Um Instante Antes Do Fim
1 PARTE 1
Notas iniciais
Espero que gostem. Um terrorzinho de leve é muito bom as vezes.
Um Instante
Antes do Fim
Parte 1
Ela veio tão retilínea e veloz que seria impossível desviar, mas antes do projétil ser libertado do cano de metal, eu estava correndo.
— Pare agora! – Exclamou o policial, me perseguindo.
Passadas pesadas. Uma gota de suor escorreu no canto esquerdo do meu rosto enquanto meu corpo se continuava quente pela adrenalina.
Minha arma havia caído pelo caminho e agora não era momento de pensar em buscá-la.
Atravessei o beco na completa penumbra até encontrar à minha direita uma viela que era iluminada por um poste e sua luz avermelhada.
O arfar da minha respiração me atrapalhava em pensar em uma saída.
Então o tiro foi disparado no mesmo momento que percebi o fim do beco em uma parede de tijolos. Tudo de repente ficou escuro, silencioso e pude sentir meu corpo leve...
Eu flutuava.
A escuridão logo tomou forma quando um brilho ofuscante atravessou toda densidade negra dando lugar a uma floresta à noite.
Varrei o lugar com meu olhar e nele nada encontrei. Uma floresta escura e vazia. Onde eu estava?
Deve ser um sonho, pensei.
Talvez seja mesmo. Provavelmente o tiro me atingiu e eu alucinava. Ri.
— Você não está sonhando. — Uma voz ecoou entre as árvores.
Procurei, mas não tive sucesso em encontrar o dono da voz misteriosa.
— Quem está falando? – Perguntei. – Onde está?
— Você é um dos primeiros que perguntam isso.— Comentou a voz. — Geralmente as pessoas sabem para onde vão depois de ser mortalmente baleadas.
— O que está falando? – Vociferei.
— Onde acha que está, assassino? — Perguntou. – Não seja burro, isso doí a cabeça.
Não poderia acontecer isso... Não.
— Eu morri? – Engoli em seco.
— Tem outra explicação para você estar aqui?— Algo desceu da copa das árvores e pousou em silêncio, na sombra.
Neguei.
— Queria poder me aposentar, sabia? – Comentou atrás do tronco que o escondia. – É tão difícil ter que esclarecer a mesma coisa a cada pessoa que vem para cá.
— Isso não faz sentido... – Protestei em negação. – Foi um tiro... UM TIRO.
— A morte nunca faz sentido, meu caro. Você não precisa ser morto para morrer, se é que me entende. – falou ele. – Quando ELE lá de cima decide, não há como fugir.
— Mas eu ainda sinto... Sinto dor, fome...
— Você se encontra em um lugar onde sentirá tudo até que seu pagamento esteja completo. Lembra quando todos lhe avisaram? Um dia pagará por teus atos. Esse dia chegou. Estamos no Purgatório ou Umbral para outros.— Explicou. – Ingênuos são aqueles que acreditam que ou morrer irão para cima... Ou para baixo. Vocês, humanos nunca pensam em um meio termo para nada. – Um gargalhar fez os galhos se chocarem entre eles e assim os corvos voarem para longe em atordoantes gritos.
Aquilo me atingiu com uma insana dor que precisei me curvar em uma tentativa de cessa-la.
— Lugar agradável, não?
Respirei. Ainda ofegava.
— Quem é você? – perguntei.
— Ainda não é momento de apresentações, rapaz. – Sua voz afinou se assemelhando a de uma garotinha. Uma garotinha que não me era estranha.
Arfei e hesitei assustado.
A voz gargalhou... A mesma risada.
— Assustado, papai?— Perguntou, saindo das sombras e revelando seu rosto sob a luz da lua.
— Vanessinha?! – Indaguei, apavorado. – Mas eu te...
— Matei?— Completou ela. Assenti. – Sim, me matou, papai. Tenho certeza que não se arrepende disto, não é mesmo, assassino?
Minha respiração saiu do controle.
— É imperdoável o que você fez comigo. – Comentou, vociferando. – Enforcamento? Você me enforcou e olhou fixamente em meus olhos até eles perderem o brilho. Depois, arrependido, porém em recusa de ser preso, achou melhor dar um fim em meu corpo. Fogo? Agora eu te pergunto, Por qual motivo você fez isso? Hein?!
Não respondi.
— Álcool? A abstinência pela sua maldita droga foi o que levou você a cometer tamanha atrocidade? Sim? Talvez? – Ela riu. – Você me matou, pois como você mesmo disse, eu não calava a maldita boca enquanto você emergia no pandemônio que a ausência da droga lhe causava. Porém, eu havia acordado assustada de um horrível pesadelo e só precisava de um abraço. Simplesmente, você envolveu tuas mão envolta do meu pescoço e me tirou a vida da mesma forma que se mata uma galinha. Cruel, não?
Hesitei.
— Me responda! – Urrou em múltiplas vozes, como se dentro daquele corpo coabitasse mais de duas pessoas. Depois deu lugar a mais um riso. – Foi o que pensei.
— Desculpe... – Foi a única coisa que consegui dizer. – Eu sinto muito... Eu...
— Lamentações não me trará de volta. – Falou. – Nem eu e muito menos a mamãe que você matou logo em seguida. Se lembra disto?
Realmente eu lembrava.
* * *
O brilho em seus olhos desapareceu e seus bracinhos fraquejaram pendendo no ar já desfalecidos.Pousei seu na cama quando ouvi passos ecoarem atrás de mim. Virei para porta.
Ela estampou a boca com as mãos e arfou enquanto as lágrimas escorriam. Seu peito subia e descia pela respiração acelerada.
— Você a ma-ma... tou – Chorou. Em seguida, virou em direção ao corredor e correu para sala. Juro que rosnei com um puta medo dela tentar fazer algo. Corri atrás dela e a encontrei segurando um telefone junto ao ouvido. Quando me viu, gritou desesperada.
Agarrei seu cotovelo e a joguei no sofá ao lado. Ela se encolheu entre as almofadas soluçando.
Fui até a cozinha e fiz questão de buscar uma faca. Naquele momento escolhi a maior. Quando cruzei a porta, ela agarrava um abajur e avançou em minha direção. Desviei, mas o objeto se quebrou quando encontrou meu ombro, fazendo-me pender para o lado. Agarrei novamente seu cabelo impossibilitando sua corrida e a arrastei para um canto da Sala.
Ela suplicava, chorava, mas o que eu poderia fazer? Se não desse cabo em sua vida naquele momento, ela me denunciaria e nem fudendo eu voltaria para aquela prisão.
Teria que matá-la.
* * *
Foi como se eu acordasse na manhã de um dia qualquer. A primeira coisa que vemos é o teto, mas na minha ocasião foi a garotinha.
— Gostou do passeio?— Perguntou, exibindo um sorriso.
Seus olhos escureceram e sua pele se tornou pálida. Pensei em recuar, mas antes disso, ela abriu a boca de uma maneira tão disforme que suas bochechas passaram a rasgar. Meu sangue gelou quando ela gritou.
Um corpo espectral de uma menininha… De Vanessinha, saiu de dentro da boca daquele corpo e avançou para cima de mim em um rosnado. O espectro atravessou meu corpo se desfazendo em fumaça. Aquilo trouxe um prelúdio da dor da morte. Fria e solitária.
Arfei quando aquilo passou a desaparecer. Então o ser na minha frente soltou uma gargalhada.
— Oi, Amor… — Era a voz da minha esposa. – Está na hora de você pagar pelo que fez.
Continua...
Notas finais
Obrigado por ler.
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