Notas iniciais
“Evolution” foi escrita pelos irmãos Barry, Robin e Maurice Gibb, os Bee Gees, e lançada no álbum “High Civilization” em 1991

Na manhã seguinte, um sábado, eu estava decidido a me permitir o luxo de dormir até um pouco mais tarde. O meu principal problema é que sempre que eu tenho essa ideia eu acordo muito mais cedo do que quero. Nesse dia em específico devo ter acordado por volta de cinco da manhã. Eu já me conhecia, não voltava mais a dormir. Mesmo assim, perdi algum tempo tentando, obviamente, sem a menor sombra de sucesso.

—Maldição… — reclamei em voz baixa, tentando não acordar os outros. Já mais resignado, me levantei e pus o terno parte do uniforme. Nunca vestia roupa casual quando podia evitar. É uma característica um tanto sonserina, mas tenho certeza de que ninguém nunca pensou algo do tipo de mim. Sem calçar os sapatos, e sim levando-os na mão, desci as escadas e fui ao Salão Comunal. Tive uma grande surpresa ao ver Gina deitada no sofá, virada pra lareira, com o uniforme completo menos a capa. Todas as pistas indicavam que ela passara a noite ali. Fui com calma, sem saber se a garota ainda dormia, mas ela mesma me cumprimentou:

—Bom dia, Matthew.

—Bom dia, Gina – respondi, me sentando junto à mesa pra calçar meus sapatos – Desde quando está aqui?

—Já está amanhecendo. Provavelmente estou aqui há umas seis horas. Por alguma razão, essa foi a primeira noite que dormi inteira. Hogwarts está me deixando louca.

Me aproximei do sofá e sentei na parte que estava livre, na frente do colo da garota. Tive dúvidas se deveria tocar-lhe o ombro ou o rosto, então não fiz nada. Perguntei como ela se sentia naquele momento.

—Um pouco mais lúcida, se é que isso é possível. Luna tem estado mais presente que o normal nesses últimos tempos. O que vocês conversaram?

—Nós?

—Sim, ela disse que não conseguiria descobrir o que havia de errado comigo se não fosse por você.

Estranhei aquela fala. Eu não tinha uma ideia muito precisa do que estava acontecendo, mas tive a impressão de que Luna tinha deduzido tudo sozinha e estava apenas fazendo a gentileza de me passar os créditos por simplesmente ter emprestado minha testa. Disse, francamente, que não sabia o que estava acontecendo.

—Vou lhe explicar, então – disse Gina, se virando pra cima, mas sem levantar – Não, não se levante. Não quero ficar de pé por enquanto. Antes de falar, quero fazer uma pergunta. Você já amou alguém?

É desnecessário dizer o quanto essa pergunta me deixou desconcertado. Numa época em que eu ainda estava aceitando que meus sentimentos por Luna poderiam eventualmente ser chamados de amor, qualquer pensamento direto nessa direção poderia me desnortear. Falei, portanto, que não podia ter certeza.

—Eu posso – continuou Gina – As pessoas acham que eu não vejo, mas eu vejo. Todos já descobriram que eu estou perdida e terminalmente apaixonada por Harry Potter. E não é nenhuma fantasia adolescente, eu sei que ele também me ama. Essa maldita guerra faz mais estragos do que os óbvios, Matthew. Tenho andado irascível e perturbada por não saber como ele está ou se ele conseguiria falar comigo. Mas sabe o que realmente me incomoda? É saber que ele está em perigo e eu não posso fazer nada. Esse era o ponto em que eu estava cega. Não sou uma menininha carente, sou uma mulher que entregou o coração a um suicida. Não me olhe com tanto terror, sabe a que me refiro. Naquele último treino, ontem, Luna me fez acordar.

Depois de dizer isso, Gina fechou os olhos e suspirou algumas vezes. Com calma, esperei que ela prosseguisse. Quando abriu os olhos de volta, continuou:

—Luna não veio com aquelas pieguices de “Harry está bem”, “Harry vai voltar”, “Vocês se amam e vão acabar juntos”, e todos os clichês similares. Vi que você ficou surpreso quando eu disse que Luna falou de ti. Tem certeza de que não conversaram sobre isso?

—Sim. Eu, pelo menos, não falei nada. E nem ela, em palavras.

—E em ações?

Fiquei quieto. Gina deve ter visto meu rosto corar, pois deu um sorriso leve. Felizmente, não comentou nada. Em vez disso falou:

—Então não deve ter a menor ideia do que ela me disse, não é?

—Não.

—Ela disse exatamente assim: “Gina, você está no comando. Não apenas de você mesma ou dos seus sentimentos, mas no comando de todos nós. Você é Harry Potter na nossa frente, empunhando a varinha e nos liderando. O trabalho de Neville é técnico e estratégico. Ele é ótimo nisso e nos anima perfeitamente. Mas você é o nosso elo mais forte. E o motivo de você ser assim é o fato de que você ama Harry Potter. De nada vale amar às escondidas. Quando se ama alguém, é preciso estar pronto para ter algo dessa pessoa dentro de si, no coração e na alma. Não ter medo de amar é o que te faz forte”. Foi isso.

