ali chegavam pessoas precisando de banho, comida, roupas limpas, alguma orientação ou simplesmente algumas horas protegidas da rua.
Havia profissionais preparados para coisas que Lia definitivamente não era preparada para fazer.
Ela nunca confundira voluntariado com competência técnica.
Não era médica.
Não era psicóloga.
Não era assistente social.
Era programadora.
E programadores, segundo sua experiência, já causavam problemas suficientes quando tentavam consertar sistemas para os quais não tinham sido contratados.
Por isso Lia fazia aquilo que sabia fazer.
Organizava cadastros.
Conferia doações.
Ajudava com computadores.
Servia refeições.
Conversava quando alguém queria conversar.
Ficava quieta quando alguém não queria.
Naquela manhã, considerando seu estado mental, esperava ficar principalmente na cozinha.
Legumes não exigiam raciocínio sofisticado.
Pelo menos era o que pensava.
— Você está com uma cara péssima.
Lia colocou a bolsa sobre uma cadeira.
— Obrigada.
— Dormiu?
— Tecnicamente.
— Cliente?
— Cliente.
A outra voluntária assentiu com a solidariedade de quem não precisava de detalhes.
Lia prendeu o cabelo.
— O que tem para fazer?
E durante aproximadamente duas horas, o sábado correspondeu às expectativas.
Caixas foram abertas.
Roupas foram separadas.
Café foi servido.
Depois mais café.
Lia recuperou progressivamente sua capacidade de formular frases completas.
Até que percebeu uma movimentação diferente junto à entrada.
Havia chegado alguém.
Isso também não era incomum.
O estranho era que ninguém parecia saber muito bem o que fazer com ele.
Lia continuou organizando algumas embalagens até ouvir uma voz masculina:
— Eu já disse que estou ótimo.
Pausa.
— Não estou falando com você.
Outra pausa.
— Porque você está morto.
Lia parou.
Olhou para a voluntária ao seu lado.
A mulher abaixou lentamente a caixa que segurava.
— Você ouviu?
— Infelizmente, sim.
Lia saiu da cozinha.
O homem estava sentado numa cadeira próxima à entrada.
Magro.
Cabelo despenteado.
Roupas extravagantes demais para passarem despercebidas e malcuidadas o suficiente para sugerirem que o dono tinha preocupações maiores do que aparência naquele momento.
Parecia exausto.
Não simplesmente cansado.
Exausto.
E falava sozinho.
Ou pelo menos era assim que parecia para quase todo mundo naquela casa.
Na cadeira diante dele estava Ben.
Ninguém além de Klaus parecia perceber sua presença.
Ben observava o irmão com os braços cruzados e uma expressão que misturava preocupação e uma quantidade considerável de irritação acumulada.
Você não está ótimo.
— Estou suficientemente ótimo.
Você quase caiu entrando aqui.
— Foi uma entrada dramática.
Você bateu no batente da porta.
— Isso não invalida a dramaticidade.
Ben não pareceu convencido.
Você precisa comer.
— Eu sei.
E descansar.
— Também sei.
Então para de dizer que está ótimo.
Klaus soltou o ar pelo nariz.
— As pessoas gostam de ouvir que estamos ótimos. Facilita a vida delas.
Por um instante, Ben não respondeu.
A expressão dele mudou.
Klaus desviou os olhos.
Então percebeu Lia alguns metros adiante.
Ela estava de braços cruzados, olhando diretamente para ele.
Klaus olhou para Lia.
Depois para Ben.
Depois novamente para ela.
Abriu um sorriso.
— Olá.
— Oi.
— Você estava ouvindo?
— Difícil não ouvir.
— Justo.
Ben observou Lia.
Ela parece irritada.
Klaus olhou discretamente para ele.
— Eu percebi.
Lia apontou para a cadeira diante dele.
A cadeira na qual, para Klaus, Ben estava muito claramente sentado.
