Notas iniciais
Oi gente, tenho que pedir um milhão de desculpas, mas dessa vez eu não demorei pra escrever. O que aconteceu foi que eu fiquei sem internet e sem PC ¬¬ Sofri pra escrever viu. Mas aqui está. Espero que gostem.

Essa era a segunda vez que eu entrava em uma ambulância com Nanda, e essa era a segunda vez que por minha causa, ela estava indo para o hospital em pouco mais de um mês.

Se alguma coisa acontecesse ao bebe, ela nunca me perdoaria.

Se alguma coisa acontecesse ao bebe eu nunca me perdoaria.

Não pude encara-la quando ela me chamou pelo nome, simplesmente não conseguia olhar para ela e ver todo aquele sangue sem sentir uma culpa esmagadora sobre os ombros.

Me sentia pequena e insignificante naquele momento, como quando ela comeu os biscoitos com maconha. Não podia fazer nada para reverter o efeito da droga, muito menos para parar o sangramento. Não conseguia ficar tranquila mesmo sabendo que os paramédicos estavam ali para fazer o que estivesse ao seu alcance.

Liguei para minha mãe quando demos entrada no hospital. Só fui lembrar disso quando estava sozinha e a moça da recepção estava me pedindo para assinar uns papeis.

Eu não queria assinar nada, queria entrar na sala com a Nanda para ter certeza de que ela ficaria bem. Tinha escutado alguém dizer em algum momento que talvez ela precisasse de transfusão, e isso me deixou tão apavorada que não consegui parar de chorar, nem mesmo quando meus pais chegaram.

–– Mamãe. – eu a abracei sem conseguir me conter.

Não costumava chama-la assim, soava infantil de mais, mas sempre que ficava nervosa isso acontecia.

–– Claudia fica calma. – meu pai disse. – O que aconteceu?

Eu me afastei depois de um minuto e encarei meus pais. Enxuguei os olhos parando de chorar.

–– Vocês sabiam que ela não podia passar por nenhum tipo de situação estressante e concordaram em conversar com ela sobre me internar?

Eu afastei as mãos de meu pai.

–– Mãe você é mulher, já ficou gravida, sabe que isso não é bom para o bebe...

–– Olha aqui mocinha, você não vai jogar a culpa disso em cima da gente também. – meu pai apontou o dedo para mim. – Se alguém tem culpa aqui é você. Ela não teria nos procurado se você não estivesse doente, se não estivesse mentindo mais uma vez.

Aquilo me atingiu como um soco no estomago.

"Culpa sua, culpa sua, culpa sua!"

Sacodi a cabeça tentando expulsar esse pensamento. Sem sucesso, afinal ele tinha razão. A culpa era minha. Eu tinha feito Nanda se preocupar de mais, eu tinha feito meus pais brigarem de mais, eu tinha causado o afastamento dos dois. Eu era a culpada por estar desfazendo aquela família.

Mordi o lábio inferior tentando não chorar de novo.

–– Me desculpa. – disse – Sinto muito por tudo isso, sinto muito por ter transformado a vida de vocês nessa bagunça. Sinto muito por estarmos aqui hoje – eu encarei o chão enquanto falava. Não podia olha-lo nos olhos. – Sinto muito se eu acabei com a nossa família, se te fiz odiar ficar em casa com a gente. — eu me virei para minha mãe. – Me desculpa ter tirado a pessoa que você mais amava, desculpa ter te afastado do seu companheiro, do seu marido. — engoli o nó em minha garganta junto com a vontade de cair de joelhos e chorar até não sobrar mais nada. — Desculpa não ser a filha que vocês esperavam que eu fosse, não ser a garota normal que todo mundo espera que eu seja. Eu não sou isso que sou porque quero. Eu apenas sou. Então me desculpe se esse meu jeito de ser não é o que você esperava ter em uma filha quando decidiu ter uma. Me desculpe...

–– Para com isso filha, você não é o problema. – meu pai me virou de frente para ele e me apertou em um abraço sufocante. – Eu não odeio ficar com vocês. Eu amo vocês duas – ele abraçou minha mãe também. – Eu só não sabia como lidar com tudo isso, não é fácil para eu entender todas aquelas coisas que li no seu diário. Não é fácil para mim como pai ver sua filha se destruindo sem poder fazer nada.

