Notas iniciais
Situando a história: Suponhamos que Kotetsu não é mais um herói oficial, já está com o pé na aposentadoria. O que lhe deixa com bastante tempo livre.

Espero que gostem da história desse ano e boas festas

Era apenas mais uma noite de natal que Barnaby passaria sozinho em seu apartamento, e não havia nada de novidade quanto a isso, desde a perda dos pais ao caminho de se tornar um herói sustentado por um desejo de vingança, ter uma companhia para momentos descontraídos havia se tornado algo totalmente dispensável. Porém aquela noite em especial, após tantos anos, sentia um vazio o corroendo por dentro, algo misturado com uma espécie de culpa por ter sido tão frio e construído tantos muros em torno de si.

Poderia estar reunido com os outros heróis e demais funcionários da agência, convites não faltavam. Porém sempre se sentia sobrando em qualquer comemoração, o clima de alegria e descontração o deixava desconfortável, e quando as perguntas giravam em torno de seu ex-parceiro aposentado apenas desconversava, buscando uma desculpa para deixar o ambiente mais rápido.

Claro que sentia falta de Kotetsu, agora, o “herói de um minuto”. Por mais que discutissem e tivessem suas diferenças, acabavam sempre se apoiando. De certa forma, se completavam. Sentia saudades, mas não admitia. Sabia onde ele estava, agora aproveitando mais tempo com sua a mãe e a filha, porém nunca sequer escreveu uma mensagem, nem mesmo enviou alguma carta. O orgulho nunca permitiu.

Acima de tudo o que mais lhe atingia era saber que se não partisse dele, nunca teria notícia do velho. Todos os outros heróis mantiveram contato com Kotetsu, exceto Barnaby, o que era mais próximo se tornou o mais distante.

“Aproveite as festas enquanto não precisamos agir como herói”

Aproveitar o que? Seus pensamentos lhe torturando?

O relógio apontava já passar das dez da noite e o silencio permanecia por todo o apartamento. Não... A cidade estava em paz, como se nunca tivesse havido problemas, mas isso não trazia tranquilidade nenhuma a Barnaby.

Saiu de seu estado de inércia, em frente a tela de seu notebook, dirigindo-se ao minibar. Quase não usava, o tinha apenas como decorativo, porém em datas deprimentes assim acabava cedendo com mais facilidade. Antes de retornar para casa naquela noite havia passado em uma loja de conveniência e acabou comprando uma bebida a qual recebeu uma recomendação, parecia o momento ideal para prova-la.

Surpreendeu-se ao escuta o interfone tocar, não estava esperando por ninguém. Apenas deixou a garrafa sobre a bancada para confirmar a câmera, dependendo quem fosse nem se daria o trabalho de abrir a porta.

— O que faz aqui? – demorou alguns segundos para formular algo e ainda assim foi a única mensagem que sua mente trouxe.

Ainda demorou para acreditar nos próprios olhos, talvez fosse só alguém parecido e sua mente resolveu lhe pregar outra peça.

Escutou o celular tocar e na câmera percebeu que era a pessoa ligando. Ou apenas uma grande coincidência. Decidiu, por fim, atender a porta e acabar logo com aquilo.

— Bunny?! – surpreendeu o homem a porta. – Pensei que iria perder a viagem. Se bem que poderia ter avisado que viria... – pareceu perceber seu deslize. – Mas não sei se você responderia também.

— O que faz aqui? – perguntou sem cerimônia. – Não devia estar em casa com a Kaede?

— Hã? Na verdade... Foi ideia dela... – respondeu fazendo Barnaby levantar as sobrancelhas. – Disse que eu estava deprimente demais e isso estragava o clima.

— Ela de mandou pra cá? – indagou, soltando um longo suspiro. – Pior que isso é fácil de acreditar.

— Então... Posso entrar?

— Eu não tenho nada para oferecer de comida. – avisou dando passagem para que o outro entrasse.

— Já esperava por isso. Justamente por esse caso que já comprei tudo que vamos precisar, só me libere a cozinha. – sorriu mostrando as sacolas.

— Arroz frito? – provocou sabendo dos dons culinários do outro.

— Não fale mal da comida antes de provar. – o advertiu como se estivesse falando com a própria filha.

— A cozinha é toda sua. – respondeu sem tirar o sorriso debochado do rosto. – Só não coloque fogo em nada. – se dirigiu de volta a bancada para buscar a garrafa e agora dois copos.

— É uma bela casa Bunny. Como consegue deixar tudo tão organizado?

— Não me lembro de você ter meu endereço. – desconversou, sabia bem o quão desorganizado Kotetsu. Na verdade já estava começando a ficar ansioso por deixa-lo sozinho na cozinha.

— Ah isso... Eu passei no trabalho antes. – falava enquanto caçava nos armários os utensílios que precisaria. – Saito ainda estava lá trabalhando e soube me informar onde você estava passando as festas. Bunny me ajuda aqui. – pediu socorro ao se ver perdido na cozinha. — Você tem panela pro arroz?

— Está tudo organizado. – suspirou pesarosamente. – Deixa que eu pego. – abandonou a garrafa mais uma vez sobre a bancada, já aceitando que não conseguiria beber tão cedo.

