Um Gibb em Hogwarts

8 Sacrifício Humano


Notas iniciais
“Human Sacrifice” foi escrita pelos irmãos Barry, Robin e Maurice Gibb, os Bee Gees, e lançada no álbum “High Civilization” em 1991

Como aquele sábado ainda não era um dos que nos era permitido ir ao vilarejo de Hogsmeade, todos os alunos estavam no castelo. Quem entrasse ali pela primeira vez ficaria surpreso com o clima que pairava no ar. Os alunos com medo e os professores recuados, sem poder conversar com os alunos sobre assuntos além de suas matérias (decreto trazido de volta do regime de Dolores Umbridge). Aquela manhã significava uma grande reviravolta na minha vida, pois era a primeira vez que eu tomaria parte na ação. Descobri depois que o que eu precisava fazer era chamado de “ataque kamikaze”, ou “auto-sacrifício”. Devo reconhecer que os nomes são apropriados. O plano de Neville era surpreendentemente simples, e ao mesmo tempo exigia uma complexa interação entre os envolvidos. Da minha parte, não precisava ser algo exatamente lógico ou esperto, só precisava ser suficientemente barulhento pra distrair os três alvos. Eu deveria ir para o pátio principal no momento em que a maior parte dos alunos estivesse circulando. Passei algum tempo nas escadas enquanto observava e calculava qual seria o momento propício. Decidi que onze e meia da manhã era o momento certo. Faltava ainda que os Carrow estivessem por perto, mas isso não era problema. Mal vi o balançar da roupa de Aleto, levantei e fui até o meio do pátio. Discretamente, fui deixando cair do meu bolso uma fila de mini explosivins, que Gina trouxera clandestinamente, como presente dos irmãos Fred e Jorge. Os gêmeos Weasley eram reconhecidamente os alunos mais inteligentes e travessos da escola, que à época não estudavam mais lá.

Em poucos segundos, pequenas e intensas explosões se deram à minha volta. Com a minha varinha, reuni a fumaça e escrevi no ar a frase “Fieis a Dumbledore”. Mantinha a varinha no ar, sustentando a mensagem, quando os dois irmãos Carrow me estuporaram. Não tive tempo nem de pensar, quanto mais de falar alguma coisa. Lembro dos alunos que tinham começado a gritar e aplaudir, sendo logo dispersados. Quando eu estava tentando me levantar, um pulso agarrou minha gravata e me puxou pra cima, logo batendo minhas costas contra a parede.

—Você enlouqueceu, grifnório? – gritou Amico, pressionando a varinha contra o meu pescoço – Você realmente achou que poderia simplesmente fazer isso e continuar caminhando livremente pelo castelo?

Por cima da cabeça de Amico, eu vi Aleto desfazer a minha frase de fumaça. Dando uma olhada mais acurada, vi Neville, Gina e Luna desaparecendo escada acima. Até ali, tudo corria bem. Mas faltava um detalhe, e eu precisava cumpri-lo.

—Vocês pensam que eu sou louco? – gritei – Por acaso eu sou louco? Tragam aquele borra-botas do Snape aqui e eu digo tudo na cara dele! Sento um murro naquela cara de quem nunca viu shampoo na vida e faço ele… — não pude terminar a frase, pois logo fui atirado ao chão.

—Vamos ver – disse Aleto, se aproximando – se a sua audácia continua depois de uma punição adequada… Crucio!

Até então, eu nunca tinha sentido tamanha dor. Era o mesmo que alguém esmigalhando os ossos da minha coluna. Logo ouvi uma outra voz que repetia o feitiço, e a dor se intensificou. Soube depois que eu tinha sido torturado por pouco menos de três minutos, mas parecia ser muito mais. Ao longe, alguém gritou pra que os irmãos Carrow parassem. Levei alguns segundos pra me reorganizar mentalmente e ver o que estava acontecendo, e o que eu vi não me agradou nem um pouco: Snape descia as escadas principais, carregando Neville, Gina e Luna pelos braços. Conforme se aproximavam, pude ler com alguma dificuldade as expressões deles: Neville parecia assustado e derrotado. Gina estava apreensiva. Snape, obviamente, furioso. O que me surpreendeu foi a aparente neutralidade de Luna, que se transformou em uma ansiedade nervosa assim que me viu. Por alguma razão estranha, senti mais vergonha do que derrota. Derrota por ver que o plano dera errado, e vergonha por Luna me ver em tão lamentável situação. Quando o cortejo se aproximou, Snape gritou com os dois irmãos:

—O que vocês pensam que estão fazendo, seus idiotas?