— Está conversando comigo agora ou continuo aguardando minha vez?
Por alguns segundos, Klaus apenas a encarou.
Ben ergueu uma sobrancelha.
Gostei dela.
Klaus riu.
Foi rápido.
Mas Lia percebeu.
Não parecia a risada de alguém que achara alguma coisa realmente engraçada.
Parecia reflexo.
— Gosto de você.
— Isso é preocupante. Você não me conhece.
— Às vezes é mais seguro.
O humor desapareceu da expressão de Ben.
Lia não podia vê-lo.
Mas viu alguma coisa mudar no rosto de Klaus.
Aquilo fez Lia prestar mais atenção.
Antes que pudesse responder, alguém chamou atrás dela.
— Lia.
Ela se virou.
O tom bastou.
Havia alguma coisa errada.
— O quê?
A coordenadora fez um gesto discreto chamando-a para longe.
Lia acompanhou.
— Ele não pode ficar.
Ela olhou para trás.
Klaus agora examinava as próprias mãos.
Ben continuava perto dele.
— Por quê?
— Ele já apareceu aqui antes.
— E?
Hesitação.
— Acontecem coisas.
Lia esperou.
— Que coisas?
Outra pessoa se aproximou.
— Coisas estranhas.
— Isso ficou incrivelmente mais esclarecedor.
— Lia, eu estou falando sério.
— Eu também.
Silêncio.
Finalmente:
— Luzes apagam. Objetos caem. Portas abrem sozinhas. Tem gente que diz que ouve vozes quando ele está por perto.
Lia olhou outra vez para Klaus.
Ele havia levantado o rosto.
Pela expressão, ouvira tudo.
Ben também.
E a reação dos dois foi completamente diferente.
Ben ficou em silêncio.
Klaus sorriu.
Grande demais.
Animado demais.
Artificial demais.
— Ah, sim!
Ele se levantou.
Rápido demais.
Devagar.
Tarde demais.
Klaus cambaleou e apoiou a mão na parede.
Ben levantou-se no mesmo instante, por puro reflexo, embora não pudesse segurá-lo.
Mesmo assim, Klaus abriu os braços numa reverência.
— O espetáculo paranormal ambulante. Esqueci de mencionar no currículo.
Ninguém riu.
O sorriso permaneceu.
Lia conhecia pouco daquele homem.
Mas conhecia gente o suficiente para identificar quando uma piada estava sendo usada como armadura.
— Senta.
Klaus olhou para ela.
— Perdão?
— Você quase caiu.
— Foi coreografia.
— Foi pressão baixa.
— Não pode provar.
— Senta.
Ela está certa.
Klaus lançou um olhar para Ben.
— Ninguém pediu sua opinião.
Lia apontou para a cadeira.
— Eu também não pedi a sua sobre a minha opinião. Senta.
Ben quase sorriu.
Klaus olhou de um para o outro.
Embora apenas um daqueles lados soubesse que estava participando da discussão.
Estranhamente, sentou.
Lia voltou-se para os outros.
— Tem algum motivo real para ele não poder ser atendido?
— Acabamos de explicar.
— Não. Vocês disseram que acontecem coisas estranhas.
— Você não estava aqui da outra vez.
— Verdade.
A coordenadora respirou fundo.
— Algumas pessoas ficaram realmente assustadas.
Lia assentiu.
— Eu acredito.
Aquela resposta pareceu surpreendê-los.
Klaus ergueu os olhos.
Ben também.
— Eu não estou dizendo que ninguém viu nada. Estou perguntando o que isso muda no fato de que ele precisa de ajuda.
Silêncio.
Lia apontou discretamente para Klaus.
— Olha para ele.
O sorriso desaparecera outra vez.
Agora que ninguém prestava atenção diretamente nele, parecia menor.
Ben estava ao lado da cadeira.
Perto.
A atenção inteiramente voltada para o irmão.