— Tudo aqui parece tão limpo e organizado demais. – Kotetsu comentou colocando automaticamente as mãos na cintura e analisando tudo a sua volta. – Bunny, quantas vezes você já usou esse fogão? – se inclinou para frente, levando uma das mãos no queixo.

— Não costumo preparar muita coisa pra mim... – respondeu sem nem desviar o olhar do que fazia. – Perde-se muito tempo e também é só pra mim.

— Então o jantar de hoje será mais que especial. O grande Wild Tiger vai preparar a melhor refeição que você já provou. – ditou em tom de orgulho.

— Não diga coisas estranhas, velho. — Barnaby não conseguia compartilhar daquele humor.

— Qualé Bunny? Se solta um pouco.

— Vai precisar de mais alguma? – continuou ignorando o drama desnecessário do outro.

— Estava pensando em fazer umas omeletes também. Sabe... como acompanhamento.

— Isso eu posso fazer.

— Óóóh. Quer dizer que Bunny sabe cozinhar?

— Nunca disse não saber cozinhar, apenas que raramente o fazia. — Barnaby o encarou com desdém.

— Ok ok, então deixo as omeletes com você.

Barnaby suspirou como se estivesse cansado, nada daquilo estava em seus planos. Começou a quebrar os ovos para omelete, porém não evitou olhar de canto de olhos o outro ao ouvi-lo cantarolar.

Kotetsu parecia verdadeiramente feliz, o que fez Barnaby sorrir sem perceber.

Agora concentrando-se com o preparo das omeletes, não prestava atenção no passar do tempo nem na aproximação do outro.

— Você leva jeito mesmo, Bunny. – comentou olhando sobre os ombros do loiro. – Olha só que perfeitinha essas omeletes.

— Não devia estar cuidando do arroz? – havia se assustado ao perceber o outro falando tão próximo de seu ouvido, porém manteve a postura para que não notasse.

— Está tudo sobre controle.

— Deveria cheirar queimado? – sem mudar a expressão, começou a pegar um por um dos omeletes para cortar as tiras.

—Ah! – Kotetsu se alertou, indo socorrer a panela. – Ta tudo bem. Não deu tempo de queimar.

Barnaby apenas suspirou outra vez aquela noite enquanto termina de cortar as omeletes.

A meia-noite já se aproximava quando os preparativos do jantar ficaram prontos. Tudo extremamente simples, uma refeição totalmente comum, mas havia um toque especial naquela noite. Eles iam desfrutar daquela refeição juntos, tirando o gosto amargo da solidão.

— O que achou, Bunny? Nada mau, né? – Kotetsu falava quando pegava outra tigela de arroz. – As omeletes estão ótimas também.

Barnaby apenas comia em silêncio, não elogia, mas também não tinha de que reclamar em relação a comida.

— Hey, Bunny. – tentou chamar a atenção do outro mais uma vez. – Por que não bebemos alguma coisa? – sugeriu enquanto buscava com os olhos algo que correspondesse seu desejo. – Se importa se eu pegar a garrafa sobre o balcão? – recebendo apenas um levantar de ombros, Kotetsu se dirigiu até a bebida. – Mas essa é... – pareceu surpreso ao consultar o rótulo. – Então você prestou atenção em mim quando lhe sugeri esse vinho. – sorriu de modo sereno.

— Já se tornou o herói que desejava para poder bebê-lo? – indagou sorrindo, confirmando ter prestado atenção em tudo.

— Eu não sei... – o sorriso demonstrava tristeza. – Já estou sendo forçado a oficializar a aposentadoria...

— Você já está aposentado. – ditou. – Continua trabalhando por conta.

— Está vendo? Até você, Bunny. – riu sem humor. – Ainda tem tanta coisa que gostaria de fazer.

— O programa te aposentou por questões de segurança. — Barnaby tentava escolher melhor as palavras. – Mas não são eles que te transformaram em herói, logo não podem tirar isso de você.

— Bunny?

— Impulsivo, não muito Inteligente e fiel as suas ideologias. – Kotetsu não sabia se deveria encarar aquilo como um elogio ou insulto. – Extremamente irritante, mas seria mentira eu dizer que não aprendi nada com meu velho parceiro.

— Você está tentando ser legal comigo, Bunny?

— Poderia abrir logo essa garrafa? – Barnaby voltou a agir no seu normal. – Caro herói de um minuto.

— Sabe Bunny, Kaede tinha razão. Fiz bem em aparecer aqui. – finalmente Kotetsu sorriu mais tranquilo. – Que tal se bebêssemos na varanda? Imagino que tenha uma boa vista da cidade.

— Não é uma ideia ruim. – concordou.

Kotetsu estava radiante e não escondia ao abrir a garrafa e servir as duas taças. Barnaby já esperava do lado de fora, apoiado na grade da sacada.

— Hey Bunny. – chamou para lhe entregar a taça. – Feliz natal. – desejou fazendo subentender que já passava da meia noite.

— Feliz natal, velho. – sorriu aceitando a bebida.

Notas finais
Novamente desejo a todos uma bom final de ano e que 2021 traga as fics que esse ano não trouxe
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!