—Senhor – disse Amico – Este aluno estava promovendo rebeldia e difamando o seu…

—Enquanto vocês perdiam tempo com esse agitador comum, esses outros aqui tentavam invadir a minha sala e roubar um pertence da escola!

—Diretor, nós apenas…

—Apenas nada, Amico! Arranje uma punição adequada para esses três enquanto eu levo Gibb para a ala hospitalar e trato da rebeldia dele eu mesmo!

Ainda não sei definir o que me gelou mais: saber que Luna e os outros estavam em real perigo ou que Snape ia tratar de mim pessoalmente. Só tive tempo de olhar pros três enquanto eles eram levados pelos Carrow. Snape me levantou de uma puxada só, fazendo com que eu voltasse a sentir as dores de antes. Ainda me segurando pelo braço, me fez caminhar de volta pro castelo. Alguns alunos ainda estavam nos corredores, mas Snape não lhes deu qualquer tipo de atenção. Quando pude perceber melhor o que estava acontecendo, notei que Snape não estava indo até a ala hospitalar, e sim às masmorras. Voltei a sentir pânico, pensando que ele me levaria até a sala clandestina, a mesma aonde Luna tinha sido levada antes. Felizmente, também me enganei quanto a isso. Snape entrou em sua antiga sala, onde o professor Horácio Slughorn preparava uma aula de Poções.

—Saia, Horácio – disse ele, com a mesma voz calma e seca de sempre. O professor ainda tentou esboçar uma reação, mas Snape reforçou a ordem, com uma ameaça mais velada. Assim que estávamos sozinhos, Snape me atirou no chão entre as mesas.

—O que eles queriam, Gibb?

—Sinceramente, eu estava sendo atacado por…

—Sabe a que me refiro. Eu não acredito em coincidências. Sua missão era nos distrair para que os seus amiguinhos pudessem invadir minha sala, não é?

—Se essa é sua teoria…

—Responda!

—Eu não tenho como saber.

—Eu tenho total autoridade pra lhe ministrar algumas gotas de Veritaserum na hora que eu quiser, Gibb. Nem mesmo o próprio Lord das Trevas pode mentir depois disso.

—Esteja à vontade.

—Não queira me provocar.

—Acabo de ser torturado, não faz diferença.

—Não me compare com aqueles imbecis. Eu sei ser bem pior.

—Nós sabemos disso. Desde que vimos o cadáver de Dumbledore.

Nesse momento, subitamente, ele parou. Por um instante, pensei que ele fosse me enfeitiçar, mas ele simplesmente me olhou, com aquele ar arrogante, e perguntou:

—Eu ainda não consegui entender se você é corajoso ou idiota. Mas digo isso: não importa como vocês souberam sobre a espada, não terão a chance de deitar as mãos nela.

Pra ser franco comigo mesmo e com vocês, eu também não sabia se eu estava sendo corajoso ou idiota. Não sei de onde me veio tanta petulância, mas sentia que eu precisava enfrentá-lo e ganhar tempo. Por isso ousei perguntar:

—A espada pertence a nós. Por que continua na sua sala?

—A espada não pertence a vocês, e está onde precisa estar. Você não faz a mais remota ideia de o que ela é ou o que pode fazer.

—Por que quis falar comigo e não com eles?

—Eu sou mais inteligente do que os Carrow, mesmo que não seja tão difícil. Inteligente o suficiente pra saber que o líder de um grupo nunca deve ser o primeiro a ser interrogado. Conheço você, Gibb. Sei perfeitamente que você é apenas um peão nesse tabuleiro. Um peão que ficou a maior parte do jogo sem ser mexido, e só agora avançou. Quem é o jogador, Gibb? Quem é o rei ou a dama do seu lado?