— Ele está desorientado, exausto, provavelmente precisa comer, dormir e ser avaliado. Trouxeram justamente para cá alguém que precisa de atendimento e encaminhamento, onde existem pessoas preparadas para isso, e ninguém quer atender porque está com medo de quê?
Ninguém respondeu.
Lia esperou.
— Fantasmas?
Klaus ergueu ligeiramente as sobrancelhas.
Ben fez o mesmo.
Tecnicamente...
Klaus lançou-lhe um olhar.
— Nem começa.
Lia franziu a testa, mas rapidamente voltou a atenção para a coordenadora.
— Parabéns pela postura maravilhosa.
— Lia...
— Eu tenho medo é dos humanos vivos. Por isso prefiro meus gatos.
Klaus virou o rosto imediatamente.
— Você tem gatos?
Ben fechou os olhos por um instante.
Lia encarou Klaus.
— Esse foi o ponto da conversa que chamou sua atenção?
— Quantos?
— Cinco.
Ele arregalou os olhos.
— Cinco?
— Sim.
— Você parece uma pessoa de três gatos.
Lia ficou absolutamente imóvel.
— O que exatamente isso significa?
Klaus pensou.
— Ainda estou elaborando.
Não significa nada.
Klaus fez um pequeno gesto com a mão.
— Estou elaborando.
Um dos voluntários abafou uma risada.
A tensão diminuiu por aproximadamente três segundos.
Então a coordenadora falou, mais baixo:
— Mesmo assim, ele não pode passar a noite aqui.
Lia respirou fundo.
Sabia que deveria discutir mais.
Sabia, principalmente, que não deveria pensar na alternativa que acabara de pensar.
Olhou para Klaus.
Olhou para a porta.
Olhou novamente para Klaus.
Não.
Péssima ideia.
Profundamente péssima.
Possivelmente a pior decisão tomada naquela casa naquele mês.
Klaus inclinou a cabeça.
— Essa expressão é sobre mim?
— É.
— Parece grave.
— É.
Lia pegou a bolsa.
— Como você se chama?
Ele abriu os braços.
— Klaus.
— Só Klaus?
— Para nossos propósitos atuais, acho suficiente.
Atrás dele, Ben passou a mão pelo rosto.
Klaus decidiu ignorá-lo.
— Certo, Klaus.
— Certo o quê?
Ela colocou a bolsa no ombro.
— Você vem comigo.
Pela primeira vez desde que aparecera, Klaus ficou completamente sem resposta.
Ben também.
— Com você?
— Sim.
— Para onde?
Lia fechou os olhos por um segundo.
Talvez ainda desse tempo de o bom senso retornar.
Não retornou.
— Para minha casa.
Klaus piscou.
Ben imediatamente se aproximou.
Não.
Klaus virou ligeiramente a cabeça.
— Você acabou de me conhecer.
Boa observação. Continue por aí.
— Estou perfeitamente ciente disso — Lia respondeu.
— Eu converso com mortos.
— Percebi.
— Posso ser perigoso.
Ben apenas olhou para ele.
Longamente.
Klaus percebeu.
— Não faz essa cara.
Lia, mais uma vez, viu Klaus dirigir a frase ao absolutamente nada.
— Seu amigo discorda?
Klaus olhou para ela.
Aquilo o pegou desprevenido.
— Meu...
Lia indicou vagamente o espaço ao redor dele.
— A pessoa morta com quem você está discutindo desde que eu cheguei.
Klaus hesitou por um instante.
Então olhou para Ben.
Ben olhou de volta.
— É. Bastante.
Porque neste momento uma brisa forte é uma ameaça razoável à sua integridade física.
Klaus estreitou os olhos.
Lia acompanhou a pequena discussão silenciosa sem entender uma palavra.
Depois olhou para a parede que o havia impedido de cair poucos minutos antes.
— Neste momento, você parece precisar de ajuda para chegar até o carro.