Eu me afastei um pouco dos dois para poder respirar.

O medico pigarreou atrás de nós.

–– Vocês estão com a, – ele olhou na ficha. – Fernanda?

–– Sim. – eu andei em direção a ele. – Como ela está?

–– Fio feita uma ultrassonografia, nós estamos tentando estabiliza-la nesse momento, ela perdeu muito sangue e vai precisar de uma transfusão. – ele olhou mais uma vez para a ficha. – Infelizmente nossa banco de sangue está vazio...

–– Eu posso doar – me apressei.

–– Não, você não pode. – minha mãe colocou a mão em meu ombro.

–– Posso sim, meu sangue é compatível com o dela. – comecei a dizer.

–– Não filha. Você precisa ter 45kg para poder doar sangue.

O medico apenas assentiu uma vez, concordando com minha mãe.

–– Eu posso ser o doador. – meu pai disse.

O medico sorriu um pouco e então pediu para meu pai acompanha-lo.

–– Você está bem? Perguntou minha mãe se aproximando de mim.

Eu fiz que sim e me afastei indo me sentar na cadeira fechando os olhos. Estava um pouco tonta, me sentia fraca. Meu estomago doía.

Dei um suspiro pesado.

–– Mãe – chamei depois de uns minutos

Minha cabeça começou a girar e senti que ia cair, mesmo sabendo que estava segura na cadeira.

–– Mamãe. – chamei mais alto. – Eu acho que vou desmaiar.

–– Droga Claudia, você comeu alguma coisa hoje? – ela pegou meu pulso.

Eu fiz que não.

–– Vou chamar uma enfermeira para você. – disse se levantando. – Sua pressão deve ter caído.

–– Não, mãe. – eu tentei me levantar mais meu corpo parecia pesado de mais para mim, então continuei sentada. — Só compra alguma coisa pra mim, eu vou ficar bem.

Ela me encarou por alguns segundos e então me deixou sozinha.

Encostei a cabeça na parede e fiquei de olhos fechados até minha mãe voltar.

–– Te comprei um lanche. – ela me entregou o pacotinho fechado com um lanche natural de peito de peru. – E um suco de laranja – disse me entregando os dois.

–– Obrigada – disse me endireitando na cadeira. Tirei o pão de dentro da embalagem e comecei a comer tentando não pensar nas calorias.

Minha mãe sentou de frente para mim e ficou olhando enquanto eu mordia o pão e mastigava, mastigava, mastigava e finalmente bebia um pouco do suco para fazer a massa descer por minha garganta.

–– Pode não ficar me encarando? Pedi depois de um longo minuto sem conseguir dar outra mordida no lanche.

–– Me desculpa. – ela disse se levantando. – Vou ver como seu pai está.

Eu assenti.

Minha mãe beijou minha testa antes de sair.

Dei mais uma mordida no lanche tentando ignorar aquela voz em minha cabeça que começava a ficar mais alta.

"Sua gorda. Só sabe comer!" A voz dela soou totalmente debochada em minha mente. “Um fraquezazinha e já vai choramingar para a mamãe?”

–– Não é real, não é real – sussurrei para mim mesmo.

“Por isso você não consegue chegar a seu objetivo. Você está ignorando à única que quer realmente te ajudar. Olha só para você, está quase lá. Não precisa desse lanche.”

Respirei fundo e encarei a lixeira ao meu lado.

Eu não podia fazer aquilo, minha mãe estava no corredor ao lado.

"Vadia, nunca me leva a serio. Será que não estou sendo dura o suficiente com você? Olhe para essas suas pernas esparramadas sobre esse banco. Sinto nojo sempre que olho para você."

Balancei a cabeça tentando ignora-la. Mas não pude deixar de olhar para a minha coxa, não pude deixar de concordar. Passei a mão em minha barriga, estava inchada por causa do carboidrato. Eu não estava acostumada a comer carboidratos, eu não precisava de carboidratos, eu não precisava de nada.