Fiquei quieto. Durante alguns segundos, apenas a nossa respiração produzia ruído. Porém, havia algo diferente no modo como os olhos dele se mexiam: pareciam estar lendo algo escrito na minha testa. Comecei a passar mal, como se um líquido gelado entrasse na minha cabeça desde o meu couro cabeludo. Foi então que me lembrei de ter ouvido um rumor de que Snape era um dos melhores oclumentes da nossa época. E, de fato, ele estava lendo meus pensamentos.

-Obrigado, você me deu exatamente o que eu precisava – disse ele, se levantando – Realmente, é muito melhor quando as duas partes colaboram perfeitamente. Você me deu as informações que estavam em sua cabeça, e eu, em troca, não terei o prazer de usar Maldições Imperdoáveis em você.

Nesse momento, ele se afastou de mim. Na minha cabeça, agora dolorida, percebi que tudo o que Neville, Gina e Luna fizeram seria em vão. Snape só não sabia o que Neville faria com a espada porque eu também não sabia. Claro que eu desconfiava que havia algum plano específico pra isso depois que ela fosse resgatada, mas não me vinha nem a sombra do que poderia ser. Meu único alívio era esse. Tentei me levantar, cambaleante, e vi Snape se aproximar novamente, com a varinha na mão.

—Ponha-se de pé de uma vez – disse ele – Já terminamos aqui, agora sim vou levá-lo até a ala hospitalar.

Minha mão esbarrou em um vidro de nanquim que alguém esquecera sobre uma das mesas. Não tive muito tempo pra pensar, embora já tivesse concluído que eu não teria como pegar minha varinha com ele olhando. Fiz, então, a única coisa sensata que cabia fazer na hora: pegar o vidro e jogar o nanquim na cara dele. Surpreso, ele deu um grito e agitou a varinha no ar, barrando a tinta. Mesmo assim, não conseguiu impedir alguns pingos de acertarem-no. Foram esses os abençoados segundos que tive pra pegar minha varinha e sair correndo.

—Bombarda! – gritei, mirando na porta de madeira, que voou em pedaços pra fora. Saí ao corredor no momento exato de evitar um jato de luz vermelha que veio atrás de mim.

Fugi o mais rápido que minhas pernas me permitiam, deixando pra trás um boquiaberto professor Horácio, que esperava no corredor pra poder voltar à sala. Ouvi os gritos de Snape atrás de mim enquanto eu subia as escadas. Corria sem rumo, desnorteado, preocupado apenas em não ser pego. Não haviam lugares onde eu pudesse me refugiar, pois todos eram conhecidos do diretor de Hogwarts. Exceto, assim eu esperava, a Sala Precisa. Só precisava descobrir como chegar lá a tempo. Quando me aproximei do Salão Comunal da Grifnória, percebi que Snape estava mais perto do que antes, então arrisquei algo mais ousado: virei um corredor e, em lugar de continuar correndo, parei e me virei. Assim que o diretor fez a curva, estuporei-o. Serviu pra deixá-lo atordoado por alguns momentos e cair de costas no chão, mas mesmo assim aproveitei pra continuar subindo até a Sala Precisa. Quando eu consegui entrar, mal conseguia acreditar que estava finalmente a salvo.

Como eu já citei nas cartas anteriores, a Sala Precisa tem a finalidade de atender aos desejos imediatos de quem passa por ela. No meu caso, o que eu precisava era de um esconderijo seguro e de muita água, pois minha asma reclamava bastante da correria e dos meus esforços com os braços. A sala me proveu um quarto simples, porém aconchegante, e uma fonte de água potável. Recuperei oxigênio e continuei segurando a varinha, esperando até ter certeza de que tudo tinha finalmente acabado. Alguns minutos de calmaria me foram suficientes. Eu estava salvo, por ora. Porém, sabia perfeitamente bem que não poderia mais sair daquela sala, pois Snape devia estar pedindo minha cabeça em uma bandeja de prata. Eu estava preso. Sem nada melhor pra fazer, me deitei na cama e me permiti cochilar. Apesar da ansiedade e de uma boa dose de medo, dormi profundamente.