Contemplei Gina por alguns instantes. Se alguém me dissesse algo do tipo, eu desmaiaria pela pressão. Mas ela estava bastante reflexiva sobre isso. Não cheguei a comentar, mas entendi ali o motivo de a jovem Weasley ter conseguido dormir uma noite inteira pela primeira vez: Luna havia ajudado-a a perceber qual era o seu papel agora que estava sozinha. Lembro de ter comentado em alguma carta anterior que Neville tinha mostrado o amadurecimento mais visível. Naquele instante eu tive uma opinião diferente. A meu ver, Gina estava pronta.

—E o que faremos hoje? – perguntei, interessado principalmente em uma possível nova linha de ação da garota. Antes de responder, ela me expulsou do sofá e rapidamente se pôs de pé, com uma espriguiçada grande e tranquila. A postura corrigida me mostrava que a capitã do time de Quadribol da Grifnória estava, de novo, na minha frente.

—Deixei Neville e Luna com trabalho demais. Quero compensar isso tomando mais as rédeas da Armada. Vou voltar ao dormitório e preparar algumas coisas para o nosso próximo encontro. Quero que seja segunda à noite. Não teremos problemas.

Dito isso, me lançou um sorriso confiante e subiu as escadas do dormitório feminino. Era esquisito vê-la tão determinada e compará-la com a imagem deplorável que tivéramos na noite de sua crise. Como não me atrevia a sair do Salão Comunal, aproveitei para completar os estudos da tarde anterior, de antes de Luna me encontrar na biblioteca. Algumas horas depois, o próprio Neville desceu.

—Ah, que bom que te encontrei aqui, Matthew. Preciso conversar contigo. Está muito ocupado?

—Na verdade, eu já terminei. Antes que tu fale, eu preciso dizer algo. Tive uma conversa interessante com a Gina há algumas horas.

—Sério? E como ela está?

Dei a ele um resumo do que Gina tinha me falado, ocultando a minha participação nos pensamentos de Luna. Neville ficou excessivamente animado em ouvir aquilo.

—Isso é ótimo, Matthew! Temos Gina de volta! Você ainda não a viu em ação. É um dos melhores reforços que temos. Era muito preocupante ver como estava com tudo isso. Devo confessar que isso me alivia.

—Ela disse que quer marcar um novo encontro da Armada para a próxima segunda à noite.

—Podemos fazer isso, mas eu acho que é muito cedo. Tivemos um treinamento ontem, e não podemos ficar saindo muitas noites seguidas. Bom, eu posso falar com ela depois. No momento, preciso mesmo falar contigo.

—E o que é?

—Fiquei pensando sobre o que conversamos ontem. Não me parece mais tão provável que Snape nos deixe sair para as férias de inverno. Mesmo que sim, precisamos ter um plano de fuga. Mas pra isso precisamos de algo que os distraia. Tenho uma missão pra você.

—E o que é?

—Estive fazendo umas pesquisas por conta própria. Investiguei por completo a história e a arquitetura do castelo. Descobri seis passagens que ligam o lado de dentro com o lado de fora. Não adianta ficar feliz. Já averiguei que todas elas estão vigiadas ou destruídas.

—Então?

Neville me levantou da mesa e me levou pra perto da janela, e lá começou a falar mais baixo, como se temesse ser ouvido.

—É algo cretino, sim. E eu não pediria isso a qualquer pessoa. Há uma boa chance de mesmo a nossa amizade acabar aqui por conta desse pedido, mas eu preciso que confie em mim.

—Pode falar.

—Preciso que você tire Aleto, Amico e Snape de perto da sala do diretor.

Eu já estava num ponto que aceitava o que Neville dizia quase automaticamente. Aquele pedido, porém, me fez parar pra pensar. Eu sabia muito bem o que acontecia com quem fazia o extremo de enfrentar os representantes da diretoria. Nos tempos de Dumbledore podia ser até mais tranquilo, mas com Snape era bem diferente.

—Explique melhor – pedi.

—Não estou dizendo pra você ser capturado ou algo assim. Só precisamos a sala dele livre pelo maior tempo possível.

—Insisto: explique melhor.

—Lembra da confusão que teve no nosso segundo ano com a abertura da Câmara Secreta? – Neville se refere a quando um monstro foi solto dentro de Hogwarts, ameaçando os alunos nascidos trouxas. Harry o matou dentro da Câmara Secreta, mas até então nunca soubemos de detalhes específicos.

—Óbvio que lembro. Nunca ficou bem claro o que Harry fez pra resolver aquilo.

—Ele nos contou. Usou uma espada que saiu do Chapéu Seletor. Disse que era a espada do próprio Godric Gryffindor, fundador de Hogwarts e da nossa Casa. Aceitando isso como fato, concluímos que esse item pertence a nós, da Torre da Grifnória. Se nós conseguirmos fazer com que ela volte para a Torre, teremos no mínimo um motivacional para continuarmos. E enquanto eles estiverem distraídos com isso poderemos organizar uma fuga.

—E como vai explicar o sumiço repentino da espada na sala dele?

—Essa é a parte mais fácil. Ninguém da Grifnória deve fidelidade ao Snape. A menos que ele mande os Carrow revistarem a Torre, ela estará segura aqui. Eu tenho um plano.