Klaus levou a mão ao peito.
— Isso foi dolorosamente ofensivo.
Ben não discordou.
— Consegue andar? — Lia perguntou.
Klaus levantou-se.
Precisou segurar a cadeira.
Lia arqueou uma sobrancelha.
Ben fez praticamente a mesma coisa.
Klaus olhou primeiro para um.
Depois para o outro.
— Não vem ao caso.
Lia suspirou.
Talvez ter dormido quatro horas estivesse comprometendo seriamente sua capacidade decisória.
Definitivamente contaria para alguém onde estava e com quem.
E guardaria as facas.
Talvez trancasse a porta do quarto.
Meu Deus.
Estava realmente fazendo aquilo.
Klaus deu dois passos e parou ao lado dela.
Ben permaneceu do outro lado.
— Só gostaria de registrar oficialmente que acho uma péssima ideia levar um completo desconhecido para casa.
— Registrado.
— Especialmente este desconhecido.
Finalmente estamos de acordo.
Klaus ignorou Ben.
— Klaus?
— Sim?
— Eu mudo de ideia muito rápido.
Ele fez um gesto fechando a própria boca.
Lia deu dois passos para fora.
Parou.
Virou-se para a equipe.
— E amanhã, quando ele estiver em melhores condições, vou procurar um encaminhamento adequado. Porque, caso tenha passado despercebido hoje, é isso que se faz quando alguém precisa de ajuda.
Klaus apareceu atrás dela.
Ben parou junto dele.
Dessa vez, Klaus não fez nenhuma piada.
Só ficou olhando para Lia.
Ben percebeu.
E olhou para o irmão.
Klaus desviou o rosto primeiro.
— Você sempre briga com instituições antes do almoço?
— Só quando estou com sono.
— Fascinante.
Ela começou a andar.
Klaus foi atrás.
Ben acompanhou os dois.
Por alguns passos, ninguém disse nada.
Então Klaus pareceu se lembrar da informação realmente importante daquela manhã.
— E seus gatos gostam de visitas?
Lia finalmente olhou para ele.
— Não.
Ele parou.
— Ah.
Ben continuou andando por mais dois passos antes de perceber que Klaus tinha ficado para trás.
Virou-se.
Vem.
— Você ouviu a parte do "não"?
Ouvi.
— Foi um "não" extremamente convincente.
Lia observou Klaus conversando baixinho com o ar outra vez.
Pela primeira vez naquela manhã, sorriu.
— Boa sorte.
Klaus olhou para ela.
Depois para Ben.
Ben deu de ombros.
Você que perguntou.
Klaus respirou fundo e voltou a andar.
— Só para constar, se um deles tentar me matar, eu vou considerar isso culpa sua.
Minha?
— Você está vindo comigo.
Ben olhou para Lia alguns passos adiante.
Depois para Klaus.
Não respondeu imediatamente.
Havia alguma coisa naquela situação que ainda não lhe agradava.
Na verdade, quase nada naquela situação lhe agradava.
A mulher era uma desconhecida.
Klaus estava exausto.
Eles não sabiam onde ela morava.
Não sabiam praticamente nada sobre ela além do fato de que era voluntária, tinha cinco gatos e possuía uma disposição preocupante para discutir com instituições antes do almoço.
Ben tinha todos os motivos para desconfiar.
Mesmo assim, olhou para trás.
Para a casa.
Para as pessoas que haviam acabado de decidir que o irmão era assustador demais para permanecer ali.
Depois olhou outra vez para Lia.
Ela não tinha pedido explicações.
Não tinha pedido demonstrações.
Não tinha tratado Klaus como aberração.
Tinha olhado para ele e enxergado, antes de qualquer outra coisa, alguém que mal conseguia permanecer de pé.
Ben voltou a encarar o irmão.
Eu vou.
Klaus não respondeu.
Só seguiu Lia.
Ben foi ao lado dele.
Como sempre.
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