Olhei em volta tentando não pensar no que estava prestes a fazer, mas eu já tinha decidido.

Não podia jogar o lanche ali, minha mão podia ver.

Me levantei e fui em direção a saída. Joguei metade do lanche fora e bebi um ultimo gole do suco antes de despejar o resto na lixeira.

Sai do hospital e fui direto para a lanchonete do outro lado da rua.

–– Me vê uma agua. – pedi para a moça do caixa tirando o dinheiro da bolsa. – Posso usar o seu banheiro? Perguntei antes de pegar a garrafa.

–– Claro. – ela sorriu e me entregou o troco. – É só virar a esquerda.

Peguei a agua e enfiei dentro da mochila junto com o troco e fui em direção ao banheiro no fundo da lanchonete

Já tinha usado o banheiro daquela lanchonete outras vezes, odiava usar o banheiro do hospital, era nojento.

Entrei no banheiro e tranquei a primeira porta.

Lavei meu rosto na pia, e em poucos segundos eu já estava tomada por toda aquela sensação ruim. Meus ombros se curvaram para baixo, meu corpo parecia inchado. Meu estomago doía de mais.

Peguei a agua e enchi meu estomago vazio com ela.

"Se olhe no espelho. Olhe toda essa gordura." Ela voltou a sussurrar em meu ouvindo, dizendo as palavras lentamente, da pior maneira possível.

Fechei os olhos, não queria olhar.

"Olhe!"

Aquilo soou tão autoritário que abri meus imediatamente.

Encarei meu corpo sobre a camada de roupa.

"Seus braços, suas coxas enormes, olhe só toda essa banha caindo para os lados de sua barriga."

Ergui a camiseta e comecei a passar a mão pelo meu corpo. Apalpei minha perna, era mole, flácido. Minha barriga me dava nojo, comecei a apertar aqui, beliscar ali e quando percebi já estava cravando as unhas sobre a pele deixando varias marcas avermelhadas. Notei que algumas lagrimas estavam escorrendo pelo meu rosto. Enxuguei os olhos e peguei o xarope de IPECA em minha mochila.

O gosto era agradável, adocicado. Isso facilitava muito na hora de tomar. Eu sabia que devia tomar apenas uma colher, mas como não tinha nenhuma bebi um gole e já me ajoelhei de frente para a privada, amarrando o cabelo com o elástico que estava em meu pulso.

"Agora não adianta chorar, a gordura já esta em você. Está te fazendo inflar. Está te transformando nesse monstro gordo que você é. Está sentindo? Já está em você."

Ignorei tudo a minha volta, não importava mais. Não queria mais saber, estava cansada. Só queria aquilo fora de mim. Não demorou muito para que eu vomitasse tudo o que tinha em meu estomago.

"Oh minha querida, nem tudo está perdido, mas você tem que se esforçar, tem que dar o melhor de si."

–– Cala a boca. – sibilei ainda ajoelhada.

A gargalhada dela ecoou em minha cabeça.

"Você acha que pode me mandar calar a boca? Nós sabemos que EU estou no controle."

Sabia que estava delirando, mas não conseguia separar o real do não real.

–– Você não manda em mim. – disse tentando me levantar.

"Tem certeza? ela me manteve ajoelhada de frente para a privada. – Você acha mesmo que não mando em você? Então saia daqui e volte a ser aquela gorda fracassada que era antes de mim. Em menos de uma semana você volta correndo para mim."

Neguei com a cabeça.

Meu estomago começou a se contrair de forma violenta.

"Ainda tem gordura dentro de você, sei que você pode sentir."

–– Já disse pra calar a boca. – gritei.

Antes que pudesse dizer mais alguma coisa eu já estava vomitando outra vez.

Meu estomago já estava vazio, mas o musculo continuava se contraindo me forçando a vomitar o nada.

Tentei me levantar mais uma vez, mas senti uma dor latente tão forte que tombei para o lado de encontro com a parede. Fiquei ali parada por alguns segundos sem conseguir respirar de tanta dor.

“Vai ficar tudo bem.” O sussurro suave em meu ouvido tranquilizou-me por um breve instante “logo isso vai acabar e você não vai sentir mais nada.” Seu tom agora era tão suave quanto seda.

Fechei meus olhos sentindo tudo doer, tentei respirar de vagar, mas logo outra contração veio. A dor começou a ficar insuportável. Me curvei para a frente para não vomitar em cima de mim. Um gosto metálico encheu minha boca.

Abri meus olhos de repente quando senti meu coração acelerar. Eu estava morrendo. Podia sentir isso. As células de meu corpo estavam parando. Estava totalmente sem força, não conseguia alcançar minha mochila em cima da pia.

–– Moça? Alguém bateu na porta. – Está tudo bem com você?

Tentei fazer com que minha boca dissesse algo, tentei falar, tentei gritar, mas a única coisa que eu consegui fazer foi lutar para encontrar o ar, meu corpo estava escorregando para o chão e eu não tinha forças para mais nada.

“Shhh, só mais um pouco” pude sentir sua mão acariciando meus cabelos.

–– Moça? A voz do outro lado parecia preocupada.

Queria gritar para ela, dizer que estava ali, que não estava bem. E que tinha trancado a porta e estava semiconsciente.

Eu não queria morrer naquele banheiro, era patético demais. Ridículo de mais.

Meu celular dentro da mochila começou a tocar, a musica que me fazia lembrar da Nanda sempre que a escutava, do nosso beijo Dos nossos momentos juntos. tralala, era a nossa musica.

Me arrastei o suficiente para conseguir pegar a alça da mochila e puxa-la para baixo. Era minha mãe.

Eu estava salva!

–– Claudia onde você está? Os pais da Nanda estão aqui.

O barulho de chaves vindo do lado de fora, minha mãe falando no celular, não conseguia prestar atenção.

–– O quadro dela piorou e o medico disse que vai ter que fazer uma cessaria.

–– Não... — Obriguei minha boca a pronunciar a palavra. A voz saiu seca e estranha. – muito pequeno.

–– Filha se eles não tirarem o bebe, nós podemos perder os dois. – ela fez uma pausa. – O que você tem?

Soltei um grunhido deixando o celular cair no cão ao meu lado.

Eu estava um tanto quanto atordoada, minha vista estava embaçada e tinha sangue saindo de minha boca. O gosto era horrível, a dor era insuportável. Meu estomago parecia estar sendo rasado ao meio.

A porta se abriu e atrás dela um homem alto com um jaleco branco apareceu, ele se aproximou de mim colocando aquela luz irritante em meus olhos.

Ouvi minha mãe chamando meu nome do outro lado da linha, mas não tinha força nenhuma para me mexer.

–– Você está me ouvindo? Perguntou o homem de jaleco branco.

Eu quis dizer que sim, mas não tinha o controle de meu corpo.

Atrás dele, do lado de fora, a moça que me vendeu a agua me olhava apavorada. Eu pude ver em seus olhos que aquele era meu fim. Eu definitivamente estava morrendo.

O homem se virou para alguém que não conseguia ver do lado de fora e disse alguma coisa.

Fechei os olhos me sentindo cansada.

–– Ei, preciso que você fique acordada okay? Vai ficar tudo bem, abra os olhos.

A voz dele soou bem perto de meu ouvido. Fiz o máximo que pude para abrir meus olhos novamente.

–– Isso mesmo, fique comigo.

De repente ficou muito difícil de respirar, parecia estar sufocando com meu próprio sangue.

Senti alguma coisa sendo enfiada por minha garganta ao mesmo tempo que meu pescoço era imobilizado.

Fui tirada do banhei por dois paramédicos e colocada em uma maca.

Não consegui mais manter os olhos abertos e focados, conseguia apenas pensar que iria morrer e deixar Nanda.

Eu não podia morrer. Não agora, era egoísmo de mais morrer quando Nanda mais precisava de mim. Ela estava fazendo uma cessaria naquele momento correndo o risco de perder o bebe e até a própria vida.

Que tipo de pessoa estupida eu era para estar pensando em mim e em meu corpo e num momento como aquele?

Antes da escuridão me engolir de vez, fiz uma coisa que não fazia desde que era criança.

Eu orei.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Até o próximo capítulo.